{"id":4100,"date":"2026-04-13T17:14:07","date_gmt":"2026-04-13T20:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4100"},"modified":"2026-04-13T17:14:07","modified_gmt":"2026-04-13T20:14:07","slug":"questoes-raciais-avancos-e-desafios-na-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/questoes-raciais-avancos-e-desafios-na-psicanalise\/","title":{"rendered":"Quest\u00f5es raciais: avan\u00e7os e desafios na psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Quest<\/strong><strong>\u00f5<\/strong><strong>es <\/strong><strong>raciais: avan\u00e7os e desafios na p<\/strong><strong>sican<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>lise<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>I<\/strong><strong>sildinha B. Nogueira<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Fomos convidadas, eu, Isildinha Baptista Nogueira e Helena Lima,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> para esse debate, a convite de Ana Spieler, do Freud Museum London, em 26 de novembro de 2024.<\/p>\n<p>Inicialmente, falamos de nossas experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o e vida com rela\u00e7\u00e3o ao tema. Helena \u00e9 membro fundadora da COPSIMO &#8211; Comunidade Psicanal\u00edtica de Mo\u00e7ambique; portanto, bem familiarizada com as quest\u00f5es raciais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de dizer um pouco do meu percurso de forma\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a, com brancos que puderam me enxergar, para al\u00e9m do meu corpo negro, e escutar que havia em mim um desejo de ser uma analista.<\/p>\n<p>Na Europa, tive a experi\u00eancia de apresentar um texto ainda muito incipiente; era a minha primeira experi\u00eancia de falar para psicanalistas, \u00e0 \u00e9poca experientes e renomados. O ano era 1986, em um encontro latino-americano de psican\u00e1lise em Paris, <em>Le psychanalyste sous la terreur<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, estimulada pelo F\u00e9lix Guattari, que, por acaso, nos dias que antecederam esse encontro, havia me perguntado por que pensar a negritude atrav\u00e9s da psican\u00e1lise, e n\u00e3o sociologicamente, politicamente; minha resposta foi: <em>Guattari, a psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise n<\/em><em>\u00e3o serve para pensar os seres humanos, a hist\u00f3ria, os tempos<\/em>&#8230; A resposta do Guattari foi: <em>sim, serve;<\/em> ent\u00e3o eu sou a humanidade.<\/p>\n<p>Meu texto tinha um ar de den\u00fancia sobre como era ser negra em S\u00e3o Paulo, longe do que hoje consegui elaborar como psicanalista: uma metapsicologia do sujeito negro, que nos permite fazer uma escuta do atravessamento do racismo. Era naquele tempo que come\u00e7ava a fazer a minha forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. A resposta de Fran\u00e7oise Dolto a meu texto foi: \u201c<em>N<\/em><em>\u00f3s, analistas franceses, n\u00e3o temos que comentar seu texto, ele sangra, ele \u00e9 <\/em><em>voc<\/em><em>\u00ea, e a psican\u00e1lise lhe deve isso<\/em>.\u201d Para minha surpresa, Jurandir Freire Costa, que na ocasi\u00e3o estava presente, no ano passado, 2025, numa mesa de homenagem a Neusa Santos Souza, trouxe \u00e0 lembran\u00e7a a fala da Dolto para mim e, em seguida, disse: \u201c<em>Neusa Santos Souza foi silenciada<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Tivemos por aqui psicanalistas que pensaram a quest\u00e3o do negro: Virg\u00ednia Bicudo, Leila Gonzalez e Neusa Souza, cujos trabalhos n\u00e3o tiveram muito eco \u00e0 \u00e9poca em que foram lan\u00e7ados.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia do meio psicanal\u00edtico a essa especificidade foi grande; ignoravam a quest\u00e3o, havia pouco empenho em fazer estudos que nos auxiliassem a escutar o sujeito negro.<\/p>\n<p>Particularmente, \u00e0 medida que a minha forma\u00e7\u00e3o ia acontecendo, n\u00e3o encontrava, na psican\u00e1lise, refer\u00eancias que pudessem pensar uma metapsicologia do sujeito negro.<\/p>\n<p>Quando li <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>, de Frantz Fanon, senti minha humanidade resgatada; para al\u00e9m de uma an\u00e1lise social, existencial do racismo antinegro, ele identificou as distor\u00e7\u00f5es nos discursos dos brancos sobre o negro, que tiravam sua humanidade.<\/p>\n<p>Fanon nos devolveu nossa humanidade; n\u00e3o era psicanalista e nunca foi psicanalisado, mas era um leitor arguto de Freud; me inspirou a seguir pensando o sujeito negro, n\u00e3o com vi\u00e9s psicanal\u00edtico, com a psican\u00e1lise; ainda que possa soar pretensioso, quero seguir me aprofundando nessa metapsicologia do sujeito negro.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, temos tido uma abertura maior para pensarmos analiticamente a negritude.<\/p>\n<p>Thamy Ayouch diz que o Brasil tem a vanguarda dessa quest\u00e3o; aqui seguimos pesquisando, e a nova gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores negros, em v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento, tem avan\u00e7ado muito.<\/p>\n<p>As escolas de forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise se abriram, v\u00eam criando condi\u00e7\u00f5es para forma\u00e7\u00e3o de analistas negros, num espa\u00e7o de inclus\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o desses analistas.<\/p>\n<p>Muito avan\u00e7amos da perspectiva sociol\u00f3gica, antropol\u00f3gica e pol\u00edtica, mas \u00e9 preciso uma forma\u00e7\u00e3o que atenda \u00e0 escuta cl\u00ednica do sujeito negro.<\/p>\n<p>Digo, e insisto em dizer, dos riscos de confundirmos cl\u00ednica e milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Cl\u00ednica n\u00e3o \u00e9 milit\u00e2ncia, milit\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 cl\u00ednica; no espa\u00e7o da milit\u00e2ncia, espa\u00e7o precioso de luta pela nossa cidadania e pol\u00edticas p\u00fablicas, que possa devolver ao negro seus direitos como cidad\u00e3o, com acesso e direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia e trabalho; aqui cabe palavra de ordem, bandeira pol\u00edtica para reivindicar esses direitos.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica psicanal\u00edtica est\u00e1 focada na escuta do inconsciente, baseada na \u00e9tica do desejo e da transfer\u00eancia, e da singularidade do sujeito, utilizando a fala, sonhos e associa\u00e7\u00f5es livres para fazer emergir desejos, ang\u00fastias e conflitos ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>Quando fiz a defesa da minha tese, fui aconselhada a n\u00e3o colocar o t\u00edtulo que originalmente pensei: \u201cA cor do inconsciente: Significa\u00e7\u00f5es do corpo negro\u201d; a justificativa era: o inconsciente n\u00e3o tem cor; assim, fui persuadida, para defender o conte\u00fado em que acreditava. Trinta e um anos depois, na ocasi\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o do livro, pude colocar o t\u00edtulo que acredito que diz do que defendo no livro: o inconsciente tem cor.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, professora no Curso de Psican\u00e1lise do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Helena Lima \u00e9 psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Organizado por Heitor O\u2019Dwyer de Macedo, psicanalista brasileiro radicado na Fran\u00e7a desde 1968, esse encontro foi publicado em 1988 sob o mesmo t\u00edtulo. Um exemplar do livro se encontra na Biblioteca Madre Cristina (N.E.).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresentado no <em>Freud Museum London<\/em>, texto de Isildinha Baptista Nogueira narra seu percurso e desafios como mulher negra em um campo psicanal\u00edtico colonial.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[54,45,361],"edicao":[367],"autor":[378],"class_list":["post-4100","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-decolonial","tag-letramento-racial","tag-o-que-resta","edicao-boletim-78","autor-isildinha-baptista-nogueira","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4100"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4101,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100\/revisions\/4101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4100"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4100"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}