{"id":3952,"date":"2025-11-16T09:30:40","date_gmt":"2025-11-16T12:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3952"},"modified":"2025-11-17T16:37:24","modified_gmt":"2025-11-17T19:37:24","slug":"lou-andreas-salome-contribuicoes-a-psicanalise-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/lou-andreas-salome-contribuicoes-a-psicanalise-contemporanea\/","title":{"rendered":"Lou Andreas-Salom\u00e9: contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psican\u00e1lise contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Lou Andreas-Salom<\/strong><strong>\u00e9: contribui\u00e7\u00f5<\/strong><strong>es <\/strong><strong>\u00e0 <\/strong><strong>psican<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>lise contempor<\/strong><strong>\u00e2<\/strong><strong>nea<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>pela Comiss\u00e3o Organizadora do Evento Lou Andreas-Salom\u00e9<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cA vida humana \u2013 na verdade, toda a vida \u2013 \u00e9 <\/em><em>poesia. N<\/em><em>\u00f3s a vivemos<br \/>\ninconscientemente, dia a dia, fragmento a fragmento, mas, na sua<br \/>\ntotalidade inviol\u00e1vel, ela nos vive.\u201d <\/em>(Lou Andreas-Salom\u00e9)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cDurante a vida de Salom\u00e9 (1861-1937), ela presenciou o fim da tradi\u00e7\u00e3<\/em><em>o<br \/>\nrom<\/em><em>\u00e2ntica e se tornou parte da evolu\u00e7\u00e3o do pensamento moderno, que frutificou<br \/>\nno s\u00e9culo XX. Salom\u00e9 foi a primeira \u2018mulher moderna\u2019\u201d<\/em><em>. <\/em>(Barbara Kraft)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4010\" aria-describedby=\"caption-attachment-4010\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4010\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06c.jpg\" alt=\"boletim77\" width=\"450\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06c.jpg 419w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06c-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4010\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Yuri Bizari<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4011\" aria-describedby=\"caption-attachment-4011\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4011\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06d.jpg\" alt=\"boletim77\" width=\"350\" height=\"389\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06d.jpg 350w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06d-270x300.jpg 270w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4011\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Yuri Bizari<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O evento <em>Lou Andreas-Salom<\/em><em>\u00e9: contribui\u00e7\u00f5<\/em><em>es <\/em><em>\u00e0 <\/em><em>psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise contempor<\/em><em>\u00e2<\/em><em>nea<\/em>, organizado pelo Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, ocorreu no dia 08 de agosto e contou com uma criativa articula\u00e7\u00e3o de elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas em mesa-redonda \u2013 Marina Bialer, Renata U. Cromberg e Ricardo A. Hirata \u2013 e a experi\u00eancia teatral da leitura dram\u00e1tica de trechos do mon\u00f3logo <em>Minha v<\/em><em>ida: Lou Andreas-Salom<\/em><em>\u00e9<\/em><em>. <\/em>Texto de Ricardo Alvarenga Hirata, dire\u00e7\u00e3o de Fernando Philbert e interpreta\u00e7\u00e3o de Luciana Borghi \u2013 \u201cuma elabora\u00e7\u00e3o conjunta \u00e0 moda de Lou: reunir o pensamento reflexivo com a experi\u00eancia vivida\u201d.<\/p>\n<p>A proposta do evento teve in\u00edcio no ciclo de encontros sobre a vida e a obra de Lou Andreas-Salom\u00e9 (1865-1961) realizados na unidade do Centro de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o do Sesc-SP, em mar\u00e7o e abril deste ano, e que teve como eixo central a quest\u00e3o: por que \u201cdesapagar\u201d Lou Andreas-Salom\u00e9?<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Autora de mais de cento e vinte ensaios e artigos, sete romances, livros de contos e pe\u00e7as de dramaturgia, al\u00e9m de obras e correspond\u00eancias com Nietzsche, Rilke, Freud, cadernos dos anos da forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica em Viena ao lado de Tausk, Abraham, Ferenczi, Jung, entre tantos outros, nomeada pelo pr\u00f3prio fundador como &#8220;a poeta da psican\u00e1lise&#8221;. Por que, ali\u00e1s, ela foi esquecida?<\/p>\n<p>Trata-se do resgate de vida e obra de uma mulher \u2013 fil\u00f3sofa, poeta, romancista e psicanalista \u2013 que ousou pensar e viver profundamente as quest\u00f5es da modernidade, n\u00e3o apenas no v\u00e9rtice do feminino, mas tamb\u00e9m, sob a lente complexa da <em>conjugalidade<\/em> homem e mulher, masculino e feminino, ser humano e natureza. Em aproxima\u00e7\u00e3o com autores como Winnicott, Bion, Lacan e Milner; o finito, o infinito e um \u00eaxtimo, nos potenciais de integra\u00e7\u00e3o presentes na (inter)subjetividade \u2013 os desafios de conjugar, por diversas linguagens, o si-mesmo-outro.<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>Como algu<\/em><em>\u00e9m poderia assumir a autoridade sobre a pr\u00f3pria vida interior antes de se tornar, ela mesma, dona de si? Como algu\u00e9m poderia ousar se entregar a outra pessoa, antes de ser capaz de doar-se a si mesma?\u201d <\/em><em>(Lou Andreas-Salom<\/em><em>\u00e9<\/em><em>, 1892)<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><em><sup><strong>[3]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><\/p>\n<p>As quest\u00f5es que levantou e abordou por meio de sua obra, tanto liter\u00e1ria quanto psicanal\u00edtica, a forma aut\u00eantica com que buscou viver as rela\u00e7\u00f5es amorosas e sociais, os pensadores e artistas c\u00e9lebres com os quais conviveu e compartilhou as produ\u00e7\u00f5es, tamanha \u00e9 a exuber\u00e2ncia do material inspirador que Lou nos oferece ao nos aproximarmos da autora, mulher e obra. Desapagar Lou \u00e9 nos depararmos com quest\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es acontecidas na aurora da modernidade e que se traduzem num material rico e imprescind\u00edvel para a elabora\u00e7\u00e3o de conflitos contempor\u00e2neos, seja em nome da psican\u00e1lise ou nos bastidores emocionais da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e filos\u00f3fica, a religiosidade e o misticismo, in\u00fameras s\u00e3o as possibilidades de di\u00e1logo e as inspira\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a quem ousar lhe sustentar o olhar, a interroga\u00e7\u00e3o e os sonhos.<\/p>\n<p>A abertura do evento foi realizada por Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, articuladora da \u00e1rea de eventos do Departamento de Psican\u00e1lise, e seguiu com a apresenta\u00e7\u00e3o da mesa-redonda. Renata Udler Cromberg deu in\u00edcio com a trajet\u00f3ria de vida e obra de Lou A.-Salom\u00e9 e o destaque \u00e0s articula\u00e7\u00f5es da autora entre o amor, a arte, o pensamento e a criatividade. A seguir, um breve resumo desses conte\u00fados.<\/p>\n<p>Uma das psicanalistas contempor\u00e2neas que mais tem realizado um trabalho primoroso de recupera\u00e7\u00e3o do lugar esquecido das primeiras psicanalistas, Cromberg nos brindou com uma apresenta\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia de Lou A-Salom\u00e9 nos prim\u00f3rdios do campo psicanal\u00edtico. Foi assim que ela nos ofereceu um retrato de como Lou foi uma figura intelectual pioneira: desde cedo o talento intelectual e liter\u00e1rio a impulsionou \u00e0 independ\u00eancia frente \u00e0 aristocracia russa e os modelos destinados \u00e0 mulher \u2013 marido, filhos, casa e igreja. Profundamente influenciada pela filosofia e o estudo das religi\u00f5es comparadas, encontrou na figura do mentor, o pastor Gillot, um v\u00ednculo emancipador. Rompido, entretanto, quando o religioso se apaixonou pela jovem pupila e a pediu em casamento. Uma esp\u00e9cie de padr\u00e3o que se repetiria por diversas vezes.<\/p>\n<p>Lou tornou-se uma figura central nos c\u00edrculos intelectuais europeus, relacionando-se com grandes nomes dos s\u00e9culos XIX e XX, em diversos campos do conhecimento e das artes \u2013 a exemplo de Malwida von Meysenbug, primeira mulher indicada ao Nobel \u2013 e autores de refer\u00eancia ainda aos tempos atuais, como Nietzsche, Rilke e Freud. Recusando os pap\u00e9is tradicionais impostos \u00e0s mulheres, adotou um estilo de vida independente, vivendo um casamento aberto com Friedrich Carl Andreas (1887) e mantendo rela\u00e7\u00f5es intensas com intelectuais e artistas de diversos pa\u00edses da Europa. Aos trinta e seis anos de idade (1897) conheceu com o poeta Rilke a dimens\u00e3o genital do amor, o que transformou profundamente sua vis\u00e3o da sexualidade e criatividade.<\/p>\n<p>Seu encontro com a psican\u00e1lise ocorreu em 1911, durante o 3\u00ba Congresso Internacional de Psican\u00e1lise. Tornou-se disc\u00edpula fiel de Freud, com quem travou uma intensa troca epistolar e contribuiu para o desenvolvimento da teoria psicanal\u00edtica. Apesar das dificuldades financeiras ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, dedicou-se \u00e0 pr\u00e1tica cl\u00ednica e ao atendimento psicanal\u00edtico, inclusive de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Lou \u00e9 reconhecida como uma das primeiras mulheres psicanalistas e uma das poucas mulheres membro do comit\u00ea secreto fundado por Freud \u2013 ao lado de Anna Freud e Ruth Mack Brunswick. Autora de vasta obra que mescla literatura, filosofia e psican\u00e1lise, explorou de modo original, e ainda pouco estudado, temas como o erotismo anal, o narcisismo de dupla dire\u00e7\u00e3o e a criatividade nos limites da espiritualidade. Enfatizou o amor er\u00f3tico como for\u00e7a criadora capaz de transformar, tanto o indiv\u00edduo, quanto as rela\u00e7\u00f5es com o mundo. Embora tenha enfrentado rejei\u00e7\u00f5es no movimento psicanal\u00edtico, seja pelo estilo liter\u00e1rio subjetivo ou a pr\u00f3pria perspectiva feminina, Freud e Anna Freud reconheceram amplamente suas contribui\u00e7\u00f5es. Os volumes das cartas com ambos, pai e filha, atestam a natureza \u00edntima e acolhedora com que mantinham la\u00e7os de grande amizade e troca de ideias.<\/p>\n<p>Lou A.-Salom\u00e9 teve a biblioteca confiscada pelos nazistas e destru\u00edda pela Gestapo, mas sua heran\u00e7a intelectual permanece viva. Lou \u00e9 lembrada como uma mulher \u00e0 frente de seu tempo, s\u00edmbolo de liberdade e autonomia, cuja vida foi marcada pelo desejo de criar e existir plenamente. Como &#8220;poeta da psican\u00e1lise&#8221; deixou o legado de algu\u00e9m que criou\/encontrou beleza na vida cotidiana e que viveu a exist\u00eancia como uma obra po\u00e9tica. Sua morte em 1937 marcou o fim de uma era, mas sua influ\u00eancia persiste como inspira\u00e7\u00e3o \u00e0s apostas na tr\u00edade amor, arte e criatividade.<\/p>\n<p><em>A vida humana \u2013 ah! a vida mesma \u2013 \u00e9 <\/em><em>poesia [Dichtung]. Inconscientemente, n<\/em><em>\u00f3s a vivemos, dia ap\u00f3s dia, ato por ato; mas, em sua inviol\u00e1vel totalidade, ela nos vive, ela cria poesia em n\u00f3s. <\/em>(Lou Andreas-Salom\u00e9, <em>Carta <\/em><em>aberta a Freud<\/em>)<\/p>\n<p>Ricardo Alvarenga Hirata apresentou o trabalho intitulado: \u201cLou Andreas-Salom\u00e9: por uma psican\u00e1lise cosmof\u00edlica\u201d, uma an\u00e1lise de conceitos da autora em di\u00e1logo com psicanalistas p\u00f3s-freudianos, como Winnicott, Bion e Milner. Criatividade, f\u00e9, narcisismo e transcend\u00eancia foram relan\u00e7ados como pontos de articula\u00e7\u00e3o de um v\u00e9rtice \u201ccosmof\u00edlico\u201d, isto \u00e9, voltado para a zona-limite entre o desconhecido, o infinito e o numinoso.<\/p>\n<p>Principais pontos do texto inclu\u00edram: (1) Lou Andreas-Salom\u00e9 e a vis\u00e3o po\u00e9tica da exist\u00eancia: a vida humana como uma express\u00e3o de poesia (<em>Dichtung<\/em>) vivida de forma inconsciente no cotidiano, mas que, em sua totalidade, cria significados profundos. A valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia emocional e a criatividade como formas de conex\u00e3o com o mist\u00e9rio e a f\u00e9 psicanal\u00edtica. (2) Narcisismo de dupla dire\u00e7\u00e3o (1921) e a dimens\u00e3o do infinito na natureza de pensamentos selvagens \u00e0 procura de um pensador: a expans\u00e3o da teoria freudiana do narcisismo, a partir do contato com Rilke, explorando a dupla tend\u00eancia do aprisionamento egoc\u00eantrico e da expans\u00e3o criativa, busca de v\u00ednculo emocional com o cosmos e o desconhecido. (3) F\u00e9 e espiritualidade: Lou A.-Salom\u00e9 como defensora de uma f\u00e9 n\u00e3o-religiosa baseada na liberdade criativa (<em>Spielraum<\/em>) e na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, distante de dogmas r\u00edgidos. Para ela, Deus n\u00e3o era uma figura transcendente, mas uma for\u00e7a presente na natureza e na cria\u00e7\u00e3o. Alinhada \u00e0 no\u00e7\u00e3o spinoziana de &#8220;Deus, ou seja, a natureza&#8221;, como expresso no seu ensaio pr\u00e9-psicanal\u00edtico <em>Jesus, o j<\/em><em>udeu<\/em> (1897), ao conhecer o pensamento freudiano, afirmou: \u201cSpinoza \u00e9 o fil\u00f3sofo da psican\u00e1lise\u201d. (4) Cosmofilia e a busca pelo desconhecido no <em>setting<\/em> anal\u00edtico: a valoriza\u00e7\u00e3o do encontro\/transforma\u00e7\u00e3o na dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, a partir de uma <em>abertura<\/em> ao desconhecido e ao inomin\u00e1vel \u2013 no\u00e7\u00e3o presente na po\u00e9tica de Rilke, foi ilustrada por meio de refer\u00eancias ao cinema, \u00e0 literatura e \u00e0s artes, como os filmes <em>Encontros com homens n<\/em><em>ot<\/em><em>\u00e1veis<\/em> (Peter Brook) e <em>Baba Aziz<\/em> (Nacer Khemir). (5) Autobiografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: Lou A.-Salom\u00e9 via a escrita autobiogr\u00e1fica como um ato de f\u00e9, uma forma de tornar-se si mesmo (estar-onde-se-\u00e9). Seus di\u00e1rios e cartas revelam uma busca constante por integra\u00e7\u00e3o entre o eu e o cosmos, o que marcou o pensamento psicanal\u00edtico de matizes po\u00e9tico-on\u00edricas de modo pioneiro, ainda que pouco reconhecido e valorizado. (6) Reflex\u00f5es sobre arte e transcend\u00eancia: a arte como uma forma de acesso ao numinoso, a coisa-em-si. O poeta e o sacerdote como figuras originariamente unidas, capazes de nos fazer \u201cmusear\u201d (meditar, refletir) \u2013 uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o criativa e espiritual. A exemplo dos \u00edcones religiosos russos, modelos pictogr\u00e1ficos enigm\u00e1ticos que buscou conhecer nas viagens que fez com Rilke \u00e0 R\u00fassia, em 1899 e 1900, exemplos do que o pol\u00edmata Pavel Florensky denominou \u201cperspectiva inversa\u201d. Refer\u00eancia que se liga tamb\u00e9m \u00e0 ideia de um narcisismo de dupla dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;S<\/em><em>\u00f3 aquele que permanece inteiramente ele pr\u00f3prio\/ela pr\u00f3pria pode, com o passar do tempo, permanecer objeto do Amor. Porque s\u00f3 <\/em><em>ele\/ela <\/em><em>\u00e9 capaz de simbolizar para o outro a vida, ser entendido como uma for\u00e7<\/em><em>a vital.<\/em>&#8221; (Lou Andreas-Salom\u00e9, <em>Di<\/em><em>\u00e1rio dos \u00fa<\/em><em>ltimos <\/em><em>a<\/em><em>nos<\/em>)<\/p>\n<p>O estudo de Hirata ressaltou Lou Andreas-Salom\u00e9 como uma figura central da tr\u00edade psican\u00e1lise-artes-espiritualidade, cujo pensamento continua relevante para se pensar quest\u00f5es contempor\u00e2neas acerca do feminino, da criatividade e dos limites \u201coce\u00e2nicos\u201d da transcend\u00eancia. Ao integrar poesia, filosofia, natureza e psican\u00e1lise, Lou A.-Salom\u00e9 nos oferece uma abordagem que vai al\u00e9m das dicotomias tradicionais e prop\u00f5e uma cl\u00ednica que valoriza o encontro est\u00e9tico com o selvagem, o desconhecido, a f\u00e9 psicanal\u00edtica e o infinito.<\/p>\n<p>Marina Bialer, em sequ\u00eancia, fechou a mesa-redonda com reflex\u00f5es a partir de seu trabalho \u201cEscritas do feminino em Lou Salom\u00e9\u201d. Bialer prop\u00f4s que transcendendo as imagens estereotipadas de &#8220;mulher sedutora&#8221;, ou &#8220;femme fatale&#8221;, Lou A.-S. deve ser reconhecida n\u00e3o apenas como aquela que inspirou tit\u00e3s que deram inestim\u00e1veis contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 literatura, filosofia e psican\u00e1lise, mas pela influ\u00eancia que <em>ela mesma<\/em> exerceu na vida e obra de Nietzsche, Rilke e Freud e pelas suas pr\u00f3prias elabora\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Bialer retratou como, de maneira totalmente in\u00e9dita, Lou A.-Salom\u00e9 recusou com veem\u00eancia as vis\u00f5es normativas do feminino \u2014 aquelas que o confinavam \u00e0 sombra do falo ou o subordinavam ao desejo masculino. Em sua obra e em sua vida, o feminino se desenha como um espa\u00e7o de abertura. Ela mergulhou profundamente nos terrenos do feminino, do erotismo, da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e do narcisismo: lugares de onde retornou trazendo elabora\u00e7\u00f5es fundamentais tanto para a \u00e9poca quanto para quest\u00f5es contempor\u00e2neas. Neste \u00e2mbito, Bialer enfatizou uma leitura do narcisismo teorizado por Lou a partir do feminino &#8211; que pode ser encontrado em <em>O narcisismo como dupla dire\u00e7\u00e3<\/em><em>o<\/em> &#8211; redesenhando o conceito freudiano de narcisismo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se declarasse feminista, sua trajet\u00f3ria inscreve-se entre os movimentos que reivindicavam a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres: Salom\u00e9 viveu entre vanguardas, dialogou com figuras como Ellen Key e Helene St\u00f6cker, e fez de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia um manifesto de liberdade.<\/p>\n<p>Sua rela\u00e7\u00e3o com Freud foi, antes de tudo, um di\u00e1logo entre mundos: ci\u00eancia e arte, em uma troca fecunda, onde cada um reconhecia no outro a possibilidade de expandir as fronteiras do pensamento. Antidogm\u00e1tica, avessa a r\u00f3tulos, ela encarnou uma forma de viver e pensar que recusou qualquer aprisionamento. A pr\u00f3pria escrita da psicanalista foi debatida como uma manifesta\u00e7\u00e3o do feminino, caracterizada por sua abertura de sentido, plasticidade e estilo po\u00e9tico, retrato de como, em sua obra, o pensamento \u00e9 sempre atravessado pelo sopro da cria\u00e7\u00e3o; e no \u00e2mago da cria\u00e7\u00e3o, um retrato da sua inspiradora liberdade.<\/p>\n<p>O debate final retomou a import\u00e2ncia do resgate e do aprofundamento das ideias originais de Lou A.-Salom\u00e9, bem como a import\u00e2ncia da reuni\u00e3o de esfor\u00e7os em prol da tradu\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise das obras ainda in\u00e9ditas da autora, em portugu\u00eas. Lou Andreas-Salom\u00e9 foi uma figura inovadora que desafiou conven\u00e7\u00f5es e ampliou os horizontes do pensamento moderno. Sua obra articula temas como feminino, erotismo, narcisismo e cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, sempre em di\u00e1logo com o universal e o transcendente. Salom\u00e9 n\u00e3o apenas inspirou seus contempor\u00e2neos, mas tamb\u00e9m deixou um legado que continua a provocar reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Na segunda parte do evento, sob a dire\u00e7\u00e3o de Fernando Philbert, a atriz Luciana Borghi apresentou trechos do mon\u00f3logo <em>Minha vida: Lou Andreas-Salom\u00e9<\/em>, da autoria de Ricardo A. Hirata. De profundo impacto emocional, a encena\u00e7\u00e3o real\u00e7ou a for\u00e7a de uma mulher, poeta e intelectual que celebra ao mesmo tempo em que revela a luta e a aceita\u00e7\u00e3o de uma vida que n\u00e3o fez \u201cconcess\u00f5es ao vazio\u201d, e que se manteve fiel \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o <em>ousada<\/em> de, verdadeiramente, estar-onde-se-\u00e9.<\/p>\n<p>O roteiro nos transportou para o universo po\u00e9tico e filos\u00f3fico de Lou, onde as palavras ressoam como uma sinfonia de ideias. Sedu\u00e7\u00e3o intelectual, busca incessante por liberdade, a rever\u00eancia pela cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a conex\u00e3o com uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica existente na natureza. Camadas e camadas da complexidade feminina se relevam assim, progressivamente, na tem\u00e1tica do amor, transcend\u00eancia, criatividade e identidade da mulher moderna, de maneira que o p\u00fablico deixou o evento emocionalmente tocado pelas falas densas alternadas por leveza e humor.<\/p>\n<p>As intera\u00e7\u00f5es entre Lou e figuras como Gilot, R\u00e9e e Nietzsche formaram um acesso \u00e0 dimens\u00e3o transformadora presente nas rela\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio de um mero exerc\u00edcio biogr\u00e1fico, a pe\u00e7a questiona limites da cultura e do pensamento da \u00e9poca, convidando o espectador a participar ativamente de uma jornada de quest\u00f5es, ainda hoje, atuais e necess\u00e1rias. A atmosfera intimista e po\u00e9tica formada nos aproximou do pr\u00f3prio mundo \u00edntimo da protagonista. A vida de Lou, em si, uma obra po\u00e9tica vivida em gestos, sensibilidade, contesta\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio da ousadia de viver a vida, dos detalhes \u00e0s \u00faltimas fronteiras.<\/p>\n<p>A for\u00e7a motriz de Lou p\u00f4de ainda ser sentida na atua\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e refinada de Luciana Borghi, ambas em \u201cidentifica\u00e7\u00e3o c\u00eanica\u201d, figura hist\u00f3rica e atriz. A energia criativa de Eros, o amor \u00e0 arte e rela\u00e7\u00f5es fertilizantes. Um manifesto sobre a conjun\u00e7\u00e3o de liberdade, autenticidade e coragem \u2013 f\u00e9 c\u00eanica com f\u00e9 psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Por fim, vale destacar o ineditismo do roteiro, a partir do legado de Lou Andreas-Salom\u00e9 como figura humana. Sem idealizar ou romantizar a protagonista, ao buscar nas fragilidades, d\u00favidas e conflitos, a ang\u00fastia fragment\u00e1ria\/emancipat\u00f3ria do sujeito (ainda hoje) moderno. N\u00e3o apenas uma homenagem, mas a atualiza\u00e7\u00e3o e o destaque aos necess\u00e1rios resgate e valoriza\u00e7\u00e3o de uma Lou vivente e questionadora em n\u00f3s, hoje.<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>N<\/em><em>\u00e3o tenha necessidade de nada! N\u00e3o tente adequar sua vida a modelos, nem queira voc\u00ea mesma ser um modelo para ningu\u00e9m. Acredite: a vida lhe dar\u00e1 poucos presentes. Se voc\u00ea quer uma vida, roube-a! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que voc\u00ea \u00e9, aconte\u00e7a o que acontecer. N\u00e3o defenda nenhum princ\u00edpio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que est\u00e1 <\/em><em>em n<\/em><em>\u00f3s e que queima como o fogo da vida!\u201d <\/em>(Do mon\u00f3logo <em>Minha vida: Lou Andreas-Salom\u00e9<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto produzido pela Comiss\u00e3o Organizadora do Evento Lou Andreas-Salom\u00e9: contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psican\u00e1lise contempor\u00e2nea. Ricardo Alvarenga Hirata, Marina Bialer, Renata Udler Cromberg e Luciana Borghi.<\/p>\n<p>Luciana Borghi: atriz, com 30 anos de carreira e trabalha na televis\u00e3o e no teatro, no eixo S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Participou de in\u00fameros espet\u00e1culos de sucesso sob\u00a0 a dire\u00e7\u00e3o de Amir Haddad, Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa, Renato Borghi, Renato Santos, Tato Consorti, Filipe Vidal, Renato Icara\u00ed e Moacir Chaves. Coordena com Ricardo A. Hirata o projeto Desapagar Lou Andreas-Salom\u00e9 (<a href=\"http:\/\/www.lousalome.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.lousalome.com.br<\/a>)<\/p>\n<p>Marina Bialer: psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pela Universit\u00e9 Paris 7 e P\u00f3s Doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, suas mais recentes publica\u00e7\u00f5es s\u00e3o: <em>Lou-Salom\u00e9: a poeta da psican\u00e1lise <\/em>(Ed. Zagodoni) e <em>Psicologia das multid\u00f5es digitais: as fake news na pandemia<\/em> (Ed. Blucher).<\/p>\n<p>Renata Udler Cromberg: psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 interlocutora do Grupo Winnicott &#8211; estudos e pesquisa, e membro do grupo de estudos Comunidade de destino \u2013 Ferenczi e Freud. \u00c9 doutora e p\u00f3s doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo. Professora convidada do Curso de Teoria Psicanal\u00edtica do COGEAE\/PUC-SP. \u00c9 graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Autora dos livros <em>Paranoia, Cena Incestuosa \u2013 abuso e viol\u00eancia sexual<\/em> (Artes\u00e3) e <em>Sabina Spielrein, uma pioneira da psican\u00e1lise, obras completas<\/em>, vol. 1, vol.2 e vol.3 (Blucher). Coorgnizadora de <em>Mulheres pioneiras da psican\u00e1lise: uma antologia <\/em>(Aut\u00eantica).<\/p>\n<p>Ricardo Alvarenga Hirata: psicanalista e escritor. Membro do Espa\u00e7o Potencial Winnicott (EPW-SP. Instituto Sedes Sapientiae). Membro filiado da Sociedade Brasileira de Psican\u00e1lise de S\u00e3o Paulo (SBPSP). Professor do curso de forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise do Centro de Estudos Psicanal\u00edticos (CEP-SP), onde tamb\u00e9m coordena, desde 2015, os Laborat\u00f3rios de Escrita Psicanal\u00edtica. Coordenador do Grupo de Escrita Associativa (a partir da filmografia de Hamlet) e do Grupo de Estudos sobre a obra de Lou Andreas-Salom\u00e9. Em 2022 publicou o romance de autofic\u00e7\u00e3o <em>O \u00f3rf\u00e3o na estante<\/em> (Ed. Paraquedas).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br\/atividade\/lou-andreas-salome-dialogos-entre-a-obra-e-o-legado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br\/atividade\/lou-andreas-salome-dialogos-entre-a-obra-e-o-legado<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> ANDREAS-SALOM\u00c9, LOU. <em>Henrik Ibsens Frauen-Gestalten <\/em>(1892). Tradu\u00e7\u00e3o livre: Ricardo A. Hirata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vida e pensamento de uma psicanalista \u00e0 frente de seu tempo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[132,92],"edicao":[349],"autor":[353],"class_list":["post-3952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-eventos","tag-historia-da-psicanalise","edicao-boletim-77","autor-comissao-organizadora-do-evento","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3952"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4013,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3952\/revisions\/4013"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3952"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3952"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}