{"id":3939,"date":"2025-11-16T09:12:05","date_gmt":"2025-11-16T12:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3939"},"modified":"2025-11-17T16:39:32","modified_gmt":"2025-11-17T19:39:32","slug":"sair-da-linha-possibilidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/sair-da-linha-possibilidades\/","title":{"rendered":"Sair da linha &#8211; possibilidades"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sair da linha \u2013 possibilidades<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ester Alves<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas semanas, milhares de pessoas foram \u00e0s ruas em diversos estados dos EUA protestar contra as pol\u00edticas autorit\u00e1rias de Donald Trump. <em>No kings<\/em> era a principal bandeira do movimento. Al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es concretas durante as manifesta\u00e7\u00f5es, como o posicionamento de atiradores de elite pelas cidades, o presidente dos EUA publicou em rede social um v\u00eddeo feito pela IA no qual, pilotando um ca\u00e7a, com uma coroa na cabe\u00e7a, despejava grande quantidade de fezes sobre os manifestantes<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Neste v\u00eddeo, \u00e9 interessante notar como as imagens do luxo e lixo circulam imiscu\u00eddas uma com a outra, borrando as fronteiras que julg\u00e1vamos estabelecidas. Explico: um rei na Modernidade, por exemplo, n\u00e3o quereria estar associado a imagens escatol\u00f3gicas, ainda mais sendo aquele que, justamente, carrega fezes ou defeca publicamente (neste caso, sobre o p\u00fablico). Tal atitude poderia ser ris\u00edvel. Esse novo paradigma surpreenderia at\u00e9 Ludovico Sforza, duque de Mil\u00e3o (de 1494 a 1499) que, durante o Renascimento, pediu ao Leonardo da Vinci que organizasse um manual de etiqueta para seus convidados seguirem nos jantares ducais<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Destacando-se a extrema direita na maestria do uso e abuso desse novo paradigma, por meio de ferramentas tecnol\u00f3gicas que potencializam a repercuss\u00e3o em n\u00edvel global e instant\u00e2neo, tal pr\u00e1tica transmutou a liberdade de express\u00e3o, conquistada a duras penas depois de um per\u00edodo autorit\u00e1rio, em imperativo de gozo.<\/p>\n<p>Sob o disfarce do limite, se realiza o avan\u00e7o sistem\u00e1tico sobre as fronteiras, que v\u00e3o ficando cada vez mais e mais borradas. Isso representa fracassos sociais diversos \u2013 os quais incluem o desprezo aos acordos geopol\u00edticos fundamentais para a conviv\u00eancia no planeta \u2013 e, consequentemente, fazem um rombo na costura simb\u00f3lica do tecido social, o qual abrange o uso e o significado das palavras e, portanto, atingem os sujeitos e suas formas de la\u00e7o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Na l\u00f3gica do vale tudo, tal pr\u00e1tica se d\u00e1 a ver sem a menor vergonha.<\/p>\n<p>A vergonha, segundo Freud, \u00e9 barreira ao prazer que se estabelece em acordo com o princ\u00edpio de realidade. Este, por sua vez, inclui o princ\u00edpio de autoconserva\u00e7\u00e3o e as imposi\u00e7\u00f5es da cultura. Com isso, o princ\u00edpio de realidade alavanca o recalque<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Na rela\u00e7\u00e3o com as fezes, ele incide desde o desfralde: se, para o <em>infans<\/em>, defecar a qualquer hora e em qualquer lugar, ou, no limite, lambuzar-se com suas excre\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 causa de vergonha ou asco, a situa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a em idade de desfralde \u00e9 bem diferente: ela \u00e9 demandada a reconfigurar sua rela\u00e7\u00e3o com esse objeto que, na fala dos pais, passa \u00e0 coisa suja, ao dejeto que tem que ser descartado. O coc\u00f4 \u00e9 sua obra e sua produ\u00e7\u00e3o tem valor, mas enfatiza-se que \u00e9 preciso renunciar a esta coisa destacada de seu corpo, despedir-se dela: &#8220;Tchau, coc\u00f4! \u201cS\u00f3 os beb\u00eas fazem coc\u00f4 na fralda\u201d, dizemos \u00e0s crian\u00e7as, \u201cos mais crescidos, todos eles, dizem tchau ao seu coc\u00f4 que \u00e9 posto no lugar certo! \u2013 o vaso sanit\u00e1rio, o riozinho, o peniquinho\u201d. Al\u00e9m disso, o ato de defecar vai passando \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ato privado. Ironiza-se, at\u00e9, quando se diz que quem est\u00e1 no vaso, <em>obrando<\/em> (em sentido popular, o mesmo que defecar), est\u00e1 no trono: s\u00f3 ali ele reina (ret\u00e9m, controla), soberano. Por isso, nos quadros de patologia org\u00e2nica, perder o controle dos esf\u00edncteres tem efeito arrasador. Al\u00e9m dos transtornos higi\u00eanicos, da perda na socializa\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o, tem o efeito simb\u00f3lico, o sentido de o sujeito voltar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de <em>infans<\/em> (aquele que n\u00e3o \u201cfala\u201d e, em sentido figurado, aquele cuja fala n\u00e3o tem tanto valor).<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que tudo isso fique esquecido ou dissociado para aqueles que v\u00e3o <em>curtir<\/em> e, principalmente, <em>repercutir<\/em> a postagem de Trump.<\/p>\n<p>E ficamos com a pergunta: o que \u00e9 isso? Do que se trata? Da sedu\u00e7\u00e3o pela coroa, pela identifica\u00e7\u00e3o ao l\u00edder, no combate ao inimigo comum do universo paralelo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>? \u00c9 resultado do medo de se sentir de fora (cuja express\u00e3o em ingl\u00eas se popularizou sob a sigla <em>FOMO<\/em> (<em>fear of missing out<\/em>), tanto maior quanto mais entrincheirado no imagin\u00e1rio o sujeito estiver? \u00c9 resultado do empobrecimento material e ps\u00edquico de uma popula\u00e7\u00e3o que, frustrada e perdida, vira massa de manobra populista, revelando, na pol\u00edtica, nossa condi\u00e7\u00e3o primordial de objeto? Resulta da transmuta\u00e7\u00e3o da interdi\u00e7\u00e3o em imperativo de gozo? Do la\u00e7o perverso que, de tanto interromper fios de pensamento, por meio do \u201ceu sei, mas mesmo assim\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>, acaba por nos entranhar cada vez mais no Labirinto do Minotauro? Tem a ver com a supress\u00e3o do tempo? \u2013 afinal, como avan\u00e7ar no pensamento se na l\u00f3gica do <em>Time is <\/em><em>m<\/em><em>oney<\/em>, o tempo para pensar equivale a tempo que vai se perder? \u2013 l\u00f3gica que ignora que, por meio dela, vivemos perdidos no tempo.<\/p>\n<p>Por certo, apesar de essas causas n\u00e3o explicarem tudo, elas lan\u00e7am alguma luz sobre o fen\u00f4meno. Vale dizer, elas n\u00e3o s\u00e3o excludentes entre si, tampouco s\u00e3o exclusivas. Todos temos nossos pontos cegos, e eles podem, inclusive, ser recorrentes, mas temos tamb\u00e9m resist\u00eancias diferentes em aceit\u00e1-los e encaminh\u00e1-los, e isso por si s\u00f3 faz diferen\u00e7a no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante tamb\u00e9m que, at\u00e9 mesmo n\u00f3s que, al\u00e9m de <em>descurtir, <\/em>discutimos essa bizarrice, possamos, eventualmente, trat\u00e1-la como algo banal. Nos confortamos com a ideia de que \u00e9 imposs\u00edvel recortar e encaminhar suficientemente os assuntos nessa avalanche de acontecimentos e \u201cdesacontecimentos\u201d (parafraseando Eliane Brum). No entanto, h\u00e1 que se perguntar sempre sobre a \u00e9tica do nosso envolvimento, at\u00e9 porque, a cada dia, h\u00e1 uma manchete nova para nos enfeiti\u00e7ar. Vale dizer, a palavra feiti\u00e7o, fasc\u00ednio e fetiche t\u00eam o mesmo radical, sendo este \u00faltimo o objeto ao qual se recusa renunciar e, como vimos, os objetos aos quais n\u00e3o se pode renunciar n\u00e3o permitem ao sujeito avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Desta forma, o nosso tempo nos trouxe a peculiaridade de nos colocar <em>on line. Em linha<\/em>, somos embalados nos extremos da coroa fascinante e do dejeto nauseante, elementos de nossa engrenagem ps\u00edquica primordial. O eu, carente de coordenadas simb\u00f3licas, <em>em linha<\/em>, segue em dire\u00e7\u00e3o ao absoluto narc\u00edsico esculpido por imagens de onipot\u00eancia, ao mesmo tempo que, fascinado, flerta com o real, na medida em que a escatologia se refere ao fim, tanto o dos tempos quanto o dos corpos, aos restos intrat\u00e1veis, \u00e0quilo que a palavra n\u00e3o tem como dizer.<\/p>\n<p>Dito isso, a inten\u00e7\u00e3o aqui depositada n\u00e3o \u00e9 saudosista, tampouco incrementadora da paranoia de um fim. Ao contr\u00e1rio, a ideia \u00e9 destacar a import\u00e2ncia do enigma, das pontas soltas, daquilo que pode nos fazer \u201csair da linha\u201d, no bom e velho sentido da express\u00e3o.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do GT <em>Psican\u00e1lise e Contemporaneidade<\/em>. Mestre em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC\/SP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/rui-tavares\/2025\/10\/donald-trump-lanca-fezes-sobre-a-democracia.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/rui-tavares\/2025\/10\/donald-trump-lanca-fezes-sobre-a-democracia.shtml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">&gt;[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/youtu.be\/yb_pzs897R4?si=cSCNgx6-gmZMfrwS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/youtu.be\/yb_pzs897R4?si=cSCNgx6-gmZMfrwS<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Victor Klemperer, em \u201cLTI: A linguagem do terceiro Reich\u201d, 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Sigmund Freud, em Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> No Brasil, temos o canal Brasil Paralelo, focado em cultura, hist\u00f3ria e pol\u00edtica, que embora se diga \u201cindependente\u201d, \u00e9 reconhecido e criticado academicamente por sua abordagem ideol\u00f3gica, revisionista e compromisso pol\u00edtico expl\u00edcito com a extrema direita.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Octave Mannoni, \u201cEu sei, mas mesmo assim\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>No kings!<\/em> Feiti\u00e7o, fasc\u00ednio ou fetiche? Manter-se <em>on line<\/em> ou sair da linha? Uma reflex\u00e3o de  Ester Alves.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[42],"edicao":[349],"autor":[351],"class_list":["post-3939","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-mundo-hoje","tag-mal-estar-na-cidade","edicao-boletim-77","autor-ester-alves","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3939"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4015,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3939\/revisions\/4015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3939"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3939"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}