{"id":4161,"date":"2026-06-12T12:33:09","date_gmt":"2026-06-12T15:33:09","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4161"},"modified":"2026-06-12T12:33:09","modified_gmt":"2026-06-12T15:33:09","slug":"tempo-de-aprender-aprender-com-o-tempo-circulo-psicanalitico-de-pernambuco-faz-50-anos-educar-governar-e-psicanalisar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/tempo-de-aprender-aprender-com-o-tempo-circulo-psicanalitico-de-pernambuco-faz-50-anos-educar-governar-e-psicanalisar\/","title":{"rendered":"Tempo de aprender, aprender com o tempo: C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco faz 50 anos. Educar, governar e psicanalisar."},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Tempo de aprender, aprender com o tempo: C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco faz 50 anos<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Equipe editorial do boletim <span style=\"color: #a21616;\">on<\/span>line<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4163\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_01.jpg\" alt=\"\" width=\"229\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_01.jpg 229w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_01-168x300.jpg 168w\" sizes=\"(max-width: 229px) 100vw, 229px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estivemos todos convidados para as comemora\u00e7\u00f5es em torno do cinquenten\u00e1rio do prestigioso C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco. Co-fundadora dessa associa\u00e7\u00e3o de psicanalistas sediada em Recife, nossa colega Paulina Rocha (membro do nosso Departamento desde 2015) primeiro circulou o convite para a <a href=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/b79_14a_programacao_jornada_cpp.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">XXXVIII jornada do CPP<\/a>, realizada nos dias 14 e 15 de novembro de 2025 sob o t\u00edtulo <em>Hist\u00f3ria e contemporaneidade. <\/em>Ent\u00e3o ocorreu o lan\u00e7amento do livro <em>Tempo de aprender, aprender com o tempo<\/em>, organizado por Antonio Ricardo Rodrigues Silva, Isabela Cribari, Lula Couto e Paulina Schmidtbauer Rocha, editado pela Escuta.<\/p>\n<p>M\u00eas passado prosseguiu a festa, no animado lan\u00e7amento paulistano realizado em 09 de maio de 2026 na Vila Madalena. Em meio \u00e0 alegria dos muitos encontros, dos previs\u00edveis aos imprevis\u00edveis, de l\u00e1 trouxemos nosso convite \u00e0 leitura dessa singular experi\u00eancia nordestina atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o, a seguir, do artigo de abertura do livro, gentilmente cedido pelos colegas para a difus\u00e3o em nosso boletim. Muito bom.<\/p>\n<p>Nosso exemplar j\u00e1 se encontra na Biblioteca Madre Cristina. N\u00e3o percam!<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4164\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_02.jpg\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_02.jpg 284w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/tempo_amprender_02-208x300.jpg 208w\" sizes=\"(max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Educar, governar e psicanalisar<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Isabela Cribari<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de um livro sobre forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica \u00e9 um gesto atravessado por uma contradi\u00e7\u00e3o; aqui se apresenta, inicialmente, um dos nortes da obra. Talvez porque a pr\u00f3pria ideia de forma\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise n\u00e3o combine com s\u00ednteses ou defini\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, desde Freud, foi relutante a ceder aos moldes da academia e criou a Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Internacional (IPA), com v\u00e1rias exig\u00eancias pr\u00f3prias e fixas.<\/p>\n<p>Lacan, com sua formula\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do analista como algo que passa pelo desejo e n\u00e3o pela norma, empurrou ainda mais essa quest\u00e3o para uma regi\u00e3o de inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Igor Caruso se contrap\u00f4s \u00e0 IPA e criou uma institui\u00e7\u00e3o valorizando a pluralidade de abordagens e a an\u00e1lise leiga, que foi inspira\u00e7\u00e3o para o C\u00edrculo Brasileiro de Psican\u00e1lise. Acontece que uma de suas unidades sempre foi muito cr\u00edtica ao modelo estabelecido e ao dogmatismo institucional, considerando-o um obst\u00e1culo a uma experi\u00eancia cl\u00ednica \u201cviva\u201d. O C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco tornou-se, ent\u00e3o, independente e deu seguimento a um projeto audacioso de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, \u00fanico no pa\u00eds, que completa meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Este livro traz ideias e experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: cont\u00ednua, independente, com rupturas. Por assim dizer, este livro \u00e9 uma defesa da contradi\u00e7\u00e3o e tem a troca como gesto inaugurador.<\/p>\n<p>E mais: apresenta as tens\u00f5es inerentes \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um caminho pr\u00f3prio da psican\u00e1lise no Brasil. Aponta para dire\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e suas an\u00e1lises s\u00e3o impactantes. Observar a psican\u00e1lise a partir do Nordeste, sobretudo de Pernambuco, nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, \u00e9 amplificar vozes e profundidade hist\u00f3rica a uma viv\u00eancia vista sob o ponto sudestino, do Rio e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Contudo, esse projeto de forma\u00e7\u00e3o constru\u00eddo no Nordeste tem marcas muito vis\u00edveis, quando deixamos o corpo a nu. S\u00e3o singularidades marcadas pelas lutas pol\u00edticas, institucionais, na busca da cria\u00e7\u00e3o de redes aut\u00f4nomas de transmiss\u00e3o do saber psicanal\u00edtico e pela for\u00e7a\/desejo de acolher a cl\u00ednica, seja ela privada, p\u00fablica ou mesmo nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>O projeto de forma\u00e7\u00e3o do C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco n\u00e3o se organiza a partir de uma origem estanque. \u00c9 rica de percursos singulares, plurais, descentrados. Como lembra Paulina Rocha, uma das fundadoras do CPP \u201c<em>n\u00e3<\/em><em>o aprendi psican<\/em><em>\u00e1lise sentada lendo o livro \u2018sagrado\u2019. Eu aprendia porque tudo ao meu redor era psican\u00e1<\/em><em>lise, psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise e psican<\/em><em>\u00e1lise, com diversas pessoas, dos mais diferentes discursos e com refer\u00eancias dos mais diferentes autores. N\u00e3<\/em><em>o era un<\/em><em>\u00ed<\/em><em>ssono<\/em>\u201d.\u00a0Para ela, a forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7a com um contrato institucional, mas quando se entra em contato com a escuta, a cl\u00ednica, o desejo de compreender o humano \u2014 e isso pode ocorrer em semin\u00e1rios, nos corredores de uma institui\u00e7\u00e3o, numa conversa com um colega, num momento de crise ou de espanto.<\/p>\n<p>Esse projeto se fez, como se faz a psican\u00e1lise: de espantos, de crises, na contram\u00e3o das garantias. Sem sermos alunos, nem professores. E sem garantia que algu\u00e9m vai se tornar psicanalista algum dia. N\u00e3o h\u00e1 diplomas que assegurem a chegada, nem mestres que atestem a prontid\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 turmas e nem programas. H\u00e1 companhias (escolhidas, implicadas) que sustentam o percurso do outro na escuta, na presen\u00e7a e na transfer\u00eancia. A institui\u00e7\u00e3o se pensa como associa\u00e7\u00e3o, porque nela ningu\u00e9m ocupa o topo, ningu\u00e9m \u00e9 guia infal\u00edvel: h\u00e1 uma responsabilidade compartilhada e um la\u00e7o \u00e9tico que recusa a hierarquia dogm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como observou Lula Couto, em seu texto sobre a forma\u00e7\u00e3o no CPP, o analista \u00e9 algu\u00e9m que n\u00e3o se forma apenas por acumular saberes, mas por ser<em> tomado<\/em> por sua an\u00e1lise, por sua escuta, por sua escrita \u2014 e especialmente por sua \u00e9tica. A forma\u00e7\u00e3o \u00e9, por isso, sempre singular, mas nunca solit\u00e1ria. \u00c9 feita em rela\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0s diferen\u00e7as: <em>\u201c&#8230; onde os diversos saberes sobre o humano e a sociedade estejam em constante di\u00e1logo, valorizando, assim, a transdisciplinaridade como um elemento indispens\u00e1vel no percurso da forma\u00e7\u00e3o de um analista<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>A pluralidade te\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 apenas acolhida, mas praticada. Freud, Lacan, Melanie Klein, Winnicott, Green, Ferenczi, Caruso, Balint, Masud Khan, Fanon, Radmila Zygouris, Joel Birman, Lu\u00eds Cl\u00e1udio Figueiredo, H\u00e9lio Pellegrino&#8230; todos esses nomes circulam e ecoam nos semin\u00e1rios, nas conversas, nos textos do C\u00edrculo. Como escreveu Jurandir Freire Costa: a institui\u00e7\u00e3o <em>\u201cdesde o in\u00edcio, soube fazer do pluralismo de ideias, da conviv\u00eancia entre os diversos pontos de vista e da sensibilidade \u00e0s mudan\u00e7as socioculturais o moto propulsor do interesse pela psican\u00e1lise.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Esse pluralismo \u00e9 o ant\u00eddoto para qualquer \u201cautoritarismo te\u00f3rico\u201d de uma psican\u00e1lise que n\u00e3o se renova pela constante cr\u00edtica e a necess\u00e1ria abertura. Essa \u00e9 a ideia fundamental do pensador Jurandir Freire nesta publica\u00e7\u00e3o. O projeto do CPP, desde seus prim\u00f3rdios, rompeu com as pretens\u00f5es de pureza conceitual para sustentar uma forma\u00e7\u00e3o tecida a partir de diferentes vozes.<\/p>\n<p>Essa recusa ao modelo tradicional (analistas didatas, estrutura em turmas e curr\u00edculo fechado; uma psican\u00e1lise did\u00e1tica) foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica e hist\u00f3rica. Paulina conta que, quando o CPP decidiu abolir o analista didata, \u201c<em>foi uma bomba at\u00f4<\/em><em>mica<\/em>\u201d. Mas era preciso afirmar que ningu\u00e9m mais detinha o poder de controlar, autorizar ou interditar o desejo do outro. A escuta do tempo de cada um, a possibilidade de entrada na forma\u00e7\u00e3o em qualquer momento, a recusa da an\u00e1lise did\u00e1tica e o rep\u00fadio \u00e0 ideia de mestre s\u00e3o tra\u00e7os fundantes desse projeto.<\/p>\n<p>Antonio Ricardo Rodrigues Silva, em seu texto \u201cDe Viena, por Paris, Louvain at\u00e9 o Recife\u201d, nos lembra que a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise fora do eixo n\u00e3o come\u00e7a em Paris na d\u00e9cada de 60, mas tamb\u00e9m em Louvain, Zagreb, no Rio Grande do Sul e no Recife \u2014 com mulheres e homens se recusando \u00e0 ado\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de modelos. Ele recupera, por exemplo, o gesto do pernambucano J\u00falio Porto Carrero, que manteve correspond\u00eancia com Freud e que traduziu <em>Totem e tabu,<\/em> entre outros textos, ainda nos anos 1920, antes mesmo da exist\u00eancia de qualquer forma\u00e7\u00e3o institucional no Brasil. Ou o de Zaldo Rocha, que ensinava conceitos freudianos na psiquiatria infantil nos anos 1950, sem nunca ter feito forma\u00e7\u00e3o \u201coficial\u201d. Esses gestos falam da escuta que precede a filia\u00e7\u00e3o e da an\u00e1lise que se faz sem \u201cdiploma\u201d.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 feita tamb\u00e9m dos epis\u00f3dios sociais e pol\u00edticos: ex\u00edlios, ditadura, repress\u00e3o, A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, maio de 68, os retornos ao Brasil, os v\u00ednculos com a cl\u00ednica p\u00fablica, com a educa\u00e7\u00e3o, com a pobreza, com as quest\u00f5es raciais e de g\u00eanero. Paulina diz com firmeza: \u201c<em>o que interessa \u00e9 o conjunto: as institui\u00e7\u00f5es, suas organiza\u00e7\u00f5es, as rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem, as possibilidades de inova\u00e7\u00f5<\/em><em>es t<\/em><em>\u00e9cnicas, reformula\u00e7\u00f5<\/em><em>es te<\/em><em>\u00f3ricas&#8230; Nunca foi s\u00f3 <\/em><em>o consult<\/em><em>\u00f3rio<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, falar do projeto de forma\u00e7\u00e3o do C\u00edrculo \u00e9, acima de tudo, dar corpo e voz \u00e0 sua hist\u00f3ria. \u00c9 escutar o que contam Paulina Rocha, Lula Couto, Jurandir Freire Costa, Antonio Ricardo Rodrigues Silva, Benilton Bezerra \u2014 e o que contam os que estavam no primeiro momento, os que vieram depois, os que sa\u00edram do C\u00edrculo, os que continuam: Ana Elizabeth Cavalcanti, Bernardo Mora Trespalacios, Cristina Mendon\u00e7a, Dulce Luna, Dulcin\u00e9a Ara\u00fajo, Jo\u00e3o Alberto Carvalho, J\u00falia Coutinho, Lu\u00eds Andrade, Maria de F\u00e1tima Di Matteo, Marcelo Bouwman, Maria Helena Barros, Maria Teresa Padilha e Maria Thereza Lins. Vozes do passado e de hoje. Porque esse projeto nunca foi de alguns: \u00e9 uma experi\u00eancia compartilhada, viva, m\u00faltipla. Uma experi\u00eancia que, como a an\u00e1lise, n\u00e3o pode ser totalmente prevista \u2014 mas pode ser sustentada.<\/p>\n<p>Nesse panorama, \u00e9 importante reafirmar: a forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica apresentada neste livro se negou \u00e0s caracter\u00edsticas \u201cimportadas\u201d, fruto de um modelo pronto, euroc\u00eantrico. Nada disso. Ela foi sendo constru\u00edda \u2014 melhor dizer: marcada \u2014 nos corpos e nas vidas de analistas que vieram de v\u00e1rios lugares, com experi\u00eancias e forma\u00e7\u00f5es diferentes, inclusive na Europa, mas com o desejo \u00fanico de criar algo. Esses reflexos se apresentam em nossa resili\u00eancia a determinadas institucionaliza\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma hist\u00f3ria que n\u00e3o cabe em um manual. Estabeleceu-se aqui, portanto, um bra\u00e7o de resist\u00eancia, se as palavras \u201cresili\u00eancia e resist\u00eancia\u201d n\u00e3o ressoarem perdidas de sentido no mundo de hoje.<\/p>\n<p>E aqui ressoam, em especial, grandes nomes da psican\u00e1lise brasileira: n\u00e3o como a ideia ultrapassada de mestres. Mas como ecos. Eros. Em muitos dos trajetos formativos em Pernambuco, h\u00e1 uma escuta que reverbera no que fez a nordestina Nise da Silveira ao rejeitar a viol\u00eancia manicomial em favor da express\u00e3o simb\u00f3lica dos internos (explico: n\u00e3o somente a fala, mas a imagem); um ato semelhante ao de Virg\u00ednia Leone Bicudo, que buscou compreender e ensinar a vig\u00eancia de um pensamento \u00e9tico e racial sobre o inconsciente. H\u00e1 resson\u00e2ncias da parceria e divulga\u00e7\u00e3o de nossas ideias por Manoel Tosta Berlinck, da coragem e determina\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Fernando Calsavara, do rigor te\u00f3rico de Zeferino Rocha, da ousadia cl\u00ednica de Jurandir Freire Costa, da interlocu\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com outros saberes de Benilton Bezerra, das experi\u00eancias sociais de Maria Rita Kehl, das pesquisas de Teresa Pinheiro, da provoca\u00e7\u00e3o de Tales Ab\u2019S\u00e1ber. Mas, acima de tudo, h\u00e1 uma voz que n\u00e3o imita: cria.<\/p>\n<p>Uma voz e, para al\u00e9m da voz, uma fala.<\/p>\n<p>Este livro oferece um conjunto de relatos, lembran\u00e7as, mem\u00f3rias, vozes, tons, arquivos e reflex\u00f5es pulsantes. Revela como uma institui\u00e7\u00e3o em Pernambuco foi capaz de criar seus pr\u00f3prios meios de difus\u00e3o de ideias, nesses 50 anos: isso se contabiliza em centros de pesquisa e coletivos de estudo at\u00e9 edi\u00e7\u00f5es alternativas; projetos de extens\u00e3o universit\u00e1ria, de sa\u00fade p\u00fablica e a\u00e7\u00f5es governamentais. Nesse ponto, a educa\u00e7\u00e3o sempre representou (e ainda representa) uma forma de engajamento, para enfrentar os mesmos <em>velhonovos<\/em> desafios, desde as quest\u00f5es individuais quanto as problem\u00e1ticas do poder p\u00fablico, como a mis\u00e9ria, a desigualdade e o preconceito em todas as suas sutilezas: de ra\u00e7a, de sexo, de geografia. Nosso aprendizado na pr\u00e1tica cl\u00ednica nunca serviu como desculpa para a subservi\u00eancia, mas sim como um terreno de luta contra as dificuldades enraizadas na sociedade.<\/p>\n<p>Importante concluir: em um pa\u00eds como o Brasil, e numa regi\u00e3o como o Nordeste, essa n\u00e3o foi uma aposta simples. Por\u00e9m, foi e segue sendo poss\u00edvel. Talvez porque a forma\u00e7\u00e3o do analista se d\u00e1 principalmente pelo ato. E este livro \u00e9, em si, um ato de forma\u00e7\u00e3o: coletiva, hist\u00f3rica, mas sobretudo pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nosso papel como psicanalistas, na constru\u00e7\u00e3o deste livro, n\u00e3o foi idealizar ou distorcer essa trajet\u00f3ria. Mas document\u00e1-la. E documentar \u00e9 como fazer renascer. Assim \u00e9 tocar em imperfei\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Sabemos o que o livro n\u00e3o \u00e9: um balan\u00e7o institucional.<\/p>\n<p>\u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o e uma cr\u00edtica. \u00c9 o resultado de uma transmiss\u00e3o que desafiou as imposi\u00e7\u00f5es de uniformidade. Que n\u00e3o se deixou intimidar diante das limita\u00e7\u00f5es. E que transformou a improvisa\u00e7\u00e3o em uma forma de express\u00e3o. \u00c9 o testemunho oral de lealdade \u00e0quilo que deveria ser mais caro \u00e0 psican\u00e1lise: sua recusa em se submeter \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o. Nossa aposta? Formar-se psicanalista n\u00e3o \u00e9 um processo administr\u00e1vel, mas um despertar subjetivo que se d\u00e1 a partir do desejo, da an\u00e1lise, de estudos e da a\u00e7\u00e3o. Afinal, n\u00e3o existe form<em>a\u00e7\u00e3o<\/em> anal\u00edtica sem a\u00e7\u00e3o, sem envolvimento. Sem implic<em>a\u00e7\u00e3o<\/em>. Sem ideias de como nos portamos no mundo em constante transforma\u00e7\u00e3o. E, \u00e0 falta de um m\u00e9todo \u00fanico para se pensar a forma\u00e7\u00e3o de um analista (ainda bem!), este livro decerto contribui para iluminar os caminhos sinuosos, ainda desconhecidos totalmente, ainda f\u00e9rteis, pelos quais a psican\u00e1lise fora do grande eixo se desenvolveu.<\/p>\n<p>Benilton Bezerra amplia a discuss\u00e3o examinando o crescimento do interesse pela psican\u00e1lise e os impactos disso na forma\u00e7\u00e3o de novos analistas. E, ainda alerta para tens\u00f5es e riscos de banaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, o surgimento de bacharelados, e o desafio de se manter a \u00e9tica e a boa pr\u00e1tica anal\u00edtica diante dos novos desafios da contemporaneidade: \u201c<em>Como preservar aquilo que h\u00e1 <\/em><em>de espec<\/em><em>\u00edfico na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise sem incorrer no erro de transformar a forma\u00e7\u00e3o de analistas em algo museol\u00f3gico, desconectado das demandas e possibilidades de nosso tempo?<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Freud alertou para tr\u00eas desafios imposs\u00edveis: educar, governar e psicanalisar<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. N\u00e3o pela impossibilidade, mas porque nunca se completam, n\u00e3o se reduzem a f\u00f3rmulas nem a receitas. N\u00e3o s\u00e3o pr\u00e1ticas t\u00e9cnicas, mas \u00e9ticas.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise no Nordeste, especialmente a do C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco, se decidiu por encarar os desafios como ponto de partida. Ou nessa encruzilhada. Mas n\u00e3o como barreira intranspon\u00edvel. Se n\u00e3o existe um caminho f\u00e1cil para a forma\u00e7\u00e3o de um psicanalista, que se siga a \u00e9tica e o caminho criativo e potente do desejo.<\/p>\n<p>Na voz e fala deste livro segue a narrativa dessa jornada.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3loga cl\u00ednica, psicanalista associada ao C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco e artista visual.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <strong>FREUD, Sigmund.<\/strong> <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o e outros textos (1930-1936)<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o e notas de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v. 18).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em torno dos atos anal\u00edticos coletivos, hist\u00f3ricos e pol\u00edticos. 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