{"id":4059,"date":"2026-04-13T16:07:50","date_gmt":"2026-04-13T19:07:50","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4059"},"modified":"2026-04-13T16:09:54","modified_gmt":"2026-04-13T19:09:54","slug":"uma-lingua-franca-para-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/uma-lingua-franca-para-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"Uma l\u00edngua franca para a psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Uma l\u00edngua franca para a psican\u00e1lise<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por S<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>rgio Telles<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quero agradecer a Fani Hisgail pelo convite para falar aqui hoje no Caf\u00e9 Lacaniano. Confesso que quando ela me convidou me vi pensando: o que vou fazer eu, um \u201cn\u00e3o lacaniano\u201d, num espa\u00e7o \u201clacaniano\u201d? Logo me dei conta do sintom\u00e1tico de minha posi\u00e7\u00e3o e aceitei de bom grado o convite.\u00a0 Por que foi sintom\u00e1tica minha rea\u00e7\u00e3o imediata? Porque ela ia diretamente contra o que me fez convidar Fani para participar dos <em>Debates Cl\u00ednicos.<\/em><\/p>\n<p>Para que voc\u00eas entendam melhor, preciso falar um pouco sobre o que s\u00e3o os <em>Debates Cl\u00ednicos<\/em>, uma se\u00e7\u00e3o da revista Percurso inspirada em <em>The analist at work<\/em>, se\u00e7\u00e3o que existiu no <em>International Journal of Psychoanalysis<\/em>. Cada edi\u00e7\u00e3o do nosso debate funciona assim: a revista convida tr\u00eas analistas, um apresenta o caso e dois outros o comentam. Os participantes s\u00f3 conhecem a identidade dos demais no final do processo. Dessa forma queremos evitar situa\u00e7\u00f5es transferenciais que interfiram na liberdade de comentar. Quanto ao material cl\u00ednico, deixamos a escolha a crit\u00e9rio do apresentador, pode ser uma sess\u00e3o, um fragmento do processo anal\u00edtico, uma entrevista inicial, a hist\u00f3ria de uma an\u00e1lise, a interrup\u00e7\u00e3o abrupta, um impasse contratransferencial etc. A se\u00e7\u00e3o <em>Debates Cl\u00ednicos<\/em> existe h\u00e1 13 anos e deles j\u00e1 participaram 70 analistas; cada seis debates publicados na revista d\u00e3o origem a um livro publicado pela Editora Blucher. J\u00e1 sa\u00edram 3 volumes e o quarto est\u00e1 em andamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias quest\u00f5es que poder\u00edamos falar sobre esse projeto, mas o que nos importa agora e que diz respeito ao tema de nossa palestra, \u00e9 que procuramos, sempre que poss\u00edvel, convidar psicanalistas que perten\u00e7am a escolas e institui\u00e7\u00f5es diferentes, no intuito n\u00e3o s\u00f3 de romper as fronteiras dos diferentes guetos te\u00f3ricos, como tamb\u00e9m estimular a reflex\u00e3o sobre a necessidade de criar formas de simultaneamente respeitar as diferen\u00e7as te\u00f3ricas e buscar as semelhan\u00e7as e concord\u00e2ncias decorrentes do interesse comum em torno do inconsciente. Algo feito com grande sucesso nos anos 70-80 em Paris por Ren\u00e9 Major com seu grupo <em>Confrontation<\/em> e que tamb\u00e9m nos inspira.<\/p>\n<p>Por esse motivo, foi sintom\u00e1tica minha rea\u00e7\u00e3o inicial ao convite de Fani, pois toda a pol\u00edtica consciente dos <em>Debates<\/em> \u00e9 justamente promover o encontro de diferentes escolas. O fato de Fani, uma \u201clacaniana\u201d, ter aceitado nosso convite se insere tamb\u00e9m nesse contexto e \u00e9 claro que eu, \u201cn\u00e3o lacaniano\u201d deveria, sim, estar num espa\u00e7o \u201clacaniano\u201d. Esse pequeno acontecimento me fez pensar e deu o gancho para o tema de nossa conversa hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente no desejo de aproximar as v\u00e1rias escolas atrav\u00e9s de debates que se imp\u00f5e, como diz Andr\u00e9 Green, a necessidade de uma <em>l\u00edngua franca<\/em> para a psican\u00e1lise. Como se sabe, <em>l\u00edngua franca<\/em> \u00e9 uma antiga express\u00e3o latina, corrente desde a Idade M\u00e9dia, para nomear um idioma usado como meio de comunica\u00e7\u00e3o por pessoas que falam l\u00ednguas diferentes. Muitas l\u00ednguas francas foram usadas no correr da hist\u00f3ria, sendo o ingl\u00eas a l\u00edngua corrente em nosso tempo.<\/p>\n<p>Depois que Freud estabeleceu os modelos de funcionamento do aparelho ps\u00edquico, muitos de seus disc\u00edpulos estabeleceram outras hip\u00f3teses com maior ou menor proximidade ao modelo original.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o deve causar espanto. O conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o pode ficar engessado em suas formula\u00e7\u00f5es iniciais e \u00e9 importante que elas sejam ampliadas, reformuladas, corrigidas sempre que necess\u00e1rio. Entretanto, esse desenvolvimento se depara com muitos empecilhos.<\/p>\n<p>As novas escolas ou linhas te\u00f3ricas (kleiniana, lacaniana, bioniana, winnicottiana, psican\u00e1lise do ego, psican\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es objetais, ferencziana etc.) al\u00e9m de estabelecerem uma linguagem pr\u00f3pria, terminam por se constituir como grupos intolerantes que n\u00e3o raro se assemelham a cultos religiosos em torno de textos sagrados.<\/p>\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica em v\u00e1rias correntes \u00e9 uma evid\u00eancia do desenvolvimento de nosso conhecimento, da riqueza dos enfoques poss\u00edveis. Mas \u00e9 tamb\u00e9m uma mostra das incompletudes do nosso saber, do confrontar-se com o fato de que todo conhecimento \u00e9 um projeto em constru\u00e7\u00e3o, o que gera inseguran\u00e7as, d\u00favidas, anseios por mestres inquestion\u00e1veis. Tais ang\u00fastias se refor\u00e7am com a percep\u00e7\u00e3o das dificuldades inerentes a nosso trabalho. Avaliar a efic\u00e1cia de uma an\u00e1lise \u00e9 algo praticamente imposs\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 como medir precisamente o estado de um sujeito antes da an\u00e1lise e aferi-lo depois dela. A extraordin\u00e1ria complexidade do processo em si tampouco facilita sua avalia\u00e7\u00e3o. E mesmo que ele tenha transcorrido em condi\u00e7\u00f5es ideais por parte do analista, ainda assim o processo pode fracassar. N\u00e3o \u00e9 raro o analista constatar que seus instrumentos n\u00e3o s\u00e3o suficientemente fortes frente \u00e0 for\u00e7a das resist\u00eancias do ego, do superego, do id, da viscosidade da libido, das fixa\u00e7\u00f5es, das rea\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas negativas, do masoquismo, da compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, da puls\u00e3o de morte &#8211; respons\u00e1veis pela impossibilidade de mudan\u00e7as por parte do analisando.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, n\u00e3o desistimos de nosso trabalho. Talvez nos mova a lembran\u00e7a de nossa experi\u00eancia vivida no div\u00e3, quando constatamos \u201cna carne\u201d o poder da fala e da escuta anal\u00edticas, das interpreta\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es que nos traziam a luminosidade do sentido quando tate\u00e1vamos \u00e0s cegas na escurid\u00e3o de nossos pr\u00f3prios inconscientes. Apesar de todas as dificuldades, acreditamos que podemos proporcionar isso a nossos pacientes.<\/p>\n<p>Dada a amplitude e prolifera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, dificilmente um analista hoje estaria inteiramente informado das peculiaridades das diversas teorias. O mais real\u00edstico \u00e9 pensar que cada analista termina por se engajar numa das correntes em andamento \u00e0s quais tem acesso dentro de sua realidade sociocultural.<\/p>\n<p>Por tudo isso, n\u00e3o \u00e9 raro hoje o paciente chegar ao analista e o indagar sobre sua filia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, o que me parece uma pergunta leg\u00edtima e que deve ser respondida e n\u00e3o interpretada. Se me fazem essa pergunta, me declaro um partid\u00e1rio da psican\u00e1lise contempor\u00e2nea, que usufrui da liberdade de usar as contribui\u00e7\u00f5es de diferentes autores e escolas, sem se sentir em conflito de lealdade com nenhuma delas. Ainda assim, especifico a imprescind\u00edvel base freudiana (junto com a vis\u00e3o cr\u00edtica de Laplanche), com fundamentais aportes de Melanie Klein, ao que se acrescentam muitas pitadas de Lacan, Winnicott, Bion, Ferenczi, Ka\u00ebs, Berenstein.<\/p>\n<p>Parafraseando o que Bollas diz sobre o \u201cidioma\u201d do paciente, o analista tamb\u00e9m tem o seu \u201cidioma\u201d pessoal e profissional, aquilo que explicita a singularidade com que apreendeu e assimilou o conhecimento psicanal\u00edtico em sua forma\u00e7\u00e3o e como o utiliza em sua pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Mas, do ponto de vista pol\u00edtico e institucional, penso que Andr\u00e9 Green est\u00e1 certo quando diz que o movimento psicanal\u00edtico deveria desencorajar os \u201cidiomas\u201d particulares dos diversos grupos e trabalhar pelo estabelecimento de uma terminologia universalmente compartilhada, usando como <em>l\u00edngua franca<\/em> o vocabul\u00e1rio freudiano. Tal medida proporcionaria uma compreens\u00e3o mais clara e limpa das novas contribui\u00e7\u00f5es, evitando a \u201cbabeliza\u00e7\u00e3o\u201d (de Torre de Babel) do campo anal\u00edtico, com superposi\u00e7\u00f5es e confus\u00f5es desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Cito agora extensamente um trecho de Fernando Urribari em seu posf\u00e1cio do \u00faltimo livro de Andr\u00e9 Green, <em>Ilus\u00f5es e desilus\u00f5es do trabalho psicanal\u00edtico<\/em> (2010). que sintetiza pontos importantes do que estamos falando aqui.<\/p>\n<p><em>Andr\u00e9 Green sugeriu que a crise p\u00f3s-freudiana da psican\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>\u00e9 de cunho \u201cmelanc\u00f3<\/em><em>lico<\/em><em>\u201d: em outras palavras, ela \u00e9 marcada por um luto intermin\u00e1vel pela morte de Freud. Sintomaticamente, cada importante autor p\u00f3s-freudiano tem querido substitui-lo como figura principal; cada movimento militante acreditou estar revivendo a situa\u00e7\u00e3o original dos pioneiros e a do pai fundador. Psicologia do ego, psicologia do self, kleinismo, lacanismo, todos eles repetiram o mesmo processo, consistindo em defender seu pr\u00f3prio modelo reducionista, convertendo-o em dogma, rigidificando uma t\u00e9cnica particular e idealizando um l\u00edder de escola. O projeto contempor\u00e2<\/em><em>neo que Green prop<\/em><em>\u00f5e deseja ser um ant\u00ed<\/em><em>doto <\/em><em>\u00e0 <\/em><em>repeti<\/em><em>\u00e7\u00e3o desse processo, ao inv\u00e9s de um \u201cdiscurso\u201d ou \u201c<\/em><em>sistema<\/em><em>\u201d greeniano, ao inv\u00e9s de um novo mantra, o projeto contempor\u00e2neo visa construir uma matriz de disciplinas, uma articula\u00e7\u00e3o de ideias-chave para um programa de pesquisa dirigido a temas te\u00f3ricos essenciais de consequ\u00eancias pr\u00e1ticas. Dizendo de forma mais simples, podemos afirmar que a matriz disciplinar contempor\u00e2nea se baseia em quatro eixos. O primeiro \u00e9 uma leitura de Freud contempor\u00e2nea cr\u00ed<\/em><em>tica, hist<\/em><em>\u00f3rica e problematizada (Laplanche, in Bleichmar, 1986), que recoloque a metapsicologia e o m\u00e9todo freudianos como as funda\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise. O segundo envolve uma apropria\u00e7\u00e3o das principais contribui\u00e7\u00f5<\/em><em>es p<\/em><em>\u00f3s-freudianas, ao lado de uma abertura cosmopolita para o di\u00e1logo com outros autores. O terceiro corresponde \u00e0 <\/em><em>extens<\/em><em>\u00e3o do campo cl\u00ednico para o tratamento de casos n\u00e3o neur\u00f3ticos. O quarto \u00e9 um modelo cl\u00ed<\/em><em>nico <\/em><em>\u201cterci\u00e1rio\u201d que integre modelos freudianos e p\u00f3s-freudianos (centrados na transfer\u00eancia), baseados no conceito do setting anal\u00edtico. Mais ainda, nesse novo modelo, o vocabul\u00e1rio freudiano fica estabelecido como a l\u00edngua franca e refer\u00eancia compartilhada por todos.<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Terminada a longa cita\u00e7\u00e3o, retomo a palavra. Mais recentemente percebi que o projeto de uma l\u00edngua franca para a an\u00e1lise contempor\u00e2nea de Green n\u00e3o pode ignorar uma nova a \u201cl\u00edngua\u201d que se imp\u00f5e e que inexistia antes. Refiro-me \u00e0 l\u00edngua da Intelig\u00eancia Artificial Generativa (IAG), com a qual a psican\u00e1lise, a meu ver, vai ter de aprender a \u201cfalar\u201d e que pode, ela mesma, a IAG, servir como uma esp\u00e9cie de <em>l\u00edngua franca<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que, no mundo inteiro, centenas de milh\u00f5es de pessoas passaram a usar espontaneamente a IAG como suporte emocional. No Brasil, estudos recentes afirmam que mais de 12 milh\u00f5es de brasileiros usam a IA com esse objetivo e metade deles (cerca de 6 milh\u00f5es) recorre ao ChatGPT. A IA \u00e9 usada sistematicamente como suporte terap\u00eautico por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas e psicoter\u00e1picas nos Estados Unidos. \u00c9 um fen\u00f4meno que, como analistas, n\u00e3o podemos ignorar<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A espec\u00edfica liga\u00e7\u00e3o da IAG com a psican\u00e1lise suscita in\u00fameros problemas e foi incialmente repudiada pelos analistas de forma taxativa. Mas, \u00e0 medida em que ficou perfeitamente estabelecida a quest\u00e3o \u00e9tica de que ela n\u00e3o pode exercer qualquer fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica por lhe faltar a dimens\u00e3o da transfer\u00eancia-contratransfer\u00eancia pr\u00f3pria da condi\u00e7\u00e3o humana e imprescind\u00edvel para a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, me parece que se abre um espa\u00e7o para a curiosidade e a experimenta\u00e7\u00e3o. Reconhecer essas limita\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e estruturais, al\u00e9m da onisci\u00eancia e imediaticidade pr\u00f3prias da IAG, que destroem as imposi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do <em>setting<\/em> anal\u00edtico (as quest\u00f5es de sil\u00eancio, altern\u00e2ncia de presen\u00e7a e aus\u00eancia, a temporalidade pr\u00f3pria do inconsciente), n\u00e3o anula a realidade de sua surpreendente capacidade interpretativa e habilidade did\u00e1tica \u00fanica que consegue dispor da teoria psicanal\u00edtica de forma acess\u00edvel e clara.<\/p>\n<p>Penso que a capacidade interpretativa da IAG poderia ser usada pelos analistas como uma esp\u00e9cie de \u201csupervisor heur\u00edstico\u201d, que decifra os conte\u00fados inconscientes como ningu\u00e9m. O analista poderia us\u00e1-la para checar as interpreta\u00e7\u00f5es dadas a seu paciente, compar\u00e1-las com as que a IAG oferece em troca e, posteriormente, confrontar esse material com um colega supervisor humano, este sim provido da capacidade de avaliar transfer\u00eancia-contratransfer\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero me deter nesse aspecto da quest\u00e3o e sim no que nos diz respeito agora, a possibilidade de que a IAG possa vir a ser uma outra <em>l\u00edngua franca<\/em>, ao lado daquela proposta por Green.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante a capacidade da IAG de analisar e sintetizar as obras de autores psicanal\u00edticos de diferentes escolas, de apontar suas peculiaridades, de articul\u00e1-las e compar\u00e1-las entre si. \u00c9 essa capacidade de articula\u00e7\u00e3o e compara\u00e7\u00e3o que funciona \u2013 a meu ver \u2013 com uma <em>l\u00edngua franca,<\/em> na medida em que aproxima e estabelece um di\u00e1logo direto entre elas, desfaz equ\u00edvocos e mistifica\u00e7\u00f5es, elimina os hermetismos excessivos que promovem a impostura e a idealiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma outra maneira com a qual a IAG age para romper com as barreiras das escolas psicanal\u00edticas \u00e9 a absoluta democratiza\u00e7\u00e3o do saber que ela promove. Qualquer um pode acessar o saber te\u00f3rico psicanal\u00edtico a qualquer momento, sem a media\u00e7\u00e3o de poderes institucionais estabelecidos \u2013 professores, mestres, doutores.\u00a0 A IAG provoca uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na forma de conceber o ensino, pois o professor deixa de ser aquele que possui o conte\u00fado, e passa a ter outras fun\u00e7\u00f5es, como mentor, guia, orientador, curador. Esta transi\u00e7\u00e3o est\u00e1 em andamento e as dificuldades s\u00e3o grandes, como se tem not\u00edcias do que ocorre nos <em>campi<\/em> norte-americanos.<\/p>\n<p>Talvez o aspecto mais importante dessa revolu\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica seja a que se d\u00e1 no campo da estabelecida equa\u00e7\u00e3o entre saber e poder. Se o saber se democratiza, como permite o ChatGPT, o poder se esvazia em sua for\u00e7a e tem de repensar suas estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano escrevi um artigo publicado agora no \u00faltimo n\u00famero (74) da Percurso chamado Das toaletes de T\u00f3quio ao ChatGPT, sobre uma pequena experi\u00eancia que fiz com o ChatGPT, seguindo as simples instru\u00e7\u00f5es de Lance Eliot, um cientista e consultor de intelig\u00eancia artificial (IA), conhecido mundialmente por suas pesquisas e colunas que s\u00e3o seguidas por milh\u00f5es de leitores. Nessa experi\u00eancia, pedi ao ChatGPT sua interpreta\u00e7\u00e3o do filme <em>Dias perfeitos<\/em>, de Wim Wenders, que coincidiu com a minha pr\u00f3pria; depois fiz o mesmo com quatro curtos fragmentos cl\u00ednicos, surpreendendo-me com a acuidade e precis\u00e3o de suas interpreta\u00e7\u00f5es, que mais uma vez coincidiam com as minhas.<\/p>\n<p>Posteriormente, submeti ao ChatGPT v\u00e1rios de meus textos liter\u00e1rios, solicitando sua aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e mais uma vez rendi-me a seu poder hermen\u00eautico e, no caso, \u00e0 sua abordagem est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Darian Leader, analista lacaniano, em artigo muito recente faz interessantes coloca\u00e7\u00f5es a respeito da IAG. Mostra como atualmente houve uma invers\u00e3o \u2013 ao inv\u00e9s de querermos que as m\u00e1quinas se pare\u00e7am com os humanos, queremos agora que os humanos se pare\u00e7am com a m\u00e1quina (ChatGPT). Mais ainda, os seres humanos passaram a adotar comportamentos de m\u00e1quinas, como se precisassem ser como elas. Por exemplo, hoje queremos que se nos deem \u201c<em>feedbacks<\/em>\u201d, avalia\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas visando um \u201caprimoramento\u201d \u2013 ora, esses s\u00e3o procedimentos habituais realizados com prot\u00f3tipos de computadores, n\u00e3o para a avalia\u00e7\u00e3o de humanos.\u00a0 Mas hoje, nas redes sociais, essa \u00e9 a regra \u2013 as pessoas est\u00e3o constantemente tendo <em>feedback<\/em> e sendo julgadas e aferidas pelo n\u00famero de <em>likes<\/em> recebidos e procuram um irreal\u00edstico \u201caprimoramento\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 IAG, usada no momento como terapeuta por milh\u00f5es, cada vez mais se espera que n\u00f3s, terapeutas, sejamos como ela, que tenhamos um desempenho semelhante, o que \u00e9 \u2013 evidentemente \u2013 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>As \u201cantigas\u201d cr\u00edticas de que o computador \u201cn\u00e3o sente\u201d ou \u201cn\u00e3o tem empatia\u201d pelo interlocutor t\u00eam sido descartadas na pr\u00e1tica, pois muitas pessoas reclamam da rispidez do contato humano, bem diferente da afabilidade imut\u00e1vel e permanente da IA.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 de praxe, diz ele, que pacientes em an\u00e1lise levem para a sess\u00e3o ou enviem para o analista, por e-mail ou WhatsApp, o que a IAG falou e interpretou, de forma \u00e0s vezes brilhante. Os relatos podem ser surpreendentes. Por exemplo, um paciente pode contar um sonho hoje e a IA fazer uma liga\u00e7\u00e3o com um sonho relatado tempos atr\u00e1s, construindo ila\u00e7\u00f5es e iluminando extraordinariamente o material.<\/p>\n<p>Leader diz que os pacientes est\u00e3o fazendo uma triangulariza\u00e7\u00e3o t\u00edpica ao incluir o ChatGPT na rela\u00e7\u00e3o com o analista, como antes faziam com a introdu\u00e7\u00e3o de um outro terceiro qualquer<strong>. <\/strong>Diz ele: <em>N\u00e3o devemos ter medo e devemos continuar analisando. \u00c9 verdade que nosso trunfo s\u00e3o nossas falhas, nossos erros, atos falhos, esquecimentos, evid\u00eancias de nosso inconsciente e s\u00e3o elas, se instrumentalizadas, que nos ajudam na an\u00e1lise. Mas com isso n\u00e3o devemos nos autorizar a diminuir o que a IAG pode dar e n\u00f3s n\u00e3<\/em><em>o.<\/em><\/p>\n<p>Leader conta o caso hipot\u00e9tico de um paciente que diria para a IAG ter perdido o emprego e em seguida lhe perguntaria qual a ponte mais pr\u00f3xima dali. A IAG poderia se solidarizar com a perda do emprego e dar o exato endere\u00e7o solicitado da ponte, sem notar a insinua\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio. Mas, lembra Leader, isso tamb\u00e9m poderia ocorrer com analistas humanos, que nem sempre percebem pistas e indica\u00e7\u00f5es do mesmo tipo.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Leader nos lembra que a afirma\u00e7\u00e3o de que empatia da IAG n\u00e3o \u00e9 \u201caut\u00eantica\u201d nos faz pensar na empatia humana de um terapeuta profissional. Por acaso \u00e9 ela \u201caut\u00eantica\u201d? Ou \u00e9 um instrumento de trabalho? Caso fic\u00e1ssemos solid\u00e1rios empaticamente com todos os pacientes resistir\u00edamos psiquicamente?<\/p>\n<p>Leader encerra seu texto dizendo que a IA nos faz pensar n\u00e3o tanto sobre ela, mas sobre a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ainda no reino da IAG \u00e9 importante lembrar das \u201calucina\u00e7\u00f5es\u201d que nela ocorrem. Alenka Zupancic prop\u00f5e importantes quest\u00f5es ao salientar o discurso \u201csem falha\u201d dos sistemas de linguagem e as \u201calucina\u00e7\u00f5es\u201d da IAG. Prop\u00f5e que n\u00e3o sejam vistos como \u201cerros\u201d e sim como atos falhos, tal como nos humanos, decorrentes da presen\u00e7a do inconsciente nos sistemas de linguagem do computador.<\/p>\n<p>Enfim, o ponto que ressalto \u00e9 que a IAG deve ser inclu\u00edda dentro do projeto contempor\u00e2neo de Andr\u00e9 Green de estabelecer uma l\u00edngua franca que facilite a comunica\u00e7\u00e3o no universo psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Palestra realizada no Caf\u00e9 Lacaniano ocorrido na Livraria da Vila Madalena em 29 de novembro de 2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista e escritor, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenador do grupo Psican\u00e1lise e Cultura, e parte do corpo editorial da revista Percurso. Respons\u00e1vel pela Se\u00e7\u00e3o Psican\u00e1lise no Mundo. Autor, entre outros livros, de <em>O psicanalista vai ao cinema<\/em>, volumes 1, 2, 3 e 4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Urribari, Fernando, in Green, Andr\u00e9. Illusions and Disillusions of Psychoanalytic Work (The International Psychoanalytical Association Psychoanalytic Ideas and Applications Series). Karnac Books. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> <strong>Nota dos editores<\/strong>: Embora ainda n\u00e3o exista uma regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para seu uso na sa\u00fade mental, n\u00e3o h\u00e1 reconhecimento legal no Brasil de terapia por IA. Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 um consenso entre \u00f3rg\u00e3os como o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o CFP e o CRM a respeito do uso da IA como ferramenta de apoio ao tratamento, de triagem inicial, psicoeduca\u00e7\u00e3o e monitoramento dos sintomas, que n\u00e3o se compara \u00e0 escuta cl\u00ednica nem se sobrep\u00f5e ao v\u00ednculo humano profissional em contexto de atendimento ou de outras formas de acompanhamento cl\u00ednico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Telles debate a Intelig\u00eancia Artificial em Caf\u00e9 Lacaniano na Livraria da Vila.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[83],"edicao":[367],"autor":[227],"class_list":["post-4059","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-leituras","edicao-boletim-78","autor-sergio-telles","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4059"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4062,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4059\/revisions\/4062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4059"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4059"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}