{"id":4098,"date":"2026-04-13T17:11:41","date_gmt":"2026-04-13T20:11:41","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4098"},"modified":"2026-04-13T17:11:41","modified_gmt":"2026-04-13T20:11:41","slug":"pulsao-de-morte-e-mal-estar-no-patriarcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/pulsao-de-morte-e-mal-estar-no-patriarcado\/","title":{"rendered":"Puls\u00e3o de morte e mal-estar no patriarcado"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Puls<\/strong><strong>\u00e3o de morte e mal-estar no patriarcado<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Mara Caff\u00e9<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de refletir sobre o texto <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> (Freud, 1920) em di\u00e1logo com o <em>Mal de arquivo \u2013 uma impress\u00e3<\/em><em>o freudiana<\/em> (Derrida, 1995) tendo, como foco, as rela\u00e7\u00f5es entre puls\u00e3o de morte e formas do mal-estar ligadas ao patriarcado no Ocidente. Com efeito, Freud analisou profundamente as dimens\u00f5es\u00a0 subjetivas e sociais do sistema patriarcal. Elaborou, de um lado, as formas cl\u00e1ssicas do pai edipiano das novelas familiares, do pai ancestral da horda e do Deus-pai religioso \u2014 todos eles em seu p\u00e9riplo civilizat\u00f3rio, cujos poderes se assentam na culpabilidade e na obedi\u00eancia \u2014 e, de outro, esbo\u00e7ou a figura diversa do pai falho e insuficiente, menos explicitada em sua obra, que se manifesta na crise da domina\u00e7\u00e3o masculina no contexto da primeira guerra mundial.<\/p>\n<p>Entretanto, no decurso dessas formula\u00e7\u00f5es, Freud sustentou posi\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-cl\u00ednicas tanto subversivas quanto conservadoras, o que nos convida a uma leitura cr\u00edtica de sua obra, desentranhando dela a dimens\u00e3o pol\u00edtica que a atravessa. Comecemos pela senda do mal-estar.<\/p>\n<p>No primeiro tempo dos seus escritos, Freud dedicou-se ao desvendamento das formas do mal-estar centradas no recalque das puls\u00f5es sexuais, conforme, por exemplo, <em>A moral sexual \u201ccivilizada\u201d e a doen\u00e7a nervosa dos tempos modernos<\/em> (1908). Contudo, em <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> (1920), o autor estabeleceu um outro paradigma do mal-estar, referido agora \u00e0 puls\u00e3o de morte. Vemos, ent\u00e3o, a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, os sonhos traum\u00e1ticos de guerra e as neuroses de destino como sintomas distintos daqueles constitu\u00eddos pela a\u00e7\u00e3o do recalque, estando fora do alcance do princ\u00edpio do prazer. Estas novas figuras do mal-estar emergiram na obra freudiana precisamente no marco social e pol\u00edtico da primeira guerra mundial, situa\u00e7\u00e3o em que o pacto civilizat\u00f3rio se mostrava profundamente amea\u00e7ado frente aos requintes estatais de viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o. A \u00e9poca que consagrou o modelo do Estado \u00e0 servi\u00e7o do bem-estar social assistia, agora, \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o em uma gigantesca m\u00e1quina de guerra, convocando e armando seus homens para a matan\u00e7a e a crueldade em grande escala. Nesse cen\u00e1rio de colapso civilizat\u00f3rio, Freud reconheceu um registro da fal\u00eancia simb\u00f3lica. Veremos, mais adiante, como isto se articula, dentre outras coisas, \u00e0 crise do poder do pai, visto sob a \u00f3tica do patriarcado.<\/p>\n<p>Adentremos, pois, em <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> (1920). Este texto ocupa uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na obra de Freud, provocando um abalo s\u00edsmico no que fora estabelecido at\u00e9 ali, carregando a for\u00e7a de um disjuntor te\u00f3rico. Tal revolu\u00e7\u00e3o imprimiu rearranjos na obra, trazendo para o per\u00edmetro da psican\u00e1lise textos como o <em>Projeto<\/em>, de 1895 e <em>Afasias<\/em>, de 1891, bem como revis\u00f5es conceituais importantes. Ocasionou, tamb\u00e9m, descontinuidades te\u00f3ricas, rupturas, pontas soltas, desenvolvimentos heterog\u00eaneos, definindo paradoxos e posi\u00e7\u00f5es inconcili\u00e1veis. O disjuntor te\u00f3rico de <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> tem nome, trata-se da puls\u00e3o de morte, \u201ca primeira puls\u00e3o\u201d, no dizer de Freud, apresentada em seus efeitos de sil\u00eancio, apagamento e destrui\u00e7\u00e3o, como for\u00e7a destitu\u00edda de sentidos sem\u00e2nticos, pura pot\u00eancia indeterminada, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 puls\u00e3o de vida, esta \u00faltima inscrita no psiquismo a partir dos representantes-representa\u00e7\u00e3o e afeto, e que visa \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o de unidades e v\u00ednculos cada vez maiores. Neste caso, a articula\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o ao campo ps\u00edquico das representa\u00e7\u00f5es estabelece os circuitos pulsionais, montagens er\u00f3ticas que sustentam e relan\u00e7am a vida. Por sua vez, a puls\u00e3o de morte se apresenta como for\u00e7a n\u00e3o articulada ao campo representacional, como impacto traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>As formas do mal-estar centradas na puls\u00e3o de morte n\u00e3o seguem, portanto, a l\u00f3gica simb\u00f3lica representacional, ou seja, n\u00e3o se acham ao alcance das modalidades de inscri\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, sejam tra\u00e7os, impress\u00f5es, signos de percep\u00e7\u00e3o, representa\u00e7\u00f5es-coisa, representa\u00e7\u00f5es-palavra etc. Instalam-se no interior do sujeito, por\u00e9m externas ao aparelho ps\u00edquico e \u00e0s leis que o regulam. Acham-se sempre alhures, sem localiza\u00e7\u00e3o precisa, sem forma ou conte\u00fado determinado. A compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o vista nos sonhos traum\u00e1ticos, nas brincadeiras de crian\u00e7a e nas transfer\u00eancias em an\u00e1lise, por exemplo, s\u00e3o ind\u00edcios de uma opera\u00e7\u00e3o que visa a capturar e domesticar os efeitos mudos, invis\u00edveis e mort\u00edferos desta for\u00e7a silenciosa, inquietante e sinistra, a puls\u00e3o de morte, ainda que ela nos seja t\u00e3o intr\u00ednseca quanto a pr\u00f3pria vida. Desse modo, as formas do mal-estar centradas na puls\u00e3o de morte n\u00e3o respondem a um centro simb\u00f3lico ordenador, sendo na realidade uma express\u00e3o da sua aus\u00eancia, insufici\u00eancia ou fal\u00eancia. Guardemos este ponto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Derrida e o mal de arquivo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Derrida, em seu livro <em>Mal de arquivo<\/em> (1995), prop\u00f5e uma reflex\u00e3o bastante original a respeito da puls\u00e3o de morte. Referida aos seus estudos anteriores acerca do aparelho ps\u00edquico freudiano como um aparelho de escrita, aberta aos processos da diferen\u00e7a e do diferir, Derrida traz agora a no\u00e7\u00e3o de arquivo, pensada no di\u00e1logo com o texto <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>. Trata-se, uma vez mais, da escritura freudiana, afirmada na cr\u00edtica aos pressupostos da metaf\u00edsica ocidental da presen\u00e7a, da origem e do logo\/fono\/falocentrismo.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da Hist\u00f3ria definem o arquivo como conjunto de documentos que registram e conservam a verdade material dos fatos, de modo fixo e imut\u00e1vel, constituindo um registro do passado sem rasuras e esquecimentos. Segundo Derrida, a psican\u00e1lise provocou, a seu modo, uma desconstru\u00e7\u00e3o desta no\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de arquivo, postulando o seu car\u00e1ter intrinsecamente ficcional e sintom\u00e1tico. Isto se deu a partir da concep\u00e7\u00e3o freudiana do aparelho ps\u00edquico como um aparelho de arquivamentos, constitu\u00eddo \u201cpor marcas e tra\u00e7os, disseminados em diferentes espa\u00e7os ps\u00edquicos&#8230; agenciados por diversas opera\u00e7\u00f5es, tais como posteridade, recalque e repress\u00e3o&#8230;\u201d (Birman, 2008, p. 117)<\/p>\n<p>Com o surgimento da no\u00e7\u00e3o de puls\u00e3o de morte, esta concep\u00e7\u00e3o freudiana se radicaliza ainda mais, admitindo um outro elemento constitutivo do arquivo que trabalha justamente o apagamento das marcas e tra\u00e7os, apagamento este distinto das opera\u00e7\u00f5es do recalcamento, o que Derrida nomeou como mal de arquivo. O apagamento silencioso de tra\u00e7os e impress\u00f5es abre espa\u00e7o para novas inscri\u00e7\u00f5es e renova\u00e7\u00f5es, projetando o arquivo para o tempo presente e futuro, ou seja, para o vir a ser. Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 continuidade linear ou previsibilidade entre estes registros temporais, uma vez que o apagamento silencioso n\u00e3o ret\u00e9m de outro modo os conte\u00fados apagados, tal como se v\u00ea na a\u00e7\u00e3o do recalcamento. Esta nova dimens\u00e3o do arquivo n\u00e3o responde pela mem\u00f3ria ou rememora\u00e7\u00e3o. Derrida conclui que o arquivo \u201cn\u00e3o se reduz jamais \u00e0 <em>mneme<\/em> ou \u00e0 <em>anamnesis<\/em>&#8230; Bem ao contr\u00e1rio: o arquivo [se constitui no] &#8230; lugar da falta origin\u00e1ria e estrutural da chamada mem\u00f3ria&#8230; O arquivo \u00e9 hipomn\u00e9sico.\u201d (Derrida, 1995, p. 22). \u00c9 justamente isto o que permite as produ\u00e7\u00f5es da fic\u00e7\u00e3o e do fantasm\u00e1tico, constituindo-se o arquivo como verdade hist\u00f3rica e n\u00e3o como verdade material, distin\u00e7\u00e3o mencionada por Freud em <em>Mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3<\/em><em>o<\/em> (1930).<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Derrida ressalta a dimens\u00e3o pol\u00edtica do arquivo e dos processos de arquivamento. Postula que todo arquivo se constitui num lugar, ou seja, num suporte, e \u00e9 interpretado e guardado por um arconte, ou seja, uma autoridade que o comanda. A esse respeito, o fil\u00f3sofo discute o princ\u00edpio patriarcal no comando dos arquivos da hist\u00f3ria, mostrando que Freud empreendeu a sua desconstru\u00e7\u00e3o radical tanto quanto o reproduziu no \u00e2mbito da teoria psicanal\u00edtica e das rela\u00e7\u00f5es institucionais com os seus colaboradores.<\/p>\n<p>Concluindo, a puls\u00e3o de morte (ou o mal de arquivo, na denomina\u00e7\u00e3o derridiana) n\u00e3o opera no campo da mem\u00f3ria, da rememora\u00e7\u00e3o e do monumento. Como pura for\u00e7a, desligada de sentidos sem\u00e2nticos, destitu\u00edda de qualquer inscri\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, a puls\u00e3o de morte instala, na primeira teoria do aparelho ps\u00edquico de Freud, um espa\u00e7o \/ tempo e um funcionamento in\u00e9ditos, expandindo o campo do indeterminado, do diferir e do devir, alojando as experi\u00eancias do acontecimento e da transgress\u00e3o conforme pensadas por Foucault (1963). De acordo com esse autor, a modernidade ocidental se caracteriza pela queda da autoridade absoluta de Deus e do rei, abrindo aos homens o campo dos acontecimentos e transgress\u00f5es, os quais se d\u00e3o na suspens\u00e3o e na aus\u00eancia da lei, e n\u00e3o contra a lei (ao contr\u00e1rio de Freud, que pensa a transgress\u00e3o como aquilo que se op\u00f5e \u00e0 lei).<\/p>\n<p>Foucault postula que as normaliza\u00e7\u00f5es do poder disciplinar e do biopoder visam a conter a experi\u00eancia da transgress\u00e3o e do acontecimento, uma vez que estas n\u00e3o se reportam a um campo regulado pela lei (da castra\u00e7\u00e3o, se nos referirmos \u00e0 psican\u00e1lise) n\u00e3o constituindo, a princ\u00edpio, nem refor\u00e7o nem resist\u00eancia aos jogos de poder institu\u00eddos. Nesse sentido, tais experi\u00eancias podem gerar tanto a destrui\u00e7\u00e3o observada, por exemplo, nas guerras e nos genoc\u00eddios, quanto as sublima\u00e7\u00f5es\/subvers\u00f5es vistas na arte e nas novas formas do viver.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>As categorias do pai em Freud: da hegemonia civilizat\u00f3<\/strong><strong>ria <\/strong><strong>\u00e0 <\/strong><strong>insufici<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre a aus\u00eancia ou fal\u00eancia simb\u00f3lica nos leva a considerar, por sua vez, as quest\u00f5es do pai e do patriarcado. Nessa dire\u00e7\u00e3o, Joel Birman (2006; 2008) prop\u00f5e que <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> pode ser lido como portador de uma cr\u00edtica impl\u00edcita \u00e0 categoria do pai, cuja hegemonia simb\u00f3lica e civilizat\u00f3ria se v\u00ea abalada pela crise moderna do patriarcado. Trata-se de uma hip\u00f3tese interpretativa segundo a qual o novo paradigma ali instaurado \u2014 a puls\u00e3o de morte \u2014 aponta para a desestabiliza\u00e7\u00e3o do lugar do pai simb\u00f3lico garantidor da cultura, desvelando outras formas de mal-estar social que j\u00e1 n\u00e3o se articulam ao dom\u00ednio pleno da autoridade paterna. Tal formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apresentada explicitamente por Freud, mas decorre de uma leitura que se pretende atenta \u00e0s dimens\u00f5es pol\u00edticas de sua obra.<\/p>\n<p>Embora a hip\u00f3tese de Birman tenha contornos pr\u00f3prios, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer pontos de converg\u00eancia com outros(as) psicanalistas que, por diferentes caminhos, abordaram criticamente as bases patriarcais da psican\u00e1lise e as transforma\u00e7\u00f5es da fun\u00e7\u00e3o paterna na cultura. Podemos citar, por exemplo, Michel Tort, pela cr\u00edtica \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o paterna na obra de Freud e pela compreens\u00e3o do decl\u00ednio do pai como constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; Ren\u00e9 Ka\u00ebs, pela releitura freudiana das forma\u00e7\u00f5es do la\u00e7o social e pela an\u00e1lise da crise da filia\u00e7\u00e3o e das formas de autoridade, e Jean Laplanche, pelo deslocamento da centralidade edipiana. Todos eles consideram o duplo movimento presente em Freud, ao mesmo tempo cr\u00edtico e reafirmador das estruturas patriarcais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, levando em conta suas enormes diferen\u00e7as, temos tamb\u00e9m Luce Irigaray, Maria Rita Kehl, M\u00e1rcia Aran e Regina Neri, pela cr\u00edtica \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica e \u00e0 ordem patriarcal na teoria psicanal\u00edtica e pela concep\u00e7\u00e3o do feminino como operador cr\u00edtico das transforma\u00e7\u00f5es da cultura e das formas de subjetiva\u00e7\u00e3o. Ao incorporar a quest\u00e3o racial a esse debate, destacam-se Cida Bento e Priscilla Santos Souza, que ampliam essa cr\u00edtica \u00e0 psican\u00e1lise tradicional, expondo seus fundamentos patriarcais e eurocentrados e propondo uma leitura decolonial e racializada da subjetividade.<\/p>\n<p>Esses(as) autores(as), entre muitos(as) outros(as), de origens e trajet\u00f3rias t\u00e3o diferentes, se re\u00fanem aqui sob a perspectiva de um pensamento cr\u00edtico \u00e0s bases patriarcais da psican\u00e1lise, trilhando caminhos e chegando a pontos contrastantes. O escopo do presente texto \u00e9 o de pensar um poss\u00edvel exerc\u00edcio dessa cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o freudiana de puls\u00e3o de morte. Ou seja, indagar em que medida essa no\u00e7\u00e3o pode responder \u00e0 crise das figura\u00e7\u00f5es do pai em um momento hist\u00f3rico marcado pelo decl\u00ednio moderno do poder masculino na cultura ocidental.<\/p>\n<p>Por fim, outra converg\u00eancia com a hip\u00f3tese de Birman pode ser observada no trabalho de Andr\u00e9 Green a respeito da puls\u00e3o de morte, que ele relaciona \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Entretanto, Green n\u00e3o se det\u00e9m propriamente na quest\u00e3o do patriarcado, dire\u00e7\u00e3o assumida por Birman.<\/p>\n<p>Voltando a Freud, em uma breve recapitula\u00e7\u00e3o de sua obra, o pai aparece tanto nas novelas familiares quanto na constela\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas. Em <em>Totem e tabu<\/em> (1913), por exemplo, temos a morte do pai da horda primeva em consequ\u00eancia da revolta dos filhos, epis\u00f3dio que pode ser associado \u00e0 passagem da sociedade absolutista e autocr\u00e1tica \u00e0 sociedade fraternal e democr\u00e1tica: a primeira centrada na figura religiosa de Deus e na figura pol\u00edtica do rei, deriva\u00e7\u00f5es do pai onipotente, e a segunda fundada no poder democr\u00e1tico da comunidade, assentado na autoridade simb\u00f3lica do pai morto. Neste momento, em 1913, Freud descreve a supera\u00e7\u00e3o dos homens da condi\u00e7\u00e3o de horda para a condi\u00e7\u00e3o de massa, dando in\u00edcio \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o humana ou, numa leitura mais datada, \u00e0 \u00e9poca hist\u00f3rica da modernidade, regida pelos ideais humanistas de fraternidade e igualdade.<\/p>\n<p>Em <em>Psicologia de grupo e an\u00e1lise do ego<\/em> (1921), Freud reflete sobre como se d\u00e1 a regula\u00e7\u00e3o da massa pelo l\u00edder, este \u00faltimo espelhado na figura do pai, sendo a igreja e o ex\u00e9rcito as duas institui\u00e7\u00f5es em foco. Em <em>O futuro de uma ilus\u00e3<\/em><em>o<\/em> (1920), o autor se det\u00e9m no fen\u00f4meno da ilus\u00e3o religiosa, com Deus pai celestial na salva\u00e7\u00e3o dos filhos desamparados. Al\u00e9m disso, sob os \u00e2ngulos mais variados, Freud recorreu, frequentemente, ao mito grego de \u00c9dipo e \u00e0 trag\u00e9dia de Hamlet, ligando a forma\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias ideais e normativas \u00e0s narrativas do parric\u00eddio e \u00e0 culpa decorrente. Trata-se, sempre, da jornada do pai autocr\u00e1tico ao pai protetor. A funda\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o humana \u00e9, neste \u00e2ngulo, uma atribui\u00e7\u00e3o do poder masculino, paternal e patriarcal, sendo a ordem simb\u00f3lica essencialmente faloc\u00eantrica.<\/p>\n<p>Entretanto, Freud apresentou, tamb\u00e9m, ainda que de modo menos evidente, outros desenvolvimentos a respeito da categoria do pai, agora visto na chave da insufici\u00eancia, desconstruindo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> a vers\u00e3o anterior, o que poderia estar no fundamento do texto <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> (1920). Este novo plano te\u00f3rico revolucion\u00e1rio n\u00e3o se coloca de modo homog\u00eaneo e linear nos textos p\u00f3s-1920. Trata-se, melhor dizendo, de uma revolu\u00e7\u00e3o intermitente, que divide a cena com outros paradigmas. Em linhas gerais, no registro anterior, a sociedade se veria regulada pela interdi\u00e7\u00e3o de matar, elemento fundante para os la\u00e7os sociais, estando o pai no centro ordenador deste processo. \u00c9 o que vemos em <em>Totem e tabu<\/em> (1913). No novo registro, e a partir do contexto da primeira guerra mundial, Freud observa que a interdi\u00e7\u00e3o de matar n\u00e3o se mant\u00e9m na situa\u00e7\u00e3o da guerra, sendo que o pr\u00f3prio Estado recruta seus homens para a matan\u00e7a, a viol\u00eancia e a crueldade. Os dispositivos da culpa n\u00e3o s\u00e3o, portanto, reguladores definitivos do la\u00e7o social. Freud postula a exist\u00eancia da puls\u00e3o de morte e um de seus derivados, a puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o. Sob este vi\u00e9s, no texto <em>Psicologia de grupo e an\u00e1lise do ego<\/em> (1921), constata que o homem n\u00e3o seria um animal de massa, mas um animal de horda, ao contr\u00e1rio do que postulara em <em>Totem e tabu<\/em> (1913), n\u00e3o sendo poss\u00edvel domesticar e disciplinar a puls\u00e3o, havendo sempre o embate entre Eros e T\u00e2natos, evidenciando-se assim o trabalho subterr\u00e2neo e disruptivo da puls\u00e3o de morte. Em decorr\u00eancia, Freud formula o narcisismo das pequenas diferen\u00e7as, revelando uma dificuldade insuper\u00e1vel dos homens no confronto com a diferen\u00e7a, sendo este o pomo de uma disc\u00f3rdia fundamental que tensiona a conviv\u00eancia social frente \u00e0 pluralidade de ra\u00e7a, etnia, religi\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Neste novo paradigma, n\u00e3o h\u00e1 plena regula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica civilizat\u00f3ria, fun\u00e7\u00e3o esta atribu\u00edda por Freud (e muitos outros), conforme j\u00e1 vimos, ao poder patriarcal. Ou seja, as inst\u00e2ncias mediadoras possibilitadas pela castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ou pelo nome do pai, no dizer de Lacan, n\u00e3o recobrem toda a extens\u00e3o da vida subjetiva e social, sendo este o fundamento para a afirma\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 um ser de horda. Haver\u00e1 sempre um res\u00edduo pulsional desligado das inscri\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, refrat\u00e1rio, portanto, aos governos e disciplinamentos. Esta for\u00e7a indom\u00e1vel constitui um risco permanente \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o humana (ali\u00e1s, quantas vezes j\u00e1 n\u00e3o so\u00e7obramos?!), de tal modo que a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o dada de uma vez por todas, devendo ser refundada a cada gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos lan\u00e7ados, irremediavelmente, \u00e0 erotiza\u00e7\u00e3o de nossas rela\u00e7\u00f5es e de n\u00f3s mesmos como forma de recarregarmos a vida, n\u00e3o havendo pai que nos proteja e nos substitua nesta responsabilidade. Cai a garantia suprema do pai ou da fun\u00e7\u00e3o paterna como agente civilizat\u00f3rio, entronado pelo poder patriarcal, cuja soberania \u00e9 exercida a partir da submiss\u00e3o e exclus\u00e3o da mulher ou, no dizer de Freud, no recha\u00e7o ao feminino. Neste sentido, o recha\u00e7o ao feminino e a inveja do p\u00eanis, sua contraface, seriam sintomas do patriarcado, e n\u00e3o elementos de uma condi\u00e7\u00e3o universal intr\u00ednseca \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, as figuras paternas do patriarcado seriam fantasias a serem analisadas e n\u00e3o reproduzidas te\u00f3rica e clinicamente, como constru\u00e7\u00f5es eternas e essenciais \u00e0 cultura. Na situa\u00e7\u00e3o humana desvelada no texto freudiano de 1920, em que o pai falha em sua cobertura simb\u00f3lica protetora, que destinos civilizat\u00f3rios e \u00e9tica se anunciam para a humanidade? Segundo Judith Butler (2009), apenas a identifica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de seres prec\u00e1rios que todos somos poderia produzir uma \u00e9tica e uma pol\u00edtica da fraternidade, na dire\u00e7\u00e3o da solidariedade e da amizade.<\/p>\n<p>Concluindo, nesta perspectiva de uma leitura pol\u00edtica, a puls\u00e3o de morte aparece na teoriza\u00e7\u00e3o freudiana a partir do reconhecimento \u2013 e como um postulado \u2013 da queda do pai em sua hegemonia simb\u00f3lica civilizat\u00f3ria, detentor da raz\u00e3o e do poder pol\u00edtico masculinista. Entretanto, a senda aberta no referido texto n\u00e3o cessa de se fechar e reinscrever muitas vezes na obra freudiana, o que denota justamente o mal de arquivo postulado por Derrida. Voltemos a ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A quest<\/strong><strong>\u00e3o do patriarcado em <em>Mal de arquivo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste ensaio, Derrida comenta a preval\u00eancia do pai na obra freudiana e na institui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. Toma o livro do historiador Yerushalmi, <em>Freud<\/em><em>\u2019<\/em><em>s Moses, judaism terminable and interminable<\/em> (1991), em que este reflete sobre a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise, juda\u00edsmo e judeidade. Destacarei, aqui, a longa reflex\u00e3o de Derrida sobre o modo como Yerushalmi termina o seu livro. Em um mon\u00f3logo fict\u00edcio dirigido a Freud, Yerushalmi refere-se a uma mensagem escrita por Anna Freud, em 1977, na ocasi\u00e3o da inaugura\u00e7\u00e3o de uma c\u00e1tedra que levaria o nome do seu pai na Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m. Impedida de comparecer ao evento, Anna escreve uma mensagem, onde \u201cdeclara, entre outras coisas, que a acusa\u00e7\u00e3o segundo a qual a psican\u00e1lise \u00e9 uma \u2018ci\u00eancia judia\u2019, \u2018na circunst\u00e2ncia presente seria um t\u00edtulo de gl\u00f3ria\u2019.\u201d (Derrida, 1995, p. 59) A esse respeito, por sua vez, Freud fora discreto, uma vez que n\u00e3o lhe interessava que a psican\u00e1lise estivesse associada fortemente ao juda\u00edsmo, o que poderia dificultar a sua expans\u00e3o. Derrida, ent\u00e3o, se mostra estarrecido com a seguinte coloca\u00e7\u00e3o de Yerushalmi, no encerramento do mon\u00f3logo fict\u00edcio: \u201cQuando sua filha fez chegar esta mensagem ao Congresso de Jerusal\u00e9m, era em seu nome que ela se exprimia? Eu lhe pe\u00e7o, prezado professor, diga-me, prometo guardar o segredo.\u201d (<em>op. cit<\/em>., p. 60) Derrida observa que, deste modo, o historiador pergunta se esta carta <em>escrita<\/em> por Anna est\u00e1 <em>assinada<\/em> por ela, enfim, se a \u201cfilha de Freud falava no nome dela: como se duvidasse de que uma filha, sobretudo a filha de Freud, pudesse falar em seu pr\u00f3prio nome.. [e mais!]&#8230; como se, secretamente&#8230; [Freud] desejasse que ela sempre tivesse falado em nome de seu pai, em nome do pai\u201d. (op. cit., p. 59)<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias que Derrida tira disto s\u00e3o contundentes: se por um lado, Freud mostrou como ningu\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o das subjetividades constitu\u00eddas no sistema paternal e patriarcal, revelando a autoridade arc\u00f4ntica dos pais e seus derivados na manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do patriarcado, por outro lado, \u201ctanto na vida como na obra, tanto nas suas teses te\u00f3ricas como na compuls\u00e3o de sua estrat\u00e9gia institucionalizante, Freud repetiu a l\u00f3gica patriarcal. Declarou, no \u2018Homem dos ratos\u2019, especialmente, que o direito patriarcal (<em>Vaterrecht<\/em>) marcava o progresso civilizador da raz\u00e3o. E o enfatizou, na promessa patriarcal, ali onde todos os seus herdeiros, os psicanalistas de todos os pa\u00edses, se uniram como um s\u00f3 homem para segui-lo e fazer subir as apostas.\u201d (<em>op. cit<\/em>., p. 123) E, de tal modo, que se pode perguntar se seus filhos e seguidores podem falar em nome pr\u00f3prio. Se Anna Freud pode falar em nome pr\u00f3prio. \u201cOu se sua filha foi alguma vez na vida (Zo\u00e9) algo mais que um fantasma ou um espectro, uma Gradiva <em>rediviva<\/em>, uma Gradiva-Zo\u00e9-Bertgang de passagem pelo n\u00famero 19 da Bergasse.\u201d (<em>op. cit.<\/em>, p. 123)<\/p>\n<p>Derrida conclui que, na pergunta final de Yerushalmi, \u201csobe-se a aposta\u201d na figura do pai como arconte, guardi\u00e3o e autoridade do arquivo da psican\u00e1lise, relan\u00e7ando, neste aspecto, o gesto patriarcal do pr\u00f3prio Freud, atualizado agora no silenciamento de sua filha Anna, que n\u00e3o falaria sen\u00e3o em nome do pai. Tudo se passa como se a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e cl\u00ednica subversiva de Freud, estipulando as condi\u00e7\u00f5es para uma cr\u00edtica contumaz ao sistema patriarcal, revelando os dispositivos de subjetiva\u00e7\u00e3o inerentes a este sistema, fosse ela mesma tomada pelo mal de arquivo, desaparecendo no momento de emergir.<\/p>\n<p>Mas o impressionante \u00e9 que, de algum modo, o ensaio de Derrida realiza, em ato, este mesmo desfecho, sendo tomado pelo mal de arquivo, desaparecendo com o protagonismo da mulher no lugar mesmo em que denuncia o seu sequestro. A quest\u00e3o de se a psican\u00e1lise \u00e9 judia ou uma ci\u00eancia judia coloca em circula\u00e7\u00e3o justamente esta palavra \u2013 judia, n\u00e3o apenas referida \u00e0 psican\u00e1lise, mas tamb\u00e9m \u00e0 Anna Freud. Com a precis\u00e3o que lhe \u00e9 caracter\u00edstica, Derrida denuncia o ato do historiador na anula\u00e7\u00e3o do lugar de fala de Anna, mas logo depois disso retoma o termo judia para endere\u00e7\u00e1-lo aos temas do juda\u00edsmo e da judeidade. Retornam os homens arcontes. Anna Freud segue sem fala, tanto ela quanto outras mulheres nomeadas no ensaio de Derrida, como Ant\u00edgona, Sabina Spielrein (outra judia&#8230;), Lou Andreas-Salom\u00e9, Zo\u00e9 (da Gradiva), a m\u00e3e freudiana tida como certa&#8230; Elas est\u00e3o no texto, mas sem poder de enuncia\u00e7\u00e3o. Do outro lado, vemos uma s\u00e9rie de homens arcontes, guardi\u00f5es e autoridades dos arquivos, nomeadamente, o pai de Freud (Jacob Freud), denominado o arquipatriarca da psican\u00e1lise, e tamb\u00e9m o av\u00f4 de Freud (dito arquiarquipatriarca), Mois\u00e9s, Yerushalmi, Ernest Jones, Karl Marx, \u00c9dipo, Walter Benjamin, Hamlet, Cristo e o pr\u00f3prio Derrida. As mulheres citadas, ainda que figurem no texto, n\u00e3o entram efetivamente na conversa. Vemos, assim, que a abertura de um arquivo, o que significa torn\u00e1-lo p\u00fablico, n\u00e3o \u00e9 algo que se fa\u00e7a pelo ato volunt\u00e1rio de um pensamento. Derrida tem quase tudo, mas neste quase que lhe falta, reproduz o silenciamento das mulheres empreendido pelo patriarcalismo. O que parece possibilitar a abertura de um arquivo \u00e9 um conjunto de for\u00e7as em jogo no campo social e pol\u00edtico maior. O fil\u00f3sofo explica e duplica o mal de arquivo, \u201csobe o lance\u201d, conforme ele mesmo diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Linhas de abertura<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gostaria de encerrar com algumas linhas de abertura. Sabemos que a crise do patriarcado produz n\u00e3o apenas formas determinadas do mal-estar, mas tamb\u00e9m o florescimento de subjetividades e coletividades menos afeitas \u00e0 sua l\u00f3gica. \u00c9 o que nos indica, por exemplo:<\/p>\n<p>&#8211; o destaque do termo \u201cparentalidade\u201d em lugar dos termos \u201cfun\u00e7\u00e3o paterna\u201d e \u201cfun\u00e7\u00e3o materna\u201d, inclusive e especialmente no discurso jur\u00eddico, acolhendo outras composi\u00e7\u00f5es familiares e distribui\u00e7\u00f5es de g\u00eanero que n\u00e3o reproduzem o poder patriarcal e o modelo tradicional do cuidado com as crian\u00e7as. \u00c9 o que vemos, por exemplo, em <em>Parentalidade <\/em>(2020), organizado por Daniela Teperman, Thais Garrafa e Vera Iaconelli.<\/p>\n<p>&#8211; o crescente reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o do feminino, bem como as den\u00fancias \u00e0 viol\u00eancia e ao recha\u00e7o social das mulheres, conquistas iniciadas pelos movimentos pol\u00edticos feministas. Abrem-se, assim, arquivos sobre as hist\u00f3rias da mulher, conforme denotam, por exemplo: Silvia Federici, em <em>Calib<\/em><em>\u00e3 e a bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3<\/em><em>o primitiva<\/em> (2017 [2004]), contrapondo as narrativas patriarcais de ca\u00e7a \u00e0s bruxas \/ mulheres ao relato pouco conhecido do seu papel social revolucion\u00e1rio, desde as comunas medievais; Judith Butler, em <em>O clamor de Ant\u00ed<\/em><em>gona<\/em> (2014), que se contrap\u00f5e aos estudos psicanal\u00edticos sobre o \u00c9dipo, bem como L\u00e9lia Gonzalez, em <em>Racismo e sexismo na cultura brasileira<\/em> (1984) e \u00c2ngela Davis, em <em>Mulheres, ra\u00e7<\/em><em>a e classe<\/em> (1981), revelando, ambas, as condi\u00e7\u00f5es distintas de mulheres brancas e negras, analisando os conflitos de classe, ra\u00e7a e etnia no Brasil e nos Estados Unidos, respectivamente. Aqui, cabe lembrar tamb\u00e9m os movimentos e teorias do chamado feminismo decolonial, conforme apresentados, por exemplo, no livro <em>Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais <\/em>(2020), organizado por Heloisa Buarque de Hollanda.<\/p>\n<p>&#8211; a emerg\u00eancia e tematiza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero nas pautas sociais e pol\u00edticas e nos diversos saberes, a partir dos movimentos LGBTQIA+, bem como dos estudos queer e decoloniais. \u00c9 o que vemos, por exemplo, com Paul B. Preciado, em <em>Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando<\/em> (2023), Let\u00edcia Nascimento, em <em>Transfeminismo<\/em> (2023) e Rita Laura Segato, em <em>La critica de la colonialidad em ocho ensayos<\/em> (2013).<\/p>\n<p>&#8211; a amplia\u00e7\u00e3o das tem\u00e1ticas da horizontalidade e do comum em lugar da verticalidade, da soberania, da servid\u00e3o volunt\u00e1ria e do culto ao UM, possibilitando a experi\u00eancia da fraternidade fora do registro tradicional da rivalidade pelo amor do pai. Como exemplos, temos Joel Birman, em <em>Arquivos do mal-estar e da resist\u00ea<\/em><em>ncia<\/em> (2006) e Jorge Alem\u00e1n, em <em>O retorno do pol\u00edtico e da pol\u00ed<\/em><em>tica<\/em> (2022) e <em>Soledad: Com<\/em><em>\u00fa<\/em><em>n <\/em>(2023).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer<\/strong><strong>\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Alem\u00e1n, J. (2022) \u2013 <em>O retorno do pol\u00edtico e da pol\u00ed<\/em><em>tica.<\/em> LavraPalavra, 16 de junho de 2022.<\/p>\n<p>___________ (2023) \u2013 <em>Soledad: Com<\/em><em>\u00fa<\/em><em>n. <\/em>Edi\u00e7\u00e3o revisada com pr\u00f3logo de Massimo Recalcati. Barcelona: Ned ediciones.<\/p>\n<p>&#8211; Birman, J. (2006). <em>Arquivos do mal-estar e da resist\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>___________ (2008). <em>Arquivo e mal de arquivo: uma leitura de Derrida sobre Freud<\/em>. Natureza Humana \u2013 revista internacional de Filosofia e Psican\u00e1lise, 10 (1): pgs. 105 a 128.<\/p>\n<p>&#8211; Borges, J. L. (1998). <em>Funes, o memorioso<\/em> (1942). In: Obras Completas de Jorge Luis Borges. S\u00e3o Paulo: Globo, V. I.<\/p>\n<p>&#8211; Butler, J. (2003). <em>Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade<\/em> (1990). Rio de Janeiro: Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>__________ (2009). <em>Vida prec\u00e1<\/em><em>ria: el poder del duelo y la violencia <\/em>(2004). Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/p>\n<p>_________ (2014). <em>O clamor de Ant\u00edgona: parentesco entre a vida e a morte<\/em>. Florian\u00f3polis: Editora da UFSC.<\/p>\n<p>&#8211; Davis, A. (2016). <em>Mulheres, ra\u00e7<\/em><em>a e classe<\/em> (1981). S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>&#8211; Derrida, J. (2001). <em>Mal de arquivo: uma impress\u00e3<\/em><em>o freudiana <\/em>(1995). Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Federici, S. (2017). <em>Calib<\/em><em>\u00e3 e a bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3<\/em><em>o primitiva<\/em> (2004). S\u00e3o Paulo: Elefante.<\/p>\n<p>&#8211; Foucault, M. (2006). <em>Pref<\/em><em>\u00e1cio \u00e0 <\/em><em>transgress<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o<\/em> (1963a). In: Barros da Motta, N. (org.) &#8211; <em>Cole<\/em><em>\u00e7\u00e3o Ditos e escritos de Michel Foucault<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, vol. III.<\/p>\n<p>&#8211; Freud, S. (1996). <em>A moral sexual \u201ccivilizada\u201d e a doen\u00e7a nervosa dos tempos modernos<\/em> (1908). In: Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. IX.<\/p>\n<p>_____ (1996). <em>Totem e tabu<\/em> (1913). Op. cit., v. XIII.<\/p>\n<p>_____ (1996). <em>Al<\/em><em>\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em> (1920). Op. cit., v. XVIII.<\/p>\n<p>_____ (1996). <em>O futuro de uma ilus\u00e3<\/em><em>o <\/em>(1920). Op. cit., v. XXI.<\/p>\n<p>_____ (1996). <em>Psicologia de grupo e an\u00e1lise do ego<\/em> (1921). Op. cit., v. XVIII.<\/p>\n<p>_____ (1996). <em>Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3<\/em><em>o<\/em> (1930). Op. cit., v. XXI.<\/p>\n<p>&#8211; Gonzalez, L. (1984) \u2013 <em>Racismo e sexismo na cultura brasileira.<\/em> In: Gonzalez, L. (2020) <em>Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>&#8211; Hollanda, H. B. org. (2020) \u2013 <em>Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. <\/em>Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Nascimento, L. (2023) \u2013 <em>Transfeminismo. <\/em>S\u00e3o Paulo: Janda\u00edra.<\/p>\n<p>&#8211; Preciado, P. B. (2023) \u2013 <em>Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>Segato, R. L. (2013) \u2013 <em>La critica de la colonialidad em ocho ensayos. <\/em>Buenos Aires: Prometeo Libros.<\/p>\n<p>&#8211; Teperman, D., Garrafa, T. e Iaconelli, V. (orgs). (2020). <em>Parentalidade<\/em>. (Cole\u00e7\u00e3o Parentalidade &amp; Psican\u00e1lise). Belo Horizonte: Aut\u00eantica.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Esse texto se baseia em uma videoconfer\u00eancia realizada no <em>Ciclo de confer\u00eancias \u2013 Leituras da Psican\u00e1lise<\/em>, promovido pelo IPEP \u2013 Instituto de Pesquisa e Estudos em Psican\u00e1lise, em outubro de 2020. Na ocasi\u00e3o, psicanalistas foram convidados(as) a comentar o texto <em>Mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, de Freud (1920).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no curso de Psican\u00e1lise; participante da rede de psicanalistas atentos(as) \u00e0s quest\u00f5es raciais no Instituto AMMA &#8211; Psique e Negritude; doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo e autora dos livros <em>Psican\u00e1lise e Direito: a escuta anal\u00edtica e a fun\u00e7\u00e3o normativa jur\u00eddica<\/em> e <em>Cr\u00edtica \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O conto \u201cFunes, o memorioso\u201d, de Jorge Luis Borges, nos oferece uma alegoria da produ\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e da rememora\u00e7\u00e3o privadas do trabalho da hypomnese.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> A desconstru\u00e7\u00e3o, no sentido dado por Derrida, n\u00e3o equivale \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma estrat\u00e9gia de an\u00e1lise que produz a decomposi\u00e7\u00e3o de um dado conceito ou pensamento, numa dire\u00e7\u00e3o cr\u00edtica aos pressupostos da metaf\u00edsica ocidental. Nesta perspectiva, Freud teria desconstru\u00eddo algumas bases da concep\u00e7\u00e3o patriarcal do pai, concep\u00e7\u00e3o que, paradoxalmente, mant\u00e9m-se na obra ao lado de outras bem diversas e at\u00e9 mesmo opostas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edipiano, ancestral,  religioso ou insuficiente? 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