{"id":3974,"date":"2025-11-16T10:28:41","date_gmt":"2025-11-16T13:28:41","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3974"},"modified":"2025-11-17T16:43:38","modified_gmt":"2025-11-17T19:43:38","slug":"no-resfolego-da-sanfona-cada-nota-musical-e-uma-pessoa-rua-cultura-e-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/no-resfolego-da-sanfona-cada-nota-musical-e-uma-pessoa-rua-cultura-e-cidadania\/","title":{"rendered":"No resfolego da sanfona, cada nota musical \u00e9 uma pessoa: rua, cultura e cidadania"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>N<\/strong><strong>o resfolego da sanfona<\/strong><strong>, <\/strong><strong>cada nota musical \u00e9 uma pessoa<\/strong><strong>: <\/strong><strong>rua, cultura e cidadania<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Fernanda Almeida<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dia desses, me peguei pensando: quantas p\u00e1ginas seriam necess\u00e1rias para escrever 96 mil hist\u00f3rias de vida? Para muitas pessoas, a pergunta pode n\u00e3o ter qualquer sentido, pode at\u00e9 parecer absurda. Mas, se \u00e9 de absurdo em absurdo que temos vivido nestes dias que desafiam nossas esperan\u00e7as, \u00e9 a partir desse del\u00edrio estat\u00edstico que gostaria de propor uma reflex\u00e3o e um convite aos participantes desta segunda edi\u00e7\u00e3o do Festival Pop Rua.<\/p>\n<p>Antes de tudo, deixe-me explicar o par\u00e2metro num\u00e9rico: 96 mil \u00e9 o n\u00famero de pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade de S\u00e3o Paulo, segundo o estudo mais recente realizado pelo Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado em 23 de abril de 2025 no site do G1. Ainda segundo este estudo, o percentual representa quase um ter\u00e7o do total nacional de pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O aumento expressivo da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua vem desafiando os governos e a sociedade em geral. Segundo reportagem da Ag\u00eancia Brasil, s\u00f3 no estado de S\u00e3o Paulo, que representa 43% do total da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua do pa\u00eds, esse n\u00famero saltou de 106.857 em dezembro de 2023 \u0440\u0430\u0433\u0430 139.799 pessoas em dezembro de 2024. Essa quantidade \u00e9 12 vezes superior ao que foi observado em dezembro de 2013, quando eram 10.890. Em seguida, aparecem os estados do Rio de Janeiro, com 30.801, e Minas Gerais, com 30.244 pessoas.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que o Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, da UFMG, vem sistematicamente publicando dados estat\u00edsticos e informa\u00e7\u00f5es relevantes sobre o perfil e a quantidade de pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o, entre outras an\u00e1lises fundamentais. Trata-se de um trabalho imprescind\u00edvel num cen\u00e1rio em que faltam dados: muitos munic\u00edpios nem sequer possuem informa\u00e7\u00f5es censit\u00e1rias sobre esse grupo populacional e, quando possuem, em sua maioria, est\u00e3o desatualizadas. Soma-se a isso a n\u00e3o inclus\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o nas pesquisas censit\u00e1rias do IBGE.<\/p>\n<p>As pesquisas quantitativas realizadas pelo Observat\u00f3rio baseiam-se nos dados do Cadastro \u00danico da Assist\u00eancia Social (CadUnico), um cadastro nacional das pessoas inscritas em programas de transfer\u00eancia de renda. Assim, os n\u00fameros refletem as informa\u00e7\u00f5es descritas nas entrevistas locais realizadas com cada pessoa que se autodeclara em situa\u00e7\u00e3o de rua. Ou seja, trata-se de uma estrat\u00e9gia que n\u00e3o descarta os censos locais, tampouco desconsidera a reivindica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do movimento pela inclus\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o nas pesquisas do lBGE.<\/p>\n<p>Explicada a magnitude num\u00e9rica &#8211; 96 mil pessoas &#8211; v\u00eam \u00e0 mente as perguntas: como chegamos a essa situa\u00e7\u00e3o? E poss\u00edvel estruturar pol\u00edticas p\u00fablicas que atenuem tamanha desigualdade social? E poss\u00edvel construir alternativas de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, e n\u00e3o apenas de abrigamento pontual e focalizado? Como construir pol\u00edticas intersetoriais e integradas que considerem as m\u00faltiplas necessidades dessa popula\u00e7\u00e3o? Tais perguntas s\u00e3o necess\u00e1rias e fundamentais para que os gestores formulem alternativas e respostas. No entanto, revelam-se incipientes diante da complexidade da quest\u00e3o na atual quadra hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>E \u00e9 neste ponto que reside a quest\u00e3o que convido \u00e0 reflex\u00e3o. Estou certa de que toda e qualquer resposta massificada, imediatista e simplificada ser\u00e1 ineficaz. As experi\u00eancias nessa dire\u00e7\u00e3o expressam isso, haja vista a altern\u00e2ncia e a descontinuidade de programas e projetos nessa \u00e1rea. Com isso, defendo que \u00e9 necess\u00e1rio um conjunto estruturado de pol\u00edticas que aliem quest\u00f5es macroestruturais com as dimens\u00f5es mais singulares de cada sujeito. Pois, al\u00e9m de enfrentarem condi\u00e7\u00f5es de vida absolutamente prec\u00e1rias, as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua tamb\u00e9m sofrem com o profundo &#8220;despreparo&#8221; e &#8220;desconhecimento&#8221; por parte de certos gestores. Fruto de an\u00e1lises apressadas, interven\u00e7\u00f5es generalizadoras e a\u00e7\u00f5es notadamente higienistas, a caracter\u00edstica mais marcante dessa popula\u00e7\u00e3o, ou seja, sua heterogeneidade, \u00e9 frequentemente ignorada.<\/p>\n<p>Ao se elaborarem pol\u00edticas p\u00fablicas para essa popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 imprescind\u00edvel uma articula\u00e7\u00e3o profunda entre as dimens\u00f5es individuais e coletivas que se expressam no cotidiano das cidades. Quero reafirmar, com isso, que os sujeitos s\u00e3o \u00fanicos, portadores de hist\u00f3rias distintas.<\/p>\n<p>Portanto, qualquer pol\u00edtica p\u00fablica que n\u00e3o articule essas dimens\u00f5es, estruturais e singulares, e que, al\u00e9m disso, assuma um car\u00e1ter imediatista, est\u00e1 fadada a operar em uma esp\u00e9cie de &#8220;modo autorreferente&#8221;, no qual o v\u00edcio e a repeti\u00e7\u00e3o se tornam protagonistas. Repete o gestor, espelha o usu\u00e1rio, reproduz a sociedade. Um modo de fazer pol\u00edtica p\u00fablica pautado no bin\u00f4mio abrigamento\/repress\u00e3o \u2013 isolamento\/culpabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso encontrar as brechas nesse modelo. Criar fissuras no modo institucionalizado que cronifica e intensifica a situa\u00e7\u00e3o de rua. Basta acompanhar o cotidiano de uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua: o tempo \u00e9 comprimido e gira em torno das necessidades mais imediatas e concretas da vida: comer, dormir, se abrigar. Assim, a vida se esvai. Um dia se confunde com o outro e, quando se percebe, j\u00e1 se foi um m\u00eas, um ano, uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o gera\u00e7\u00f5es inteiras de fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de rua. Pais, filhos, av\u00f3s&#8230; filhos dos filhos. Se, anteriormente, o fen\u00f4meno da rua estava mais diretamente ligado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, hoje a heterogeneidade (marca estrutural desse grupo populacional) se complexificou, exigindo muito mais articula\u00e7\u00e3o e formas sofisticadas de atendimento.<\/p>\n<p>Se houver 96 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, ser\u00e1 preciso construir estrat\u00e9gias que levem em conta tamb\u00e9m a dimens\u00e3o singular. As respostas pol\u00edticas devem ser coletiva e estruturalmente articuladas, mas \u00e9 necess\u00e1rio resgatar cada biografia. Se, de fato, queremos enfrentar seriamente a quest\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, \u00e9 preciso reconhecer que cada uma dessas 96 mil &#8220;unidades&#8221; \u00e9 uma pessoa. E cada pessoa \u00e9 um sujeito portador de uma hist\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p>E quem s\u00e3o essas 96 mil pessoas?<\/p>\n<p>Haver\u00e1 entre elas ex\u00edmios artistas, m\u00fasicos, cantores, fot\u00f3grafos, diretores. Haver\u00e1 escritores, bailarinos, dan\u00e7arinos, cineastas, ilustradores, grafiteiros, restauradores, cr\u00edticos de arte, curadores, galeristas. Haver\u00e1 instrumentistas, maestros, arranjadores, roteiristas, produtores musicais&#8230; Dentre elas, haver\u00e1, ainda, apreciadores de arte. Em s\u00edntese: haver\u00e1 p\u00fablico.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 pessoas com sonhos, desejos e potencial criativo? Mesmo entre uma popula\u00e7\u00e3o cuja representa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre associada ao problema, aos dados est\u00e1ticos negativos.<\/p>\n<p>Pessoas cuja subjetividade \u00e9 reduzida a (supostos) sintomas e v\u00edcios: o &#8220;n\u00f3ia&#8221;, o b\u00eabado, o encardido, o miser\u00e1vel, o desempregado, o infeliz&#8230; Ser\u00e1 na arte e no acesso aos bens culturais produzidos pela cidade e suas institui\u00e7\u00f5es de fomento que reside a possibilidade de resgatar sentido e significado, e assim superar, ou ao menos mitigar, os estigmas que os definem? Muitos podem estar se perguntando: com tantas outras necessidades t\u00e3o imediatas, nessa vida t\u00e3o miser\u00e1vel, por que fazer um festival de arte?<\/p>\n<p>Com seus p\u00e9s sujos, corpos doentes e marcados por feridas, roupas encardidas e esfarrapadas, olhar cansado, cabelos ensebados. V\u00edcio, fracasso e inadequa\u00e7\u00e3o. Estigmas n\u00e3o lhes faltam: &#8220;noias&#8221;, vagabundos, drogados, mendigos. Que sentido haveria em atribuir beleza \u00e0s pessoas cuja vida \u00e9 esmagada pela urg\u00eancia brutal da subsist\u00eancia? Como encontrar exist\u00eancia criativa em corpos marcados e surrados por rela\u00e7\u00f5es sociais desumanizadoras?<\/p>\n<p>Como podem perceber, n\u00e3o existem respostas simples para problemas altamente complexos. A complexidade exige um olhar singularizado. Muito mais do que um significado individual, a condi\u00e7\u00e3o de rua \u00e9 um fen\u00f4meno que expressa um modo de existir na cidade. E que modo tem sido esse?<\/p>\n<p>Buscar as ra\u00edzes hist\u00f3ricas do fen\u00f4meno popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua \u00e9 uma outra dimens\u00e3o fundamental. Comumente tratadas de maneira desumana e dessubjetivada, as raz\u00f5es desse processo t\u00eam acento nas estruturas raciais e coloniais que marcaram a hist\u00f3ria da escraviza\u00e7\u00e3o de pessoas negras e pardas neste pa\u00eds. O racismo estrutural \u2013 n\u00e3o como mero preconceito de cor \u2013 mas sim como estrutura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social, possibilitou (e ainda possibilita), em sua gram\u00e1tica ideol\u00f3gica, subjugar pessoas \u2013 pretas e pretos \u2013, negando-lhes sua humanidade. Abdias do Nascimento, em <em>0 <\/em><em>g<\/em><em>enoc<\/em><em>\u00eddio do n<\/em><em>egro <\/em><em>brasileiro<\/em>: processo de um racismo mascarado, j\u00e1 denunciara que a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil lan\u00e7ou nas ruas um contingente de pessoas \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 &#8220;coincid\u00eancia&#8221; que hoje sete em cada dez pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua no Brasil se declaram negras ou pardas? Se 70% das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o negras ou pardas, o que isso significa? Racializar a escuta, o acolhimento e a compreens\u00e3o dos sofrimentos desses sujeitos \u00e9 fundamental. Garantir-lhes direito \u00e9 a t\u00e3o reivindicada Repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica? A \u201cinsist\u00eancia insidiosa\u201d de reneg\u00e1-los \u00e0 pr\u00f3pria sorte \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;exterm\u00ednio de cor&#8221;? N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia, \u00e9 continuidade hist\u00f3rica do processo de escraviza\u00e7\u00e3o, agora travestida de abandono. O asfalto, o viaduto, o papel\u00e3o s\u00e3o a senzala (manic\u00f4mio) reconfigurada de um pa\u00eds que nunca rompeu (estruturalmente) com seus alicerces racistas e coloniais, ainda que hoje vejamos conquistas significativas no campo racial, tais como a pol\u00edtica de cotas e outras a\u00e7\u00f5es afirmativas. A rua pode ser lida como um &#8220;novo quilombo \u00e0s avessas&#8221;, onde a liberdade \u00e9 a aus\u00eancia de direitos, e a sobreviv\u00eancia se d\u00e1 na dureza do concreto. O racismo molda os contornos do que chamamos de &#8220;vulnerabilidade&#8221;, mas que, na pr\u00e1tica, \u00e9 viol\u00eancia racial sist\u00eamica.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que se desenha a cr\u00edtica racial: o modo capitalista, em sua fase ultraneoliberal, transforma tudo em mercadoria, inclusive a vida, e produz n\u00e3o apenas pobreza, mas descarta os que n\u00e3o servem. O sistema que opera essa engrenagem \u00e9 o mesmo que transforma a vida em mercadoria e o humano em estat\u00edstica: o neoliberal, que concentra renda, precariza o trabalho e abandona os que n\u00e3o servem ao lucro. E quem s\u00e3o esses que o sistema descarta? A rua se torna o dep\u00f3sito dessa l\u00f3gica. Ali n\u00e3o moram os &#8220;fracassados&#8221;, mas os que foram deixados para tr\u00e1s por uma engrenagem que exige produtividade, velocidade, consumo. Estar na rua \u00e9 resist\u00eancia diante da engrenagem que m\u00f3i corpos e apaga hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>E nesse cen\u00e1rio de brutalidade cotidiana, feito de frio, fome, agress\u00f5es, interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias, remo\u00e7\u00f5es violentas, que surgem outras formas de exist\u00eancia e resist\u00eancia. Porque, se a sociedade falha, a rua inventa. H\u00e1 redes de cuidado que n\u00e3o cabem nas planilhas e nos modelos pr\u00e9-formatados. H\u00e1 la\u00e7os que se constroem entre aqueles que a sociedade insiste em separar. E h\u00e1 tamb\u00e9m cultura, arte viva, insurgente, que desafia o sil\u00eancio imposto. A cultura, nesse contexto, \u00e9 mais que express\u00e3o: \u00e9 redu\u00e7\u00e3o de danos, \u00e9 prote\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 a possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n<p>Uma roda de rap, uma poesia falada, uma m\u00fasica compartilhada ao redor de um fog\u00e3o improvisado, tudo isso \u00e9 cena de vida e sa\u00fade, mesmo quando o fluxo e a cena de uso est\u00e3o nos holofotes midi\u00e1ticos. Sa\u00fade no sentido mais pleno: v\u00ednculo, reconhecimento, resgate da dignidade. A arte \u00e9 o que humaniza quando o mundo tenta desumanizar. E territ\u00f3rio de encontro, onde cabem as singularidades que os servi\u00e7os, algumas vezes, tentam silenciar.<\/p>\n<p>Mas aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se trata de romantizar a rua e suas rela\u00e7\u00f5es. A rua adoece, machuca, mata. A rua n\u00e3o \u00e9 liberdade, \u00e9 o que resta quando a liberdade \u00e9 negada. Por isso, qualquer pol\u00edtica que pretenda enfrentar essa realidade precisa ser ao mesmo tempo estrutural e singular. Estrutural para garantir moradia, renda, acesso \u00e0 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, e singular para reconhecer que cada trajet\u00f3ria tem sua l\u00f3gica, sua dor, seu tempo e, tamb\u00e9m, sua pot\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem durma fora, mas ainda mantenha v\u00ednculos familiares. H\u00e1 quem j\u00e1 construiu uma vida nas cal\u00e7adas, com regras, afetos, rotinas. H\u00e1 quem circula pela cidade, tentando fugir do desemprego. H\u00e1 tamb\u00e9m quem est\u00e1 em sofrimento ps\u00edquico grave ou em uso abusivo de subst\u00e2ncias, e ainda assim segue tentando existir. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica rua, nem uma \u00fanica resposta. Por isso, apostar na singularidade \u00e9 um gesto radical. E isso n\u00e3o significa negar os aspectos coletivos, mas entend\u00ea-los a partir do que pulsa no corpo de cada pessoa. Uma pol\u00edtica p\u00fablica que ignora essa complexidade est\u00e1 fadada ao fracasso ou \u00e0 viol\u00eancia institucionalizada.<\/p>\n<p>Os modelos que colocam a moradia como ponto de partida, como o <em>Housing <\/em><em>f<\/em><em>irst<\/em>, demonstram que \u00e9 poss\u00edvel fazer diferente. Dar casa antes de exigir estabilidade. Oferecer dignidade antes de cobrar contrapartida. A rua n\u00e3o pode ser o ponto final. A porta de sa\u00edda precisa estar aberta, mas sem tranca, sem vigil\u00e2ncia, sem humilha\u00e7\u00e3o. Uma casa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 abrigo: \u00e9 ch\u00e3o para reconstruir a vida.<\/p>\n<p>A pergunta <em>haver<\/em><em>\u00e1 futuro para quem vive nas ruas?<\/em> \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o. Porque o futuro n\u00e3o se constr\u00f3i depois; se constr\u00f3i em condi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m imediatas. E somente haver\u00e1 futuro poss\u00edvel se ele incluir os que est\u00e3o supostamente de fora, se ele for atravessado pelas vozes silenciadas, pelos corpos esgotados, pelos desejos que resistem, mesmo na pedra dura do abandono.<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de fazer uma homenagem a uma dessas pessoas cuja rua foi desterro, palco e espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. Desde que comecei a escutar cotidianamente as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, o absurdo parece figurar parte do cotidiano. Mas \u00e9 tamb\u00e9m na escuta dessas pessoas que eu encontro a condi\u00e7\u00e3o humana naquilo que ela tem de mais ambivalente: o amor e o \u00f3dio, a beleza e o horror.<\/p>\n<p>Afr\u00e2nio era um sujeito que adorava a palavra &#8220;adversidades&#8221;. Sempre que podia, ele a pronunciava com seu sotaque carioca e seu jeito sedutor. Homem de meia-idade, pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua. Psic\u00f3tico, alcoolista cr\u00f4nico, paciente de um CAPS-AD. Ele gostava de ouvir a m\u00fasica <em>Detalhes<\/em>, eternizada na voz de Roberto Carlos. Quando a escutava, fechava os olhos, mantinha um sorriso maroto no rosto e, com as m\u00e3os no peito e os olhos fechados, elevava a voz quando Robert\u00e3o desafiava sua amada na can\u00e7\u00e3o: <em>Se um outro cabeludo aparecer na sua rua\/ E isto lhe trouxer saudades minhas\/ A culpa \u00e9 <\/em><em>sua.<\/em> Detalhe: Afr\u00e2nio era calvo. Seu humor e modo despojado cativavam toda a equipe e os demais usu\u00e1rios da unidade. Quando suas resist\u00eancias o impediam e\/ou dificultavam a sustenta\u00e7\u00e3o da contratualidade do seu Projeto Terap\u00eautico Singular, ele argumentava que a vida era repleta de adversidades. Afr\u00e2nio era uma personagem urbana, um <em>fl<\/em><em>\u00e2<\/em><em>neur<\/em>. Mantinha intelig\u00eancia, delicadeza no trato e cogni\u00e7\u00e3o preservada, embora estivesse sempre (ou quase sempre) sob efeito do \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Em uma manh\u00e3 gelada, uma mensagem no celular me faz lembrar que o inverno pode ser mais que uma esta\u00e7\u00e3o do ano: ele expressa o n\u00edvel da desigualdade social, quando nem todos t\u00eam abrigo. Por mensagem, uma colega busca informa\u00e7\u00f5es sobre &#8220;um corpo&#8221; que havia sido encontrado, ao que tudo indicava, era uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua. Pelo levantamento obtido at\u00e9 aquele momento, era de um homem em situa\u00e7\u00e3o de rua e que talvez seu nome fosse Afr\u00e2nio. Mesmo com os privil\u00e9gios do meu corpo aquecido, eu gelei. N\u00e3o podia acreditar. Nosso paciente, nosso carioca, o Seu Afr\u00e2nio, ou para os seus companheiros de cal\u00e7ada, o V\u00e9io do Largo. Querido pelos demais usu\u00e1rios do CAPS-AD, conhecido por todos os profissionais da rede. Justo ele, que amava a palavra &#8220;adversidade&#8221;&#8230; Teria sido levado por uma &#8220;adversidade clim\u00e1tica&#8221;&#8230; Dif\u00edcil acreditar.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 fria, a constata\u00e7\u00e3o de que todo trabalho t\u00e9cnico pode ser insuficiente diante da aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturantes que assegurem o direito de n\u00e3o morrer de frio (ou de abandono). Judith Butler, em seus estudos sobre a viol\u00eancia, problematiza que algumas vidas n\u00e3o possuem valor, por isso precisam ser afirmadas como importantes &#8211; a exemplo da palavra de ordem &#8220;Vidas Negras Importam&#8221;. Ao problematizar a banaliza\u00e7\u00e3o e a desumaniza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra os corpos que n\u00e3o s\u00e3o passiveis de produzir sofrimento na sociedade, a fil\u00f3sofa elucida a import\u00e2ncia do trabalho de luto como sentido pol\u00edtico e coletivo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes eu me sinto como Dora, a personagem da Fernanda Montenegro no filme <em>Central do Brasil<\/em>. Sei que sou portadora e, de alguma maneira, escritora de cartas e hist\u00f3rias que nunca chegaram ao seu destino. Dora, por mesquinharia e sordidez, embora soubesse os destinos das cartas que escrevia, n\u00e3o as endere\u00e7ava. J\u00e1 no meu caso, as hist\u00f3rias quase nunca possuem um destino. Por isso eu as guardo, e quando tenho a oportunidade, as publico com respeito e carinho, possibilitando que elas tenham algum lugar em algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sociabilidade, cultura, arte, luto: atributos e cria\u00e7\u00f5es humanas. Reivindicar tais direitos e lhes atribuir humanidade. E preciso devolver a palavra a quem a cidade mandou calar. Feita a reflex\u00e3o, finalizo com o convite: escutar, antes de prescrever. Partilhar, antes de intervir. Construir, juntos, sa\u00eddas que respeitem as diferen\u00e7as e enfrentem o que \u00e9 comum: a urg\u00eancia de transformar uma pol\u00edtica de descaso em uma pol\u00edtica de cuidado.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o acontecer, cada barraca sob o viaduto e cada maloca em pra\u00e7a p\u00fablica ser\u00e1 uma den\u00fancia viva de que a justi\u00e7a social ainda n\u00e3o tem onde morar.<\/p>\n<p>Recentemente, descobri o sentido po\u00e9tico da express\u00e3o \u201cresfolego da sanfona&#8221;. Essa imagem ficou famosa na can\u00e7\u00e3o <em>Vem <\/em><em>m<\/em><em>orena<\/em>, do m\u00fasico Gerson Filho, eternizada na voz do Rei do Bai\u00e3o, Luiz Gonzaga. Tomemos o resfolego da sanfona como met\u00e1fora: cada sanfoneiro toca de um jeito, e \u043e controle do fole \u00e9 a marca que diferencia os m\u00fasicos. Por ser uma t\u00e9cnica que re\u00fane const\u00e2ncia, precis\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o, o &#8220;resfolego&#8221; permite ao m\u00fasico imprimir sua emo\u00e7\u00e3o, sua personalidade \u00e0 sua m\u00fasica, criando um som singular e \u00fanico. A forma como um sanfoneiro utiliza o &#8220;resfolego\u201d pode ser uma caracter\u00edstica distintiva de seu estilo e de sua identidade musical. O que estamos propondo \u00e9 mais ou menos isso: que cada pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua tenha a oportunidade de encontrar seu ritmo, seu estilo no resfolego da vida. Ora, n\u00e3o \u00e9 isso que nos ensina a redu\u00e7\u00e3o de danos como \u00e9tica do cuidado?<\/p>\n<p>Assim, o Festival Pop Rua e o Encontro Tecendo Redes: Rua, Cultura e Cidadania nascem como sopro de mobiliza\u00e7\u00e3o, um chamado coletivo para tecer, a muitas m\u00e3os, estrat\u00e9gias que unam os fios dos direitos humanos, do direito \u00e0 cidade e \u00e0 cultura. Todos entrela\u00e7ados com pr\u00e1ticas \u00e9ticas, emancipat\u00f3rias e antirracistas de cuidado com quem vive a cidade desde suas frestas. Apostamos que \u00e9 a arte e a cultura como este tear, que se erguem como abrigo, voz, resist\u00eancia e direito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado na Cartilha do Festival PopRua: Popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e o direito \u00e0 cultura. 28 a 30 de agosto de 2025. Minist\u00e9rio da Cultura, Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, por meio da Secretaria da Cultura,\u00a0 Economia e Ind\u00fastria Criativas, e SESC &#8211; Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista e assistente social, aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde integra a equipe editorial deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line e a Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escuta singular e estrat\u00e9gias coletivas humanizadoras: convite sens\u00edvel a repensar pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Por Fernanda Almeida.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[54,138,361],"edicao":[349],"autor":[71],"class_list":["post-3974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-decolonial","tag-direitos-humanos","tag-o-que-resta","edicao-boletim-77","autor-fernanda-almeida","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3974"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3974\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4017,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3974\/revisions\/4017"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3974"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3974"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}