{"id":3987,"date":"2025-11-16T10:58:54","date_gmt":"2025-11-16T13:58:54","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3987"},"modified":"2025-11-17T16:53:59","modified_gmt":"2025-11-17T19:53:59","slug":"eros-alteridade-e-criatividade-em-tempos-de-assombro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/eros-alteridade-e-criatividade-em-tempos-de-assombro\/","title":{"rendered":"Eros, alteridade e criatividade em tempos de assombro"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O assombro: uma maneira de escutar o mundo<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong>J\u00falia Louzada<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3922\" aria-describedby=\"caption-attachment-3922\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3922\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3a_cronica_julia.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3a_cronica_julia.jpg 600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3a_cronica_julia-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3922\" class=\"wp-caption-text\">Foto de S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Cr<\/em><em>\u00f4nica escrita para o Boletim <\/em><em>on<\/em><em>line do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, inspirada no Congresso da FLAPPSIP 2025, realizado em Lima, Peru. Encomendada por S\u00edlvia Nogueira de Carvalho, num cochicho do audit\u00f3rio, animada pela frase de Silvia Alonso: \u201cVamos ao trabalho\u201d e pelos muros de Barranco, que diziam: <\/em>\u201cMucho a hacer, mucho a so\u00f1ar.\u201d <em>Endere<\/em><em>\u00e7ada aos colegas que estiveram, ou tiveram not\u00edcias do congresso, foi rabiscada nos materiais impressos do evento, entre caf\u00e9s e piscos, com o mesmo esp\u00edrito de quem escreve para n\u00e3o deixar o assombro se dissipar.<\/em><\/p>\n<p>Assombrar-se \u00e9 verbo em movimento. N\u00e3o se conjuga no passado nem se acomoda no presente. Assombrar-se \u00e9 permanecer atento, exposto, ferido de mundo. Foi esse o gesto que a FLAPPSIP prop\u00f4s em Lima, uma travessia coletiva sob o c\u00e9u quase im\u00f3vel do Pac\u00edfico, onde o sol parece se esconder.<\/p>\n<p>Nos reunimos nos arredores do Parque El Olivar, que guardava o sil\u00eancio das oliveiras antigas que viram imp\u00e9rios passarem, as democracias se constru\u00edrem e cambalearem.\u00a0 Talvez tenha passado por l\u00e1 Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, aquele marxista peruano, um dos primeiros leitores de Freud na Am\u00e9rica Latina, que em sua revista Amauta, em 1928, publicou textos sobre psican\u00e1lise, entre eles <em>\u201c<\/em><em>Freudismo e marxismo<\/em><em>\u201d<\/em> e <em>\u201c<\/em><em>Freudismo en la literatura contempor<\/em><em>\u00e1nea\u201d<\/em>. E que nos seus <em>Sete ensaios de i<\/em><em>nterpreta<\/em><em>\u00e7\u00e3o da realidade p<\/em><em>eruana<\/em> j\u00e1 intu\u00eda que compreender um povo exigia escutar tamb\u00e9m o que nele sonha e delira,\u00a0 gesto que, de algum modo, antecipava a escuta psicanal\u00edtica de nosso continente.<\/p>\n<p>O congresso foi antecedido e permeado por caminhadas: pelas ruas, pelos museus, pelas conversas que se prolongavam sem roteiro. Havia ceviches e sorrisos, ru\u00ednas em formato de bibliotecas, vozes misturadas em espanhol, portugu\u00eas e a s\u00edntese do portunhol. No Museo Larco, o barro lembrava que toda forma nasce de um gesto inacabado. No antigo Museo del sexo, agora Galer\u00eda er\u00f3tica, o deslocamento do acervo \u00e0 arte diz de um tempo em que o corpo est\u00e1 em disputa. No Museu da tecelagem, os fios e tecidos desenhavam, com paci\u00eancia, a met\u00e1fora do que somos: tramas, encontros, intervalos.<\/p>\n<p>Nossa mirada sobre essas tramas antecipava algo nosso que marcaria o congresso. \u00c9ramos cerca de cento e cinquenta brasileiros &#8211;<em> intensos<\/em>, entre quatrocentos participantes de tantos pa\u00edses do sul. E havia nos nossos trabalhos uma marca, um pulso novo. Uma psican\u00e1lise com cor, com corpo, com territ\u00f3rio. Uma psican\u00e1lise que se faz em cl\u00ednicas p\u00fablicas, em ocupa\u00e7\u00f5es, em grupos, em cozinhas, e que se deixa atravessar pelas pra\u00e7as, pelas ruas e pelos gestos pol\u00edticos e pela arte. Trabalhos nascidos de um pa\u00eds que h\u00e1 pouco recuperou a democracia e que ainda luta por sustent\u00e1-la. Nossas falas traziam essa mistura, rigor e ginga, teoria e urg\u00eancia, o pensamento atravessado por vozes m\u00faltiplas. Havia algo ali sendo constru\u00eddo: uma psican\u00e1lise que n\u00e3o teme se aproximar do vivo, do que d\u00f3i e pulsa. E que \u00e9 ainda por vezes questionada. Mas entre os corredores, as mesas e os intervalos, era poss\u00edvel perceber: algo novo est\u00e1 se tecendo neste sul do mundo.<\/p>\n<p>Nesse compasso estava Isildinha Baptista Nogueira toda de branco, numa sexta-feira de Oxal\u00e1, como acontecimento \u00e9tico e est\u00e9tico. Falava sobre o efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro, e o audit\u00f3rio, em sil\u00eancio profundo, parecia respirar junto com ela. Uma confer\u00eancia magistral, aplausos de p\u00e9: n\u00e3o homenagem, mas reconhecimento de uma psican\u00e1lise que se expande ao incluir o que foi exclu\u00eddo, que se faz mais verdadeira quando atravessada pelo mundo. Nesse mesmo dia, se somaram nesse movimento jovens analistas em forma\u00e7\u00e3o, estudantes peruanos ergueram a pr\u00f3pria voz, denunciando a pol\u00edtica do pa\u00eds dentro e fora das mesas.<\/p>\n<p>Ainda sobre as nossas marcas, no dia seguinte, somos brindados com o document\u00e1rio de Miriam Chnaiderman, que se fez resposta visual, ritmada e pol\u00edtica a um conferencista em retirada. O cinema veio ocupar o espa\u00e7o com imagens e corpos, gesto po\u00e9tico de resist\u00eancia e continuidade. Enquanto muitos permanecem, outros chegam; e, na intensidade do encontro, algo se reconfigura.<\/p>\n<p>Essas cenas: o filme, o aplauso, a den\u00fancia, o murm\u00fario das conversas, s\u00e3o o tecido invis\u00edvel do congresso. Delas nasce o verdadeiro trabalho, aquele que n\u00e3o cabe nos anais, mas se prolonga em cada escuta, em cada transmiss\u00e3o, em cada corpo que volta transformado.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise latino-americana, com sua voca\u00e7\u00e3o para o deslocamento, continua se inventando nesse assombro. O que parece recusa \u00e9, na verdade, a forma como o pensamento se protege da paralisia. O assombro \u00e9 o modo latino de resistir: \u00e9 movimento, \u00e9 insist\u00eancia, \u00e9 o desejo de n\u00e3o ceder \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o do saber. Lima nos devolveu essa li\u00e7\u00e3o: que o pensamento tamb\u00e9m precisa respirar neblina. Que h\u00e1 beleza no cinza, vigor na aus\u00eancia do sol, mas que precisamos aproveitar todo raio de sol. Que o barro, o fio e a palavra s\u00e3o feitos da mesma mat\u00e9ria, pois o assombro \u00e9 uma forma delicada de compromisso.<\/p>\n<p>Somamo-nos aos escritos que j\u00e1 narraram os assombros coletivos e individuais e trazemos para casa o trabalho. Silvia Alonso, ao encerrar o texto de abertura, disse o que agora ressoa como convoca\u00e7\u00e3o e destino: <em>\u201cVamos ao trabalho!\u201d<\/em><\/p>\n<p>E o assombro, companheiro estranhamente familiar, sorriu. Porque o trabalho da psican\u00e1lise come\u00e7a sempre a\u00ed, onde o espanto se transforma em gesto, e a escuta encontra, no outro, a promessa de algo novo.<\/p>\n<p>Agora, come\u00e7amos a preparar o pr\u00f3ximo congresso, em 2027, em casa.<\/p>\n<p>E o trabalho, sabemos, j\u00e1 come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Entre pap\u00e9is, caf\u00e9s e travessias, seguimos tecendo.<\/p>\n<p>Costurando com barro, fio e desejo.<\/p>\n<p>O assombro, aqui, na nossa cozinha, \u00e9 tempero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Eros, alteridade e psicanalistas que dan\u00e7am &#8211; o Brasil em Lima<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong>Elaine Souza<\/strong><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong><sup>[3]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3923\" aria-describedby=\"caption-attachment-3923\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3923\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3b_cronica_elaine.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"350\" height=\"622\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3b_cronica_elaine.jpg 500w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3b_cronica_elaine-169x300.jpg 169w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3923\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Fernanda Almeida<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No aeroporto de Guarulhos j\u00e1 era poss\u00edvel perceber a presen\u00e7a expressiva dos psicanalistas brasileiros rumo ao Congresso. A espera dos voos tornou-se encontro entre os conhecidos, admirados e transmissores das psican\u00e1lises com os novos psicanalistas em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a tripula\u00e7\u00e3o soubesse do que se tratava naqueles diversos aglomerados que papeavam \u00e0 espera do voo, talvez caberiam as boas-vindas espec\u00edficas aos v\u00f4os lotados de <em>psi<\/em>.<\/p>\n<p>Caberiam as boas-vindas tamb\u00e9m \u00e0 presen\u00e7a acalorada do Sedes, e aos psicanalistas em forma\u00e7\u00e3o, que faziam sua primeira viagem internacional, e\/ou participando pela primeira vez de um congresso latino-americano de psican\u00e1lise para apresentar trabalho, n\u00e3o por acaso, todos cotistas do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes.<\/p>\n<p>\u00c0 chegada ao territ\u00f3rio peruano, na sa\u00edda do aeroporto, j\u00e1 avistamos casas com tijolos baianos aparentes, colaborando com a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos pela primeira vez em um territ\u00f3rio conhecido, pelas semelhan\u00e7as ao nosso, mas com uma especificidade gastron\u00f4mica que inclui peixes e frutos do mar frescos e bebidas feita de ervas, como a <em>e<\/em><em>moliente<\/em>, servida durante o caf\u00e9 no congresso ou a refrescante <em>curatudo<\/em> servida no restaurante Barra Chacala.<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica do XIII Congresso, <em>Eros, alteridade e criatividade<\/em>, nos convidava para um exerc\u00edcio de reflex\u00f5es coletivas; nos esperavam tr\u00eas dias de uma programa\u00e7\u00e3o intensiva de um pouco mais de 12 horas por dia, com mesas de trabalhos diversos, confer\u00eancias magistrais e plen\u00e1rias. Uma diversidade de trabalhos e temas apresentados em mesas de forma simult\u00e2nea, nos fazendo lidar com a conhecida falta que uma escolha requer.<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o das mesas juntava analistas conhecidos com analistas em forma\u00e7\u00e3o, falantes nativos de l\u00edngua portuguesa com <em>hispanohablantes<\/em>, pa\u00edses e diferentes institutos de forma\u00e7\u00e3o, professores com analistas em forma\u00e7\u00e3o. Como num <em>xir\u00ea <\/em>onde o velho se encontrava com o novo, numa dial\u00e9tica ancestral entre a sabedoria necess\u00e1ria para a continuidade da tradi\u00e7\u00e3o (as bases te\u00f3ricas) e a chegada do novo (o psicanalista em forma\u00e7\u00e3o em contexto de constantes mudan\u00e7as).<\/p>\n<p>O Brasil, representado numa confer\u00eancia magistral de uma manh\u00e3 de sexta-feira pela Isildinha Baptista Nogueira, com o tema \u2018\u2019Efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro\u2019\u2019, trazendo reflex\u00f5es sobre a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito negro que \u00e9 atravessada pelo ideal de brancura, propondo uma metapsicologia do sujeito negro. Apresenta\u00e7\u00e3o que encerrou com Isildinha agradecendo de p\u00e9, e sendo aplaudida de p\u00e9 por todo o audit\u00f3rio, numa esp\u00e9cie de resposta corporal simb\u00f3lica a um tema necess\u00e1rio para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica contempor\u00e2nea na Am\u00e9rica Latina em torno da experi\u00eancia da alteridade.<\/p>\n<p>Se sabemos que Eros e puls\u00e3o destrutiva se entrecruzam, enquanto o Congresso mantinha aquecida a nossa capacidade de pensar e fazer cl\u00ednica na contemporaneidade, Lima vivia um contexto pol\u00edtico de intensas manifesta\u00e7\u00f5es contra o presidente interino que havia assumido h\u00e1 poucos dias, ap\u00f3s a destitui\u00e7\u00e3o da antiga presidenta. Durante os protestos um jovem de 32 anos, Eduardo Ruiz Sanz, <em>rapper<\/em> conhecido como Trvko\u00f3 havia morrido baleado, gerando como\u00e7\u00e3o nacional e cr\u00edticas ao novo governo. Ao final de uma das mesas, a \u00faltima de sexta-feira \u00e0 noite, composta por mulheres pertencentes ao Sedes, uma jovem peruana tomou a fala dizendo que procurou pelo Congresso mesas que pudesse falar da psican\u00e1lise em contextos como o que o Peru atualmente est\u00e1 vivendo; emocionada, chamou a aten\u00e7\u00e3o para o congresso acontecer sem nenhuma men\u00e7\u00e3o \u00e0s 3 mortes que haviam ocorrido em decorr\u00eancia dos protestos. Sabemos dos limites de um congresso, mas a psican\u00e1lise tamb\u00e9m n\u00e3o serve para pensarmos temas como a civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A passagem do bast\u00e3o para o Brasil como pa\u00eds que vai sediar o pr\u00f3ximo congresso foi marcada pela fala da Silvia Alonso e de um v\u00eddeo da Miriam Chnaiderman,\u00a0 com trechos da campanha <em>Levante<\/em>, dando um tom de como \u00e9 poss\u00edvel construir o XIV Congresso, e reafirmando a posi\u00e7\u00e3o do Departamento comprometido com a democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no Brasil. N\u00e3o foi s\u00f3 o v\u00eddeo que deu o tom, ao final do congresso, noite de s\u00e1bado na agitada vida noturna de barrancos, nos reunimos para celebrar no bar Ayahuasca. O bar est\u00e1 localizado em um antigo casar\u00e3o, que data da era republicana de Lima, final do s\u00e9culo XIX. Ao sabor do pisco sour e a pedidos de m\u00fasica brasileira para o DJ, quase colocamos o edif\u00edcio abaixo, pelo menos era essa a sensa\u00e7\u00e3o. Por sorte, segundo informa\u00e7\u00f5es peruanas, o casar\u00e3o foi constru\u00eddo com materiais que oferecem resist\u00eancia a movimentos s\u00edsmicos, e agora j\u00e1 sabemos que ele resiste a corpos que acima de tudo sabem a import\u00e2ncia de festejar. Psicanalistas escutam, pensam, falam e tamb\u00e9m dan\u00e7am! Talvez seja nossa forma de civilizar, numa contemporaneidade que tem reconfigurado a todo momento nosso campo pulsional, dan\u00e7ar como uma busca pela vida, por momentos de alegria, pela conex\u00e3o com o outro, por Eros, e por saber da dualidade na presen\u00e7a constante da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Embebidos da alteridade, que nosso pr\u00f3ximo congresso possa manter o di\u00e1logo com o diferente, com o diverso, mas sobretudo com o nosso pr\u00f3prio territ\u00f3rio, sendo o Brasil territ\u00f3rio preto e ind\u00edgena, que psicanalistas ind\u00edgenas tamb\u00e9m possam compor esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O que andamos tomando no Brasil<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>a l\u00edngua chega co\u00e7a<\/em><\/strong><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_3924\" aria-describedby=\"caption-attachment-3924\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3924\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3c_cronica_fabi.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"350\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3c_cronica_fabi.jpg 500w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3c_cronica_fabi-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3924\" class=\"wp-caption-text\">por Fabiana Gomes<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/figcaption><\/figure><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>tenemos la lengua dura los devoradores de dios<br \/>\n<\/em><em style=\"text-align: right;\">de ese dios que crece cada noche con nuestros pelos y u<\/em><em style=\"text-align: right;\">\u00f1as<br \/>\n<\/em><em style=\"text-align: right;\">de ese dios aplastable<br \/>\n<\/em><em style=\"text-align: right;\">perecible<br \/>\n<\/em><em style=\"text-align: right;\">digerible<br \/>\n<\/em><em style=\"text-align: right;\">iluminaci<\/em><em style=\"text-align: right;\">\u00f3<\/em><em style=\"text-align: right;\">n o ceguera<br \/>\n<\/em>Blanca Varela, \u201cIdeas elevadas\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Peru, o pa\u00eds que, em dez anos, mudou de presidente oito vezes, est\u00e1, mais uma vez, num momento de absoluta tens\u00e3o \u2013 na ocasi\u00e3o, a presidenta havia sido deposta h\u00e1 menos de uma semana por um congresso composto por uma maioria de pol\u00edticos de direita e extrema direita, protestos nas ruas, mortes e quebra-quebra no centro da capital, Lima.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a meia hora dali, num <em>barrio<\/em> nobre, no sal\u00e3o principal de baile da psican\u00e1lise, era como se tocasse Mozart e escut\u00e1ssemos o fagueiro tilintar de ta\u00e7as de champanhota importada.<\/p>\n<p>No \u2018sal\u00e3o principal\u2019, com gratas exce\u00e7\u00f5es vindas de <em>Terra Brasilis <\/em>\u2014 como as falas de abertura e encerramento de Silvia Alonso<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> e o v\u00eddeo de apresenta\u00e7\u00e3o do Brasil, pr\u00f3ximo pa\u00eds a sediar o evento, produzido por Miriam Chnaiderman \u2014 pouco se disse sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds. Se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, uma guerreira da audi\u00eancia at\u00e9 tentou, mas n\u00e3o resta claro seu sucesso em <em>perturbar<\/em> a ordem. O cen\u00e1rio \u00e9 a FLAPPSIP 25.<\/p>\n<p>Houve ainda o pipoco do trov\u00e3o que foi a confer\u00eancia magistral de Isildinha Baptista \u2014 que fez o audit\u00f3rio, mais do que fervilhar, irromper em l\u00e1grimas e bra\u00e7os levantados, \u00e1vidos por apresentar suas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>O momento mais trevoso, que tornou o ar denso \u2014 o som das vozes j\u00e1 parecia algo distante, fraco \u2014 se deu com a apresenta\u00e7\u00e3o de um <em>dude<\/em>, membro da IPA, <em>bien s<\/em><em>\u00fbr<\/em>, intitulada \u201cNotas de um psicanalista em retirada\u201d. Remetia a uma psican\u00e1lise que respira por aparelhos e <em>huele<\/em> a naftalina.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o desse <em>se\u00f1or <\/em>em retirada foi uma das poucas a n\u00e3o ser acompanhada pelo texto em portugu\u00eas projetado ao fundo \u2014 considerando que, no formato do evento, os palestrantes apresentavam seus textos em l\u00edngua diversa daquela em que falavam: quem falava portugu\u00eas apresentava em espanhol, e vice-versa. Tal exce\u00e7\u00e3o, de sa\u00edda, j\u00e1 insinua <em>una duda <\/em>quanto ao desejo (ou n\u00e3o) da troca. A abertura n\u00e3o necessitava tradu\u00e7\u00f5es de nenhuma esp\u00e9cie, assim come\u00e7a: \u201cCarmen<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> falou de Hist\u00f3ria, Isildinha<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>, de racismo, falarei de psican\u00e1lise\u201d!<\/p>\n<p>O distinto cavalheiro, que pretendia nos falar sobre psican\u00e1lise, tamb\u00e9m salientou que j\u00e1 bastava tratar <em>tanto<\/em> de pol\u00edtica, que j\u00e1 era hora de voltarmos \u00e0 psican\u00e1lise. Ent\u00e3o, passou a falar de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e hormoniza\u00e7\u00e3o de uma perspectiva eminentemente psiqui\u00e1trica; Miriam<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> protesta, pede a palavra, o tradutor (que, honestamente, pouco traduziu) se <em>esquivoca<\/em> na tradu\u00e7\u00e3o, brados na plateia, um outro fala dos Assex e de que n\u00e3o se encaixam na sigla LGBTQIAP+, uma outra fala do genoc\u00eddio na Palestina&#8230; Algumas pessoas come\u00e7am a se levantar e a deixar o audit\u00f3rio. Rebuli\u00e7o. O palestrante passa a falar de modo jocoso. Torta de clim\u00e3o servida com borbulhas.<\/p>\n<p>Mas, junto ao vento forte trazido por Isildinha Baptista no dia anterior, uma brisa fresca soprava do Brasil. Havia as mesas paralelas.<\/p>\n<p>Espalhadas por todo o edif\u00edcio, foram justamente elas \u2014 as mesas que articulavam psican\u00e1lise e os conflitos pol\u00edticos inscritos no corpo social, com desdobramentos decisivos na subjetividade, ou que cruzavam psican\u00e1lise, cultura e sociedade \u2014 que animaram as audi\u00eancias e promoveram debates n\u00e3o apenas durante as apresenta\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m nos corredores do Congresso.<\/p>\n<p>Alguns psicanalistas de outros pa\u00edses vinham, tocados, agradecer e perguntar: \u201cO que voc\u00eas andam tomando l\u00e1 no Brasil? Aqui n\u00e3o se fala <em>desses<\/em> assuntos.\u201d<\/p>\n<p>Uma psicanalista peruana, por exemplo, comentou com uma colega sobre como o debate racial \u00e9 pouco ou quase nunca contemplado na psican\u00e1lise peruana. Parece que, de modo semelhante ao que rolava no Brasil at\u00e9 pouqu\u00edssimo tempo atr\u00e1s, h\u00e1 uma cren\u00e7a numa suposta democracia racial acompanhada por um racismo solapado e pouco discutido em \u00e2mbito formal.<\/p>\n<p>As boas novas v\u00eam do povo, das ruas, da arte e das produ\u00e7\u00f5es da\u00ed suscitadas.<\/p>\n<p>Visitas a s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, museus, restaurantes e bares pitorescos revelam muito al\u00e9m do que est\u00e1 \u00e0 superf\u00edcie: a riqueza pr\u00e9-colombiana de uma cultura considerada um dos ber\u00e7os da civiliza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m as conversas com moradores locais \u2014 fora do circuito mais <em>fancy<\/em> da cidade \u2014 ajudam a entrever o que j\u00e1 foi superado e o que ainda pulsa nas frestas: gestos de resist\u00eancia, formas de re-existir que sobrevivem \u00e0 margem do olhar tur\u00edstico e acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Nos corredores, era disso que se falava: da aus\u00eancia dessas hist\u00f3rias, desses corpos, dessas feridas \u2014 e de como o racismo, enquanto neurose cultural,<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> est\u00e1 calcado nas entranhas das mais diversas sociedades, ao contr\u00e1rio do que pensam e professam algumas almas penadas, que nesse movimento n\u00e3o fazem mais do reproduzir o mesmo gesto colonial de recusa e esquecimento.<\/p>\n<p>O congresso fez pensar em quantas cartas para uma nova psican\u00e1lise ainda podem e precisam ser escritas. A depender da produ\u00e7\u00e3o apresentada pelo Brasil, com especial \u00eanfase nos mais de cinquenta trabalhos advindos do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, reafirmamos nosso desejo, a partir do que herdamos, de seguir pensando, questionando e reinventando a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>No olvidaremos! Da pol\u00ed<\/strong><strong>tica do esquecimento <\/strong><strong>\u00e0 <\/strong><strong>mem<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>ria que resiste: notas de uma psicanalista no Peru<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Daniela Athuil<\/strong><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><strong><sup>[10]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_3925\" aria-describedby=\"caption-attachment-3925\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3925\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3d_cronica_dani.jpg\" alt=\"Boletim 77\" width=\"350\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3d_cronica_dani.jpg 500w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/b77_3d_cronica_dani-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3925\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Fernanda Almeida<\/figcaption><\/figure>\n<p>A psican\u00e1lise nos ensina que esquecer nunca \u00e9 apenas deixar de lembrar. \u00c9 antes uma opera\u00e7\u00e3o delicada entre o que n\u00e3o se pode suportar e o que o Eu precisa sustentar. Se, para o indiv\u00edduo, o esquecimento costuma vestir a m\u00e1scara de certa normalidade, para uma sociedade, ganha o nome de pol\u00edtica. Assim, a chamada \u201cpol\u00edtica do esquecimento\u201d nada mais \u00e9 do que a amplia\u00e7\u00e3o desse mecanismo ps\u00edquico para a cena coletiva: um recalque em dimens\u00e3o social (\u00e0s vezes, desmentido social), no qual o poder decide o que deve ser silenciado e o que pode ser lembrado. N\u00e3o se apaga o passado impunemente, apenas o enterramos mais fundo, onde continua a pulsar.<\/p>\n<p>Cheguei a Lima com o cora\u00e7\u00e3o dividido entre o entusiasmo pelas trocas com os latino-americanos, e uma certa inquieta\u00e7\u00e3o que se fazia sentir nos corredores. As not\u00edcias sobre a crise pol\u00edtica que atravessava o pa\u00eds naquele momento chegavam de forma difusa, mas os jornais na banca ao lado do congresso estampavam com todas as letras a tens\u00e3o na cidade. Davam not\u00edcia dos embates violentos nos protestos populares. Na v\u00e9spera, um <em>rapper,<\/em> Eduardo Ruiz Sanz, havia sido morto a bala, al\u00e9m de dezenas de outros feridos. O corpo pol\u00edtico, como sempre, \u00e9 o primeiro a cair.<\/p>\n<p>Muitos psicanalistas vindos do Brasil levavam trabalhos, ideias, sonhos. Fal\u00e1vamos das lutas antirracistas, antissexistas, de coletivos de trabalho em espa\u00e7os p\u00fablicos, do devir criativo, do sonho de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, da \u00e9tica da hospitalidade, de traumas e silenciamentos. Fal\u00e1vamos, sem saber, de Lima tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Porque enquanto o congresso acontecia em salas climatizadas, do lado de fora a popula\u00e7\u00e3o vivia um clima de indigna\u00e7\u00e3o e medo. Mas foram dois jovens estudantes peruanos, a quem pude escutar em uma das mesas, \u00c1lvaro e Maraya, que abriram di\u00e1logo conosco. Sensibilizados pelos trabalhos apresentados, reconheciam v\u00e1rios dos temas como pr\u00f3ximos de suas pr\u00f3prias inquieta\u00e7\u00f5es. Fomos todos tocados por seus testemunhos e pela delicadeza com que compartilharam conosco as dificuldades cotidianas de sustentar o desejo e os sonhos foras das camadas privilegiadas (diga-se camada de pessoas brancas, heteronormativas, eurocentradas), onde o Estado faz calar \u00e0 bala.<\/p>\n<p>Lembrado pela colega Camila Flaborea, uma fala de Hanna Limulja do livro <em>O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos Yanomami <\/em>veio em associa\u00e7\u00e3o: \u201do branco s\u00f3 sonha com ele mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Porque no Brasil, tamb\u00e9m conhecemos bem essa opera\u00e7\u00e3o: o massacre travestido de normalidade, o trauma encoberto pela pressa, a viol\u00eancia que se repete porque nunca foi devidamente nomeada.<\/p>\n<p>Enquanto escrevia este texto, duas comunidades do Rio de Janeiro, o Complexo da Penha e o Complexo do Alem\u00e3o, sofriam um massacre a c\u00e9u aberto. Mais uma vez, sob o nome de pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica e sob a falsa e perversa justificativa de \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, o que se exerce \u00e9 um dispositivo de exterm\u00ednio, uma forma de gest\u00e3o da vida que decide quem merece existir e quem deve ser eliminado.<\/p>\n<p>Nesse mesmo momento, o Iphan (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional), determinou a interdi\u00e7\u00e3o da \u00e1rea onde funcionava o estacionamento da Pupileira, em Salvador, ap\u00f3s a descoberta de um cemit\u00e9rio que abriga os restos de mais de 100 mil pessoas escravizadas, muitas delas em valas comuns, sem nome e sem mem\u00f3ria. O paralelo \u00e9 inevit\u00e1vel: o Brasil continua a soterrar corpos negros, sob o sil\u00eancio c\u00famplice que normaliza execu\u00e7\u00f5es em massa em favelas. Da Salvador colonial, ao Rio de Janeiro e \u00e0 Lima contempor\u00e2neos, o que vemos \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o de uma viol\u00eancia fundante que atravessa s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Essa tripla dobra tr\u00e1gica, entre Lima, Rio e Salvador, revela na pr\u00e1tica o conceito de <em>n<\/em><em>ecropol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica <\/em>desenvolvido pelo fil\u00f3sofo e intelectual camaron\u00eas Achille Mbembe, que atravessa nosso continente: o apagamento de corpos que desafiam o poder e a desigualdade. Diante disso, \u00e9 necess\u00e1rio que denunciemos a administra\u00e7\u00e3o da morte sobre a popula\u00e7\u00e3o pobre, negra e perif\u00e9rica, a impunidade e a viol\u00eancia estrutural.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, sabemos desde seu fundador, n\u00e3o \u00e9 apenas uma teoria. Antes de tudo ela deve estar a servi\u00e7o de sua voca\u00e7\u00e3o maior: a de ser gesto, de ser di\u00e1logo e cuidado, a de abrir fendas para que o esquecido volte a falar. Mas tamb\u00e9m de n\u00e3o se calar diante da barb\u00e1rie e do horror das viol\u00eancias naturalizadas. E n\u00e3o por acaso muitos trabalhos ali nos convocavam a pensar sobre o racismo, sobre o luto de pessoas desaparecidas, sobre os dispositivos cl\u00ednicos nas periferias, sobre a fome como produ\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e tantos outros.<\/p>\n<p>Alguns dias antes de chegar a Lima, caminhando por Cusco, era poss\u00edvel ver a hist\u00f3ria que resiste \u00e0 heran\u00e7a da explora\u00e7\u00e3o colonial espanhola, que construiu grande parte da cidade diretamente sobre as funda\u00e7\u00f5es e muros de pedras das antigas constru\u00e7\u00f5es incas. O Convento de S\u00e3o Domingo, erguido sobre estas funda\u00e7\u00f5es, \u00e9 um exemplo marcante do impacto da imposi\u00e7\u00e3o cultural e religiosa da l\u00f3gica colonial, marcada pela viol\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o e da apropria\u00e7\u00e3o cultural e simb\u00f3lica. Mas suas ra\u00edzes seguem vis\u00edveis, e sustentam a for\u00e7a de uma civiliza\u00e7\u00e3o que soube dialogar com a terra; uma engenharia humana em impressionante harmonia com a natureza, que ainda hoje assombra o mundo.<\/p>\n<p>Uma mem\u00f3ria que n\u00e3o se deixa soterrar. Entre as cores vivas dos tecidos qu\u00e9chuas e as constru\u00e7\u00f5es de Machu Picchu e outros s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, \u00e9 evidente que o passado no Peru n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma lembran\u00e7a, um destino tur\u00edstico, \u00e9 um corpo que pulsa, um tempo que ainda fala ao presente.<\/p>\n<p>A voc\u00eas, jovens peruanos que partilharam conosco de forma tocante suas inquieta\u00e7\u00f5es e urg\u00eancias, aos que lutam pela preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria de todos os povos Qu\u00e9chuas, Aimar\u00e1s, Ash\u00e1ninkas e de todos os outros povos ancestrais: <em>no olvidaremos!<\/em><\/p>\n<p>Em 2027 nos encontraremos novamente no congresso FLAPPSIP, desta vez no Brasil. E a pot\u00eancia desse encontro futuro se anunciou pela for\u00e7a pungente dos trabalhos apresentados, e pela for\u00e7a po\u00e9tica e pol\u00edtica expressa no v\u00eddeo realizado pela delega\u00e7\u00e3o brasileira da FLAPPSIP do Departamento de Psican\u00e1lise, sob a dire\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da nossa querida Miriam Chnaiderman.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0 J\u00falia Louzada \u00e9 brasileira, psic\u00f3loga e psicanalista. Foi aluna do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma e aprimoranda na Cl\u00ednica do Insituto Sedes. \u00c9 mestranda no programa de Psicologia Cl\u00ednica da USP, e pesquisadora vinculada ao PSOPOL &#8211; Laborat\u00f3rio de Psican\u00e1lise, Sociedade e Pol\u00edtica, no eixo de pesquisa: Psican\u00e1lise, Pol\u00edtica e Crise Clim\u00e1tica. E comp\u00f5e o Grupo de Trabalho de Pr\u00e1ticas Psican\u00e1liticas Situadas na RedIPPol &#8211; Rede Interamericana de Pesquisadores em Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MARI\u00c1TEGUI, Jos\u00e9 Carlos. Freudismo y marxismo. <em>Amauta<\/em>, Lima, n. 17, 1928. Publicado posteriormente em: MARI\u00c1TEGUI, Jos\u00e9 Carlos. <em>Obras completas<\/em>. Lima: Biblioteca Amauta, 1959. v. 13. MARI\u00c1TEGUI, Jos\u00e9 Carlos. Freudismo en la literatura contempor\u00e1nea. <em>Amauta<\/em>, Lima, n. 16, 1928. Publicado posteriormente em: MARI\u00c1TEGUI, Jos\u00e9 Carlos. <em>Obras completas<\/em>. Lima: Biblioteca Amauta, 1959. v. 13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Assistente social e psicanalista em forma\u00e7\u00e3o no 2\u00b0 ano de Psican\u00e1lise no Instituto Sedes Sapientiae, aprimoranda da Cl\u00ednica do Sedes e aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Psicanalista, aspirante a membro e estudante do terceiro ano do curso de Psican\u00e1lise no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Silvia Leonor Alonso, psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise, professora no Curso de Psican\u00e1lise, coordenadora do grupo O Feminino e o imagin\u00e1rio cultural contempor\u00e2neo e secret\u00e1ria cient\u00edfica FLAPPSIP 2023-2025. Presidente da Comiss\u00e3o Diretiva FLAPPSIP 2025-2027.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Carmen Mc Evoy, historiadora e escritora peruana, que, ali\u00e1s, tem como tema central de estudos a hist\u00f3ria pol\u00edtica e intelectual daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Isildinha Baptista Nogueira, psicanalista, escritora e professora do Curso de Psican\u00e1lise no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Miriam Chnaiderman, psicanalista, cineasta, escritora e professora do Curso de Psican\u00e1lise no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> GONZALEZ, L\u00e9lia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. Organiza\u00e7\u00e3o de Flavia Rios e M\u00e1rcia Lima. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, articuladora da \u00c1rea de Publica\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00e3o no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o (2024-2025), integrante da equipe editorial deste boletim online e da Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas do Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assombro: uma maneira de escutar o mundo + Eros, alteridade e psicanalistas que dan\u00e7am: o Brasil em Lima, + O que andamos tomando no Brasil + No olvidaremos! 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