{"id":4056,"date":"2026-04-13T16:03:13","date_gmt":"2026-04-13T19:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4056"},"modified":"2026-04-16T08:11:21","modified_gmt":"2026-04-16T11:11:21","slug":"mas-como-eu-vou-chegar-ate-a-galeria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/mas-como-eu-vou-chegar-ate-a-galeria\/","title":{"rendered":"Mas como eu vou chegar at\u00e9 a galeria?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Mas como eu vou chegar at<\/strong><strong>\u00e9 <\/strong><strong>a galeria?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Luiza Sigulem<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4057\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a.jpg 1600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a-300x225.jpg 300w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a-768x576.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_17a-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto de Soraia Bento<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um, dois, tr\u00eas degraus. Antes mesmo de entrar, a escala j\u00e1 est\u00e1 em jogo, tanto no modo como se planeja chegar at\u00e9 a galeria quanto na altura em que textos e obras s\u00e3o oferecidos ao olhar, em geral com o centro a 1,50 m, como se partissem de um corpo tomado de antem\u00e3o como medida.<\/p>\n<p>Mas de quem \u00e9 esse corpo para o qual tudo parece estar preparado? De que olho veio essa perspectiva que depois passa a funcionar como se n\u00e3o tivesse vindo de ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>Durante a produ\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie fotogr\u00e1fica <em>Jeito de corpo<\/em>, a falta de neutralidade na arquitetura come\u00e7ou a ficar evidente. Eu estava cansada de ficar em casa esperando que me contratassem para fazer retratos no est\u00fadio e resolvi sair com o est\u00fadio para a rua. Os retratos foram feitos a partir da altura da minha cadeira de rodas, e para isso montei um fundo de tecido colorido bem mais baixo do que o de um est\u00fadio \u201cnormal\u201d. Quem aceitava ser fotografado precisava encontrar, diante da c\u00e2mera, uma maneira de caber naquela medida, e isso bastava para deslocar a imagem, porque a pose deixava de vir pronta e o enquadramento j\u00e1 n\u00e3o podia ser tomado como uma moldura indiferente. Ficava ali uma imagem ainda sem se estabilizar por completo, o corpo ainda lidando com uma escala que lhe tinha sido imposta.<\/p>\n<p>Quando essas fotografias foram montadas em uma exposi\u00e7\u00e3o, a mesma quest\u00e3o reapareceu no espa\u00e7o. Elas foram instaladas abaixo da altura expogr\u00e1fica mais corrente, de modo que quem chegava precisava baixar o olhar para v\u00ea-las, e esse gesto simples fazia aparecer uma coisa que em geral passa despercebida. A parede deixava de ser apenas suporte silencioso, e a altura das obras come\u00e7ava a aparecer como uma decis\u00e3o anterior, j\u00e1 tomada para um certo corpo. O que estava em jogo ali ainda era o retrato, mas j\u00e1 n\u00e3o apenas o retrato como imagem. Aparecia tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o de quem olha e a maneira como a montagem j\u00e1 tinha sido feita para um certo modo de ver.<\/p>\n<p>Em <em>Manual para percorrer a menor dist\u00e2ncia de um ponto a outro<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><em><sup>[2]<\/sup><\/em><\/a>, surgiram novas quest\u00f5es a partir de pequenas interven\u00e7\u00f5es que realizei diretamente no espa\u00e7o. Isso se tornou bastante vis\u00edvel com o rebaixamento da entrada que passou a medir 1,60m. Para a maioria das pessoas, para adentrar o espa\u00e7o era preciso curvar o corpo, n\u00e3o de maneira teatral, mas o suficiente para que o gesto de entrar se tornasse vis\u00edvel. Foi uma pequena mudan\u00e7a na escala da porta que teve por consequ\u00eancia reorganizar a espacialidade como um todo, j\u00e1 que a partir da\u00ed sua neutralidade se tornava menos \u00f3bvia.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre acesso, medida e neutralidade aparecia tamb\u00e9m nas rampas produzidas no contexto da exposi\u00e7\u00e3o e doadas a outras galerias da Vila onde ela acontecia. O que me interessou foi principalmente que a rampa permitia a passagem, mas ao mesmo tempo tornava vis\u00edvel que essa passagem n\u00e3o estava dada desde o in\u00edcio. Com a doa\u00e7\u00e3o das rampas, certo impasse do espa\u00e7o, que antes podia permanecer naturalizado, ficava exposto. Ao mesmo tempo a escada da galeria foi transformada em biblioteca. Os livros passaram a impedir a passagem ao andar superior, \u201cdemocratizando\u201d o n\u00e3o acesso ao segundo andar de um im\u00f3vel sem elevador.<\/p>\n<p>A teoria <em>crip<\/em>, formulada por McRuer<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, traz a ideia de que a capacidade n\u00e3o aparece apenas como descri\u00e7\u00e3o de um corpo, mas como medida anterior a ele. A express\u00e3o \u201ccapacidade corporal compuls\u00f3ria\u201d nomeia esse modo de organiza\u00e7\u00e3o em que certo ideal corporal orienta o espa\u00e7o e a circula\u00e7\u00e3o sem precisar se apresentar como ideal. Quando esse corpo coincide com o mundo \u00e0 sua volta, a norma quase n\u00e3o se deixa ver, mas quando essa coincid\u00eancia falha, o que parecia simples de repente revela quanto havia de constru\u00e7\u00e3o naquela suposta evid\u00eancia.<\/p>\n<p>Na psican\u00e1lise, a evid\u00eancia desse corpo tamb\u00e9m vacila. Em Lacan, sua unidade n\u00e3o \u00e9 origin\u00e1ria: ela se constitui na identifica\u00e7\u00e3o com uma imagem que lhe d\u00e1 forma e ao mesmo tempo o aliena. Se tomado por esse prisma, o corpo que a arquitetura toma como refer\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o aparece como dado imediato, mas como efeito dessa montagem.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma fic\u00e7\u00e3o de inteireza nessa unidade, e a no\u00e7\u00e3o de resto importa aqui porque nomeia justamente aquilo que a forma n\u00e3o consegue totalizar. Se a imagem do corpo produz unidade, ela n\u00e3o apaga por inteiro o que escapa a essa forma. Quando o espa\u00e7o j\u00e1 foi pensado a partir dessa unidade, ele se confronta menos com um corpo est\u00e1vel do que com uma forma que n\u00e3o coincide inteiramente consigo mesma. A acessibilidade n\u00e3o desfaz esse impasse, mas impede que ele continue apagado. A rampa n\u00e3o resolve por inteiro o problema do espa\u00e7o mas impede que ele continue passando desapercebido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acessibilidade deixa de ser apenas uma quest\u00e3o t\u00e9cnica. Se o espa\u00e7o j\u00e1 est\u00e1 pensado a partir de uma certa suposi\u00e7\u00e3o de corpo, e essa unidade n\u00e3o pode ser tomada como evid\u00eancia simples, o problema j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o do deslocamento. Ele passa tamb\u00e9m pelas condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia e pelo modo como algu\u00e9m consegue acompanhar o que est\u00e1 sendo proposto numa cena muitas vezes organizada a partir de outro corpo pressuposto. A acessibilidade acaba interferindo na forma como um espa\u00e7o admite ou recusa certas presen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em <em>Jeito de corpo<\/em>, o problema se revelava quando o enquadramento deixava de ser medida neutra e o esfor\u00e7o do corpo para se acomodar ficava retido na imagem. Em <em>Manual\u2026<\/em>, essa medida passou a atravessar o espa\u00e7o como um todo. Para entrar era preciso curvar o corpo, e a perman\u00eancia tamb\u00e9m tinha suas condi\u00e7\u00f5es, como a altura expogr\u00e1fica ou o bloqueio da escada. Quando a pergunta voltava, voltava com ela a tentativa de expor criticamente a medida de corpo em torno da qual o espa\u00e7o costuma se organizar. \u2018Como vou chegar at\u00e9 a galeria?\u2019 j\u00e1 n\u00e3o dizia respeito s\u00f3 ao meu trajeto. \u00c9 da\u00ed que o trabalho segue.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Artista visual, fot\u00f3grafa e psicanalista, integrou o grupo Escutando a cidade no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Manual para percorrer a menor dist<\/em><em>\u00e2<\/em><em>ncia de um ponto a outro<\/em> foi apresentada no Ateli\u00ea397, em S\u00e3o Paulo, entre 24 de janeiro e 28 de fevereiro de 2026, com curadoria de Juliana Caff\u00e9.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A no\u00e7\u00e3o de \u201ccapacidade corporal compuls\u00f3ria\u201d \u00e9 formulada por Robert McRuer em <em>Crip theory: cultural signs of queerness and disability <\/em>(New York: New York University Press, 2006).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Manual para percorrer a menor dist\u00e2ncia de um ponto ao outro<\/em> chega ao Boletim <span style=\"color: #a21616;\">on<\/span>line para discutir o acesso. Um escrito de Luiza Sigulem em torno de sua mais recente exposi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[334],"tags":[38],"edicao":[367],"autor":[369],"class_list":["post-4056","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","tag-arte","edicao-boletim-78","autor-luiza-sigulem","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4056"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4112,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4056\/revisions\/4112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4056"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4056"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}