{"id":4151,"date":"2026-06-12T12:10:13","date_gmt":"2026-06-12T15:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4151"},"modified":"2026-06-12T12:10:13","modified_gmt":"2026-06-12T15:10:13","slug":"a-historia-por-tras-dos-sorrisos-das-fotos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/a-historia-por-tras-dos-sorrisos-das-fotos\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria por tr\u00e1s dos sorrisos das fotos"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A hist<\/strong><strong>\u00f3ria por tr<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>s dos sorrisos das fotos<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong> <img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4152\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/foto_interna_ana_raquel.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/foto_interna_ana_raquel.jpg 745w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/foto_interna_ana_raquel-175x300.jpg 175w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/foto_interna_ana_raquel-596x1024.jpg 596w\" sizes=\"(max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Raquel Ribeiro<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Acabei de publicar fotos sorridentes enfeitadas com medalhas ao t\u00e9rmino da famosa ultramaratona Two Oceans: uma corrida de 56 km ao longo das lindas costas leste e oeste da Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul. Uma grande conquista sem d\u00favida, mas que inclui muito mais do que sugerem as imagens na rede social. A prova \u00e9 considerada desafiadora n\u00e3o apenas pela quilometragem, mas por duas subidas longas e pelo limite m\u00e1ximo de sete horas para ser conclu\u00edda. Uma tarefa bem dif\u00edcil e que exigiu planejamento e muito treino. Os quase doze meses de prepara\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, somados aos meus mais de vinte anos de corridas, deveriam ser suficientes para n\u00e3o haver grandes surpresas, al\u00e9m das belas paisagens. Mas a vida nunca acontece assim.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da prova, a rotina se repetiu como tantas outras vezes: jantar cedo uma massa leve, preparar a roupa (incluindo t\u00eanis, meia e bermuda previamente amaciados) e separar a \u201ccomida\u201d, igualmente testada nos treinos longos. Quer dizer, comida&#8230; comida&#8230; n\u00e3o \u00e9 bem o melhor nome. Trata-se mais de uma gosma gelatinosa de carboidrato concentrado embalada em sach\u00eas que servem de por\u00e7\u00f5es de energia capazes de manter o sistema funcionando, as pernas correndo e o c\u00e9rebro minimamente feliz para concordar com a ideia insistente (e um tanto maluca) de ficar correndo por horas a fio.<\/p>\n<p>Separei oito sach\u00eas coloridos, de sabores variados: frutas tropicais, pitaia, chocolate e o mais poderoso de todos, reservado para os momentos cr\u00edticos de exaust\u00e3o: caf\u00e9 com dose extra de taurina. Algo como&#8230; gasolina aditivada. De acordo com o plano, precisar\u00edamos de um sach\u00ea a cada sete quil\u00f4metros e mais um, para eventual necessidade. Afinal, nunca se sabe. Bem, \u00e0s vezes a gente desconfia. A verdade \u00e9 que eu j\u00e1 sabia que algo estava diferente. Os tais g\u00e9is, que tinham funcionado at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o ca\u00edram bem no \u00faltimo treino longo. Naquele momento, est\u00e1vamos consumindo cerca de cinco sach\u00eas por treino e o corpo mandou seu recado de que n\u00e3o estava mais querendo saber daquela ra\u00e7\u00e3o de astronauta. Mas&#8230; j\u00e1 era o final do ciclo de prepara\u00e7\u00e3o, tudo estava seguindo como esperado e, na verdade, nem haveria tempo para testar algum alimento alternativo antes da prova. Assim, meio sabendo, meio sem querer acreditar, segui com o plano e com os g\u00e9is coloridos.<\/p>\n<p>Chegamos para o in\u00edcio da prova animados, confiantes no treino e, confesso, com um medinho do que poderia acontecer. Como todo in\u00edcio de prova, a concentra\u00e7\u00e3o de corredores estava cheia de emo\u00e7\u00e3o e expectativa. Mas, diferente de qualquer outra corrida, fomos surpreendidos pelo coro de mais de 12 mil pessoas entoando aquele que virou o hino sul-africano para grandes desafios. <a href=\"https:\/\/youtu.be\/2aFlQS4k3wo?si=91aKeLgITdGfA-L-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Shosholoza<\/em><\/a>\u00a0,\u00a0m\u00fasica negra originalmente nascida nas minas de ouro e posteriormente levada \u00e0s partidas de futebol, tem uma melodia en\u00e9rgica, ritmada como um trem a vapor e canta em zulu algo como:\u00a0<em>\u201c<\/em><em>Vamos em frente, todos juntos empurrando o trem rumo <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s montanhas<\/em><em>\u201d.<\/em> Imposs\u00edvel n\u00e3o se emocionar.<\/p>\n<p>Especialmente, porque a met\u00e1fora desse hino zulu foi eternizada em um dos dias mais importantes da era democr\u00e1tica da \u00c1frica do Sul: \u201co dia m\u00e1gico\u201d (24 de junho de 1995), quando o ent\u00e3o presidente Nelson Mandela uniu os dois \u201cpa\u00edses\u201d sul-africanos na final do mundial de r\u00fagbi em que, pela primeira vez as torcidas (branca e negra) entoaram juntas o mantra que apoiou a busca pelo t\u00edtulo.<\/p>\n<p>A conquista do torneio disputado na \u00c1frica do Sul, estimulada pelo <em>slogan<\/em>\u00a0\u201cum time, uma na\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0foi um marco no processo de unifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Naquele dia, brancos e negros deixaram de lado as diferen\u00e7as e comemoraram juntos o orgulho de pertencerem \u00e0 mesma na\u00e7\u00e3o.\u00a0Brancos ergueram a nova bandeira da na\u00e7\u00e3o arco-\u00edris e cantaram o hino dos negros, que narrava a luta dos negros, na l\u00edngua dos negros. Esse movimento foi vital no dif\u00edcil processo de elaborar dores t\u00e3o profundas como as deixadas pelo regime do <em>apartheid<\/em>.<\/p>\n<p>Passadas tr\u00eas d\u00e9cadas, na largada da Two Oceans, a multid\u00e3o de pessoas pretas e brancas, cantando lado a lado, era mem\u00f3ria viva do legado de Mandela. Uma celebra\u00e7\u00e3o e um novo chamado para seguir a constru\u00e7\u00e3o, ainda t\u00e3o distante, do dia em que a cor da pele n\u00e3o seja sin\u00f4nimo de exclus\u00e3o e de desigualdades.<\/p>\n<p>A largada foi ainda sem sol, que nasceu pouco mais de uma hora depois do in\u00edcio da corrida, quando j\u00e1 t\u00ednhamos percorrido cerca de dez quil\u00f4metros. O clima perfeito e a bela praia amenizaram a preocupa\u00e7\u00e3o com o efeito (j\u00e1 presente) do primeiro gel que tomei. Seguimos encantados pela vista que crescia e pelo oceano agigantado de tanto azul. Lindo demais!<\/p>\n<p>Por volta do quil\u00f4metro quatorze, decidi tomar apenas mais meio sach\u00ea, na esperan\u00e7a de que o corpo concordasse em seguir o planejado. Mas chegando no vinte e um, as negocia\u00e7\u00f5es foram encerradas. O meio gel de frutas tropicais caiu feito um tijolo, chacoalhando tudo por dentro e acionando o alerta vermelho: sem gel, como correr mais 35 km?<\/p>\n<p>J\u00e1 pr\u00f3ximo \u00e0 metade da prova, nem tive a chance de pensar no que comer. De repente, a urg\u00eancia, essa que sempre fura a fila, era apenas uma: achar um banheiro! Nesse ponto da corrida, est\u00e1vamos iniciando a primeira das duas grandes subidas: o Chapman\u00b4s Peak. Segui carregando um vulc\u00e3o na barriga, daqueles que anuncia sua eminente erup\u00e7\u00e3o. Suava frio, procurando qualquer moita em que pudesse me aliviar, quando passou ao nosso lado um pelot\u00e3o ritmado de homens e mulheres pretos num passo cadenciado por um guizo e pelo canto hipnotizante de um deles. N\u00e3o entendia a l\u00edngua em que cantavam, mas aceitei o convite para outra sintonia, regida pelo pulso daquela voz. Fui chegando mais perto do grupo e segui(mos) nesse que parecia um corpo \u00fanico, um passo, um s\u00f3. Subi(mos) at\u00e9 o Chapman\u00b4s Peak assim, levados pelo guizo e pela voz. Nesse gesto coletivo, desliguei meu corpo de suas urg\u00eancias t\u00e3o individuais. Como lembra Haruki Murakami<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, a repeti\u00e7\u00e3o por tempo suficiente de qualquer a\u00e7\u00e3o mundana (como colocar um p\u00e9 na frente do outro para correr) pode se tornar um ato contemplativo ou at\u00e9 meditativo. Assim segui, com o pelot\u00e3o africano, sem pensar, cadenciando passo a passo, por cerca de cinco quil\u00f4metros montanha acima.<\/p>\n<p>Quando chegamos no topo, tal qual o\u00e1sis no deserto, estava l\u00e1 o ponto de apoio! Sim com \u00e1gua mas, principalmente, com o mais maravilhoso banheiro qu\u00edmico de todo o mundo! Sorri agradecida ao grupo &#8211; que nunca saber\u00e1, mas me carregou at\u00e9 ali &#8211; e fui resolver a urg\u00eancia que n\u00e3o tinha mais como ser adiada.<\/p>\n<p>Entre fila e banheiro, l\u00e1 se foram quatro minutos. Basicamente uma eternidade, quando cada segundo conta. A verdade \u00e9 que, em meio ao al\u00edvio, estava tudo muito tenso. Sem energia, o ritmo mais lento e paradas como essa poderiam custar a prova. O problema agora era seguir sem gel por mais 23 quil\u00f4metros, incluindo a subida mais dif\u00edcil. Minha salva\u00e7\u00e3o (e, na verdade, \u00fanica alternativa) foi apelar para goles de coca-cola, a cada tr\u00eas quil\u00f4metros nos pontos de apoio.<\/p>\n<p>No simb\u00f3lico quilometro 42, o racioc\u00ednio falhava. Nessa hora, foi meu parceiro da vida que, mais uma vez, me socorreu. Do nada, ele surgiu sorridente com um picol\u00e9! Coloquei para dentro, como pude, aquela que seria a \u00fanica fonte de energia, al\u00e9m dos goles de coca-cola. A subida mais temida come\u00e7ava ali e eu n\u00e3o tinha mais for\u00e7as. Foi ele quem me carregou com seu olhar nos meus olhos, chamando para seguir. Horas antes, r\u00edamos juntos das frases motivacionais espalhadas por todo o percurso da prova. Ele achando gra\u00e7a de t\u00e3o bregas que soavam. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o consegui evitar a cafonice de apoiar no ombro dele, meio aos prantos, para chegar no topo da maior subida dessa prova que, afinal de contas, eu escolhi fazer.<\/p>\n<p>Entre passadas ritmadas e o apoio sorridente das pessoas nas ruas, vimos chegar o topo da ladeira e nela renovada a esperan\u00e7a de concluir o percurso nas sete horas limite. L\u00e1, uma banda de rock agitava o esp\u00edrito para n\u00e3o desistir. Funcionou. Celebramos muito e em alto som. Ainda faltavam seis quil\u00f4metros e, obviamente, as contas do tempo restante eram feitas pelo meu parceiro. Mas eu acreditava. Seguimos, como combinamos, um passo de cada vez. Com a ajuda das descidas e dos deuses africanos, retomamos o ritmo at\u00e9 cruzar a linha de chegada em inacredit\u00e1veis seis horas e cinquenta e quatro minutos, dois g\u00e9is, um picol\u00e9 de laranja e muitos goles de coca-cola.<\/p>\n<p>Passada a epopeia, senti vontade de contar essa hist\u00f3ria. N\u00e3o apenas pela deliciosa conquista, pelas paisagens deslumbrantes por onde passamos, pela incr\u00edvel experi\u00eancia de ver um povo tentando reescrever a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas especialmente como forma de registrar, da vida, algo mais que os sorrisos das fotos. Essa vida que pulsa, resiste entre trope\u00e7os e se refaz na sua cotidiana imperfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cidade do Cabo &#8211; \u00c1frica do Sul, 12 de abril de 2026.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3loga, psicanalista membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, co-interlocutora do GT Fam\u00edlias no s\u00e9culo XXI; autora e organizadora do livro <em>Reflex\u00f5es cl\u00ednicas no contexto do Acolhimento<\/em>; coordenadora do programa <em>Com Tato<\/em> do Instituto Fazendo Hist\u00f3ria (2014-2024).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Murakami, Haruki. <em>Do que eu falo quando eu falo de corrida<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afetos envolvidos na radicalidade de uma ultramaratona na \u00c1frica do Sul. Por Ana Raquel Ribeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[366],"tags":[248],"edicao":[379],"autor":[326],"class_list":["post-4151","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-viagem","tag-viagem","edicao-boletim-79","autor-ana-raquel-ribeiro","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4151"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4153,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4151\/revisions\/4153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4151"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4151"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}