{"id":3979,"date":"2025-11-16T10:41:42","date_gmt":"2025-11-16T13:41:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3979"},"modified":"2025-11-16T10:42:47","modified_gmt":"2025-11-16T13:42:47","slug":"imagens-da-infamia-e-violencia-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/imagens-da-infamia-e-violencia-social\/","title":{"rendered":"Imagens da inf\u00e2mia e viol\u00eancia social"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Imagens da inf\u00e2mia e<br \/>\nviol\u00eancia social<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Denise Cardoso Cardellini, Ester Alves e Nelci Ramos Andregheto<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c&#8230;o d\u00e9cimo terceiro tiro me assassina \u2013 porque eu<br \/>\nsou o outro. Porque eu quero ser o outro.\u201d<br \/>\nClarice Lispector \u2013 Mineirinho<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vive-se tempos aqu\u00e9m da civilidade e da \u00e9tica. Todos os dias, somos assombrados com os acontecimentos no mundo. As guerras n\u00e3o acabam e, nas cidades brasileiras, percebemos que a viol\u00eancia se alastra numa destrutividade social que afeta as rela\u00e7\u00f5es institucionais e pessoais. O epis\u00f3dio horripilante no Rio de Janeiro, perpetrado em 28 de outubro deste ano, que mais parece uma &#8220;guerra urbana\u201d, conta com armas, drones e cad\u00e1veres. Nos horrorizamos com as imagens devastadoras e repetidas desta trag\u00e9dia. O pior \u00e9 que, ao inv\u00e9s de convocar indigna\u00e7\u00e3o e reformula\u00e7\u00e3o dos nossos pactos sociais em favor da civilidade, elas funcionam como viol\u00eancia espetacular a partir do ceifar das vidas e da exposi\u00e7\u00e3o dos corpos.<\/p>\n<p>Sabemos que a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 complexa e dif\u00edcil de ser encaminhada. As condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias,\u00a0associadas a um ambiente social e pol\u00edtico degradado, atravessado pelo racismo e exclus\u00e3o social, favorecem\u00a0opress\u00f5es e injusti\u00e7as sob a forma de viol\u00eancia urbana. Como sempre, os efeitos recaem sobre os mais vulner\u00e1veis, vimos isso na ofensiva no Morro do Alem\u00e3o e Penha, onde a viol\u00eancia est\u00e1 autorizada e \u00e9 executada pelo Estado. S\u00e3o territ\u00f3rios que denunciam a insufici\u00eancia nas pol\u00edticas p\u00fablicas, evidenciando a alian\u00e7a entre a pobreza e a injusti\u00e7a social e escancarando o la\u00e7o social perverso.<\/p>\n<p>Os notici\u00e1rios que exploram a inseguran\u00e7a p\u00fablica trabalham com o fato de que \u201c&#8230;sem imagem n\u00e3o h\u00e1 medo, e sem medo n\u00e3o h\u00e1 consentimento\u201d, como aponta Reynaldo Aragon, jornalista e geopol\u00edtico que fez uma importante den\u00fancia sobre a matan\u00e7a do dia 28 de outubro<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Obviamente, a explora\u00e7\u00e3o do medo pela exposi\u00e7\u00e3o das imagens visa a narrativas importantes para os jogos de poder.<\/p>\n<p>Nesse sentido, nos cabe apontar que veicular tais imagens, para al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o de ilustrar narrativas, \u00e9 pe\u00e7a fundamental de sua constru\u00e7\u00e3o e, por isso, impacta e direciona o exerc\u00edcio civilizat\u00f3rio. Os desdobramentos tecnol\u00f3gicos da imagem (o que inclui pixels, resolu\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o, profundidade de cor, luminosidade etc.), em sua passagem do modo anal\u00f3gico para o digital, carregam uma vers\u00e3o conceitual que implica em uma forma de governo do\/pelo olhar<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> e s\u00e3o dirigidos para as disputas de poder.<\/p>\n<p>No cotidiano, imagens violentas podem vir travestidas de \u201chumor\u201d, o que, segundo Jurandir Freire Costa<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, \u00e9 forma de gest\u00e3o do obsceno. Para abordar o tema, ele formula os conceitos de inf\u00e2mia recreativa e inf\u00e2mia punitiva. Na inf\u00e2mia recreativa n\u00e3o temos humor, temos, sim, a degrada\u00e7\u00e3o do outro, o gozo do opressor sobre o oprimido, o que no final, resulta em sua desumaniza\u00e7\u00e3o. Na inf\u00e2mia punitiva, o sujeito, supostamente transgressor, se submete \u00e0 l\u00f3gica do grupo\u00a0 punindo-se publicamente como forma de reden\u00e7\u00e3o. O autor traz como exemplo os rituais de expia\u00e7\u00e3o no contexto religioso.<\/p>\n<p>Assim, nos defrontamos com situa\u00e7\u00f5es cotidianas impressionantes. Na novela <em>Vale tudo<\/em> &#8211; uma fic\u00e7\u00e3o &#8211; a vil\u00e3 que armou tantas perip\u00e9cias, maldades e crimes contra os outros, na embalagem de luxo e glamour do poder, arrancou do p\u00fablico simpatia e risos com a mis\u00e9ria dos fracos. N\u00e3o h\u00e1 culpabiliza\u00e7\u00e3o, nem responsabiliza\u00e7\u00e3o pelas inf\u00e2mias produzidas, sendo elas reproduzidas nas redes sociais.<\/p>\n<p>Na subjetividade contempor\u00e2nea, percebe-se a exacerba\u00e7\u00e3o do narcisismo junto com o predom\u00ednio do funcionamento ps\u00edquico\u00a0prim\u00e1rio. Com isso, vai-se achatando os ideais, estreitando o simb\u00f3lico e deixando marcas que adoecem o sujeito. O narcisismo tem como caracter\u00edstica o funcionamento no qual eu e outro s\u00e3o categorias que n\u00e3o fazem dial\u00e9tica. A l\u00f3gica do \u201cou eu, ou o outro\u201d, favorece a paranoia, o que d\u00e1 ader\u00eancia \u00e0s imagens do inimigo. Da\u00ed o incremento do &#8220;efeito manada&#8221; e das polariza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica atual, temos observado manifesta\u00e7\u00f5es da regress\u00e3o ps\u00edquica com destaque para tra\u00e7os de onipot\u00eancia (reativa \u00e0 impot\u00eancia) evidenciados em patologias do <em>acting out<\/em>, quadros ansiosos e depressivos, os quais remetem \u00e0 presen\u00e7a de fragilidades na condi\u00e7\u00e3o do pensar e elaborar.<\/p>\n<p>Tais fragilidades propiciam cren\u00e7as constitu\u00eddas em blocos totalit\u00e1rios e impenetr\u00e1veis. As cren\u00e7as podem ter o car\u00e1ter protetivo, mas, tamb\u00e9m, podem se cristalizar em figuras do inimigo e incremento da rivalidade, promovendo enrijecimento ps\u00edquico. Tudo isso contribui para o esgar\u00e7amento do la\u00e7o social, que retroalimenta a produ\u00e7\u00e3o do mal-estar na contemporaneidade.<\/p>\n<p>Nesse momento cultural de grande instabilidade, a psican\u00e1lise tem como desafio \u00e9tico impedir que temas recorrentes e pulsantes como viol\u00eancias, racismo, sexismo, exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios e injusti\u00e7a social sejam banalizados por imagens em detrimento da circula\u00e7\u00e3o da palavra e seus efeitos simb\u00f3licos. Essa tarefa requer a continuidade da interlocu\u00e7\u00e3o com outros campos do saber.<\/p>\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, que se investir na civilidade e na \u00e9tica para que os pactos sociais firmados barrem o gozo obtido no exerc\u00edcio da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os e do cansa\u00e7o de todos, precisamos como sociedade fazer mais na dire\u00e7\u00e3o do cuidado comunit\u00e1rio e apostas em a\u00e7\u00f5es coletivas. Dessa forma, poderemos ter ant\u00eddotos contra a barb\u00e1rie, a fim de sustentar a democracia e, no limite, a humanidade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>Psicanalistas, membros do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrantes do grupo de trabalho e pesquisa Psican\u00e1lise e Contemporaneidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalistas, membros do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrantes do grupo de trabalho e pesquisa Psican\u00e1lise e Contemporaneidade.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lispector, Clarice. \u201cPara n\u00e3o esquecer\u201d (1999). Editora Rocco.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.codigoaberto.net\/post\/a-farsa-do-narcoterrorismo-como-o-rio-virou-laborat%25C3%25B3rio-da-guerra-h%25C3%25ADbrida-contra-o-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.codigoaberto.net\/post\/a-farsa-do-narcoterrorismo-como-o-rio-virou-laborat%C3%B3rio-da-guerra-h%C3%ADbrida-contra-o-brasil<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Georges Didi-Huberman trabalha esses conceitos em <em>O que vemos, o que nos olha<\/em> (1998), <em>Diante da imagem <\/em>(2013) e <em>Imagens apesar de tudo<\/em> (2012), todos eles lan\u00e7ados no Brasil pela Editora 34.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Costa, Jurandir Freire. <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do pudor<\/em> (2023). Editora Zagodoni.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resta ser o outro. 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