{"id":4075,"date":"2026-04-13T16:33:07","date_gmt":"2026-04-13T19:33:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4075"},"modified":"2026-04-16T10:57:15","modified_gmt":"2026-04-16T13:57:15","slug":"o-feminino-de-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/o-feminino-de-sertao\/","title":{"rendered":"O feminino de sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O\u00a0 feminino de sert\u00e3o <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Soraia Bento<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>Fiz duas imers\u00f5es no Cariri, regi\u00e3o nordestina do povo ind\u00edgena Kariri e dos negros escravizados; dos angicos; dos buritis e dos Mestres da mais pura arte popular. Visitei a Chapada do Araripe e o Cariri paraibano com grupos valentes que toparam acompanhar o f\u00f4lego de Ronaldo Fraga e seus escudeiros turism\u00f3logos Thiago e Pablo Buriti, acompanhados da lente de Rafael Kant. A criatividade dos idealizadores desse projeto inventou uma cartografia que se imprime na alma.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vivencia o Araripe, conhece o canto do soldadinho do Araripe, toma um cafezinho enquanto proseia com Alemberg (o menino Kariri) na funda\u00e7\u00e3o Casa Grande, visita os museus org\u00e2nicos que s\u00e3o as casas dos mestres, dan\u00e7a, come, faz festa com brincantes nos reisados e muito mais.\u00a0 Alemberg disse que o barulho do vento nos buritis lembra um choro que poderia ser do Cariri com saudade do mar.<\/p>\n<p>No Cariri paraibano somos viajantes incans\u00e1veis que, pela longa estrada, descobrem o c\u00e9u mais azul do mundo, lajedos de um tamanho inesquec\u00edvel, vento, cantoria da passarada e muitas mulheres fazedoras de mundos: rendeiras que constroem tecido de renda renascen\u00e7a, tecel\u00e3s de redes, crocheteiras e muito mais. A for\u00e7a feminina naquele peda\u00e7o de Brasil sustenta o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o posso dizer: &#8211; Isso \u00e9 o sert\u00e3o!; aquele \u201csert\u00e3o que \u00e9 dentro da gente\u201d (G. Rosa) resolveu fazer morada definitiva em mim.\u00a0 O Cariri \u00e9 territ\u00f3rio, \u00e9 corpo, \u00e9 fronteira e centro desse Brasil profundo.<\/p>\n<p>Terra ind\u00edgena, encruzilhada entre\u00a0 o semi\u00e1rido e uma exuberante vegeta\u00e7\u00e3o na chapada, que \u00e9 considerada um o\u00e1sis, porque, de l\u00e1, jorram fontes aqu\u00edferas e tem verde o ano todo. H\u00e1 for\u00e7as que se somam na poesia da mulher rendeira de um lado e de outro, na alegria do brincante. Nordeste \u00e9 puro som e luz.<\/p>\n<p>Ronaldo Fraga \u00e9 artista visual, estilista, expedicion\u00e1rio, cantor (ele me mata) enfim, homem de mil cabe\u00e7as e dois mil cora\u00e7\u00f5es. Estive com eles h\u00e1 dois anos no Araripe e, no Cariri paraibano, h\u00e1 dois meses.<\/p>\n<p>Escolhi recortar dessa imensid\u00e3o de lembran\u00e7as a por\u00e7\u00e3o feminina representada por Zab\u00e9 da L\u00f3ca, uma entidade que nasceu em 1924 e fez a passagem em 2017, al\u00e9m de Josi, uma fada que acompanhou Zab\u00e9 at\u00e9 seu \u00faltimo dia.\u00a0 Cuida do seu legado at\u00e9 hoje e o continua\u2026.<\/p>\n<p>Zab\u00e9, uma sertaneja de vida dura como \u00e9 a vida nessas paragens, mas de uma for\u00e7a e inventividade que deixaram grandes marcas na nossa cultura. Zab\u00e9 de Isabel, L\u00f3ca \u00e9 uma esp\u00e9cie de gruta. Essa mulher, depois de perder sua casa, viveu com os filhos numa gruta fechada por parede de taipa. Com o passar dos tempos, os filhos se foram e ela permaneceu por 25 anos abrigada no casamento entre a pedra e o barro. O buraco tornou-se casa e ao redor, o sil\u00eancio, sua inspira\u00e7\u00e3o. Tocadora de p\u00edfano, aprendido com o irm\u00e3o, foi capaz de encantar muita gente. Foi descoberta em 1997, gravou 3 discos e foi condecorada com a Ordem do M\u00e9rito Cultural do MinC em 2008 pelas m\u00e3os de Gilberto Gil. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa! Nos \u00faltimos anos de vida, morou numa casa doada pelo INCRA, como uma honraria pela sua import\u00e2ncia. Essa casa abriga atualmente um \u201cmuseu org\u00e2nico\u201d com seus pertences, fotos de grandes momentos, um padre C\u00edcero e a mesma cor azul desde sempre. A casa azul tem uma porta para esse universo cheio de brasilidade, poesia, m\u00fasica e comida boa.<\/p>\n<p>Esse azul talvez tenha conduzido Josi a explorar as possibilidades de um plantio de anileira. Daquelas flores e folhas, ela extrai o \u00edndigo ou anil que colore tecidos. Pesquisou sozinha empiricamente todo o processo de plantio, colheita e transforma\u00e7\u00e3o em tinta. Essa mulher linda com tra\u00e7os negros e ind\u00edgenas foi casada com um homem que batia nela. A vida era assim, acontecia com todas, nem imaginava poder escapar desse destino tr\u00e1gico\u2026 A certa altura, em uma viagem como acompanhante de Zab\u00e9, ela ficou paralisada no <em>check in<\/em> do hotel, olhando para a ficha que pedia seus dados. N\u00e3o sabia ler, nem escrever. Quase morreu de vergonha.<\/p>\n<p>Mas, quando a vergonha, que deve mudar de lado, foi superada pelo \u00e2nimo de bem viver,\u00a0 aos 26 anos, prometeu a si mesma aprender as letras, separar-se do marido violento e ganhar asas. Foi um encontro profundo entre essas duas mulheres que permitiu expandirem seus mundos, uma de m\u00e3o dada com a outra.<\/p>\n<p>Josi mora no Assentamento Santa Catarina, situado no munic\u00edpio de Monteiro, sert\u00e3o da Para\u00edba. O clima semi\u00e1rido contrasta com tamanha abund\u00e2ncia afetiva. No percurso para alcan\u00e7armos a L\u00f3ca, passamos por um terreno salpicado por pedras brancas arredondadas que pareciam ter sido dispostas para decora\u00e7\u00e3o do terreiro, um deslumbre. Mas, nem imaginava que ainda haveria um sentido absoluto ligado ao feminino no meu caminho: uma barriguda centen\u00e1ria, uma esp\u00e9cie nativa da caatinga e do cerrado, prenhe de um mundo de vida. Ela se chama barriguda porque guarda \u00e1gua em seu interior, assemelhada a uma mulher gr\u00e1vida com flores no cabelo. Ao p\u00e9 dessa rainha eu me comovi e busquei um elo ancestral ligando todos os elementos da experi\u00eancia. Foi a\u00ed que Josi, num gesto delicado, abaixou-se e pegou uma pedrinha transparente, assoprou n\u00e3o sei se para tirar a terra ou para jogar magia e colocou na minha m\u00e3o, abrigando-a com meus dedos. O detalhe que n\u00e3o pode escapar \u00e9 que ela havia alertado ao grupo para n\u00e3o mexer em nada do territ\u00f3rio. Fui premiada.<\/p>\n<p>Nesses tempos em que mulheres buscam abra\u00e7os em outras mulheres para chorar e lutar contra tanta viol\u00eancia, aprendi que se reinventar \u00e9 joia feminina. Nos ecos das boas lembran\u00e7as dessa jornada, um dos meus livros prediletos me acompanha: <em>Vidas secas<\/em> de Graciliano Ramos.<\/p>\n<p>Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria \u00e9 a personagem retirante que sabe nomear coisas e emo\u00e7\u00f5es cultivando a humaniza\u00e7\u00e3o que a seca e a mis\u00e9ria roubam. N\u00e3o \u00e9 um farol, mas antes, um vagalume que brilha num lampejo e orienta a vida. O Cariri cultiva Sinh\u00e1s Vit\u00f3rias que seguem sonhando futuros para suas fam\u00edlias. Cada mestre que encontrei, cada pessoa com quem conversei se apresentavam como sujeitos da enuncia\u00e7\u00e3o, ora universais na sua sabedoria, ora t\u00e3o singulares. A simplicidade faz poesia nas suas vozes. Eu sonho tudo isso!<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4076\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13a.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13a.jpg 1200w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13a-225x300.jpg 225w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13a-768x1024.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13a-1152x1536.jpg 1152w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4077\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13b.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13b.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13b-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4078\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13c.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13c.jpg 1200w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13c-225x300.jpg 225w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13c-768x1024.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13c-1152x1536.jpg 1152w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4079\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13d.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13d.jpg 1200w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13d-225x300.jpg 225w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13d-768x1024.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13d-1152x1536.jpg 1152w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4080\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e.jpg 1600w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e-300x225.jpg 300w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e-768x576.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/interna_13e-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise e integrante da equipe editorial deste Boletim <span style=\"color: #a21616;\">on<\/span>line.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Registros de uma viajante incans\u00e1vel pelo sert\u00e3o que sonha, chora e se reinventa como joia feminina. Por Soraia Bento. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[366],"tags":[104,248],"edicao":[367],"autor":[230],"class_list":["post-4075","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-viagem","tag-cronicas","tag-viagem","edicao-boletim-78","autor-soraia-bento","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4075"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4113,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4075\/revisions\/4113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4075"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4075"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}