{"id":3976,"date":"2025-11-16T10:31:34","date_gmt":"2025-11-16T13:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3976"},"modified":"2025-11-16T10:32:00","modified_gmt":"2025-11-16T13:32:00","slug":"sobre-uma-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/sobre-uma-experiencia\/","title":{"rendered":"Sobre uma experi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre uma experi\u00ea<\/strong><strong>ncia<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Cleide Monteiro<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 de ser atravessada por uma experi\u00eancia que quero escrever. Foram tr\u00eas momentos de eventos do Departamento de Psican\u00e1lise que produziram em mim uma rea\u00e7\u00e3o intensa.<\/p>\n<p>Primeiro a apresenta\u00e7\u00e3o de casos cl\u00ednicos dos aprimorandos do curso Psican\u00e1lise na Cl\u00ednica do Sedes (atividade interna ao curso, denominada <em>Espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o Cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nico<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>). O tema era <em>viol<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia<\/em> e foram apresentados relatos de pacientes nos quais a viol\u00eancia fora sofrida efetivamente atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es de espancamentos que deixaram marcas no corpo e que tinham esse nome e valor: viol\u00eancia, e situa\u00e7\u00e3o de uso sexual de filhas, executado pelo pai, e que tiveram como resposta da m\u00e3e, quando interpelada sobre esses acontecimentos, que era direito do pai. Como abord\u00e1-la ou nomin\u00e1-la no tratamento? Seria a n\u00e3o denomina\u00e7\u00e3o de abuso uma recusa do sentido do ato?<\/p>\n<p>No evento <em>Psican<\/em><em>\u00e1lise e sexualidades: multiplicidades e espirais do desejo<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, o questionamento da defini\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica de sexualidade se deu em in\u00fameros contextos, tratando fundamentalmente do quanto essa teoria traz a marca de seu tempo, ou seja, da modernidade. Tamb\u00e9m o questionamento do modelo ocidental de ci\u00eancia, atrav\u00e9s do dualismo com o qual define as diferen\u00e7as e o apagamento do saber de outras culturas, atrav\u00e9s do projeto colonial, foi tematizado.<\/p>\n<p>Na roda de conversa <em>Cartas a um velho terapeuta<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> se configurou para mim o tamanho da proposta que me parecia dever ser algo que n\u00e3o transformasse diferen\u00e7as em hierarquias de valor, de direitos. Precisar\u00edamos ent\u00e3o desenvolver um conceito de natureza humana!!! Como nos identificarmos como humanos? Lembrei-me da Declara\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Mas essa declara\u00e7\u00e3o foi realizada pela sociedade ocidental!!!!!!!! no p\u00f3s segunda guerra mundial. De como est\u00e3o definidos os humanos nessa declara\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o tinha conhecimento. Algo para pesquisar. Mas, nitidamente, uma tentativa de que alguma produ\u00e7\u00e3o ocidental tivesse se preocupado e produzido algo que nos unisse.<\/p>\n<p>Seriam essas formula\u00e7\u00f5es a nova utopia para o s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos humanos em lutas e guerras desde tempos imemoriais nos mostra um panorama nada animador, no qual o dom\u00ednio sobre os \u201cdiferentes\u201d (definidos de in\u00fameras maneiras), se dava pelas conquistas de territ\u00f3rio e pela escraviza\u00e7\u00e3o dos perdedores.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no evento se apontava a coloniza\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos exercer quando n\u00e3o compreendemos os acontecimentos dentro do sistema cultural do paciente. Imediatamente me voltou \u00e0 mem\u00f3ria a apresenta\u00e7\u00e3o do caso cl\u00ednico da paciente abusada sexualmente pelo pai. Se trataria de nominar a situa\u00e7\u00e3o como abuso, se na cultura de origem isso era um direito? Estar\u00edamos colonizando? Dependeria certamente do contexto no qual esse acontecimento estaria sendo relatado. Poderia a paciente estar com d\u00favidas sobre a regra de sua cultura, portanto j\u00e1 marcada com outro regramento cultural. Mas, acrescento n\u00e3o ser nada f\u00e1cil essa discrimina\u00e7\u00e3o para o analista que tamb\u00e9m \u00e9 marcado pela sua cultura.<\/p>\n<p>O questionamento do enquadre psicanal\u00edtico como uma forma que replicava o laborat\u00f3rio, o experimento, no qual se eliminam vari\u00e1veis para chegar ao objeto a ser pesquisado, modelo de ci\u00eancia ocidental de reduzir as vari\u00e1veis, me surpreendeu. Por\u00e9m, em outros termos, j\u00e1 temos conhecimento de experi\u00eancias cl\u00ednicas que se balizam por outros modos de cl\u00ednica, seja na rede p\u00fablica, nos atendimentos de rua ou nos espa\u00e7os p\u00fablicos. O que elas nos contam quanto \u00e0s possibilidades n\u00e3o ritual\u00edsticas de chegar ao inconsciente? Ou, em outros termos, nos aproximam do sofrimento dos humanos, bastante promovido, influenciado pelo entorno social que nos demanda ou nos nega exist\u00eancia? O que nos ensinam essas cl\u00ednicas? Muitas vezes encontros pontuais e que nos fazem pensar qual efeito? Baseados em que cren\u00e7as?<\/p>\n<p>Esse conjunto de questionamentos e rea\u00e7\u00f5es que me animei em publicar, me mostram quanto o processo de letramento nas quest\u00f5es raciais &#8211; e incluo as de g\u00eanero -, transitam em terreno profundo de nossas convic\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as sobre o humano, que s\u00e3o marcas de nossa constitui\u00e7\u00e3o muitas vezes nunca colocada em palavras. T\u00eam o poder de abalar pontos essenciais do que se considerou at\u00e9 o momento como pilares, ampliando o territ\u00f3rio das incertezas. Por\u00e9m, tamb\u00e9m produzem possibilidades de conversas em espa\u00e7os que permitam falar das incertezas, estudos sobre essas novas formula\u00e7\u00f5es e novas experi\u00eancias cl\u00ednicas. Essas consequ\u00eancias me parecem ter bastante semelhan\u00e7a com o que considero processo anal\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> N. E.: O leitor encontra um registro do &#8220;<em>Espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o Cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nico 2025<\/em> &#8211; Evento do Curso de Psican\u00e1lise\u201d na edi\u00e7\u00e3o 76 deste boletim online, de setembro de 2025. Por Paula Francisquetti: https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/espaco-clinico-2025-evento-do-curso-de-psicanalise\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> N. E.: O leitor encontra uma reflex\u00e3o acerca deste evento na se\u00e7\u00e3o Not\u00edcias do Departamento da presente edi\u00e7\u00e3o do boletim online. Por Mar\u00edlia Campos Oliveira e Telles.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> N. E.: A respeito deste evento, ver &#8220;Roda conversa sobre as <em>Cartas a um velho terapeuta<\/em> no Sedes&#8221;, por Fabiana Gomes, na edi\u00e7\u00e3o 76 deste boletim online: https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/roda-conversa-sobre-as-cartas-a-um-velho-terapeuta-no-sedes\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Humanidade e \u00e9tica des\/enquadradas: os pensamentos fervilhantes de Cleide Monteiro.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[361,126],"edicao":[349],"autor":[291],"class_list":["post-3976","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-o-que-resta","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-77","autor-cleide-monteiro","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3976","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3976"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3978,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3976\/revisions\/3978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3976"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3976"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}