{"id":4102,"date":"2026-04-13T17:16:28","date_gmt":"2026-04-13T20:16:28","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4102"},"modified":"2026-04-13T17:16:28","modified_gmt":"2026-04-13T20:16:28","slug":"sobre-aquilo-que-se-transmite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/sobre-aquilo-que-se-transmite\/","title":{"rendered":"Sobre aquilo que se transmite"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre aquilo que se transmite<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Em mem\u00f3ria de Ren\u00e9 Ka\u00ebs<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Juliana Farah<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ren\u00e9 Ka\u00ebs nos deixou no dia 1\u00ba de fevereiro de 2026, \u00e0s v\u00e9speras de seu 90\u00ba anivers\u00e1rio. N\u00e3o cheguei a conhec\u00ea-lo pessoalmente, mas seu trabalho tem sido t\u00e3o presente em minha vida nos \u00faltimos 10 anos que \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ter uma sensa\u00e7\u00e3o de proximidade. Uma semana antes de sua morte, colegas do NESME<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> estavam terminando de organizar um grande encontro <em>online <\/em>em sua homenagem, para celebrarmos seus 90 anos. Psicanalistas de diferentes lugares do mundo haviam escrito textos, gravado depoimentos, reunido lembran\u00e7as de suas experi\u00eancias com ele. Quando finalmente nos encontramos, j\u00e1 tinham se passado 20 dias de sua morte. Sustentamos, ent\u00e3o, um encontro atravessado por sua aus\u00eancia e, ao mesmo tempo, intensamente marcado por sua presen\u00e7a. Vozes do Brasil, da Fran\u00e7a, do Uruguai e da Argentina se entrela\u00e7aram, testemunhando n\u00e3o apenas a import\u00e2ncia de sua obra, mas os efeitos vivos de sua transmiss\u00e3o na vida profissional e pessoal de cada um.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, recebi o convite da equipe deste Boletim para elaborar um texto em sua mem\u00f3ria, que aceitei prontamente. N\u00e3o imaginei que essa tarefa seria t\u00e3o desafiadora. Ao longo do processo, tive v\u00e1rios sonhos. Em um deles, eu estava \u00e0s voltas com a escrita do texto quando minha filha, de 4 anos, me disse que estava com saudades do vov\u00f4 &#8211; meu pai &#8211; falecido h\u00e1 quase dois anos. Ela lembrava de uma brincadeira que ele fazia com ela: um som que ele emitia quando ela apertava seu nariz, o que gerava nela uma gargalhada. Ainda no sonho, pensei que este poderia ser o in\u00edcio do texto.<\/p>\n<p>A morte de Ka\u00ebs me fez acessar aspectos do luto de meu pai e, simultaneamente, reafirmou seu lugar de pai na minha forma de ser psicanalista, tanto em minha cl\u00ednica, quanto na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise, sempre atravessada pelo trabalho com os v\u00ednculos. Fui me dando conta de que n\u00e3o estava sendo capaz de fazer um texto po\u00e9tico, que era o que realmente queria deixar para ele(s). \u201cDe vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo\u201d, como lindamente nomeou Ad\u00e9lia Prado, poetisa brasileira que completou 90 anos em dezembro.<\/p>\n<p>Como falar da obra de Ka\u00ebs? Como fazer um recorte &#8211; que, sem d\u00favidas, passa por minha subjetividade &#8211; sem ser injusta e, ao mesmo tempo, sem deixar de lado essas articula\u00e7\u00f5es entre vida pessoal e profissional? Talvez precise iniciar dizendo que sou grata. Grata por ter encontrado em sua produ\u00e7\u00e3o nomea\u00e7\u00f5es, conceitos, aprofundamentos e contornos para uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica sens\u00edvel.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Ren\u00e9 Ka\u00ebs se constr\u00f3i, desde o in\u00edcio, na intersec\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o grupo. Sua forma\u00e7\u00e3o, marcada pelo di\u00e1logo entre psicologia, filosofia e sociologia, j\u00e1 indicava um interesse pelas experi\u00eancias coletivas que atravessam a vida ps\u00edquica. Nos anos 1960, ao se engajar na psican\u00e1lise e em sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, Ka\u00ebs se depara com uma separa\u00e7\u00e3o significativa entre o campo intraps\u00edquico e o campo intersubjetivo, ent\u00e3o dominante no interior da psican\u00e1lise. \u00c9 a partir da cr\u00edtica a essa separa\u00e7\u00e3o que ele, em interlocu\u00e7\u00e3o com Didier Anzieu e no \u00e2mbito do CEFFRAP<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, passa a construir uma metapsicologia dos conjuntos plurissubjetivos, elaborando dispositivos cl\u00ednicos e conceitos que permitem pensar o sujeito do inconsciente tamb\u00e9m como sujeito do v\u00ednculo.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de cinco d\u00e9cadas, Ren\u00e9 Ka\u00ebs desenvolveu no\u00e7\u00f5es fundamentais para a psican\u00e1lise contempor\u00e2nea, como o aparelho ps\u00edquico grupal, a concep\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos espa\u00e7os da realidade ps\u00edquica \u2014 o do sujeito, o dos v\u00ednculos e o do grupo \u2014, al\u00e9m dos conceitos de alian\u00e7as inconscientes, transmiss\u00e3o ps\u00edquica entre gera\u00e7\u00f5es e polifonia do sonho. Nascido em 1936, na regi\u00e3o da Lorena, no leste da Fran\u00e7a, e primog\u00eanito de uma fam\u00edlia numerosa, Ka\u00ebs situava, retrospectivamente, as ra\u00edzes de seu interesse pelos grupos nas experi\u00eancias precoces de rivalidade, alian\u00e7a e pertencimento vividas no complexo fraterno. Definindo-se como um \u201cser das fronteiras\u201d, marcado por atravessamentos culturais, hist\u00f3ricos e pol\u00edticos \u2014 desde a inf\u00e2ncia durante a guerra at\u00e9 o engajamento, na juventude, em movimentos sociais e universit\u00e1rios \u2014, sua trajet\u00f3ria traz uma obra que sustenta, desde o in\u00edcio, a articula\u00e7\u00e3o entre sujeito e coletivo. Sua forma\u00e7\u00e3o multidisciplinar, assim como sua longa experi\u00eancia cl\u00ednica, tanto na cura individual quanto nos dispositivos de grupo e nas institui\u00e7\u00f5es, contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o de um pensamento que afirma que o inconsciente se constitui e se transforma nos la\u00e7os. Com isso, sua teoria desloca a psican\u00e1lise de uma concep\u00e7\u00e3o centrada no mundo intraps\u00edquico do sujeito, permitindo compreender o sofrimento ps\u00edquico em sua inscri\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas, institucionais e hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Minha leitura de Ka\u00ebs me convoca a sustentar seus desdobramentos no contexto atual da psican\u00e1lise. No Brasil contempor\u00e2neo, marcado por desigualdades profundas, pelo racismo estrutural e pela persist\u00eancia da viol\u00eancia contra as mulheres, torna-se cada vez mais dif\u00edcil \u2014 e talvez mesmo imposs\u00edvel \u2014 pensar o sofrimento ps\u00edquico dissociado das condi\u00e7\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas que o produzem e o mant\u00eam. A articula\u00e7\u00e3o entre intraps\u00edquico e intersubjetivo, tal como formulada por Ka\u00ebs, nos oferece n\u00e3o apenas um instrumento te\u00f3rico, mas uma exig\u00eancia \u00e9tica: a de n\u00e3o reduzir o sujeito a seu mundo interno, nem o social a um pano de fundo. Pensar a transmiss\u00e3o ps\u00edquica, nesse contexto, implica reconhecer que traumas, silenciamentos e pactos se inscrevem tamb\u00e9m nos v\u00ednculos e nas institui\u00e7\u00f5es, atravessando gera\u00e7\u00f5es e exigindo dispositivos cl\u00ednicos capazes de acolher essa complexidade.<\/p>\n<p>Talvez por isso eu tenha come\u00e7ado este texto por um sonho. Nele, minha filha fazia viver, \u00e0 sua maneira, algo da presen\u00e7a de meu pai \u2014 n\u00e3o como lembran\u00e7a fixa, mas como gesto transmitido, reinscrito no corpo e na rela\u00e7\u00e3o. Hoje, ao retomar a obra de Ren\u00e9 Ka\u00ebs, me parece que algo semelhante se coloca: n\u00e3o se trata apenas de recordar um autor, mas de reconhecer os modos pelos quais sua presen\u00e7a continua a se transmitir, transformada, nos v\u00ednculos que sustentamos, nos grupos que habitamos, nas institui\u00e7\u00f5es que constru\u00edmos. H\u00e1 algo que permanece em circula\u00e7\u00e3o \u2014 entre gera\u00e7\u00f5es, entre analistas, entre contextos \u2014 e que nos convoca, ao mesmo tempo, a cuidar do que herdamos e a responder, de forma implicada, ao mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>Encerro este texto com uma esperan\u00e7a: nos \u00faltimos anos a busca por grupos de estudos e cursos sobre psican\u00e1lise de grupo tem aumentado, assim como a busca por dispositivos grupais para o tratamento de sofrimentos ps\u00edquicos e sofrimentos originados no campo social. O trabalho de Ka\u00ebs, at\u00e9 pouco tempo pouco difundido no Brasil, tem tido maior alcance e despertado interesse de psicanalistas, ampliando a discuss\u00e3o em nosso campo a respeito do menor valor dado aos textos sociais de Freud durante tantos anos e, consequentemente, aos desenvolvimentos posteriores propostos por psicanalistas que tomaram o grupo como dispositivo.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00ea<\/strong><strong>ncias<\/strong><\/p>\n<p>Ka\u00ebs, R. (2015). Um porta-grupos para a psican\u00e1lise. <em>Percurso<\/em>, 28(55), 70\u201384. <a href=\"https:\/\/percurso.openjournalsolutions.com.br\/index.php\/ojs\/article\/view\/289\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/percurso.openjournalsolutions.com.br\/index.php\/ojs\/article\/view\/289<\/a><\/p>\n<p>KA\u00cbS, Ren\u00e9. Site oficial. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.rene-kaes.com\/portfolio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.rene-kaes.com\/portfolio<\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, interlocutora do grupo de trabalho Psican\u00e1lise de grupo: teoria e pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> NESME \u2013 N\u00facleo de Estudos em Sa\u00fade Mental e Psican\u00e1lise das Configura\u00e7\u00f5es Vinculares, institui\u00e7\u00e3o brasileira dedicada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o, pesquisa e pr\u00e1tica cl\u00ednica com grupos, casais, fam\u00edlias e institui\u00e7\u00f5es, tendo como eixo te\u00f3rico a psican\u00e1lise vincular.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> CEFFRAP \u2013 Cercle d\u2019\u00e9tudes fran\u00e7aises pour la formation et la recherche: approche psychanalytique du groupe, du psychodrame, de l\u2019institution.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mem\u00f3ria de Ren\u00e9 Ka\u00ebs, um testemunho esperan\u00e7oso de Juliana Farah.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[179],"edicao":[367],"autor":[302],"class_list":["post-4102","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-in-memoriam","edicao-boletim-78","autor-juliana-farah","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4102"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4103,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4102\/revisions\/4103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4102"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4102"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}