{"id":3961,"date":"2025-11-16T09:54:53","date_gmt":"2025-11-16T12:54:53","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3961"},"modified":"2025-11-16T10:08:48","modified_gmt":"2025-11-16T13:08:48","slug":"monumenta-freud-notas-oniricas-sobre-uma-travessia-institucional-e-semantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/monumenta-freud-notas-oniricas-sobre-uma-travessia-institucional-e-semantica\/","title":{"rendered":"Monumenta Freud: notas on\u00edricas sobre uma travessia institucional e sem\u00e2ntica"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Monumenta<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><strong> Freud:<br \/>\n<\/strong><strong>notas on<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>ricas sobre uma travessia institucional e sem<\/strong><strong>\u00e2<\/strong><strong>ntica<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Laura Cristina de Souza<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[<\/sup><sup>2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Uma mem<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria, um esquecimento<br \/>\n<\/em><em>Um esquecimento, uma ferida<br \/>\n<\/em>O barco, Grada Kilomba<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O navegar do artista Sidney do Amaral em sua obra <em>O estrangeiro<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> produz deslocamentos dentro de mim. A tela, no entanto, sugere outras paisagens. A bordo de uma embarca\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel, tendo um colch\u00e3o \u00e0 guisa de canoa e um cabideiro como remo, o corpo negro do artista nos conduz pelas \u00e1guas de sua solid\u00e3o no imenso pavilh\u00e3o Ciccillo Matarazzo, pr\u00e9dio da Bienal de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo, em que, anos depois da sua precoce morte, a mesma obra seria exposta. Ele transporta consigo um mict\u00f3rio, pe\u00e7a s\u00edmbolo da arte contempor\u00e2nea que, ali, como carga, aparece destronada de seu pedestal museol\u00f3gico. Algo do que a cena prop\u00f5e convoca minha imagina\u00e7\u00e3o: um corpo negro, que poderia ser o meu, navegaria pela inunda\u00e7\u00e3o valendo-se de um dos itens do acervo de Sigmund Freud, os mesmos que pude conhecer pelas p\u00e1ginas de abertura de suas obras, na edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras. Uma est\u00e1tua de Eros, um amuleto do Antigo Egito em formato de abutre ou um vaso grego serviriam como bote. A pe\u00e7a, arrancada de sua vitrine no Freud Museum pelo meu desvario, perderia a sua aura ao ser investida de um inusitado valor de uso. Na minha invencionice, o cen\u00e1rio poderia ser outro espa\u00e7o institucional. Poderia, mesmo, ser o edif\u00edcio do Sedes Sapientiae, reconhecida institui\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, na qual frequento o curso <em>Conflito e Sintoma<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, no formato <em>online<\/em>. Tal edif\u00edcio, inclusive, s\u00f3 conhe\u00e7o por fotografias.<\/p>\n<p>Nesse devanear percebo que esse texto vai nascendo como um testemunho de travessia, um registro da err\u00e2ncia de um corpo por um territ\u00f3rio institucional que d\u00e1 acesso a uma estrada sem\u00e2ntica freudiana. Menos um roteiro que um convite \u00e0 deriva, ao desvio. Escrita de idas e vindas no tempo da intui\u00e7\u00e3o. Cada palavra corresponde a um pixel no instant\u00e2neo de um vagamundear atento aos ventos dos afetos, \u00e0s cicatrizes no solo das ideias, aos grandes rochedos greco-romanos, aos verdes vales conceituais, aos temer\u00e1rios abismos de silenciamento: vis\u00e3o poss\u00edvel a partir de um barco prec\u00e1rio, que insiste em prosseguir.<\/p>\n<p>Por isso, guiando a escrita da travessia, um sonho servir\u00e1 de farol para o descaminho. \u201cVia r\u00e9gia\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> para o interesse principal da jornada: utilizar o instrumental psicanal\u00edtico para investigar um qu\u00ea da viv\u00eancia de uma aluna negra no curso Conflito e Sintoma do Instituto Sedes Sapientiae. Em outras palavras, importa mapear, atrav\u00e9s do m\u00e9todo freudiano de interpreta\u00e7\u00e3o do sonho, os contornos da leitura de Freud que pude realizar a partir deste corpo, neste espa\u00e7o. O movimento de recorrer ao saber on\u00edrico freudiano para analisar um sonho que, como veremos, remete a inc\u00f4modos com o texto do pr\u00f3prio Freud, informa sobre a rela\u00e7\u00e3o que teci com suas palavras: diz de um encantamento intervalado por colis\u00f5es. \u201cEncantamento\u201d por um m\u00e9todo que produz palavra po\u00e9tica, pela grandiosidade de sua escrita oitocentista, pelo \u00edmpeto inovador de suas pesquisas e pela capacidade de revis\u00e3o constante de seus princ\u00edpios. \u201cColis\u00f5es\u201d com os aspectos pedrados de sua historicidade, que amea\u00e7am meu barco de ir a pique. Pe\u00e7o, ent\u00e3o, companhia para uma travessia que, ao fim, se prop\u00f5e a escutar os ecos das palavras de Freud atrav\u00e9s do meu corpo.<\/p>\n<p><strong>O sonho, sim, o sonho<\/strong><\/p>\n<p>Na madrugada de um s\u00e1bado dedicado \u00e0 leitura de um artigo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, que me caberia na semana seguinte apresentar \u00e0s colegas de curso, eu sonho:<\/p>\n<p>1.\u00ba momento<\/p>\n<p><em>Estou na plateia do show de uma banda de rock que n\u00e3o conhe<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o. Algo, por<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m, me informa que se trata do grupo <\/em>Black Sabbath.<em> No palco vejo apenas um conjunto de silhuetas negras, desenhadas por canh\u00f5es de luz. Eu me pergunto o que fa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o ali. A plateia est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>lotada, mas n\u00e3<\/em><em>o consigo identificar ningu<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m na escurid\u00e3o entremeada por <\/em>flashes<em>.<\/em><\/p>\n<p>2.\u00ba momento<\/p>\n<p><em>Abre-se, ent\u00e3o, no meio da multid\u00e3o, uma roda, como aquelas dos chamados <\/em>\u201c<em>bate-cabe<\/em><em>\u00e7as\u201d<\/em><em>, em que o p<\/em><em>\u00fa<\/em><em>blico se debate ao som das m<\/em><em>\u00fa<\/em><em>sicas mais pesadas. Contudo, no centro est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>um rinoceronte. O animal tem um aspecto pedrado que rapidamente me recorda as est<\/em><em>\u00e1<\/em><em>tuas greco-romanas do acervo freudiano. Ele, por<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m, parece estar vivo. De repente, a multid\u00e3<\/em><em>o come<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a a bandarilhar o animal, que se agita. Assisto a tudo com certa indiferen<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a e incredulidade.<\/em><\/p>\n<p>O estranhamento que esse sonho me provocou pela manh\u00e3, ao record\u00e1-lo, lembrou-me da senten\u00e7a freudiana: \u201co eu n\u00e3o \u00e9 senhor na sua pr\u00f3pria casa.\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> De algum modo, j\u00e1 acordada, eu repetia a pergunta do sonho sobre o que eu fazia ali. Foi mesmo como uma viv\u00eancia de dissocia\u00e7\u00e3o, dado o car\u00e1ter irreconhec\u00edvel da paisagem on\u00edrica. \u201cUm insulto \u00e0 mania de grandeza humana\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> de se supor indivis\u00edvel. Se n\u00e3o tivesse not\u00edcia das proposi\u00e7\u00f5es provocativas de Freud sobre o significado do aparente \u201cdisparate\u201d e n\u00e3o fosse o est\u00edmulo delicado da minha analista, eu, provavelmente, n\u00e3o teria descoberto a preciosidade desse sonho para esta escrita, pois, ap\u00f3s algumas risadas, teria rejeitado a busca de qualquer sentido.<\/p>\n<p>Considerar que \u201co sonho \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o (disfar\u00e7ada) de um desejo (suprimido, recalcado)\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> permitiu-me superar, portanto, a primeira impress\u00e3o causada pela lembran\u00e7a matinal. O figurino aparentemente estapaf\u00fardio do sonho seria o seu \u201cconte\u00fado manifesto\u201d, resultado de um processo de censura, chamado por Freud de <em>deforma<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o on\u00ed<\/em><em>rica<\/em>. Atuante entre o inconsciente e o pr\u00e9-consciente, a deforma\u00e7\u00e3o disfar\u00e7aria o desejo recalcado atrav\u00e9s dos processos de condensa\u00e7\u00e3o e do deslocamento, impedindo que ele fosse prontamente reconhecido ao acessar a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Para desnudar o desejo, sou convidada a realizar \u201co desligamento da cr\u00edtica\u201d com que filtro meus pensamentos para, assim, aumentar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cpercep\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Ato que, curiosamente, aproxima o m\u00e9todo interpretativo dos sonhos, e mesmo a associa\u00e7\u00e3o livre, da \u201cprodu\u00e7\u00e3o po\u00e9tica\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. A auto-observa\u00e7\u00e3o implicaria, portanto, vencer as resist\u00eancias que produziram a deforma\u00e7\u00e3o, ou seja, vencer \u201cas for\u00e7as defensivas do Eu\u201d que \u201cimpedem os desejos reprimidos do inconsciente de terem acesso \u00e0 consci\u00eancia na vida diurna.\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Eis o grande desafio e a grande alegria desta escrita: me haver com algumas resist\u00eancias para nomear poeticamente o que estava inconsciente.<\/p>\n<p><strong>Sab\u00e1s, <\/strong><strong>h<\/strong><strong>ereges, <\/strong><strong>psicanalistas negros e cotistas<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o tateando o nome da banda desconhecida. Ele adquire especial import\u00e2ncia, j\u00e1 que n\u00e3o possuo nenhuma outra informa\u00e7\u00e3o sobre suas m\u00fasicas ou seus integrantes. Inicialmente, creditei a essa ignor\u00e2ncia o car\u00e1ter n\u00e3o reconhec\u00edvel dos m\u00fasicos, vistos apenas como \u201csilhuetas negras\u201d, mas em breve veremos que n\u00e3o se tratava exatamente disso. De pronto, contudo, suponho que o termo <em>Black Sabbath<\/em> remete a mem\u00f3rias dos tempos universit\u00e1rios. Das aulas de Hist\u00f3ria Medieval, na faculdade de Hist\u00f3ria, recordo-me dos livros fascinantes de Carlo Ginzburg que, a partir do escrut\u00ednio de tratados medievais de demonologia e outros documentos da Inquisi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, descortinam como parteiras, curandeiras, camponeses e judeus foram transformados pelos cl\u00e9rigos cat\u00f3licos, atrav\u00e9s de um inqu\u00e9rito indutivo, em hereges, bruxas e feiticeiros cultuadores do dem\u00f4nio. Os perseguidos \u2014 na maioria dos casos criadores de cultos agr\u00e1rios de fertilidade \u2014, uma vez prisioneiros inquisitoriais, submetidos a sess\u00f5es de tortura e interrogat\u00f3rios sugestivos, diziam o que os religiosos esperavam ouvir: afirmavam-se adeptos do Sab\u00e1. Em <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria <\/em><em>noturna: decifrando o Sab<\/em><em>\u00e1<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>, Ginzburg destaca, dentre os muitos significados do termo, uma conex\u00e3o com \u201co dia de descanso dos judeus\u201d, grupo que conformar\u00e1 o Outro por excel\u00eancia para o Catolicismo Medieval. Assim, tamb\u00e9m a palavra \u201csynagoga\u201d ser\u00e1 amplamente utilizada pelos inquisidores como \u201cencontro de hereges\u201d. Da\u00ed a descri\u00e7\u00e3o costumeira do Sab\u00e1 como uma reuni\u00e3o noturna de adoradores do diabo que chegavam voando para realizar banquetes, dan\u00e7as e orgias<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Todas essas informa\u00e7\u00f5es pairavam, como feiticeiras em seus cabos de vassoura, em algum lugar perdido da minha mem\u00f3ria, e, recapitulando-as, percebo que a minha s\u00edntese desses saberes universit\u00e1rios resultou numa concep\u00e7\u00e3o do Sab\u00e1 como uma moldura doutrin\u00e1ria, criada pela Igreja Cat\u00f3lica, para enquadrar experi\u00eancias religiosas dissonantes. Compreendi que os acusados de frequent\u00e1-lo eram inventores de interpreta\u00e7\u00f5es e formas de vida combatidas pelo poder hegem\u00f4nico e, por isso, foram categorizados como transgressores. A hist\u00f3ria desses divergentes, que s\u00f3 deixavam de afirmar suas reais cren\u00e7as ap\u00f3s serem violentados, contribuiu, ent\u00e3o, para o meu afastamento completo da Igreja Cat\u00f3lica. Quem sabe, porque, nas pr\u00e1ticas daqueles camponeses medievais, identifiquei muito do catolicismo rural dos meus av\u00f3s. E, mais que qualquer estudo de teoria do Estado, os supl\u00edcios dos ditos \u201chereges\u201d me informaram sobre a a\u00e7\u00e3o padronizadora do poder institucional que, em sua sanha impositiva, sobrep\u00f5e seus termos aos mundos criados al\u00e9m dos seus muros.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em minha mem\u00f3ria, o termo <em>black<\/em> n\u00e3o aparece atrelado diretamente ao aportuguesado <em>sab<\/em><em>\u00e1<\/em>. N\u00e3o me lembro da forma\u00e7\u00e3o \u201csab\u00e1 negro\u201d, nem de sua vers\u00e3o inglesa \u201cblack sabbath\u201d em refer\u00eancia ao rito medieval. Certamente h\u00e1 na representa\u00e7\u00e3o deste culto imagin\u00e1rio uma dimens\u00e3o de escurid\u00e3o. Dado que o sab\u00e1 fora forjado como uma invers\u00e3o dos valores afirmados pelo Catolicismo Institucional, a presen\u00e7a do negrume nas narrativas das \u201creuni\u00f5es hereges\u201d exaltava, em contraposi\u00e7\u00e3o, a suposta luz da \u201cverdadeira f\u00e9\u201d.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> A escurid\u00e3o, enquanto \u201ctrevas\u201d, est\u00e1 presente na atmosfera do sonho, intervalada por canh\u00f5es de luz, impedindo-me de divisar os integrantes da banda e o p\u00fablico. A palavra \u201cblack\u201d, no entanto, ainda parece sugerir outras conex\u00f5es.<\/p>\n<p>De maneira quase magn\u00e9tica, o termo atrai o t\u00edtulo de uma can\u00e7\u00e3o de Esperanza Spalding, <em>Black <\/em><em>g<\/em><em>old<\/em><a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. Tomei conhecimento dele em 2017, num artigo de uma autora negra estadunidense, cujo nome j\u00e1 n\u00e3o me recordo. A composi\u00e7\u00e3o pode ser definida como um lembrete ao povo negro sobre a riqueza de sua heran\u00e7a cultural, invisibilizada pela colonialidade, e seu videoclipe celebra uma comunidade negra consciente de sua hist\u00f3ria. Recordo-o como um marco imag\u00e9tico do processo de reconhecimento da minha racializa\u00e7\u00e3o enquanto mulher negra.<\/p>\n<p>Mas como explicar tal associa\u00e7\u00e3o entre uma reuni\u00e3o de dissidentes institucionais e uma ode \u00e0 negritude? Dias antes, paralelamente \u00e0 leitura do artigo de Silvia Alonso, que me caberia apresentar no curso, reli o belo texto &#8220;Por uma psican\u00e1lise antirracista: a psican\u00e1lise na encruzilhada&#8221;<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a><em>,<\/em> rapidamente abordado numa de nossas aulas. Eu estava \u00e0 procura de uma l\u00edngua, de um modo de ler e dizer, de um \u201cax\u00e9 verbal\u201d, como aquele pelo qual L\u00e9lia Gonzalez imploraria no poema <em>Pad\u00ea <\/em><em>de Exu Libertador<\/em>, citado na abertura do artigo citado. Aqueles versos j\u00e1 tinham me feito companhia em outros momentos, quando parecia imposs\u00edvel repetir determinadas palavras de Freud. Para elucidar a refer\u00eancia \u00e0 can\u00e7\u00e3o <em>Black <\/em><em>g<\/em><em>old<\/em>, precisei, ent\u00e3o, lembrar-me de que &#8220;Por uma psican\u00e1lise antirracista&#8221;, enquanto uma produ\u00e7\u00e3o dedicada a denunciar o sofrimento institucional provocado pelo perene pacto narc\u00edsico da branquitude, constituiu um \u201cprecioso\u201d ponto de ancoragem nessa travessia institucional. O ajuntamento proposto pelo sonho, que n\u00e3o se restringe \u00e0 \u201cbanda\u201d mas engloba tamb\u00e9m seu \u201cp\u00fablico\u201d, remeteria, portanto, a uma coletividade negra propositora de outras formas de interpreta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de mundos. Percebo que \u00e9 assim que entendo a atua\u00e7\u00e3o dos psicanalistas negros em sua cr\u00edtica a uma certa psican\u00e1lise atrav\u00e9s de um di\u00e1logo com a cultura afrodiasp\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00c9, para mim, impressionante constatar, j\u00e1 nesse in\u00edcio de interpreta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado manifesto, a grandiosidade do que Freud chamava de \u201ctrabalho de condensa\u00e7\u00e3o\u201d do sonho. A partir de duas palavras, <em>Black Sabbath<\/em>, foi poss\u00edvel desdobrar toda uma constela\u00e7\u00e3o de pensamentos on\u00edricos. Na condensa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u201cn\u00e3o s\u00f3 os elementos do sonho s\u00e3o determinados v\u00e1rias vezes pelos pensamentos on\u00edricos, mas tamb\u00e9m cada pensamento on\u00edrico \u00e9 representado por v\u00e1rios elementos.\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> H\u00e1, portanto, uma m\u00fatua \u201csobredetermina\u00e7\u00e3o\u201d que sustenta a engenhosidade do trabalho do sonho e, ao mesmo tempo, inviabiliza uma narrativa linear da sua interpreta\u00e7\u00e3o. O que pode parecer uma dificuldade, \u00e9 para esta escrita, na verdade, potencialidade. O sonho, por ser constru\u00eddo sob um outro regime de temporalidade, aglutinando fragmentos ressignificados em diferentes momentos, pode proporcionar a esta narrativa a exist\u00eancia errante que ela almeja.<\/p>\n<p>Assim, errando pelos elementos do sonho, indo e voltando, prossigo com a seguinte pergunta: por que, como parte do disfarce do conte\u00fado on\u00edrico, eu n\u00e3o reconhe\u00e7o a \u201cbanda\u201d? Qual o sentido da minha incapacidade de identificar seus \u201cintegrantes\u201d e seu \u201cp\u00fablico\u201d, mesmo sendo parte da plateia? Por que eu estranho a minha presen\u00e7a ali? Aqui, parece-me que a deforma\u00e7\u00e3o on\u00edrica ganha outros tons. Creio que a imin\u00eancia do trabalho de apresenta\u00e7\u00e3o e a releitura do artigo <em>Por uma p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>a<\/em><em>ntirracista<\/em> ativaram algumas mem\u00f3rias do in\u00edcio do curso. Como esquecer que a inscri\u00e7\u00e3o para as cotas raciais no Instituto Sedes Sapientiae aconteceu uma semana ap\u00f3s o epis\u00f3dio de grande repercuss\u00e3o em que dois alunos aprovados no sistema de cotas para os cursos de Direito e Medicina da Fuvest (Funda\u00e7\u00e3o para o Vestibular da Universidade de S\u00e3o Paulo) foram desclassificados pela banca de heteroidentifica\u00e7\u00e3o por n\u00e3o serem considerados pardos, logo negros? O caso gerou enorme pol\u00eamica tanto pela indecorosa e sempre reavivada discuss\u00e3o sobre a legitimidade das cotas raciais quanto, sobretudo, porque para muitos, dentre os quais me incluo, a decis\u00e3o da banca foi question\u00e1vel. Aos meus olhos era evidente que aqueles estudantes n\u00e3o eram brancos. Ser desclassificado em uma sele\u00e7\u00e3o como esta implica n\u00e3o somente a perda da vaga, mas a pecha traum\u00e1tica de \u201cfraudadores do sistema\u201d, como salienta a pesquisadora Alessandra Devulsky. Acrescentaria: \u201cFraudadores de uma lei leg\u00edtima, resultado de anos de luta do Movimento Negro.\u201d O mais grave, no entanto, \u00e9 ter questionada a leitura social que se tem sobre si mesmo: \u201cno momento em que [as pessoas pardas] podem ter acesso a uma pol\u00edtica que traz benef\u00edcios, que reconhece os estigmas que carregaram durante a vida, vem uma comiss\u00e3o e diz que elas n\u00e3o s\u00e3o suficientemente negras.\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> No atual contexto, creio que seja necess\u00e1rio advertir que analisar tal decis\u00e3o n\u00e3o implica, de modo algum, descredibilizar as comiss\u00f5es de heteroidentifica\u00e7\u00e3o em si, as quais t\u00eam se mostrado um importante instrumento de garantia das pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa. Nem muito menos significa reivindicar uma identidade em separado para os pardos como, equivocadamente, vem sendo sugerido por movimentos aglutinados pelo conceito de \u201cparditude\u201d. Trata-se apenas de escutar clinicamente as particularidades da viv\u00eancia da identidade negra pelas pessoas pardas.<\/p>\n<p>A despeito da disposi\u00e7\u00e3o institucional para uma condu\u00e7\u00e3o adequada do processo de sele\u00e7\u00e3o do Sedes \u2014 o qual, diga-se de passagem, me proporcionou uma entrevista memor\u00e1vel com a professora Daniela Danesi \u2014, o pr\u00f3prio movimento de afirma\u00e7\u00e3o, que a inscri\u00e7\u00e3o por cotas demanda, pode ser conturbado. Num contexto como o descrito, torna-se angustioso. Por mais que eu considere que tenha letramento racial suficiente para me afirmar politicamente como negra, o reconhecimento tem como efeito colateral, para mim, a emerg\u00eancia da mem\u00f3ria das intera\u00e7\u00f5es raciais vividas e dos questionamentos de pertencimento. Na inscri\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise, confiro in\u00fameras vezes os documentos, retiro um \u201cx\u201d que havia acrescentado na ficha, com medo de m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es. Interrogo minha fotografia. N\u00e3o recuo diante do envio dos dados, ainda que seja inevit\u00e1vel constatar a afli\u00e7\u00e3o para que tudo estivesse n\u00e3o somente correto, mas passasse a impress\u00e3o de lisura. Era a primeira vez que eu me inscrevia num processo seletivo pelo sistema de cotas raciais, j\u00e1 que, quando ingressei no curso de Hist\u00f3ria, a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) n\u00e3o possu\u00eda nenhuma forma de a\u00e7\u00e3o afirmativa.<\/p>\n<p>Todos esses elementos comp\u00f5em a presen\u00e7a desse corpo racializado que tenta ler Freud nesse espa\u00e7o. A impossibilidade de \u201cidentificar\u201d o entorno negro no sonho, por sua vez, aponta para minha viv\u00eancia integrando a institui\u00e7\u00e3o como aluna de um curso <em>online<\/em>. N\u00e3o consigo \u201cidentificar\u201d propriamente colegas cotistas, dadas as poucas videoconfer\u00eancias que tivemos durante o ano. Sei que existem, que seus corpos transitam pelo edif\u00edcio do Sedes, sei de algumas de suas produ\u00e7\u00f5es, tenho not\u00edcia de suas a\u00e7\u00f5es de aquilombamento (e as admiro muito) e imagino que, juntos, compomos algo, mas as trocas que fomentam reconhecimento, nesse contexto, s\u00e3o escassas. Na rarefa\u00e7\u00e3o digital dos v\u00ednculos, os \u00fanicos mecanismos que me lembraram sistematicamente da identidade que me atravessa s\u00e3o a presta\u00e7\u00e3o de contas mensal do aux\u00edlio estudantil (com seus prazos, notas, protocolos e valores), o fato de ser a \u00fanica aluna negra de minha turma e como certas passagens da obra freudiana reverberam no meu corpo, ou seja, somente sou confrontada com um lugar identit\u00e1rio atrav\u00e9s das colis\u00f5es com a institui\u00e7\u00e3o e com Freud. Nos ambientes institucionais majoritariamente brancos, em que n\u00e3o est\u00e3o firmados instrumentos perenes para o estabelecimento de v\u00ednculos entre estudantes cotistas, perpetuam-se as condi\u00e7\u00f5es para a emerg\u00eancia do que bell hooks chama de conceito de \u201cterror\u201d relacionado \u00e0s representa\u00e7\u00f5es da branquitude.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O \u201cestranhamento\u201d que marca a minha presen\u00e7a no sonho seria, ent\u00e3o, um fator de dissimula\u00e7\u00e3o on\u00edrica, um subterf\u00fagio diante da constata\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de que fa\u00e7o parte da plateia. Interpreto-o de maneira semelhante \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o que Freud realiza do papel do \u201cafeto caloroso\u201d no sonho do tio Josef: \u201co afeto do sonho n\u00e3o pertence ao conte\u00fado latente, ao pensamento por tr\u00e1s do sonho, \u00e9 o contr\u00e1rio desse conte\u00fado; serve para ocultar o conhecimento da interpreta\u00e7\u00e3o do sonho.\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> O estranhamento est\u00e1, portanto, a servi\u00e7o da deforma\u00e7\u00e3o e informa algo sobre a resist\u00eancia em interpretar o sonho. Para precis\u00e1-lo, creio que seja necess\u00e1rio perguntar: \u201cPor que, mesmo diante de tudo que politicamente constato acerca da identidade racial que me atravessa, ainda titubeio em reconhecer minha participa\u00e7\u00e3o em tal\u00a0 \u2018plateia\u2019?\u201d<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do texto <em>Pardo: lugar e n\u00e3o lugar<\/em><a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> do psicanalista Antonio Neves Neto, escrito tamb\u00e9m em di\u00e1logo com a pol\u00eamica elimina\u00e7\u00e3o dos vestibulandos da Fuvest, pude me aproximar de uma parcela das motiva\u00e7\u00f5es da minha resist\u00eancia: sei pertencer a uma\u00a0 comunidade, quero afirm\u00e1-lo, mas receio faz\u00ea-lo devido \u00e0 \u201cinstabilidade de experi\u00eancias de reconhecimento do pardo\u201d.<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> Como o autor verifica, ter consci\u00eancia pol\u00edtica acerca do pertencimento racial n\u00e3o necessariamente elimina a ang\u00fastia vinculada a determinadas experi\u00eancias da identidade. Ang\u00fastia que emerge, exatamente, na cl\u00ednica. A interpreta\u00e7\u00e3o do sonho desnuda, portanto, o desejo de reconhecimento da participa\u00e7\u00e3o no ajuntamento negro \u2014 sou parte da \u201cplateia\u201d. Tal desejo se encontra mascarado pela sensa\u00e7\u00e3o de distanciamento que remete, dada a complexidade do contexto racial brasileiro, ao temor de, eventualmente, ser questionada. Se isso n\u00e3o muda a realidade pol\u00edtica da negritude da pessoa parda, aponta para a necessidade cl\u00ednica de considerar que o pardo \u00e9 lido de maneiras variadas em contextos distintos e por isso \u201cvive em intensidade uma caracter\u00edstica geral a toda identidade: a de que ela \u00e9 necessariamente contextual e hist\u00f3rica e n\u00e3o natural e ontol\u00f3gica.\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>Museus, monumentos e inc<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ndios<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u201cestranhar\u201d minha presen\u00e7a no \u201cblack sabbath\u201d \u00e9 um artif\u00edcio on\u00edrico poderoso para impedir que eu me perceba c\u00famplice da a\u00e7\u00e3o que, na segunda parte do sonho, ir\u00e1 concentrar o maior coeficiente de resist\u00eancia. Vamos a ela. Em determinado momento, \u201cuma roda, como aquelas dos chamados \u201cbate-cabe\u00e7as\u201d se abre em meio \u00e0 multid\u00e3o\u201d. As refer\u00eancias que possuo dos shows de rock s\u00e3o escassas e as imagens que me ocorrem s\u00e3o filmagens de algumas bandas dos anos 90 em que essas rodas sempre aparecem. O car\u00e1ter convulsionado, en\u00e9rgico, tenso, mas ao mesmo tempo celebrativo desses c\u00edrculos convoca em mim a palavra \u201ccatarse\u201d. Quando esse sonho se manifestou eu j\u00e1 n\u00e3o ignorava, atrav\u00e9s das leituras do curso, que \u201ccatarse\u201d era um termo caro \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es freudianas, definindo um m\u00e9todo terap\u00eautico precursor da psican\u00e1lise \u201cpelo qual um sujeito consegue eliminar seus afetos patog\u00eanicos e ent\u00e3o ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos traum\u00e1ticos a que eles est\u00e3o ligados.\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a> A cena on\u00edrica do segundo momento do sonho parece mesmo provocar uma ab-rea\u00e7\u00e3o, uma \u201cdescarga emocional\u201d capaz de resultar num \u201cefeito de catarse\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Mas que afetos estariam, supostamente, sendo eliminados e que traumas revividos quando uma multid\u00e3o, de que fa\u00e7o parte, passa a lan\u00e7ar dardos contra um animal com caracter\u00edsticas peculiares? O que esse animal representa? Confesso que uma das lacunas dessa an\u00e1lise \u00e9 responder por que justamente um rinoceronte \u00e9 o animal escolhido pela deforma\u00e7\u00e3o on\u00edrica como um dos pontos nodais<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a> do sonho. As \u201cest\u00e1tuas greco-romanas do acervo freudiano\u201d, a que o animal \u00e9 relacionado no sonho, correspondem \u00e0s pe\u00e7as provenientes da cole\u00e7\u00e3o pessoal do autor que ilustram as p\u00e1ginas de abertura das obras editadas pela Companhia das Letras. As mesmas se encontram sob a guarda do Freud Museum. Contudo, nos volumes que possuo n\u00e3o encontrei nenhuma est\u00e1tua realmente parecida. L\u00e1 figuram um abutre e trabalhadores eg\u00edpcios, deuses e jarros gregos, est\u00e1tuas romanas, figuras femininas chinesas, mas nenhum rinoceronte.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o on\u00edrica entre o animal e as est\u00e1tuas n\u00e3o \u00e9, portanto, direta. \u00c9 constru\u00edda atrav\u00e9s de uma men\u00e7\u00e3o, muito sugestiva, a sua textura, um certo \u201caspecto pedrado\u201d atribu\u00eddo particularmente \u00e0 estatu\u00e1ria greco-romana que comp\u00f5e o acervo. A sele\u00e7\u00e3o de objetos freudianos que pude conhecer pelas ilustra\u00e7\u00f5es lembrou-me a curadoria do museu hist\u00f3rico do s\u00e9culo XIX. Ele est\u00e1:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;] associado ao surgimento das nacionalidades [&#8230;] ao mesmo tempo que, sem contradi\u00e7\u00e3o, \u00e0 Hist\u00f3ria Universal, na qual a Hist\u00f3ria Nacional representaria a culmina\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a import\u00e2ncia dos museus de arqueologia das civiliza\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da Gr\u00e9cia e de Roma, bem como do Egito e da Mesopot\u00e2mia [&#8230;].<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Importante dizer que o museu hist\u00f3rico tinha, ent\u00e3o, o papel de produzir discursos hist\u00f3ricos universalizantes a partir de objetos de cultura material pilhados de diversas etnias atrav\u00e9s do imperialismo europeu. Nesse sentido, uma determinada formata\u00e7\u00e3o era lan\u00e7ada sobre o Egito \u2014 \u00e0 \u00e9poca considerado parte da \u201c\u00c1frica Branca\u201d \u2014 e sobre a Mesopot\u00e2mia \u2014 considerada uma \u00e1rea de interesse arqueol\u00f3gico relevante para os estudos b\u00edblicos \u2014 para justificar sua relev\u00e2ncia hist\u00f3rico-museol\u00f3gica, enquanto Gr\u00e9cia e Roma reluziam como o grande ber\u00e7o cultural da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, diga-se, \u201ceuropeia\u201d. A partir da observa\u00e7\u00e3o desse pequeno recorte do acervo, especulo que Freud reproduz em seu colecionismo os mesmos crit\u00e9rios dos museus hist\u00f3ricos europeus de sua \u00e9poca: um certo universalismo euro-centrado. Assim, um item de acervo, que no conjunto dos pensamentos on\u00edricos n\u00e3o teria tamanho protagonismo, \u00e9 escolhido atrav\u00e9s do trabalho de \u201cdeslocamento\u201d, para sintetizar no conte\u00fado manifesto do sonho toda uma dimens\u00e3o latente. O rinoceronte representaria, ent\u00e3o, com seu \u201caspecto pedrado\u201d, o classicismo greco-romano que emerge da sele\u00e7\u00e3o dos itens do acervo e que organiza e endere\u00e7a o discurso que eles, juntos, comp\u00f5em. O animal, entretanto, \u201cparece estar vivo\u201d.<\/p>\n<p>A pondera\u00e7\u00e3o dessa impress\u00e3o me parece decisiva para interpretar a cena on\u00edrica. Em alguma medida, ela n\u00e3o se limita \u00e0s pe\u00e7as do acervo, mas se nutre de algo que vaza tamb\u00e9m da escrita \u201cviva\u201d freudiana. Particularmente, a partir do pouco que pude ler sobre o assunto e experienciar em an\u00e1lise, n\u00e3o considero que as contribui\u00e7\u00f5es de Freud se restrinjam ao mundo europeu de sua \u00e9poca. Por outro lado, a experi\u00eancia de travessia de seu texto tamb\u00e9m acusa a presen\u00e7a de \u201citens pedrados\u201d em seu \u201cacervo\u201d. Itens que, quando ignorados ou negligenciados, podem formar \u201cc\u00e1lculos\u201d que precisam ser dissolvidos para desobstruir o fluxo da sua leitura no Sul Global. \u00c9 a isso que me refiro quando digo que, \u00e0s vezes, reproduzir as palavras de Freud parecia um exerc\u00edcio imposs\u00edvel para um corpo que, marcado pelo colonialismo, se recusava a repetir o esquecimento. S\u00e3o lapsos que dizem de seus interlocutores. S\u00e3o omiss\u00f5es que, abruptamente, lembram a quem Freud dirige suas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Aporto, aqui, em dois trechos que exemplificam essas palavras \u201cpedradas\u201d antes que esse barco possa seguir sua err\u00e2ncia. Os ecos dessas leituras reverberaram em meu corpo por meses. Num dos primeiros textos do curso, a primeira <em>Li<\/em><em>\u00e7\u00e3o de p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, quando comparando sintomas a monumentos, Freud me lembrou de meus traumas. Defendendo a tese de que os sintomas s\u00e3o s\u00edmbolos mn\u00eamicos, ou seja, res\u00edduos de viv\u00eancias traum\u00e1ticas, Freud recorre a um conceito de monumento para, didaticamente, como \u00e9 de seu estilo, aprofundar suas considera\u00e7\u00f5es. Ele escolhe dois exemplos brit\u00e2nicos: a <em>Charing Cross<\/em>, cruz g\u00f3tica residual do cortejo funer\u00e1rio da rainha brit\u00e2nica Eleonor, e <em>The Monument<\/em>, coluna memorial do inc\u00eandio que em 1666 destruiu parte de Londres. O conceito de \u201cmonumento\u201d tem uma longa hist\u00f3ria sem\u00e2ntica no campo historiogr\u00e1fico, aqui importa somente destacar que Freud se vale, justamente, da sua acep\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 Antiguidade Romana:<\/p>\n<ul>\n<li>uma obra comemorativa de arquitetura ou escultura: arco de triunfo, coluna, trof\u00e9u, p\u00f3rtico etc;<\/li>\n<li>um monumento funer\u00e1rio destinado a perpetuar a recorda\u00e7\u00e3o de uma pessoa no dom\u00ednio em que a mem\u00f3ria \u00e9 particularmente valorizada: a morte.<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o, em seus termos, \u00e9 completamente pertinente. Por\u00e9m, transportada para o solo do continente em que a confer\u00eancia era realizada, ela desvela a historicidade e os marcadores culturais da psican\u00e1lise nascente. A referida analogia denuncia que, mesmo com os p\u00e9s na Am\u00e9rica, Freud fala da Europa para a Europa. O autor n\u00e3o considera que em terras coloniais as reminisc\u00eancias materiais das celebra\u00e7\u00f5es das conquistas n\u00e3o se assemelham a sintomas, mas a atualiza\u00e7\u00f5es do trauma. Aqui, o arco de triunfo, a coluna, o p\u00f3rtico se tornam lembretes p\u00fablicos, diretamente enviados de quem manda para os corpos dominados. E aqueles que, ao morrer, tiveram direito de ocupar a cena comum com algum res\u00edduo de sua hist\u00f3ria s\u00e3o, justamente, os que promoveram a morte de outros tantos, cujos corpos negros e ind\u00edgenas n\u00e3o costumam ser lembrados. Numa dessas associa\u00e7\u00f5es quase magn\u00e9ticas, invoco como exemplo o epis\u00f3dio do inc\u00eandio da est\u00e1tua do bandeirante Borba Gato, no bairro de Santo Amaro em S\u00e3o Paulo, pelo coletivo Revolu\u00e7\u00e3o Perif\u00e9rica. Parece-me que \u00e9 contra o trauma que ele se insurge. Contra a viv\u00eancia da cidade como uma experi\u00eancia traumatizante para corpos perif\u00e9ricos. Contra a exalta\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria, cuja presen\u00e7a p\u00fablica implica violentos esquecimentos. Contra \u201citens pedrados\u201d que precisam ser quebrados. Quando, criando coragem, falei sobre isso em sala pela primeira vez, senti por parte da turma um acolhimento misturado a uma surpresa, que me intrigou.<\/p>\n<p>Recordo-me, ainda, do desconforto que senti logo depois, quando, na <em>Terceira l<\/em><em>i<\/em><em>\u00e7\u00e3o de p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, Freud confessou ao mesmo p\u00fablico estadunidense que optou por oferecer-lhes uma \u201csucinta vis\u00e3o\u201d do campo psicanal\u00edtico a uma \u201cexposi\u00e7\u00e3o detalhada da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d por uma raz\u00e3o \u201cmeramente subjetiva\u201d. Pareceu-lhe \u201cquase indecente\u201d apresentar-se como \u201cint\u00e9rprete dos sonhos\u201d naquele pa\u00eds, \u201ct\u00e3o voltado para fins pr\u00e1ticos, antes que os senhores soubessem da import\u00e2ncia que pode reivindicar essa arte velha e ridicularizada.\u201d<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a> Essa pequena nota subjetiva de Freud contou-me algo sobre mim: naquele momento, mais do que com os conceitos de \u201cpensamento substitutivo\u201d, \u201csonho\u201d e \u201cato falho\u201d ali tratados, eu me ocupava em pensar que, em seu discurso, Freud ignorava, por exemplo, as in\u00fameras popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias daquele territ\u00f3rio \u2014 Comanches, Apaches, Cheyennes etc. \u2014 que, ao contr\u00e1rio de sua audi\u00eancia, compartilhariam com ele um enorme apre\u00e7o pelo sonho. N\u00e3o seria com eles que o entusiasmado Freud falaria naquelas confer\u00eancias. \u00c9 poss\u00edvel, inclusive, que ele ignorasse que h\u00e1 poucas d\u00e9cadas de 1910, havia sido promulgado o <em>Homestead Act<\/em>, a lei de terras estadunidense que, ao assegurar aos cidad\u00e3os a posse da terra mediante usucapi\u00e3o, veio a se configurar como um est\u00edmulo \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o das terras do oeste habitadas por diversas popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. Na pr\u00e1tica, tratou-se de uma autoriza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica a uma nova leva de massacres ind\u00edgenas. Ser\u00e1 que Freud sequer cogitava o constrangimento que a men\u00e7\u00e3o de tais coisas provocaria na sua assist\u00eancia em Massachusetts, majoritariamente masculina, branca, e, provavelmente, descendente dos benefici\u00e1rios de tal legisla\u00e7\u00e3o? N\u00e3o tenho como saber. Contudo, inegavelmente, Freud n\u00e3o diz que a coloniza\u00e7\u00e3o foi a respons\u00e1vel por impor a \u201cpraticidade\u201d que mais tarde se tornaria \u201catributo geral da na\u00e7\u00e3o\u201d, nem menciona que os sonhos, nos EUA, s\u00f3 se tornaram uma \u201carte velha e ridicularizada\u201d devido ao exterm\u00ednio colonial de outras cosmovis\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse esquecimento me engasgou. N\u00e3o consegui dizer nada sobre ele nas aulas. Receei parecer monotem\u00e1tica. Notei apenas que pulamos esse pequeno trecho para diretamente analisarmos a defini\u00e7\u00e3o freudiana da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. Para desobstruir as vias respirat\u00f3rias, invoco os versos de Grada Kilomba: \u201cUma mem\u00f3ria, um esquecimento\/ Um esquecimento, uma ferida\u201d. Em seu poema <em>O barco<\/em>, a autora parece utilizar a palavra \u201cferida\u201d com a mesma acep\u00e7\u00e3o que em sua tese de doutoramento, <em>Mem<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rias da p<\/em><em>lanta<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o<\/em>, ou seja, como o trauma que marca a entrada de pessoas negras no mundo branco<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>, a percep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria \u201coutridade\u201d frente a um universalismo excludente. Trauma que n\u00e3o fica no passado, mas se atualiza a cada contato.<\/p>\n<p>Respiro e retomo o dizer. No contexto que antecede o sonho, marcado por uma certa tens\u00e3o pela imin\u00eancia da partilha do artigo de Silvia Alonso, eu me perguntava se conseguiria repetir as palavras de Freud. Se naquele texto, misturado ao que me encantava, n\u00e3o haveria algum item \u201cpedrado\u201d com que, novamente, me engasgaria. Hoje, posso afirmar que ali n\u00e3o havia, mas a pergunta continuou sendo reiterada ao longo dos textos do curso, n\u00e3o como um impedimento, mas como uma precau\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. Intuo que o trabalho on\u00edrico se apegou a essas percep\u00e7\u00f5es da obra freudiana porque, naquele momento, eu constatava que elas ocupavam um lugar secundarizado no processo coletivo de leitura, por sua vez mais focado nas formula\u00e7\u00f5es conceituais. Meus grifos do texto n\u00e3o batiam com os destaques da turma sugerindo um inc\u00f4modo solit\u00e1rio que, no mencionado contexto de \u201crarefa\u00e7\u00e3o digital dos v\u00ednculos\u201d, n\u00e3o me parecia poss\u00edvel apurar. Isso dificultava a elabora\u00e7\u00e3o e a partilha por produzir em mim a sensa\u00e7\u00e3o de que me faltaria linguagem para superar o engasgo. Ao longo do curso, vendo emergirem inc\u00f4modos de outras naturezas nas falas do grupo e participando da segunda reuni\u00e3o <em>online <\/em>de cotistas do Sedes, h\u00e1 algumas semanas, fui conseguindo vencer a resist\u00eancia em compartilhar a interpreta\u00e7\u00e3o deste sonho e, com ele, uma err\u00e2ncia por esse territ\u00f3rio institucional e sem\u00e2ntico. E, assim, coletivamente, esse dizer foi se tornando minimamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Bandarilhas, raiva e s<\/strong><strong>ublima<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o a vislumbrar a face mais sisuda da resist\u00eancia em interpretar o sonho: eu me recusava, a partir do que havia sido poss\u00edvel vivenciar em tal contexto institucional, a dar ao meu inc\u00f4modo com os \u201citens pedrados\u201d do \u201cacervo freudiano\u201d a devida aten\u00e7\u00e3o, pois, \u00e0quela altura, imaginava que ele n\u00e3o seria compartilhado. Mais. Atribu\u00eda a ele um car\u00e1ter, equivocadamente, desproporcional: expor meu desconforto parecia soar como uma \u201cdesfeita\u201d diante de uma produ\u00e7\u00e3o que em tantas outras facetas me fascinava e diante do fato de ser cotista naquele curso. Assim, dado o desejo de subleva\u00e7\u00e3o contra os aspectos pedrados de uma obra t\u00e3o monumental como a de Freud, a deforma\u00e7\u00e3o on\u00edrica tentava me colocar distante da cena mais surpreendente do sonho: o instante em que o rinoceronte \u00e9 bandarilhado.<\/p>\n<p>A turba age energicamente, intensamente. Como nas touradas, bandarilhas s\u00e3o espetadas no animal de aspecto pedrado, que se agita ao ser atingido. No sonho, n\u00e3o sinto temor ou pena perante o supl\u00edcio, mas indiferen\u00e7a e incredulidade, afetos decisivos no processo de deforma\u00e7\u00e3o on\u00edrica para, como vimos, manter-me \u00e0 parte daquilo que, na realidade, desejo. Eles mascaram, sobretudo, o afeto mais evidente na atua\u00e7\u00e3o da plateia e contra o qual mais fortemente me insurjo: a raiva. Atrav\u00e9s do brilhante ensaio <em>Usos da raiva: mulheres negras reagem ao racismo<\/em> de Audre Lorde, pude dar palavra a minha resist\u00eancia em expressar tal afeto: \u201cpara mulheres educadas para sentir medo, a raiva \u00e9 muitas vezes uma amea\u00e7a de aniquila\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a> Sendo educada para sentir medo, como eu poderia compactuar com a exposi\u00e7\u00e3o da raiva pela neglig\u00eancia dos res\u00edduos greco-romanos presentes na obra de Freud? Como eu poderia aceitar que meu inc\u00f4modo viesse \u00e0 tona com a devida intensidade que a posi\u00e7\u00e3o do meu corpo no arranjo colonial demanda? Coube tamb\u00e9m a Audre Lorde me reconciliar com esse afeto, para que ele pudesse ser liberado atrav\u00e9s dessa escrita. Ao estabelecer uma precisa distin\u00e7\u00e3o entre ele e o \u00f3dio<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>, a autora marca a emerg\u00eancia da raiva como um poderoso ve\u00edculo de aprendizado, de mudan\u00e7a, visando eliminar distor\u00e7\u00f5es entre semelhantes. Assim, tamb\u00e9m percebo que, a partir das leituras de psicanalistas e pensadores negros, constru\u00ed a ideia de que quem melhor dardejaria \u201cos itens pedrados do acervo freudiano\u201d seriam eles, na medida em partilham algo dessa ira transmutadora.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o cat\u00e1rtica do sonho pode ser finalmente elucidada pelas palavras de Freud nas <em>Comunica<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es <\/em><em>p<\/em><em>reliminares<\/em>: \u201ca rea\u00e7\u00e3o do sujeito que sofre algum preju\u00edzo s\u00f3 tem um efeito realmente \u2018cat\u00e1rtico\u2019 quando \u00e9 de fato adequada, como na vingan\u00e7a. Mas o ser humano encontra na linguagem um equivalente do ato, equivalente gra\u00e7as ao qual o afeto pode ser \u2018ab-reagido\u2019 mais ou menos da mesma maneira.\u201d<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><sup>[34]<\/sup><\/a> Tratando dos \u201csonhos de comodidade\u201d, Freud acrescenta que o pr\u00f3prio sonho pode ser um \u201csubstituto ao ato\u201d de vingan\u00e7a<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>. O trauma da neglig\u00eancia silenciosa dos \u201citens pedrados\u201d \u00e9 ent\u00e3o revivido oniricamente e devidamente vingado quando a plateia raivosa, que integro, produz \u201cferidas\u201d no rinoceronte, ponto nodal para todo um aspecto da obra freudiana. De posse de todas essas lembran\u00e7as e associa\u00e7\u00f5es, posso agora contemplar o desejo recalcado que realizei no sonho: o desejo de quebrar propriamente os itens pedrados para ent\u00e3o poder repetir livremente as palavras potentes de Freud, sem correr o risco de me engasgar.<\/p>\n<p>Freud advertia que a \u201ccota de condensa\u00e7\u00e3o\u201d de um sonho \u00e9 indetermin\u00e1vel<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup>[36]<\/sup><\/a>. \u201cNo fundo, nunca podemos ter certeza de que a nossa interpreta\u00e7\u00e3o do sonho \u00e9 completa\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>. Satisfa\u00e7o-me, ent\u00e3o, com ter podido oferecer ao meu desejo recalcado, \u00e1vido de err\u00e2ncia, o que lhe era devido: condi\u00e7\u00f5es de sublima\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><sup>[38]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u201cA palavra latina <em>monumentum<\/em> remete \u00e0 raiz indoeuropeia \u201cmen\u201d, que exprime uma das fun\u00e7\u00f5es essenciais do esp\u00edrito (<em>mens<\/em>), a mem\u00f3ria (<em>memini<\/em>). O verbo <em>monere<\/em> significa fazer \u201crecordar\u201d, de onde \u201cavisar\u201d, \u201ciluminar\u201d, \u201cinstruir\u201d. O <em>monumentum<\/em> \u00e9 um sinal do passado.\u201d LE GOFF, Jacques. <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria e mem<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Bernardo Leit\u00e3o <em>et al<\/em>. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990, p. 535.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Historiadora, ex-aluna do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">&gt;[3]<\/a> O estrangeiro. In: ENCICLOP\u00c9DIA Ita\u00fa Cultural de Arte e Cultura Brasileira. S\u00e3o Paulo: Ita\u00fa Cultural, 2024. Dispon\u00edvel em: http:\/\/enciclopedia.itaucultural.org.br\/obra72434\/o-estrangeiro. Acesso em: 17 out. 2024. Verbete da Enciclop\u00e9dia. ISBN: 978-85-7979-060-7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O presente texto foi escrito como trabalho de conclus\u00e3o do curso Conflito e Sintoma (online) ministrado pela prof.\u00aa Christiana Freire no Instituto Sedes Sapientiae em novembro de 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 254.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Refiro-me ao artigo de Silvia Alonso &#8220;O tempo que passa e o tempo que n\u00e3o passa&#8221;. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-tempo-que-passa-e-o-tempo-que-nao-passa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-tempo-que-passa-e-o-tempo-que-nao-passa\/<\/a>. Acesso em: 1 nov. 2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> FREUD, Sigmund. Confer\u00eancia XVIII. <em>In<\/em>: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 13: Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916 \u20111917). Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Tellaroli. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 381.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p.195.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 132.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]&gt;<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 134.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> FREUD, Sigmund. Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise. <em>In<\/em>: FREUD, Sigmund. Obras Completas, volume 9 (1909-1910). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 257.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> GINZBURG, Carlo. Hist\u00f3ria noturna. Companhia de Bolso. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Vale a pena ler a descri\u00e7\u00e3o completa do Sab\u00e1 feita por Ginzburg em <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria <\/em><em>n<\/em><em>oturna<\/em>, a partir dos documentos inquisitoriais: <em>\u201c<\/em>Bruxas e feiticeiros reuniam-se \u00e0 noite, geralmente em lugares solit\u00e1rios, no campo ou na montanha. \u00c0s vezes, chegavam voando, depois de ter untado o corpo com unguentos, montando bast\u00f5es ou cabos de vassoura; em outras ocasi\u00f5es, apareciam em garupas de animais ou ent\u00e3o transformados eles pr\u00f3prios em bichos. Os que vinham pela primeira vez deviam renunciar \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, profanar os sacramentos e render homenagem ao diabo, presente sob a forma humana ou (mais frequentemente) como animal ou semianimal. Seguiam-se banquetes, dan\u00e7as, orgias sexuais. Antes de voltar para casa, bruxas e feiticeiros recebiam unguentos mal\u00e9ficos, produzidos com gordura de crian\u00e7a e outros ingredientes.\u201d GINZBURG, Carlo. <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria noturna<\/em>. Companhia de Bolso. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle, posi\u00e7\u00e3o 24.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> GINZBURG, Carlo. <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria noturna<\/em>. Companhia de Bolso. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle, posi\u00e7\u00e3o 142.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Nppb01xhfe0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Nppb01xhfe0<\/a>. Acesso em: 2 nov. 2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> DAVID, E. C.; VILAS-BOAS, P.; MOREIRA, L. S. Por uma psican\u00e1lise antirracista: a psican\u00e1lise na encruzilhada. <em>In<\/em>: DAVID, E. C.; ASSUAR, G. A psican\u00e1lise na encruzilhada: desafios e paradoxos perante o racismo no Brasil. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 325.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2024\/03\/ser-pardo-e-ser-suficientemente-negro-para-discriminacao-mas-nao-para-politicas-publicas-diz-especialista.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2024\/03\/ser-pardo-e-ser-suficientemente-negro-para-discriminacao-mas-nao-para-politicas-publicas-diz-especialista.shtml<\/a>. Acesso em: 2 nov. 2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> HOOKS, bell. Olhares negros: ra\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2020, p. 260.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p.175.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/pardo-lugar-e-nao-lugar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/pardo-lugar-e-nao-lugar\/<\/a>. Acesso em: 2 nov. 2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabul\u00e1rio de psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p. 60.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Pontos do conte\u00fado manifesto para os quais convergem v\u00e1rias vias associativas, congregando o maior n\u00famero de pensamentos on\u00edricos e servindo como uma s\u00edntese simb\u00f3lica. FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza, p. 324.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da mem\u00f3ria ao laborat\u00f3rio da Hist\u00f3ria: a exposi\u00e7\u00e3o museol\u00f3gica e o conhecimento hist\u00f3rico. Anais do Museu Paulista: Hist\u00f3ria e Cultura Material, S\u00e3o Paulo, v. 2, n. 1, p. 15, 1994.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> LE GOFF, Jacques. Hist\u00f3ria e mem\u00f3ria. Tradu\u00e7\u00e3o de Bernardo Leit\u00e3o <em>et al<\/em>. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990, p. 535.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> FREUD, Sigmund. Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise. <em>In<\/em>: Obras Completas, volume 9 (1909-1910). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 254.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> \u201cParece, portanto, que o trauma de pessoas negras prov\u00e9m n\u00e3o apenas de eventos de base familiar, como a psican\u00e1lise argumenta, mas sim do traumatizante contato com a violenta barbaridade do mundo branco, que \u00e9 a irracionalidade do racismo que nos coloca sempre como a\/o \u201cOutra\/o\u201d, como diferente, como incompat\u00edvel, como conflitante, como estranha\/o e incomum.\u201d KILOMBA, Grada. Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o. Editora Cobog\u00f3. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle, posi\u00e7\u00e3o 381.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> LORDE, Audre. Irm\u00e3 outsider: Ensaios e confer\u00eancias (Portuguese Edition). Aut\u00eantica Editora. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle, posi\u00e7\u00e3o 2632.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a>\u201c<em>Esse <\/em><em>\u00f3<\/em><em>dio e a nossa raiva s\u00e3o muito diferentes. O <\/em><em>\u00f3<\/em><em>dio <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a f\u00fa<\/em><em>ria daqueles que n\u00e3o compartilham os nossos objetivos, e a sua finalidade <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a morte e a destrui\u00e7\u00e3o. A raiva <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>um sofrimento causado pelas distor\u00e7\u00f5es entre semelhantes, e a sua finalidade <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a mudan<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a.<\/em><em>\u201d <\/em>LORDE, Audre. Irm\u00e3 outsider: Ensaios e confer\u00eancias (Portuguese Edition). Aut\u00eantica Editora. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle, posi\u00e7\u00e3o 2585.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> ROUDINESCO, E. Sigmund Freud: na sua \u00e9poca e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 2016, p.107.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 4: A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 156.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> <em>Ibid.,<\/em> p. 320.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 319.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabul\u00e1rio de psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p. 495.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do sintoma ao trauma, pede-se companhia para atravessar encantamentos significantes e colis\u00f5es pedradas com o acervo freudiano. Por Laura Cristina de Souza.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[53,54],"edicao":[349],"autor":[357],"class_list":["post-3961","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-conflito-e-sintoma","tag-decolonial","edicao-boletim-77","autor-laura-cristina-de-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3961"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3964,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3961\/revisions\/3964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3961"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3961"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}