{"id":3969,"date":"2025-11-16T10:18:12","date_gmt":"2025-11-16T13:18:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3969"},"modified":"2025-11-16T10:24:27","modified_gmt":"2025-11-16T13:24:27","slug":"por-uma-etica-da-psicanalise-o-debate-sobre-o-identitarismo-e-incontornavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/por-uma-etica-da-psicanalise-o-debate-sobre-o-identitarismo-e-incontornavel\/","title":{"rendered":"Por uma \u00e9tica da psican\u00e1lise: o debate sobre o identitarismo \u00e9 incontorn\u00e1vel."},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Por uma \u00e9tica da psican\u00e1lise: o debate sobre o identitarismo \u00e9 <\/strong><strong>incontorn<\/strong><strong>\u00e1vel<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista com Douglas Barros<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Adriana Elisabeth Dias<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><strong>, Ana Raquel Ribeiro<\/strong><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><strong> e Rachel Botelho<\/strong><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3928\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_5a_douglas_barros.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_5a_douglas_barros.jpg 600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_5a_douglas_barros-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o psicanalista Douglas Barros, autor do livro <em>O que \u00e9 <\/em><em>identitarismo?<\/em>, a psican\u00e1lise n\u00e3o tem raz\u00e3o de existir na nossa \u00e9poca se as quest\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero e sexualidade n\u00e3o forem levadas em conta. O modo como esses marcadores atravessam os sujeitos, as fam\u00edlias e a pr\u00f3pria psican\u00e1lise vem sendo debatido pelo GT <em>Fam<\/em><em>\u00edlias no s\u00e9culo XXI<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> ao longo de dez anos de exist\u00eancia. Como forma de aprofundar a discuss\u00e3o, propusemos ao autor uma entrevista para este boletim online. O encontro aconteceu na tarde de sexta-feira, 31 de outubro, dias depois da maior chacina policial no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Douglas, como foi sua trajet\u00f3<\/strong><strong>ria, da filosofia <\/strong><strong>\u00e0 <\/strong><strong>psican<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>lise?<br \/>\n<\/strong>Minha an\u00e1lise pessoal come\u00e7ou em 2012, no final da gradua\u00e7\u00e3o em filosofia. Busquei terapia antes disso, mas foi no processo anal\u00edtico que entendi que meu sofrimento inconsciente estava ligado ao luto pela perda de amigos da filosofia. Uma amiga muito pr\u00f3xima se suicidou no finalzinho da gradua\u00e7\u00e3o. Depois, dois colegas, que n\u00e3o eram t\u00e3o pr\u00f3ximos, tamb\u00e9m se suicidaram. Eles n\u00e3o tinham nada em comum, exceto o fato de serem tr\u00eas pessoas negras e estudantes de filosofia. Foi horr\u00edvel, mas n\u00e3o foi o que me levou a buscar an\u00e1lise. Naquele momento, minhas quest\u00f5es tinham mais a ver com a implica\u00e7\u00e3o da filosofia com a psican\u00e1lise, a partir das leituras dos textos cl\u00e1ssicos de Freud. O luto pela morte dessas pessoas pretas apareceu mais tarde em uma das sess\u00f5es e, evidentemente, recomp\u00f4s toda a minha experi\u00eancia at\u00e9 ali, inclusive ao voltar a ter interesse em estudar Frantz Fanon. Assim, meu processo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 atravessado pelo processo acad\u00eamico, pela quest\u00e3o racial como elemento fundamental da minha experi\u00eancia na an\u00e1lise e, implicitamente, como tentativa de pensar o lugar do sofrimento racial causado pelo racismo. Eu nunca tive muito interesse em ser analista, mas na an\u00e1lise desenvolvi um maior interesse em frequentar outros textos psicanal\u00edticos para al\u00e9m de Freud. Em 2015, eu fiz o doutorado em Hegel e ele me jogou nos bra\u00e7os de Lacan. E foi esse caminho que me levou at\u00e9 o F\u00f3rum [do Campo Lacaniano], mais tarde. \u00c9 marcante como a identidade racial organiza a minha experi\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 atuava nos movimentos negros, e, mesmo assim, levou um tempo para eu observar o que havia de comum na morte dos tr\u00eas estudantes. O que, de certo modo, me pareceu e me parece at\u00e9 hoje um processo de resist\u00eancia, porque encarar isso me colocaria diante do qu\u00e3o violento \u00e9 o racismo. Portanto, a quest\u00e3o da identidade me atravessa de uma maneira visceral. Como p\u00f3s-graduando em filosofia, minha ideia era prestar concurso, mas, j\u00e1 na cl\u00ednica, a identidade e o identitarismo me atravessaram. \u00c9 muito curioso como chegavam demandas a partir da ideia de identidade, do analista como reflexo do analisante. Tratavam-se de processos de identifica\u00e7\u00e3o que eu tinha que manejar na transfer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 <\/strong><strong>por acaso que voc<\/strong><strong>\u00ea escuta e vai manejar esse tema, que ainda \u00e9 muito mal compreendido. Afinal, o que \u00e9 <\/strong><strong>identitarismo?<br \/>\n<\/strong>Existe um desafio \u00e0 psican\u00e1lise, sobretudo, porque ela trabalha com a ideia &#8211; seja em Freud, seja em Lacan, isso \u00e9 comum \u00e0 experi\u00eancia psicanal\u00edtica &#8211; do sujeito descentrado, o sujeito da falta, o sujeito que habita um duplo. Logo, n\u00e3o h\u00e1 uma identidade. O que h\u00e1 \u00e9 um descentramento em que a experi\u00eancia do sujeito organiza seu processo de identifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 cont\u00ednuo, porque as fantasias que o sujeito tece com o objeto de identifica\u00e7\u00e3o sempre caem. Felizmente \u00e9 assim. No entanto, \u00e9 um problema para a psican\u00e1lise: fora da cl\u00ednica, h\u00e1 um processo de desenvolvimento hist\u00f3rico social que organiza grupos humanos imensos a partir de uma categoriza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. O primeiro identit\u00e1rio da hist\u00f3ria moderna \u00e9 o colonizador, essa figura que vai nomear e atribuir uma identidade a outros povos. E, ao fazer isso, ele d\u00e1 uma identidade a si mesmo que desaparece no \u00e2mbito do universal. Enquanto todos os outros povos racializados s\u00e3o vistos como identidades, esse sujeito \u00e9 visto como universal. E a\u00ed tem uma certa tens\u00e3o para pensar a psican\u00e1lise. A pr\u00f3pria forma como a vida se organiza a partir desses processos hiperidentificat\u00f3rios que estabilizam identidades dos outros, que s\u00e3o vistos como identidades essenciais. Eu me centro na identidade racial, mas\u00a0 podemos tamb\u00e9m pensar a identidade de g\u00eanero, porque essas identidades organizam os lugares, os espa\u00e7os e at\u00e9 os espa\u00e7os urbanos. Ent\u00e3o o negro \u00e9 o negro, a mulher \u00e9 a mulher, e ambos precisam ser tutelados por esse senhor que aparece como um sujeito. Isso organiza a vida social, o espa\u00e7o urbano, as formas como s\u00e3o distribu\u00eddas as benesses da pr\u00f3pria modernidade. A estrutura do direito tamb\u00e9m passa por isso. N\u00f3s temos, portanto, uma organiza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria socialmente produzida. Esse \u00e9 um problema para a psican\u00e1lise porque as pessoas que s\u00e3o identitarizadas s\u00e3o sujeitos como qualquer outro sujeito. Entretanto, a marca\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a que as coloca no lugar da subalternidade lhes causa sofrimentos que precisam ser levados em considera\u00e7\u00e3o. Porque o lugar da exclus\u00e3o, o lugar da subalternidade e o lugar como um essencialismo de sua identidade que te determina causa problemas.<\/p>\n<p><strong>Ent<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o esse seria o identitarismo.<br \/>\n<\/strong>O identitarismo \u00e9 a substancializa\u00e7\u00e3o da identidade, a identidade tomada como destino \u00faltimo. E n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo. Tem um exemplo importante. A biografia de Martin Luther King, que tamb\u00e9m \u00e9 apresentada no filme <em>Selma<\/em>, mostra o quanto o identitarismo \u00e9 arraigado na sociedade e o quanto a formaliza\u00e7\u00e3o de uma identidade historicamente determinada, dada a um sujeito, impede que ele tenha livre acesso \u00e0 vida. Na \u00e9poca das leis de segrega\u00e7\u00e3o, o sujeito era marcado com uma tarja. Voc\u00ea \u00e9 negro, voc\u00ea tem um determinado lugar. Eu chamo de identitarismo a substancializa\u00e7\u00e3o da identidade que a torna a finalidade \u00faltima. Fa\u00e7o o esfor\u00e7o de separar a identidade do identitarismo, a identidade como a percep\u00e7\u00e3o m\u00ednima de si, capaz de nomear-se, mas se abrir, se construir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a que o outro apresenta. A identidade atrelada ao processo de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para o movimento do sujeito. Isso \u00e9 diferente do identitarismo. O identitarismo \u00e9 como se esse movimento n\u00e3o pudesse mais existir porque voc\u00ea j\u00e1 tem uma identidade. O problema para a psican\u00e1lise \u00e9 exatamente esse, porque n\u00f3s temos uma estrutura\u00e7\u00e3o social que vai dando identidade aos sujeitos, s\u00f3 que essa identidade \u00e9 formulada tamb\u00e9m com pressupostos violentos de exclus\u00e3o. A pergunta \u00e9: como n\u00f3s, psicanalistas, lidamos com esse processo de viol\u00eancia e exclus\u00e3o a partir daquilo que a pr\u00f3pria psican\u00e1lise nos lega enquanto arsenal te\u00f3rico?<\/p>\n<p><strong>E a psican<\/strong><strong>\u00e1lise? Em que medida n\u00e3o \u00e9 ela pr\u00f3<\/strong><strong>pria identit<\/strong><strong>\u00e1ria, reprodutora do identitarismo, de origem colonial?<br \/>\n<\/strong>Julguem a minha ingenuidade, mas me parece que a psican\u00e1lise tem um movimento de autocr\u00edtica interna que deveria impedir a sedimenta\u00e7\u00e3o de seus pressupostos metodol\u00f3gicos e te\u00f3ricos. E qual \u00e9 essa autocr\u00edtica interna que ela maneja? \u00c9 a cl\u00ednica. O problema \u00e9 que a cl\u00ednica est\u00e1 presa ao espa\u00e7o e ao tempo de sua \u00e9poca. Lacan se d\u00e1 conta disso quando tenta dissolver [sua escola] no final da vida. Toda sedimenta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica leva um clero a defend\u00ea-la. E, a partir disso, a mentir, como Lacan diz no semin\u00e1rio 16. Na psican\u00e1lise n\u00f3s n\u00e3o lidamos com objeto, mas com sujeito. Por isso, os pressupostos te\u00f3ricos t\u00eam sempre que estar abertos, porque esse sujeito emerge no espa\u00e7o e no tempo determinado, assim como nossa cl\u00ednica. Agora, sim, a psican\u00e1lise tem graves problemas. Se n\u00f3s n\u00e3o levarmos em considera\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o de ra\u00e7a, g\u00eanero e da sexualidade, evidentemente, de uma maneira radical hoje, a psican\u00e1lise n\u00e3o tem mais raz\u00e3o de existir. No Brasil, n\u00e3o tem raz\u00e3o de existir. A grande quest\u00e3o \u00e9 como fazer esse enfrentamento como um problema da psican\u00e1lise. Como olhamos criticamente a pr\u00f3pria psican\u00e1lise sem, evidentemente, jogar fora o beb\u00ea com a \u00e1gua do banho. Essa \u00e9 a minha preocupa\u00e7\u00e3o. Talvez possa ser ing\u00eanuo, mas eu n\u00e3o acho que a psican\u00e1lise tenha um pressuposto colonial, n\u00e3o. Tem algo na psican\u00e1lise que \u00e9 revolucion\u00e1rio, anti-identit\u00e1rio, de sa\u00edda, que provoca um esc\u00e2ndalo imenso. Eu penso no Freud, que numa \u00e9poca radicalmente antissemita, \u00e9 expulso do laborat\u00f3rio porque cortam bolsa para judeus. E tem as potencialidades evocadas no pr\u00f3prio texto freudiano. Sempre fa\u00e7o o esfor\u00e7o de salientar isso na minha transmiss\u00e3o. Os Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d \u00e9 de 1905!<\/p>\n<p><strong>\u00c9 <\/strong><strong>revolucion<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>rio.<br \/>\n<\/strong>At\u00e9 hoje! Se voc\u00ea entrega na m\u00e3o de uma Damares [Alves, senadora e ex-ministra da Mulher no governo Bolsonaro], ela manda queimar. Temos que enfrentar de peito aberto essa sedimenta\u00e7\u00e3o. Nos anos 40, era proibida a admiss\u00e3o de analistas homossexuais [nos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o], por exemplo. Temos que ver o que h\u00e1 de revolucion\u00e1rio naquilo que a psican\u00e1lise nos lega, mas sem medo de enfrentar as contradi\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio movimento psicanal\u00edtico, porque elas dizem respeito a n\u00f3s, s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es do nosso tempo tamb\u00e9m. H\u00e1 uma resist\u00eancia da velha guarda de pensar quest\u00f5es raciais, quest\u00f5es da sexualidade, do g\u00eanero, que v\u00e3o ser lidas, inclusive, como quest\u00f5es identit\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Nas institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas, h\u00e1 um movimento recente de pol\u00edticas afirmativas: cotas, contrata\u00e7\u00e3o de professores e supervisores negros e outras pessoas n\u00e3o brancas. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 preciso separar o joio do trigo. H\u00e1 um processo de gest\u00e3o das identidades que passa pelas pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, s\u00f3 que o processo de politiza\u00e7\u00e3o excede esse campo. Eu sou muito favor\u00e1vel a formas de inclus\u00e3o, sempre fui a favor das cotas. Eu sou do movimento social, do movimento negro. S\u00f3 que as cotas nunca foram a finalidade \u00faltima do movimento. O acesso \u00e9 para o ac\u00famulo pol\u00edtico e o retorno que isso daria em termos sociais para a pr\u00f3pria comunidade. As cotas eram um meio de organizar um corpo pol\u00edtico. Num pa\u00eds como o Brasil, em que tivemos o massacre que tivemos [em que a pol\u00edcia do Rio de Janeiro matou 121 homens em uma opera\u00e7\u00e3o em duas comunidades], marcado pela identidade racial, n\u00f3s n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o de debater e de repensar as formas de supera\u00e7\u00e3o desse quadro. \u00c9 muito importante que as escolas de psican\u00e1lise estejam trabalhando nesse sentido, mas tamb\u00e9m devemos priorizar a maneira pela qual vamos manejar nosso arsenal te\u00f3rico. Eu escutei ontem [30 de outubro] algu\u00e9m falando sobre pensar a psicologia do negro, e rapidamente acenderam todos os sinais de alerta. Isso que parece inclusivo n\u00e3o \u00e9 novo, \u00e9 uma pr\u00e1tica que as escolas eugenistas da psiquiatria tinham nos anos 40 e 50 na Arg\u00e9lia e aqui na Argentina. \u00c9 pensar uma psicologia do negro como se o negro fosse apartado como sujeito do mundo. \u00c9 muito importante pensarmos formas de fazer com que os negros em particular e as minorias em geral possam acessar as escolas, por\u00e9m tamb\u00e9m devemos privilegiar as formas como manejamos o arsenal te\u00f3rico para n\u00e3o pactuarmos de um certo identitarismo que recomp\u00f5e o discurso colonial para pensar o negro como um apartado do humano.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 diferente de pensar que o inconsciente tem cor.<br \/>\n<\/strong>Este \u00e9 um ponto fundamental. H\u00e1 uma diferen\u00e7a em pensar a racializa\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise e pensar o racializado como um elemento fora, com uma psicologia pr\u00f3pria. Porque a\u00ed se colocam novamente os demarcadores organizados pelo pr\u00f3prio colonialismo. N\u00f3s devemos ter um cuidado extremo para n\u00e3o recair no identitarismo. \u00c9 uma tarefa e \u00e9 muito f\u00e1cil a gente errar. Um exemplo da cl\u00ednica, que acontece muito, \u00e9 a ideia da identifica\u00e7\u00e3o do analisante com o analista. Na identitariza\u00e7\u00e3o social causada pelo identitarismo como forma de gest\u00e3o do capitalismo tardio, o analisante acredita que se o analista for um homem negro, como ele, poder\u00e1 entend\u00ea-lo, poder\u00e1 dar respostas \u00e0quilo que falta. N\u00f3s temos que enfrentar isso tamb\u00e9m, porque sabemos que o que temos em comum s\u00e3o justamente nossas diferen\u00e7as. O fato de ter o mesmo tom epid\u00e9rmico n\u00e3o garante uma resposta. At\u00e9 que ponto o processo de transfer\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sequestrado por uma l\u00f3gica identit\u00e1ria? N\u00f3s temos muitas quest\u00f5es para pensar a partir da no\u00e7\u00e3o de identitarismo.<\/p>\n<p><strong>Voc<\/strong><strong>\u00ea participa do \u00cdmpar, o Laborat\u00f3rio de Estudos Cr\u00edticos da Fam\u00edlia, na USP. Como \u00e9 o trabalho no laborat\u00f3rio, que pertence ao Departamento de Sociologia, e que articula\u00e7\u00e3o tem com a psican\u00e1lise, com essas quest\u00f5es do identitarismo, para pensar sobre o universal da fam\u00ed<\/strong><strong>lia?<br \/>\n<\/strong>A ideia fundamental do laborat\u00f3rio \u00e9 uma certa dessubstancializa\u00e7\u00e3o do lugar da fam\u00edlia. Quando a gente pensa em fam\u00edlia, imediatamente vem a ideia da \u201cfam\u00edlia margarina\u201d, com lugares muito definidos, a posi\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, a posi\u00e7\u00e3o do pai, dos irm\u00e3os, aquele quadro maravilhoso que s\u00f3 funcionou na publicidade. O \u00cdmpar vem na contracorrente, o que recoloca a quest\u00e3o do identitarismo. Na l\u00f3gica do\u00a0 identitarismo, o identit\u00e1rio \u00e9 o outro, \u00e9 aquele que reivindica sua particularidade, n\u00e3o quem supostamente ocupa o lugar da fam\u00edlia margarina, porque esse \u00e9 tido como universal. S\u00f3 que a pr\u00f3pria ideia de fam\u00edlia \u00e9 circunscrita na rela\u00e7\u00e3o desenvolvida historicamente. N\u00f3s estamos pensando em identidades historicamente organizadas que t\u00eam marcas de uma substancializa\u00e7\u00e3o, em que a identidade se torna o fim \u00faltimo, e muita gente naturaliza isso. N\u00e3o se percebe como o lugar da m\u00e3e, por exemplo, tamb\u00e9m \u00e9 historicamente determinado. O \u00cdmpar trabalha com isso, com a dessubstancializa\u00e7\u00e3o de lugares naturalizados nas formas identificat\u00f3rias que se organizam na modernidade. Inclusive o lugar da mulher. Se a sexualidade, para a psican\u00e1lise, n\u00e3o se coaduna imediatamente com a genit\u00e1lia, onde est\u00e1 o lugar da sexualidade na forma\u00e7\u00e3o da nossa subjetividade, da nossa rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva? E isso vai bater de frente com o discurso organicista de um materialismo rebaixado, um materialismo fisiol\u00f3gico que pensa o lugar da mulher a partir da sua genit\u00e1lia, e \u00e9 claro que causa pol\u00eamicas. Mas o \u00cdmpar tem atravessado essa pol\u00eamica, tem pensado a ruptura com os lugares tornados comuns, que servem ao modelo de repress\u00e3o e exclus\u00e3o que mant\u00e9m o regime patriarcal.<\/p>\n<p><strong>Voc<\/strong><strong>\u00ea fala que a pol\u00edtica precisa voltar a ser pensada como conflito, algo que possa ser manejado. Quais seriam as sa\u00eddas, se \u00e9 que existem?<br \/>\n<\/strong>Precisamos desmistificar a pr\u00f3pria ideia de pol\u00edtica. N\u00f3s aprendemos nos \u00faltimos 50 anos que pol\u00edtica \u00e9 um eufemismo para gest\u00e3o, \u00e9 a concilia\u00e7\u00e3o a todo custo entre diferentes interesses. E que \u00e9 preciso concili\u00e1-los e homogeneiz\u00e1-los a partir de uma organiza\u00e7\u00e3o que estabilize de maneira hier\u00e1rquica a sociedade. A ideia de que a homogeneiza\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria levaria a um equil\u00edbrio das for\u00e7as sociais est\u00e1 l\u00e1 em Hobbes, ainda que ele pense que o Leviat\u00e3 seria o todo-poderoso que daria fim aos conflitos da sociedade civil. Mas o que n\u00f3s temos experienciado com a ideia de concilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um aumento radical do autoritarismo, porque vivemos numa sociedade hierarquizada, marcada por uma estrutura desigual, radicalmente desigual, excludente e opressiva. Conciliar todas essas diferen\u00e7as e contradi\u00e7\u00f5es mant\u00e9m uma estrutura hier\u00e1rquica. E o mais forte, portanto, se sobressai. A ideia hegem\u00f4nica de que a pol\u00edtica \u00e9 a aus\u00eancia de conflito nos levou a uma sociedade radicalmente estratificada, hierarquizada e violenta. Ent\u00e3o, uma das tarefas \u00e9 recuperar a no\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica como conflito. Conflito significa que h\u00e1 quest\u00f5es que s\u00e3o inegoci\u00e1veis. Pensando nos Estados Unidos, um exemplo hipot\u00e9tico, que teve a guerra civil, a luta pelos direitos civis nos anos 60, se a pol\u00edcia entra no territ\u00f3rio americano e mata 130 pessoas \u00e9 guerra civil. Como fomos capazes e somos capazes de naturalizar esse massacre [do Rio de Janeiro]? Como a imprensa consegue chamar essa chacina de opera\u00e7\u00e3o policial? Repensar o conflito \u00e9 descobrir que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o com o discurso da naturaliza\u00e7\u00e3o do massacre. Recuperar o conflito que h\u00e1 na pol\u00edtica \u00e9 perceber que nesse momento n\u00f3s dever\u00edamos estar na rua [protestando]. \u00c9 descobrir que com a dignidade humana n\u00e3o se negocia. E isso \u00e9 uma tarefa urgente para recuperar a no\u00e7\u00e3o de conflito. E outra: no n\u00edvel \u00e9tico \u00e9 fundamental o conflito na vida. \u00c9 importante as contradi\u00e7\u00f5es, ter formas conflitantes que se antep\u00f5em ao seu interesse ou ao seu desejo. Isso nos amadurece. Parar com a balela de que devemos estar sempre satisfeitos \u00e9 fundamental para que se repense uma outra forma de se organizar. E tem uma quest\u00e3o para o analista que \u00e9 a seguinte: o analista \u00e9 muito humilde nos seus afazeres, no seu of\u00edcio, porque \u00e9 uma cl\u00ednica do um a um, um espa\u00e7o seguro. Por outro lado, aquilo que chega \u00e0 cl\u00ednica n\u00e3o est\u00e1 fora. Eu gosto de dizer para os lacanianos mais ortodoxos que o inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem, s\u00f3 que tem uma volta nesse parafuso. Sendo a linguagem o pressuposto do inconsciente, e considerando que ela se transforma \u00e0 luz dos processos hist\u00f3ricos, a linguagem organiza as formas inconscientes. \u00c9 por isso que a Isildinha [Baptista Nogueira, psicanalista] est\u00e1 certa: h\u00e1 cor no inconsciente.<\/p>\n<p><strong>E essa \u00e9, ao mesmo tempo, a quest\u00e3o sobre a qual precisamos nos debru\u00e7ar, \u00e9 a sa\u00edda. A\u00ed tem pot\u00eancia e possibilidade para esse enfrentamento.<br \/>\n<\/strong>Sim, eu acho que a gente precisa abra\u00e7ar o conflito mesmo. O conflito no sentido amplo, \u00e9tico. Tem uma li\u00e7\u00e3o muito bonita da filosofia de Kierkegaard: a \u00e9tica n\u00e3o se dobra \u00e0s formas institucionais da lei. A \u00e9tica n\u00e3o tem a ver com regras escritas e obedecidas a partir dessa inscri\u00e7\u00e3o. A \u00e9tica tem a ver com investigar de corpo e alma a legitimidade da lei. O sujeito \u00e9tico n\u00e3o se dobra aos limites dados. O sujeito \u00e9tico \u00e9 aquele que vai agir conforme algo mais substancial. Ant\u00edgona \u00e9 um sujeito \u00e9tico. As m\u00e3es que agora choram os corpos dos seus filhos s\u00e3o sujeitos \u00e9ticos. E esse \u00e9 o ponto que a gente precisa trazer, porque est\u00e1 em quest\u00e3o a nossa vida e a vida das pessoas que a gente ama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Autor de <em>O que \u00e9 <\/em><em>identitarismo?<\/em>, ed. Boitempo, finalista do pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico em 2025. \u00c9 p\u00f3s-doutorando em filosofia pol\u00edtica na USP, doutor em \u00e9tica e filosofia pol\u00edtica na Unifesp. Psicanalista e, atualmente, membro pesquisador de Implica\u00e7\u00f5es das tecnologias digitais nos sistemas de sa\u00fade\/ Iniciativa de prospec\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica sa\u00fade amanh\u00e3\/ Estrat\u00e9gia Fiocruz para a Agenda 2030. Ensa\u00edsta, colunista na Boitempo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, psic\u00f3loga e mestre em Psicologia Social pelo N\u00facleo Psican\u00e1lise e Sociedade &#8211; PUC-SP; membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 co-interlocutora do GT <em>Fam<\/em><em>\u00edlias no s\u00e9culo XXI,<\/em> integrante da Comiss\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas e da equipe editorial do Boletim online.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Psicanalista e psic\u00f3loga; membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 co-interlocutora do GT <em>Fam<\/em><em>\u00edlias no s\u00e9culo XXI<\/em>; autora e organizadora do livro \u201cReflex\u00f5es cl\u00ednicas no contexto do Acolhimento\u201d; coordenadora do programa Com Tato do Instituto Fazendo Hist\u00f3ria (2014-2024).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Psicanalista, jornalista, membro externo integrante do GT <em>Fam<\/em><em>\u00edlias no s\u00e9culo XXI<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O GT <em>Fam<\/em><em>\u00edlias no s\u00e9culo XXI<\/em> tem como integrantes, al\u00e9m das autoras: C\u00e9lia Klouri (fundadora), F\u00e1tima Ferreira Gon\u00e7alves, Isabella S. B. Dal Molin, Maria Cristina Petry Barros Martinha, Mar\u00edlia Campos Oliveira e Telles (advogada), Sandra Grisi, Tera Leopoldi, Therezinha Gomes e Thomas Brogiollo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Douglas Barros, especial para o boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line. Para distinguir identidade, identifica\u00e7\u00e3o e identitarismo. Por Adriana Dias, Ana Rachel Ribeiro e Rachel Botelho.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[54,360],"edicao":[349],"autor":[201,326,359],"class_list":["post-3969","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-decolonial","tag-entrevista","edicao-boletim-77","autor-adriana-elisabeth-dias","autor-ana-raquel-ribeiro","autor-rachel-botelho","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3969"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3973,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3969\/revisions\/3973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3969"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3969"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}