{"id":3959,"date":"2025-11-16T09:53:28","date_gmt":"2025-11-16T12:53:28","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3959"},"modified":"2025-11-17T16:51:29","modified_gmt":"2025-11-17T19:51:29","slug":"psicanalise-genero-e-subversao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/psicanalise-genero-e-subversao\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise, g\u00eanero e subvers\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Psican\u00e1lise, g\u00eanero e subvers\u00e3o: Mara Caff\u00e9 e grupo Generidades conversam com Laurie Laufer<\/strong><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o do livro <\/strong><strong><em>Rumo a uma psican\u00e1lise emancipada: reatar com a subvers\u00e3o<\/em><\/strong><strong>, de Laurie Laufer (2025)<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Mara Caff\u00e9<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3932\" aria-describedby=\"caption-attachment-3932\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3932\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06a_mara_caffe.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06a_mara_caffe.jpg 600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06a_mara_caffe-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3932\" class=\"wp-caption-text\">Foto de S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Boa noite \u00e0 todes! <em>Bonsoir, Laurie, bienvenue chez nous<\/em>! Antes de mais nada, eu gostaria de agradecer \u00e0 Maria Helena Fernandes, pela idealiza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o cuidadosa desse evento, pelo apoio sempre eficiente da Ana Carolina de Paula Santos, articuladora do Conselho de Dire\u00e7\u00e3o do Departamento, e a todes aqui presentes nessa noite de quinta-feira. \u00c9 um enorme prazer estar aqui, hoje, com Laurie Laufer, cujo semin\u00e1rio na Universit\u00e9 Paris Cit\u00e9 eu frequentei em 2023, conhecendo-a um pouco mais de perto; e com a querida Lu\u00edsa Godoy, que integra o grupo de trabalho Generidades, no Departamento, e que vai nos contar sobre o percurso desse grupo, visando especialmente apresent\u00e1-lo \u00e0 Laurie Laufer. Essa tem sido uma pol\u00edtica nos eventos em que recebemos pessoas de outros pa\u00edses, com o objetivo de fomentarmos o interc\u00e2mbio de experi\u00eancias. Na mesa, teremos tamb\u00e9m Nelson da Silva J\u00fanior, grande amigo, interlocutor e hoje tamb\u00e9m tradutor, e Danielle Brulhart, querida colega do Departamento que nos ajudar\u00e1 tamb\u00e9m com a tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensei que um bom modo de apresentar Laurie Laufer, depois da minibiografia lida pela Ana Carolina, seria falar do livro que ela rec\u00e9m-lan\u00e7ou aqui, no Brasil, pela editora Cria\u00e7\u00e3o Humana, com o t\u00edtulo: <em>Rumo a uma psican\u00e1lise emancipada: reatar com a subvers\u00e3o<\/em>. Gostaria, entretanto, de apresentar Laurie n\u00e3o apenas por seus conceitos, mas sobretudo por suas inquieta\u00e7\u00f5es, suas escolhas \u00e9ticas e pol\u00edticas e pela forma singular com que interroga a psican\u00e1lise, frequentemente expressa em seu tom bem-humorado e na ironia fina com que narra as tens\u00f5es no campo.<\/p>\n<p>Conforme j\u00e1 indicado no t\u00edtulo do livro, Laurie busca uma psican\u00e1lise emancipada dos dogmas patriarcais, mis\u00f3ginos e transf\u00f3bicos que marcam o seu campo desde a origem, inclusive a partir de Freud e Lacan. Prop\u00f5e enfrentarmos o car\u00e1ter paradoxal de suas contribui\u00e7\u00f5es, reatando com a subvers\u00e3o trazida por eles mesmos, operando com as tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o inerentes. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio historiciz\u00e1-la e hibrid\u00e1-la com os saberes e movimentos contempor\u00e2neos. A autora distingue, assim, uma psican\u00e1lise da m\u00edmica, que repete acriticamente a palavra dos mestres, de uma psican\u00e1lise do risco, que se abre a outros discursos, lan\u00e7ando-se \u00e0s quest\u00f5es do seu tempo e reinventando-se.<\/p>\n<p>Laurie destaca tr\u00eas fontes cr\u00edticas \u00e0 psican\u00e1lise, capazes de desestabilizar nossa rela\u00e7\u00e3o com a figura do mestre e nos conduzir \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o: as teorias feministas, a obra de Michel Foucault e os estudos de g\u00eanero em articula\u00e7\u00e3o com o movimento LGBTQIA+. A autora se debru\u00e7a sobre as teorias feministas francesas e os estudos de g\u00eanero norte-americanos, acompanhando suas colabora\u00e7\u00f5es, resist\u00eancias e confrontos com a psican\u00e1lise francesa. O livro retrata, portanto, a cena psicanal\u00edtica francesa interpelada pelos estudos cr\u00edticos, observando suas convuls\u00f5es, retrocessos e revolu\u00e7\u00f5es desde a d\u00e9cada de 1970, num quadro hist\u00f3rico situado.<\/p>\n<p>Assim, acompanhamos feministas francesas como Simone de Beauvoir, Monique Wittig, Christine Delphy e H\u00e9l\u00e8ne Cixous em suas cr\u00edticas ao postulado universal da diferen\u00e7a de sexos e ao falocentrismo. De outro lado, encontramos as teorias <em>queer<\/em> e de g\u00eanero de autoras(es) estadunidenses como Joan Scott, Donna Haraway, Judith Butler, Gayle Rubin, Leo Bersani e David Halperin, al\u00e9m dos europeus Sam Bourcier e Paul B. Preciado, cujas an\u00e1lises desconstroem o sistema cisheteronormativo, desnaturalizando as categorias de g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p>Por fim, compondo a tr\u00edade das fontes cr\u00edticas inestim\u00e1veis \u00e0 psican\u00e1lise, Laurie menciona o legado de Michel Foucault, destacando suas an\u00e1lises das rela\u00e7\u00f5es de poder e dos dispositivos normativos que regulam corpos, prazeres e identidades. S\u00e3o essas as matrizes cr\u00edticas que, segundo Laurie, impulsionaram uma revolu\u00e7\u00e3o em nossa \u00e1rea.<\/p>\n<p>Frente \u00e0s novas epistemologias e transforma\u00e7\u00f5es sociais, eclodiram rea\u00e7\u00f5es virulentas de psicanalistas, vindo \u00e0 p\u00fablico numa demonstra\u00e7\u00e3o de intoler\u00e2ncia e preconceitos morais vitorianos. Referida ao cen\u00e1rio franc\u00eas, Laurie destaca, nesse caso, as declara\u00e7\u00f5es de Jacques-Alain Miller e Charles Melman, bem como as manifesta\u00e7\u00f5es de diversos psicanalistas contra o Pacs, em 2000, na Fran\u00e7a, e contra o casamento para todes. Por outro lado, identifica aquelas(es) que operam a partir das cr\u00edticas, postulando um caminho de emancipa\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise como, por exemplo, Jean Allouch, Michel Tort, Monique David-M\u00e9nard, Thamy Ayouch, Fabrice Bourlez e, podemos acrescentar, ela pr\u00f3pria. Enfim, Laurie n\u00e3o hesita em nomear os atores dessa disputa, tomando posi\u00e7\u00e3o e compondo assim um retrato vivo do campo psicanal\u00edtico franc\u00eas, com suas polariza\u00e7\u00f5es, impasses e apostas de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O exposto at\u00e9 aqui se refere \u00e0 arquitetura geral do livro. Al\u00e9m disso, Laurie explora uma s\u00e9rie de pontos que expressam uma psican\u00e1lise transformada a partir das teorias cr\u00edticas e do movimento LGBTQIA+. Trata-se de novos paradigmas. Organizei em 7 breves itens aqueles que me parecem mais significativos:<\/p>\n<p>1) A recoloca\u00e7\u00e3o do prisma sob o qual abordamos a sexualidade em nosso campo, retirando-a da perspectiva normativa e patologizante em que muitas vezes ela recai. Nesse sentido, Laurie destaca a proposi\u00e7\u00e3o de Jean Allouch, psicanalista foucaultiano, de que a psican\u00e1lise diz respeito a uma erotologia e n\u00e3o a uma <em>scientia sexualis. <\/em>Trata-se de um campo ou uma teoria que busca pensar o desejo, o gozo e o la\u00e7o er\u00f3tico para al\u00e9m da normatividade da sexualidade, abrangendo temas como amor, luto, desejo, amizade e estilo de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>2) A postula\u00e7\u00e3o de que a sexualidade \u00e9 an\u00f3dina e vari\u00e1vel, em contraste com a concep\u00e7\u00e3o que a coloca como extraordin\u00e1ria e a fixa em um percurso de desenvolvimento, dando margem \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o entre o normal e o patol\u00f3gico. Trata-se de pensar a sexualidade n\u00e3o como um n\u00facleo essencial do sujeito, express\u00e3o de sua verdade \u00faltima, mas livr\u00e1-la do excesso de sentidos, tom\u00e1-la como um elemento banal, vari\u00e1vel, comum, que escapa a todo discurso \u00fanico e se abre \u00e0 pluralidade dos corpos e dos prazeres.<\/p>\n<p>3) A cr\u00edtica ao postulado da diferen\u00e7a de sexos como invariante a-hist\u00f3rica, como ins\u00edgnia incontorn\u00e1vel da castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Trata-se, aqui, na express\u00e3o de Laurie, da rainha de todas as diferen\u00e7as na psican\u00e1lise: a diferen\u00e7a sexual, baseada em pressupostos essencialistas, bin\u00e1rios e heteronormativos. As transforma\u00e7\u00f5es culturais, as epistemologias trans e os avan\u00e7os biotecnol\u00f3gicos mostram que hoje \u00e9 poss\u00edvel fabricar corpos e g\u00eaneros, reconfigurar a natureza e deslocar o eixo da diferen\u00e7a de sexos para a diversidade, o m\u00faltiplo e o indeterminado da sexualidade.<\/p>\n<p>4) A desconstru\u00e7\u00e3o do sujeito da an\u00e1lise como sujeito universal, desvestido de suas particularidades hist\u00f3ricas e de sua capacidade de ag\u00eancia no mundo. Numa outra perspectiva, Laurie aborda o sujeito da experi\u00eancia anal\u00edtica tanto como sujeito do inconsciente, ou seja, o sujeito dividido, evanescente e contingente, como na sua condi\u00e7\u00e3o de agente social, com sua capacidade de agir e se posicionar politicamente no mundo. Citando a autora: \u201cEssa tens\u00e3o&#8230; entre sujeito e agente \u00e9 a performance da experi\u00eancia anal\u00edtica.\u201d (p. 34)<\/p>\n<p>5) O avan\u00e7o dos estudos sobre norma e processos de subjetiva\u00e7\u00e3o. Nessa linha, Laurie destaca a plasticidade e a mobilidade das normas, que se apresentam ao mesmo tempo como poder de assujeitamento e como possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o, ou seja, como poder e pot\u00eancia, o que abre ao sujeito a chance de criar pr\u00e1ticas de liberdade no seu interior. Para a autora, \u201cA l\u00e2mina subversiva do ato anal\u00edtico deriva dessa coloca\u00e7\u00e3o em desordem que \u00e9 inerente ao desejo e \u00e0 puls\u00e3o, a fim, talvez, de operar deslocamentos de linhas divis\u00f3rias normativas. Inversamente, o alinhamento do ato anal\u00edtico com as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas ou psicol\u00f3gicas faz com que ele perca sua afia\u00e7\u00e3o subversiva.\u201d (p. 113)<\/p>\n<p>6) A cr\u00edtica aos procedimentos diagn\u00f3sticos e classificat\u00f3rios, baseados no \u201cdiscurso cient\u00edfico\u201d, que fixam os sujeitos a lugares determinados, cujo resultado \u00e9 a patologiza\u00e7\u00e3o, a exclus\u00e3o e at\u00e9 mesmo a inj\u00faria (nesse \u00faltimo caso, podemos pensar nos diagn\u00f3sticos proferidos nos processos de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero). Allouch sustenta que as grandes categorias nosogr\u00e1ficas da neurose, pervers\u00e3o e psicose fundamentam pr\u00e1ticas estigmatizantes e normalizantes, ainda que tenham sido propagadas como guias incontorn\u00e1veis ao trabalho cl\u00ednico. Al\u00e9m disso, Laurie lembra que, na an\u00e1lise, h\u00e1 algo da transfer\u00eancia que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever, o que lan\u00e7a o ato diagn\u00f3stico a uma permanente indetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>7) O reconhecimento e trabalho com a experi\u00eancia da vergonha no campo do abjeto, especialmente no atendimento \u00e0s pessoas estigmatizadas socialmente, alvos de humilha\u00e7\u00e3o e insultos constantes. Baseada nos escritos de Judith Butler e na an\u00e1lise da obra de Jean Genet, Laurie sustenta a possibilidade de \u201ctransmutar a vergonha sentida no momento de uma interpela\u00e7\u00e3o em pot\u00eancia de agir.\u201d (p. 134) Ela entende que essa \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o no campo da an\u00e1lise, defendendo a perspectiva de uma psican\u00e1lise emancipada, que abriga a conjun\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente e do sujeito agente.<\/p>\n<p>Creio que esses pontos d\u00e3o forma concreta ao que Laurie Laufer chama de uma psican\u00e1lise emancipada. Com isso, encerro minha fala, recomendando vivamente a leitura do livro!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Outubro \/ 2025<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O grupo Generidades em conversa com Laurie Laufer<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Grupo Generidades<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3933\" aria-describedby=\"caption-attachment-3933\" style=\"width: 451px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3933\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06b_generidades.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"451\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06b_generidades.jpg 600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_06b_generidades-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3933\" class=\"wp-caption-text\">Foto de S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto a seguir foi redigido por ocasi\u00e3o da f\u00e9rtil, bem humorada e instigante confer\u00eancia de Laurie Laufer \u2014 <em>Psican\u00e1lise, g\u00eanero e subvers\u00e3o<\/em> \u2014, acontecida em 30 de outubro de 2025.<\/p>\n<p>Elaborado a partir do convite feito pela Comiss\u00e3o organizadora que nos pediu um pequeno escrito sobre o percurso do grupo de trabalho e pesquisa <em>Generidades: identidades, g\u00eaneros e desejo<\/em>, foi lido por Lu\u00edsa Godoy, que representou o grupo com muita propriedade.<\/p>\n<p>Um segundo texto escrito por Oggy Nzazi Barbosa Zizo, foi lido no momento em que foi dada a palavra para o p\u00fablico presente no audit\u00f3rio. Trata-se, segundo as palavras de Laurie, de &#8220;um presente\u201d entregue a ela e tamb\u00e9m a todes n\u00f3s pois nos conclama a pensar uma <em>psican\u00e1lise das travessias<\/em> e a construirmos juntes uma institui\u00e7\u00e3o em que corpos trans possam cada vez mais adentrar. Ele se encontra publicado com destaque na se\u00e7\u00e3o <em>escritos<\/em> deste boletim online.<\/p>\n<p>Boas leituras!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro de Laurie Laufer,\u00a0 <em>Rumo a uma psican\u00e1lise emancipada: reatar com a subvers\u00e3o<\/em>, de certa forma ressoa a proposta da cria\u00e7\u00e3o do <em>Grupo Generidades: identidades, g\u00eaneros e desejo<\/em> em 2016. Tr\u00eas psicanalistas \u2014 Kika Melhem, Maya Foigel e Danielle Br\u00fclhart \u2014 que atuavam no ambulat\u00f3rio transdisciplinar no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas (USP), juntaram-se a Daniela Danesi, do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes, para fundar esse espa\u00e7o de trabalho e pesquisa com o objetivo n\u00e3o s\u00f3 de construir uma escuta cl\u00ednica que pudesse fugir aos enquadramentos m\u00e9dico-psicol\u00f3gicos de corpos e desejos dissidentes, como questionar certos c\u00e2nones da teoria psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Com o intuito de criar um espa\u00e7o para a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e reflex\u00e3o <em>com<\/em> pessoas LGBTQIAPN+, e n\u00e3o <em>sobre<\/em> elas, promoveu-se di\u00e1logos e reflex\u00f5es te\u00f3ricas entre a psican\u00e1lise e outros campos de saber que se debru\u00e7am sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero, leituras de textos e discuss\u00f5es de casos cl\u00ednicos que permitissem contextualizar as formas de sofrimento das transidentidades. Desde seu in\u00edcio, o grupo priorizou convites a pessoas LGBTQIAPN+ que pudessem falar sobre si e sobre os seus respectivos campos de pesquisa e\/ou contextos de milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao inaugurar um grupo com esta tem\u00e1tica no Departamento de Psican\u00e1lise, para al\u00e9m das quest\u00f5es te\u00f3rico-cl\u00ednicas, tivemos que nos haver com quest\u00f5es \u00e9tico-pol\u00edticas, e pensar maneiras que deslocassem o pensamento conceitual sobre as sexualidades e g\u00eaneros plurais, mas sobretudo buscar caminhos que abrissem espa\u00e7o, na institui\u00e7\u00e3o, para a diversidade.<\/p>\n<p>Neste sentido, dois anos antes, em 2014, o document\u00e1rio <em>De <\/em><em>g<\/em><em>ravata e <\/em><em>unhas vermelhas,<\/em> de Miriam Chnaiderman, marcava um ponto de partida crucial no Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes, ao inaugurar o debate sobre a intersec\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero, psican\u00e1lise e cinema de forma pioneira. Assim, o grupo Generidades deu continuidade ao tema, introduzindo novos rumos a esse caminho aberto pelo filme.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o inicial de nosso grupo com maioria de mulheres, cisg\u00eaneras, brancas e h\u00e9tero refletia \u2014 e ainda reflete \u2014 como a falta de diversidade nos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o contribu\u00eda para um empobrecimento das possibilidades de pensar e provocar a teoria a explorar novas trilhas conceituais. Nesse sentido, apostamos na presen\u00e7a de diferentes corporalidades que pudessem nos convidar ao deslocamento do conforto de certas certezas, ou verdades universais da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m visando a ampliar nosso escopo para este tema t\u00e3o complexo e importante, realizamos dois eventos:<\/p>\n<ol>\n<li>O evento <em>Generidades: sexo, g\u00ea<\/em><em>nero, psican<\/em><em>\u00e1lise <\/em>(2019), que prop\u00f4s a constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos (im)pertinentes entre psican\u00e1lise, teorias <em>queer<\/em> e transgeneridades e abriu espa\u00e7o para se falar sobre as transidentidades, transcidadania e as interseccionalidades que apontam os m\u00faltiplos marcadores sociais de exclus\u00e3o e de resist\u00eancia. O encontro explorou a intersec\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas, a partir de f\u00e9rteis trocas transdisciplinares que questionaram os modelos tradicionais de pensamento sobre os caminhos da sexua\u00e7\u00e3o apoiados na biparti\u00e7\u00e3o, herdeira do sistema sexo-g\u00eanero constitu\u00eddo na modernidade, em dire\u00e7\u00e3o ao pensamento da multiplicidade. Tamb\u00e9m abriu espa\u00e7o para uma dimens\u00e3o cl\u00ednica que se descola de qualquer aprisionamento psicopatologizador ao escutar sujeitos cujos corpos e desejos n\u00e3o se espelham na cisheteronormatividade. Compuseram as mesas as psicanalistas Miriam Chnaiderman, J\u00f4 Gondar e Mara Caff\u00e9, a psic\u00f3loga Salete Amador, o psicanalista Rafael Kalafi Cossi, as antrop\u00f3logas Regina Facchini (Unicamp) e \u201cTita\u201d Letizia Patriarca (USP), Beatriz Pagliarini Bagagli (Unicamp) e Gabriel Lodi, ator, dublador, transativista. Nosso objetivo foi o de compor falas a partir de uma diversidade de pensamentos e experi\u00eancias elaboradas tanto por sujeitos cis quanto por sujeitos trans de diferentes \u00e1reas do conhecimento.<\/li>\n<li>O evento <em>Experi<\/em><em>\u00eancias transidentit\u00e1rias: resson\u00e2<\/em><em>ncias no campo cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nico-pol<\/em><em>\u00edtico, familiar e social<\/em> (2021), prop\u00f4s um bate-papo <em>online <\/em>com Eduardo Leal Cunha, psicanalista, autor de <em>O que aprender com as transidentidades;<\/em> Luca Scarpelli, publicit\u00e1rio, criador de conte\u00fado e homem trans, e Coraci Ruiz, cineasta que apresentou seu document\u00e1rio <em>Limiar<\/em> como pano de fundo disparador do evento.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A presen\u00e7a nos eventos de vozes cis e trans foi fundamental, principalmente por sabermos que a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti segue enfrentando in\u00fameros desafios nos ambientes institucionais de forma\u00e7\u00e3o. Embora haja uma recente pol\u00edtica de cotas para negros e ind\u00edgenas que pode mudar esse cen\u00e1rio em nosso Departamento, est\u00e1 em curso ainda o debate sobre a extens\u00e3o destas cotas \u00e0 comunidade trans, especificamente. Entendemos que h\u00e1 ainda trabalho a ser feito para tornar este espa\u00e7o um espa\u00e7o onde pessoas trans e travestis possam de fato ser e estar.<\/p>\n<p>Com o intuito de manter o di\u00e1logo e o pensamento cr\u00edtico, como em um mosaico, foram eventos em que conectamos diferentes campos do conhecimento visando\u00a0 a abalar as estruturas de pensamento que se imp\u00f5em como verdades absolutas sobre a sexualidade humana.<\/p>\n<p>Desse modo, no decorrer dos anos, referendamos a import\u00e2ncia de pensar o sujeito pol\u00edtico, o direito ao reconhecimento, a constru\u00e7\u00e3o de subjetividades e principalmente a desconstru\u00e7\u00e3o de identidades que se pretendem fixas e imut\u00e1veis, utilizando-se de par\u00e2metros de um sujeito pretensamente universal. Ao contr\u00e1rio, o mundo atual imp\u00f5e a desmontagem de identidades de g\u00eanero que excluam as singularidades que n\u00e3o se encaixam no cen\u00e1rio bin\u00e1rio. Imp\u00f5e, portanto, o respeito aos corpos e a urg\u00eancia de uma revis\u00e3o dos discursos que os constituem: m\u00e9dico\/jur\u00eddico\/social e psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Lembremos que novas formas de ordenamento s\u00e3o sempre produzidas pela articula\u00e7\u00e3o entre as conting\u00eancias das hist\u00f3rias individuais de vida e as ferramentas simb\u00f3licas da cultura a cada tempo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Neste sentido, vale destacar a tese defendida no Instituto de Psicologia da USP <em>O enigma plural do g\u00ea<\/em><em>nero<\/em> de Ivy Semiguem Freitas de Souza Carvalho, colega deste grupo. Ao aceitar o convite proposto por Laplanche de que psicanalistas investigassem as forma\u00e7\u00f5es e roteiros que encarnam a fun\u00e7\u00e3o mito-simb\u00f3lica atualmente no Ocidente, Ivy analisou os conte\u00fados produzidos por<em> youtubers<\/em> e <em>influencers <\/em>digitais brasileiros que abordam a tem\u00e1tica LGBTQIAPN+, onde encontrou certas narrativas contempor\u00e2neas que \u201cparecem endossar um movimento de abertura dos c\u00f3digos de simboliza\u00e7\u00e3o cultural das diferen\u00e7as\/diversidades de g\u00eanero&#8221;.<\/p>\n<p>Reiteramos nossa aposta em uma psican\u00e1lise sempre em movimento e aberta \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es, que inclua ainda o pensamento e a produ\u00e7\u00e3o intelectual travesti, como nos fala a antrop\u00f3loga travesti Ava Cruz &#8211; que esteve conosco como uma de nossas convidadas &#8211; em seu texto \u201cPensamento travesti brasileiro: de objeto \u00e0 insurg\u00eancia epist\u00eamica. Ava nos conta de um pensamento travesti brasileiro que n\u00e3o nasce na universidade e sim na pista, ainda que tenha sido sistematizado e nomeado enquanto tal com a entrada de travestis nesse universo. Pensamento que n\u00e3o necessariamente assume uma forma de pensamento filos\u00f3fico ou te\u00f3rico. A intelectualidade travesti pode ser contatada a partir de relatos orais, textos liter\u00e1rios, di\u00e1logos na pista, entrevistas e produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<\/p>\n<p>Assim, seguimos pensando os impasses em torno das diferen\u00e7as sexuais como uma afirma\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de radical indetermina\u00e7\u00e3o no campo da sexualidade, reconhecendo nossa resist\u00eancia a essa indetermina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a pr\u00f3pria marca do encontro do sujeito consigo mesmo, mediado e confrontado com um corpo desejante do outro.<\/p>\n<p>Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o freudiana de atravessar fronteiras em dire\u00e7\u00e3o a outros campos do saber e em concord\u00e2ncia com Thamy Ayouch (2019) sobre a import\u00e2ncia de mantermos viva uma hibridiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, nosso pr\u00f3ximo desafio, com o intuito de ampliar nosso escopo de pesquisas, ser\u00e1 a leitura do livro do antrop\u00f3logo e cientista social Estev\u00e3o Fernandes <em>Existe \u00ed<\/em><em>ndio gay? A coloniza<\/em><em>\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas no Brasil<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Integrantes: Andr\u00e9 Bizzi, Cassandra Fran\u00e7a, Christiana Freire, Cristina Herrera, Daniela Danesi, Fernanda Galv\u00e3o Amaral, Gisela Haddad, Isadora Barreto, Ivy Semiguem Freitas de Souza de Carvalho, Lucila de Jesus Mello Gon\u00e7alves, Lu\u00edsa Godoy, Margarida (Kika) Soibelmann Melhem (interlocutora), Maria Aparecida Miranda, Maya Foigel, Mira Wantjal, Noemi (Noni) Moritz Kon e Oggy Nzazi Barbosa Zizo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mara Caff\u00e9 e grupo Generidades conversam com Laurie Laufer.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[356],"edicao":[349],"autor":[355],"class_list":["post-3959","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-generos","edicao-boletim-77","autor-grupo-generidades","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3959"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4022,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3959\/revisions\/4022"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3959"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3959"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}