{"id":4168,"date":"2026-06-12T12:50:07","date_gmt":"2026-06-12T15:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4168"},"modified":"2026-06-12T12:50:07","modified_gmt":"2026-06-12T15:50:07","slug":"evento-existe-uma-psicanalise-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/evento-existe-uma-psicanalise-brasileira\/","title":{"rendered":"Evento: existe uma psican\u00e1lise brasileira?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>E<\/strong><strong>vento<\/strong><strong>: <em>E<\/em><\/strong><strong><em>xiste uma psican\u00e1lise brasileira<\/em><\/strong><strong><em>?<\/em><\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Maria Cristina Petry Barros Martinha<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na noite de 15\/05\/2026 tive a imensa satisfa\u00e7\u00e3o de fazer a abertura do evento <em>Existe uma p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>brasileira?, <\/em>realizado no audit\u00f3rio do<em> Instituto Sedes Sapientiae. <\/em>Ap\u00f3s os devidos agradecimentos institucionais, com destaque \u00e0 cada pessoa que nos auxiliou para o bom andamento do mesmo, demos as boas-vindas ao p\u00fablico e recebemos com prazer os convidados Miriam Chnaiderman, Mara Caff\u00e9 e Rafael Alves Lima.<\/p>\n<p>Nesse rol de agradecimentos iniciais, destacam-se: Marcelo Vial, um dos coordenadores do grupo, que apresentou o GT detalhando sua motiva\u00e7\u00e3o, contexto inaugural e fundamentos; e Juliana Farah, que conduziu a mesa com habilidade e bom humor. Com muita agilidade, ela sugeriu que o p\u00fablico fizesse um PIX instantes antes das perguntas \u2013 e foi lindo ver a mobiliza\u00e7\u00e3o imediata dos presentes! O agradecimento estendeu-se tamb\u00e9m, \u00e0s colegas Marcia Eugenia Cerdeira, Maristela Vendramel Ferreira e Susana Carrillo Le Roux, da Comiss\u00e3o de Eventos, que cuidaram do acolhimento, da venda de livros dos palestrantes<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e do incentivo \u00e0 <em>Campanha Levante! Por uma psican\u00e1lise antirracista<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><em><sup>[4]<\/sup><\/em><\/a>. A prop\u00f3sito, a campanha, a partir deste evento, aceita doa\u00e7\u00f5es via PIX avulso, al\u00e9m do tradicional apoio recorrente.<\/p>\n<p>Como parte dessa abertura, cuidei de fazer uma contextualiza\u00e7\u00e3o do tema da noite, que girou em torno de uma pergunta que nos convoca e nos atravessa: <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?,<\/em> conforme segue:<\/p>\n<p><strong>Contextualiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Este evento nasce como proposta de reflex\u00e3o de um novo GT, que leva como nome esta pergunta e que deseja ampliar o di\u00e1logo com a comunidade em torno deste tema. Um tema que aponta para a <em>hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria e pol<\/em><em>\u00edtica deste<\/em> <em>Departamento,<\/em> comprometido com a democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, em conson\u00e2ncia com as diretrizes deste <em>Instituto \u2013 <\/em>que nos acolhe desde os anos da Ditadura.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de mera localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Trata-se de uma <em>marca<\/em> <em>identit<\/em><em>\u00e1<\/em><em>ria e cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nica <\/em>que dialoga com nossas singularidades hist\u00f3ricas, sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>De Juliano Moreira \u2013 m\u00e9dico negro baiano que, em 1899, foi o primeiro a citar <em>Freud <\/em>em solo nacional \u2013, passando por pioneiros como Durval Marcondes, tido como fundador do movimento psicanal\u00edtico brasileiro, at\u00e9 Virg\u00ednia Bicudo \u2014 primeira analista negra, n\u00e3o m\u00e9dica, que enfrentou o preconceito racial e de g\u00eanero para se firmar no campo \u2013, constru\u00edmos um percurso marcado por tens\u00f5es e resist\u00eancias. Um percurso que retira a psican\u00e1lise brasileira de um lugar puramente elitista e m\u00e9dico e nos faz reconhecer o pioneirismo negro nesta \u00e1rea.<\/p>\n<p>Falar em uma psican\u00e1lise brasileira \u00e9 perguntar: como o nosso inconsciente colonial, as marcas da escravid\u00e3o e o nosso mal-estar perif\u00e9rico moldam a escuta cl\u00ednica que praticamos? \u00c9 preciso um trabalho constante para que a Europa deixe de ser a nossa grande refer\u00eancia, para que possamos, enfim, escutar o que o sujeito brasileiro tem a dizer.<\/p>\n<p>Se o Brasil \u00e9 hoje um dos principais expoentes da psican\u00e1lise mundial, \u00e9 porque soubemos fazer da teoria uma ferramenta viva para ler as nossas pr\u00f3prias feridas sociais e subjetivas.<\/p>\n<p>Neste evento n\u00e3o se busca uma resposta definitiva, mas sim sustentar o debate: qual \u00e9 a nossa marca? Como nossa pr\u00e1tica e nossas constru\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-cl\u00ednicas respondem ao racismo, \u00e0s desigualdades e \u00e0 nossa cultura t\u00e3o singular? Da\u00ed a import\u00e2ncia de questionar o universalismo dos conceitos europeus tradicionais e de discutir a necessidade de elaborarmos teorias \u00e0 altura da nossa realidade.<\/p>\n<p><strong>Coment\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>A partir dessa fala de abertura, Marcelo Vial nos conta, de maneira sens\u00edvel e implicada, a respeito de como veio pensando e articulando a exist\u00eancia desse grupo, desde que foi tomado pela quest\u00e3o inicial. Aponta como o atravessamento da cultura incide nos costumes e na maneira como escutamos e como intervimos na cl\u00ednica. Termina sugerindo que devemos pensar a psican\u00e1lise no Brasil n\u00e3o como substitui\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o por outra, mas como coexist\u00eancia entre o que inventamos e o que herdamos, entre a aceita\u00e7\u00e3o e a subvers\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, cada convidado teve uma fala de aproximadamente 20 minutos, desenvolvida a partir da proposta.<\/p>\n<p>Miriam Chnaiderman iniciou dizendo que, revisitando o seu texto de 1998, sobre essa mesma quest\u00e3o, tema do evento, publicado na Revista Percurso n\u00ba 20, conclui que hoje j\u00e1 n\u00e3o partiria dessa pergunta <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/em> e sim, se manifestaria a favor de <em>Existe uma p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>d<\/em><em>ecolonial<\/em><em> \u2013<\/em> como sendo a psican\u00e1lise exercida no Brasil; um mergulho numa psican\u00e1lise voltada ao que a gente \u00e9, ao que \u00e9 nosso, ao que \u00e9 da nossa hist\u00f3ria. Penso que essa ideia j\u00e1 estava colocada, de certa maneira, no final do artigo referido, quando escreve: \u201cA psican\u00e1lise brasileira trabalha com o inconsciente \u2013 como todas as psican\u00e1lises \u2013 mas disp\u00f5e-se a descobri-lo a cada momento e em cada contexto; como toda a psican\u00e1lise de qualquer lugar. Da\u00ed a geografia necess\u00e1ria da psican\u00e1lise. A busca sempre de um lugar pr\u00f3prio. Dentro e fora da psican\u00e1lise. \u00c9 da singulariza\u00e7\u00e3o absoluta que surge o universal mutante.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Com uma fala bastante interessante, a partir de sua pesquisa de doutorado sobre a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise durante a ditadura (1964-1985), Rafael Alves Lima problematizou os atravessamentos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos, cl\u00ednicos e institucionais implicados desde a descaracteriza\u00e7\u00e3o\u00a0do que chama de psican\u00e1lise brasileira, paradoxalmente durante sua fase de dissemina\u00e7\u00e3o nesses anos que foram t\u00e3o silenciados e que agora come\u00e7am a se abrir para discuss\u00f5es prof\u00edcuas.<\/p>\n<p>Bastante emocionada pelo convite<em>, <\/em>Mara Caff\u00e9 partiu de suas associa\u00e7\u00f5es livres para discorrer sobre o tema de maneira brilhante, contagiando-nos com sua emo\u00e7\u00e3o, criatividade e capacidade de transmiss\u00e3o, atravessada por uma consist\u00eancia l\u00f3gica admir\u00e1vel. Mara resgatou pontos da sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia que tamb\u00e9m s\u00e3o os de muitos de n\u00f3s, especialmente quando disse: \u201cTalvez &#8230; tenhamos sido formados nessa tens\u00e3o entre identifica\u00e7\u00e3o e recusa, entre pertencimento e ex\u00edlio interno, entre amor e recha\u00e7o pelos muitos e distintos brasis que habitamos\u201d. Nesse sentido, destacou que nossas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201ct\u00e3o diversas quanto os brasis que constru\u00edmos\u201d.<\/p>\n<p>Ao t\u00e9rmino das comunica\u00e7\u00f5es, o debate foi aberto ao p\u00fablico, cuja participa\u00e7\u00e3o engajada e mobilizada trouxe quest\u00f5es relevantes para a psican\u00e1lise contempor\u00e2nea. Com isso, ficamos com um desejo de continuidade nessa conversa, pois \u00e9 not\u00f3ria a amplia\u00e7\u00e3o das cl\u00ednicas extensivas, de territ\u00f3rios voltados ao manejo de traumas estruturais \u2013 como o racismo, o colonialismo e as desigualdades \u2013 e de pr\u00e1ticas p\u00fablicas como a psican\u00e1lise no SUS e em coletivos perif\u00e9ricos. Trata-se da cultura brasileira atravessando os modos de agir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Vial<\/strong><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar agradecendo, com muito carinho, \u00e0s nossas convidadas Mara Caff\u00e9, Miriam Chnaiderman e ao Rafael Alves Lima por terem aceitado este convite e por estarem aqui conosco hoje. \u00c9 uma grande alegria receber voc\u00eas.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o tamb\u00e9m \u00e0 Cristina Petry, Claudia Dametta e \u00e0 Comiss\u00e3o de Eventos do nosso Grupo de Trabalho, composta por M\u00e1rcia Eugenia Cerdeira, Maristela Vendramel Ferreira e Susana Carrillo Le Roux, pela coordena\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o deste encontro.<\/p>\n<p>Quero agradecer ainda aos colegas Anne Eg\u00eddio e Marcelo L\u00e1baki, que ao meu lado coordenam este Grupo de Trabalho. Marcelo \u00e9 meu parceiro nesta empreitada desde o primeiro momento, ainda dentro do GT Matrizes cl\u00ednicas. Anne, com uma escuta atenta e generosa, acolheu de imediato a quest\u00e3o que lhe apresentamos na Incubadora de ideias e fez, da nossa, tamb\u00e9m a sua inquieta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o posso deixar de agradecer tamb\u00e9m \u00e0 Cris Barczinski que nos recebeu na primeira reuni\u00e3o da Incubadora de 2025, uma quinta-feira de Cinzas &#8211; e ficamos l\u00e1, ela, Marcelo e eu, conversando sobre esta ideia por um bom tempo.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o tamb\u00e9m a todos os participantes deste GT que se constituiu t\u00e3o rapidamente e j\u00e1 vem produzindo reflex\u00f5es t\u00e3o instigantes. Por fim, agrade\u00e7o \u00e0 Juliana Farah, integrante do GT, por ter se voluntariado a mediar este encontro.<\/p>\n<p>Logo na primeira reuni\u00e3o do GT, em dezembro \u00faltimo, pensamos que seria interessante contar como esse grupo se constituiu.<\/p>\n<p>Preciso ent\u00e3o avis\u00e1-las que chego aqui com uma sensa\u00e7\u00e3o ambivalente: a satisfa\u00e7\u00e3o de ver algo tomar forma e a responsabilidade de tentar nomear o que essa forma significa. Essa tens\u00e3o, longe de me parecer um obst\u00e1culo, parece-me o pr\u00f3prio lugar a partir do qual devemos falar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m pontuar que o que tenho para apresentar n\u00e3o \u00e9 uma conclus\u00e3o. \u00c9 um percurso. Um percurso de dez anos de pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, durante os quais uma quest\u00e3o foi se impondo com insist\u00eancia, at\u00e9 se tornar imposs\u00edvel de ser ignorada. N\u00e3o uma tese j\u00e1 encerrada, mas uma representa\u00e7\u00e3o persistente, no sentido freudiano: algo que retorna, insiste e exige palavra.<\/p>\n<p><strong>1. A origem da quest\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esse movimento come\u00e7ou a ganhar contorno em um contexto preciso: os trabalhos no GT Matrizes cl\u00ednicas, coordenado por D\u00e9cio Gurfinkel e Walesca Silva &#8211; a quem tamb\u00e9m sou grato pelas \u00f3timas conversas e incentivos \u00e0 forma\u00e7\u00e3o deste grupo. As conversas nesse GT sempre foram especiais.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos nos debru\u00e7ando sobre o percurso psicanal\u00edtico e os textos de Renato Mezan, entre os quais a obra <em>O tronco e os ramos <\/em>(2014), que oferece uma proposta valiosa para a compreens\u00e3o das matrizes da psican\u00e1lise, assim como para as reflex\u00f5es que deram origem ao pr\u00f3prio GT Matrizes cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>Como parte desse trabalho, fomos convidados a ler um artigo publicado na revista Percurso n. 20, de 1998, intitulado &#8220;Figura e fundo: notas sobre o campo psicanal\u00edtico no Brasil&#8221; (MEZAN, 1998). Ao concluir a leitura, deparei-me com um texto logo na sequ\u00eancia, escrito por Miriam Chnaiderman, cujo t\u00edtulo continha uma pergunta que me capturou por completo: &#8220;Existe uma psican\u00e1lise brasileira?&#8221; (CHNAIDERMAN, 1998).<\/p>\n<p>Essa pergunta n\u00e3o me pareceu apenas te\u00f3rica. Ela me pareceu vital. Como se, ao ser formulada, tocasse em um ponto de tens\u00e3o j\u00e1 presente, por\u00e9m ainda sem nome em nossa experi\u00eancia cl\u00ednica, institucional e cultural.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, fui reunindo relatos que, em um primeiro olhar, poderiam parecer apenas circunstanciais. Mas, quando tomados em conjunto, revelavam um mesmo desenho: repetidamente, colegas brasileiros levavam seus trabalhos para congressos na Europa e retornavam marcados por cr\u00edticas que n\u00e3o incidiam tanto sobre o conte\u00fado te\u00f3rico, mas sobre a maneira de conduzir, manejar e sustentar a cena anal\u00edtica. Em muitos desses casos, o que se insinuava era a ideia de que aquilo n\u00e3o seria reconhec\u00edvel como psican\u00e1lise. E esse dado, para mim, \u00e9 significativo.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o reapareceu em 2024, durante um evento realizado no Sedes, organizado pelo GT Comunidade de destino. E sem d\u00favida, discutir os textos de S\u00e1ndor Ferenczi, em especial &#8220;Elasticidade da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica&#8221; (FERENCZI, 1928) com esse grupo, tem l\u00e1 o seu quinh\u00e3o de influ\u00eancia nesta hist\u00f3ria toda. Nesse evento, um dos convidados relatou sua experi\u00eancia em um congresso internacional, narrando uma cr\u00edtica muito dura recebida de um importante psicanalista local. A for\u00e7a daquele relato n\u00e3o estava apenas no conte\u00fado, mas no fato de que ele condensava algo que vinha aparecendo repetidamente, em diferentes contextos e ao longo dos anos.<\/p>\n<p><strong>2. O <em>setting <\/em>como constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural<\/strong><\/p>\n<p>Houve, no entanto, um outro momento que foi, para mim, t\u00e3o impactante quanto a leitura do artigo escrito por Miriam. E eles acabam se entrela\u00e7ando.<\/p>\n<p>Algumas semanas antes do evento mencionado, em um encontro realizado tamb\u00e9m no Sedes sobre &#8220;Psican\u00e1lise de casal e fam\u00edlia nas institui\u00e7\u00f5es&#8221;, a psicanalista Rosana Onocko (Unicamp) enunciou uma frase que pareceu gerar um impacto quase f\u00edsico na plateia. Disse ela: &#8220;Seria desumano atendermos os nossos pacientes, nas institui\u00e7\u00f5es, em sil\u00eancio.\u201d<\/p>\n<p>Essa frase \u00e9 contundente porque n\u00e3o oferece uma simples adapta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Ela afirma algo mais profundo: que o <em>setting<\/em> psicanal\u00edtico n\u00e3o \u00e9 uma forma abstrata e universal, mas uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, cultural e cl\u00ednica. Uma resposta poss\u00edvel a uma determinada realidade.<\/p>\n<p>Marcelo L\u00e1baki nos contou que, em uma viagem por Viena, ao visitar o Museu de Freud, deu-se conta de que o div\u00e3, s\u00edmbolo t\u00e3o central da psican\u00e1lise, n\u00e3o era uma ideia pura. &#8220;Todas as casas daquela \u00e9poca tinham um div\u00e3&#8221;, constatou, ap\u00f3s visitar outros museus na mesma cidade. O div\u00e3 trata-se, portanto, de uma solu\u00e7\u00e3o concreta, nascida de um contexto espec\u00edfico, de uma cultura material espec\u00edfica, de um tempo espec\u00edfico. Freud fez o que p\u00f4de com o mundo que tinha diante de si. E isso nos obriga a perguntar: por que dever\u00edamos supor que a repeti\u00e7\u00e3o literal desse gesto seja sempre a forma mais justa de sustentar a cl\u00ednica em outros tempos e em outros lugares?<\/p>\n<p><strong>3. O campo de tens\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A partir da\u00ed, comecei a perceber com mais nitidez o campo de tens\u00e3o que estrutura o debate sobre a psican\u00e1lise no Brasil.<\/p>\n<p>De um lado, h\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o segundo a qual n\u00e3o existe uma psican\u00e1lise brasileira, mas apenas uma psican\u00e1lise praticada no Brasil, cuja legitimidade dependeria da fidelidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o europeia, especialmente \u00e0 heran\u00e7a freudiana e lacaniana. Nessa perspectiva, qualquer desvio tende a ser interpretado como insufici\u00eancia t\u00e9cnica ou fragilidade \u00e9tica.<\/p>\n<p>De outro lado, h\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 existe, sim, uma psican\u00e1lise brasileira, marcada pela hist\u00f3ria, pelo territ\u00f3rio e pelos atravessamentos culturais que constituem a nossa pr\u00e1tica. Essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o rompe com a tradi\u00e7\u00e3o; ela reconhece que a tradi\u00e7\u00e3o, quando atravessa um outro solo, n\u00e3o permanece intacta.<\/p>\n<p>O que nos interessa investigar, contudo, \u00e9 o espa\u00e7o entre essas duas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Porque nesse intervalo talvez resida algo mais profundo do que uma diverg\u00eancia te\u00f3rica. Talvez resida ali uma esp\u00e9cie de vergonha. Uma hesita\u00e7\u00e3o. Uma dificuldade de dizer, sem recuo, que h\u00e1 modos brasileiros de fazer psican\u00e1lise, modos que n\u00e3o dependem de valida\u00e7\u00e3o externa para existirem.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o me parece apenas uma quest\u00e3o identit\u00e1ria, mas uma quest\u00e3o cl\u00ednica, institucional e pol\u00edtica. Porque a vergonha, como sabemos desde Freud, n\u00e3o \u00e9 um afeto neutro. Ela organiza o que se pode e o que n\u00e3o se pode dizer. Ela estrutura o que se apresenta e o que se esconde.<\/p>\n<p>Anne Eg\u00eddio formulou uma hip\u00f3tese interessante quando observou que &#8220;em meio a tantos desmentidos desde a funda\u00e7\u00e3o do Brasil, pode ser que tenhamos produzido uma descredibiliza\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise e nos psicanalistas brasileiros, que nos impede de perceber e reconhecer o nosso campo e os nossos atravessamentos peculiares&#8221;. Eu mesmo j\u00e1 me peguei pensando v\u00e1rias vezes sobre o culto ao estrangeiro, fruto da nossa coloniza\u00e7\u00e3o e ainda t\u00e3o presente no nosso pa\u00eds, haja vista o valor que damos a autores, estudos e forma\u00e7\u00f5es que buscamos no exterior. N\u00e3o existiria um conflito em nos assumirmos psicanalistas brasileiros fazendo uma psican\u00e1lise brasileira? N\u00e3o haveria uma perda, um rebaixamento de classe ao nos afastarmos do ideal do branco-europeu-dominante? S\u00e3o hip\u00f3teses, mas, a meu ver, iluminam o centro da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque o Brasil atravessa o div\u00e3. A cultura atravessa a escuta. A forma como lidamos com o tempo, com o corpo, com o sil\u00eancio, com a autoridade, com a palavra e com a presen\u00e7a do outro entra, inevitavelmente, na cena anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, tenho participado de projetos ligados \u00e0 psican\u00e1lise com colegas de diversas regi\u00f5es do Brasil. E o que observo \u00e9 que, embora compartilhemos refer\u00eancias comuns, nossas escutas n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas (e nem poderiam ser). Mas \u00e9 tamb\u00e9m evidente que os nossos manejos cl\u00ednicos carregam marcas regionais. Nossas formas de sustentar a transfer\u00eancia e a contratransfer\u00eancia s\u00e3o atravessadas por modos diversos de viver e de se relacionar.<\/p>\n<p>Uma colega do Recife, por exemplo, anunciou, com absoluta naturalidade, que fecharia o consult\u00f3rio porque iria &#8220;pular a Festa de S\u00e3o Jo\u00e3o&#8221;. Para ela, isso n\u00e3o representava uma ruptura com a \u00e9tica do trabalho ou da psican\u00e1lise. Representava a vida em seu pr\u00f3prio ritmo. E esse dado, aparentemente simples, \u00e9 profundamente revelador.<\/p>\n<p>Porque o atravessamento cultural n\u00e3o se manifesta apenas nos costumes ou nas festas. Ele se inscreve na maneira como escutamos, como intervimos, como silenciosamente carregamos o mundo para dentro da cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, 'Helvetica Neue', Arial, 'Noto Sans', sans-serif, 'Apple Color Emoji', 'Segoe UI Emoji', 'Segoe UI Symbol', 'Noto Color Emoji';\">4. A proposta do grupo de trabalho<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse horizonte que o Grupo de Trabalho <em>Existe uma p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>brasileira?<\/em> se constitui. N\u00e3o como quem busca uma resposta apressada, nem porque pretende se opor de modo simplista ao pensamento europeu. N\u00e3o como um gesto identit\u00e1rio defensivo. Mas como uma aposta de investiga\u00e7\u00e3o e pesquisa rigorosa. Uma tentativa de nomear algo que talvez j\u00e1 exista na pr\u00e1tica, embora ainda care\u00e7a de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Neste exerc\u00edcio, parece relevante olharmos para a nossa sociedade, para a nossa cultura como parte da psican\u00e1lise por n\u00f3s praticada.<\/p>\n<p>A pergunta que nos orienta \u00e9 simples apenas na forma: existe uma psican\u00e1lise brasileira? E, se existe, o que a comp\u00f5e? Trata-se apenas de uma adapta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica? De uma sensibilidade cultural? De uma varia\u00e7\u00e3o do <em>setting<\/em>? Ou haveria tamb\u00e9m, nesse modo de fazer, uma contribui\u00e7\u00e3o conceitual a ser reconhecida e elaborada?<\/p>\n<p>Para avan\u00e7ar nessa dire\u00e7\u00e3o, precisamos de interlocutores que pensem com rigor, honestidade e generosidade. E \u00e9 exatamente por isso que estamos aqui hoje.<\/p>\n<p><strong style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, 'Helvetica Neue', Arial, 'Noto Sans', sans-serif, 'Apple Color Emoji', 'Segoe UI Emoji', 'Segoe UI Symbol', 'Noto Color Emoji';\">5. Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Quero encerrar com uma imagem proposta por Freud em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3<\/em><em>o <\/em>(1930). Ao pensar a cidade de Roma, ele nos oferece a ideia de uma cidade em que tempos distintos coexistem simultaneamente. O passado n\u00e3o desaparece. Ele permanece inscrito no presente.<\/p>\n<p>Talvez seja assim que devamos pensar a psican\u00e1lise no Brasil: n\u00e3o como substitui\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o por outra, mas como coexist\u00eancia. Coexist\u00eancia tensa, por vezes. Criativa, em outros momentos. Entre o que herdamos e o que inventamos. Entre o div\u00e3 vienense e a escuta situada. Entre a teoria recebida e a pr\u00e1tica que se arrisca. Entre a aceita\u00e7\u00e3o e a subvers\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez estejamos aqui, justamente, para come\u00e7ar a dar nome a isso.<\/p>\n<p>E se isso for do seu interesse, junte-se a n\u00f3s! Nos reunimos na primeira sexta-feira de cada m\u00eas, das 16h \u00e0s 18h, no formato online.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CHNAIDERMAN, Miriam (1998). \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d. <em>Percurso: Revista de Psican\u00e1lise<\/em>, Instituto Sedes Sapientiae, v. 20, 1998, 1\u00ba semestre.<\/p>\n<p>FERENCZI, S\u00e1ndor (1928). &#8220;Elasticidade da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica&#8221;. <em>Obras Completas<\/em>; v. IV. Ed. WMF Martins Fontes, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2011. 5\u00aa tiragem 2023.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund (1930). \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. <em>Obras Completas<\/em>; v. 18. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise e outros textos (1930-1936). Ed. Cia das Letras, 2013.<\/p>\n<p>MEZAN, Renato (1998). \u201cFigura e fundo: notas sobre a psican\u00e1lise no Brasil<em>\u201d. Percurso: Revista de Psican\u00e1lise<\/em>, Instituto Sedes Sapientiae<em>,<\/em> v. 20, 1998. 1.\u00ba semestre.<\/p>\n<p>MEZAN, Renato (2014). <em>O tronco e os ramos: estudos de hist\u00f3ria da psican\u00e1lise,<\/em> Ed. Blucher. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">15 de maio de 2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Decolonialidade e psican\u00e1lise<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong><sup>[7]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Miriam Chnaiderman<\/strong><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre a proposta de uma psican\u00e1lise brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Ao ver meu ensaio \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d, publicado em 1998 na Percurso n\u00famero 20, sendo retomado e dando nome a um grupo de trabalho no Departamento, tive sentimentos contradit\u00f3rios. Claro que fiquei orgulhosa e feliz, \u00e9 sempre muito bom ver o que um escrito suscita no mundo. Ao mesmo tempo, vivi uma estranheza, como se as quest\u00f5es que est\u00e3o l\u00e1 colocadas j\u00e1 n\u00e3o fizessem mais sentido&#8230;<\/p>\n<p>Toni Negri e Michael Hardt no livro <em>Assembly<\/em> (Hardt, M. e Negri, T., 2018), no cap\u00edtulo \u201cRestaurar a unidade do povo\u201d, mostram como os movimentos de direita\u00a0 sempre exaltaram a lideran\u00e7a e a ideia de que o povo est\u00e1 sitiado e precisa ser defendido. A identidade continuaria aqui desempenhando papel central. Os autores citam Obama, que resolveu a situa\u00e7\u00e3o afirmando que \u201co \u00fanico l\u00edder leg\u00edtimo \u00e9 aquele que partilha da identidade e soberania de um povo, e que portanto pode defend\u00ea-las. \u201c (p. 72). Assim \u00e9 que demonizam aqueles que amea\u00e7am a unidade do povo \u2014 como pobres, migrantes, benefici\u00e1rios da previd\u00eancia social e mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Defender a exist\u00eancia de uma psican\u00e1lise brasileira hoje me parece anacr\u00f4nico.\u00a0 Penso que as for\u00e7as decoloniais, presentes no universo, reconfiguram tudo isso. A ancestralidade percorre oceanos e c\u00e9us em cosmogonias m\u00faltiplas e compartilhadas.<\/p>\n<p><strong>O transnacionalismo negro<\/strong><\/p>\n<p>O transnacionalismo negro hoje me parece um lindo exemplo de uma batalha que vai muito al\u00e9m das fronteiras.\u00a0Transnacionalismo\u00a0negro\u00a0\u00e9 uma abordagem que entende as popula\u00e7\u00f5es negras \u2014 especialmente as da di\u00e1spora africana \u2014 como sujeitos pol\u00edticos cujas experi\u00eancias, lutas e identidades ultrapassam as fronteiras dos Estados-na\u00e7\u00e3o. A ideia central \u00e9 que o racismo, o colonialismo e as formas de resist\u00eancia negra sempre foram fen\u00f4menos\u00a0globais, e n\u00e3o apenas nacionais.<\/p>\n<p>A luta contra o colonialismo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Achille\u00a0Mbembe (2018) mostra como a Europa se considerava o centro do mundo civilizado, e se contrapunha ao Resto, cujo s\u00edmbolo maior foi a \u00c1frica e o Negro. O conceito de ra\u00e7a surge do capitalismo e assim ganha for\u00e7a. Passou a\u00a0servir para\u00a0diagnosticar as popula\u00e7\u00f5es long\u00ednquas, sua \u201cdegrada\u00e7\u00e3o\u201d e um d\u00e9ficit ontol\u00f3gico \u2013 s\u00e3o \u201cmenos\u201d ser.<\/p>\n<p>Com o surgimento do capitalismo,\u00a0o Atl\u00e2ntico se tornou o lugar de onde\u00a0emergiu uma \u201cnova concatena\u00e7\u00e3o\u00a0de\u00a0mundos, o lugar de onde emergiu uma nova consci\u00eancia planet\u00e1ria\u201d. (Mbembe, 2018, p. 22).<\/p>\n<p>A transnacionaliza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o negra \u00e9 um momento constitutivo da modernidade.<\/p>\n<p>Tudo isso faz com que hoje eu questione a exist\u00eancia de uma psican\u00e1lise brasileira.<\/p>\n<p>Hoje denominaria meu ensaio: \u201cNo Brasil, existe uma psican\u00e1lise\u00a0decolonial?\u201d. Esse deslocamento do \u201cpsican\u00e1lise\u00a0brasileira\u201d\u00a0para\u00a0\u201dpsican\u00e1lise\u00a0decolonial\u201d\u00a0n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanuo. \u00c9 uma altera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas uma troca de termos, \u00e9 mudan\u00e7a, que \u00e9 pol\u00edtica<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Contextualizando a defesa de uma psican\u00e1lise brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Meu ensaio foi publicado em 1989. \u00c9 a elabora\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias e leituras que hoje penso fazerem parte de nossa hist\u00f3ria como psicanalistas. A quest\u00e3o j\u00e1 era pensar a quest\u00e3o da exist\u00eancia ou n\u00e3o de um pensamento pr\u00f3prio e n\u00e3o-colonizado.<\/p>\n<p>Para refletir sobre isso tudo eu tomava dois momentos parisienses onde psicanalistas dispunham-se a pensar sobre os \u201ccolonizados\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava pelo relato do encontro de 1981, um Encontro franco-latino-americano,\u00a0 organizado pelo grupo <em>Confrontation<\/em>. Esse encontro acontecia sob o impacto do caso Am\u00edlcar Lobo, psicanalista carioca que participara das sess\u00f5es de tortura. O que nos marcava, naquele momento, eram as terr\u00edveis ditaduras cruentas. \u00c9ramos olhados como her\u00f3is sobreviventes. A fala de abertura de Ren\u00e9 Major colocava a urg\u00eancia de refletir sobre \u201c<em>a rela<\/em><em>\u00e7\u00e3o e a n\u00e3<\/em><em>o-rela<\/em><em>\u00e7\u00e3o de uma escuta anal<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica e de uma escuta pol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica, as rela\u00e7\u00f5es de um Estado freudiano com o poder de Estado&#8230;<\/em><em>\u201d <\/em>Terminava sua fala afirmando:<em> \u201c<\/em><em>Hoje, a causa da Am<\/em><em>\u00e9<\/em><em>rica Latina se designa tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m como a causa psicanal<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica<\/em><em>\u201d.<\/em> (Major, 1981, p. 9).<\/p>\n<p>A primeira exposi\u00e7\u00e3o foi de Jacques Derrida. Denominou sua fala \u201cGeopsican\u00e1lise\u201d. No texto que J. Derrida leu, est\u00e1 posta a necessidade de nomear a Am\u00e9rica Latina de modo \u201cdiferente do que fez a International Psychoanalitical Association\u201d.\u00a0 Prop\u00f5e ent\u00e3o uma \u201cgeopsican\u00e1lise\u201d, era preciso pensar o que \u00e9 a Terra hoje para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Derrida quer nomear a Am\u00e9rica Latina. Seria anacr\u00f4nica a pergunta sobre se haveria uma terra da psican\u00e1lise una e \u00fanica? N\u00e3o me parece. Essas quest\u00f5es permanecem sendo atuais. A psican\u00e1lise \u00e9 universal? O inconsciente \u00e9 universal? O \u00c9dipo \u00e9 universal? O inconsciente n\u00e3o teria ancoragem em terra alguma? Ent\u00e3o, haveria uma terra da psican\u00e1lise que n\u00e3o seria geogr\u00e1fica? O corpo psicanal\u00edtico, ao buscar entender o corpo estrangeiro que n\u00e3o pertence a nenhum corpo, seja esse corpo europeu, africano ou latino-americano, incorpora-o. A psican\u00e1lise coloniza o corpo estrangeiro, neutralizando qualquer alteridade.<\/p>\n<p>Esse encontro aconteceu em Paris, em 1981. O caso Am\u00edlcar Lobo sufocava psicanalistas que acreditavam na psican\u00e1lise libert\u00e1ria. As den\u00fancias vinham da Argentina e, posteriormente, do Brasil, ou seja, da Am\u00e9rica Latina<em>. <\/em>Naquele momento a IPA se pronunciou contra a viola\u00e7\u00e3o dos direitos do homem. Mas, aponta Derrida, a Am\u00e9rica Latina ficou no lugar do inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Derrida afirma a necessidade de uma nova \u00e9tica: n\u00e3o apenas uma \u00e9tica da psican\u00e1lise, que para ele n\u00e3o existe, mas de um outro discurso \u00e9tico sobre a \u00e9tica em geral, de um outro discurso pol\u00edtico, sobre o pol\u00edtico em geral, um discurso que leve em conta o que se interpreta como a verdade da psican\u00e1lise \u2014 e que difere conforme os lugares da psican\u00e1lise hoje sobre a Terra.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma geografia da psican\u00e1lise. \u00c9 preciso n\u00e3o deixar que se apaguem os tra\u00e7os do mapa. N\u00e3o h\u00e1 simples interioridade do meio psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Penso que hoje repensar\u00edamos essa fala de Derrida. Tomaria o pensamento de Peter Pelbart (2019) na Percurso 69 como norteador de um pensamento contempor\u00e2neo em rela\u00e7\u00e3o a uma geografia da psican\u00e1lise: \u201cEnt\u00e3o o que \u00e9 um sujeito, nesse contexto, sen\u00e3o aquele que se forma no entrelugares, nas fronteiras da itiner\u00e2ncia? Da\u00ed os v\u00e1rios estudos mostrando que, nos tr\u00e2nsitos e fluxos de popula\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos, nos deslocamentos de massa a que assistimos com a derrocada dos Estados-na\u00e7\u00e3o, criam-se novas comunidades sens\u00edveis, novos sentidos de mundo, novas terras imaginadas.\u201d (p. 55). Trata-se agora de territ\u00f3rios sens\u00edveis e afetivos.<\/p>\n<p>Hoje talvez Derrida se aproximasse muito da proposta de Peter, pois defendeu que haveria, sim, continentes para a psican\u00e1lise; continentes, ilhas, pen\u00ednsulas virgens, continentes brancos e negros, v\u00e1rios inexplorados. Debru\u00e7a-se sobre a psican\u00e1lise <em>\u00e0 <\/em><em>la carte<\/em> \u2014 brincadeira com \u201cmapa\u201d.<\/p>\n<p><strong>1986\/1989 \u2013 Encontros franco-latino americanos<\/strong><\/p>\n<p>Em 1986 Heitor O\u2019Dwyer de Macedo, analista brasileiro radicado em Paris, organizou um col\u00f3quio que nomeou \u201cO psicanalista sob o terror\u201d. Isildinha fala desse momento, em que fazia um est\u00e1gio com Maud Mannoni e acompanhava Guattari nas suas idas a La Borde.\u00a0 Importantes psicanalistas franceses e brasileiros se reuniram e produziram trabalhos em um encontro para pensar o lugar da psican\u00e1lise em um estado violento. Importantes analistas brasileiros e franceses participaram: Alain Didier-Weill, Nathalie Zaltzman, Fran\u00e7oise Dolto, Fran\u00e7ois Roustang etc. Do Brasil, al\u00e9m da Isildinha, Helio Pellegrino, Jurandir Freire Costa, Celio Garcia. Estavam tamb\u00e9m Marcelo e Mauren Vignar, uruguaios exilados em Paris. Marilena Chau\u00ed. Mariinha e Samuel Werebe, que n\u00e3o eram psicanalistas, tamb\u00e9m participaram.<\/p>\n<p>Em 1989, a <em>Association Freudienne de Paris<\/em> realizou um encontro franco-brasileiro entre analistas, para pensar \u201cOs efeitos da psican\u00e1lise \u2014 adapta\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a ou pior ainda\u201d. Seu ponto de partida era o \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d de Oswald de Andrade, citado v\u00e1rias vezes no \u201cArgumento\u201d, esp\u00e9cie de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 discuss\u00e3o proposta.<\/p>\n<p>Citando o primeiro par\u00e1grafo do folheto do encontro: \u201dN\u00e3o seria preciso tentar pensar um v\u00ednculo social e amoroso suficientemente <em>original<\/em>, capaz de prescindir de uma tal civiliza\u00e7\u00e3o? \u201c(a civiliza\u00e7\u00e3o \u201cer\u00f3tica capenga\u201d, a civiliza\u00e7\u00e3o do mal-estar incompat\u00edvel com a \u201cfaculdade de amar e de trabalhar\u201d).<\/p>\n<p>Fica posta a quest\u00e3o da utopia. Mas \u00e9 estranha tal utopia, anula\u00e7\u00e3o da cultura, da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De que civiliza\u00e7\u00e3o trata o \u201cArgumento\u201d que introduz a tem\u00e1tica do encontro? A proposta \u00e9 de um tema a ser debatido por psicanalistas. Mas, naquele momento ainda entre analistas, continua presente a vis\u00e3o \u201ced\u00eanica\u201d de um para\u00edso perdido.\u00a0 Que foi a vis\u00e3o de nossos descobridores, e que retorna na vis\u00e3o de nossos pretensos re-descobridores. Afinal, temos algo a oferecer \u00e0 psican\u00e1lise europ\u00e9ia! Algum \u00c9den\u2026<\/p>\n<p>Afirma-se no \u201cArgumento\u201d do encontro franco-brasileiro: \u201cNossos valores, quer sejam de ordem narc\u00edsica, quer sejam de ordem objetal, se acham assim confrontados com uma relatividade que talvez traga al\u00edvio a nossos colegas brasileiros. Isto porque estes valores, quando importados e absorvidos, podem parecer ainda mais esmagadores: no caso da psican\u00e1lise e da antropofagia, cara a Oswald de Andrade, correm o risco de se tornar definitivamente um peso no est\u00f4mago\u201d.<\/p>\n<p>Parece que n\u00f3s, pobres psicanalistas brasileiros, engolir\u00edamos o estranho que jamais seria metabolizado. Morrer\u00edamos de azia.<\/p>\n<p>O que ficava muito claro na proposta do encontro franco-brasileiro de 1989 \u00e9 que se esperava de n\u00f3s, analistas brasileiros, termos algo a contribuir, exatamente porque passamos pelo terror. A utopia resgatada a partir da viol\u00eancia de Estado: porque vivemos tudo isso, encarnamos de forma ainda mais contundente o lugar da utopia. \u00c9 alto o risco que corremos quando tomamos uma hist\u00f3ria sangrenta como identidade nacional &#8211; s\u00f3 nos resta ent\u00e3o a melancolia e a petrifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No par\u00e1grafo final do \u201cArgumento\u201d do encontro franco-brasileiro: \u201c&#8230;os analistas brasileiros ocupam um lugar privilegiado para virem discutir conosco, se desejarem, de sua experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do homem primitivo das Am\u00e9ricas, agora o exotismo existe tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura militar. Parece at\u00e9 que a nova utopia europ\u00e9ia \u00e9 desvendar as formas de sobreviv\u00eancia sob condi\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia policial, repress\u00e3o e tortura. Como se isso nos tornasse mais puros em uma suposta sabedoria ou capacidade miraculosa de nomea\u00e7\u00e3o do indiz\u00edvel do terror.<\/p>\n<p><strong>Uma psican\u00e1lise colonizadora e as consequ\u00eancias na cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p>No ensaio de Charles Melman que abre a colet\u00e2nea organizada pela <em>Association<\/em> <em>Freudienne Internationale<\/em>, <em>D<\/em><em>\u2019<\/em><em>un inconscient post-colonial, s<\/em><em>\u2019<\/em><em>il existe<\/em> (e depois traduzida aqui no Brasil) denominado \u201cComplexo de Colombo\u201d (Melman, 1995), coloca-se que a quest\u00e3o do colonialismo ser\u00e1 pensada a partir de um ponto de vista exclusivamente psicanal\u00edtico. Pois, em termos \u00e9ticos ou pol\u00edticos, quem n\u00e3o seria contra o colonialismo? Melman n\u00e3o quer aplicar conceitos psicanal\u00edticos para pensar essa quest\u00e3o. Baseia-se no que p\u00f4de apreender com os pacientes que conheceu e que pertencem a regi\u00f5es habitadas pelo colonialismo. E, para ele, o origin\u00e1rio do colonialismo, o encontro de dois mundos que ocupam lugares em permanente conflito, \u00e9 algo que se mant\u00e9m, mesmo quando as formas pol\u00edticas mais \u00f3bvias desapareceram: \u201cEssa coloca\u00e7\u00e3o inicial de um conflito entre esses dois lugares que s\u00f3 podem ser regidos pela viol\u00eancia e pela for\u00e7a, por uma esp\u00e9cie de guerra, de forma de guerra permanente, e onde o encontro n\u00e3o se far\u00e1 com um semelhante, mas sempre com um outro, isto \u00e9, algu\u00e9m sobre quem sempre se deve repetir o ato de viol\u00eancia inaugural, me parece a situa\u00e7\u00e3o, a heran\u00e7a ao mesmo tempo pol\u00edtica e espiritual, a cat\u00e1strofe espiritual e pol\u00edtica deixada pelo colonialismo, mesmo quando essa forma, digo claramente \u2014 pol\u00edtica \u2014\u00a0 n\u00e3o existe mais.\u201d (Melman, 1995, p.22). H\u00e1 o que denomina uma <em>heterotopia radical<\/em>,\u00a0 heterotopia com incid\u00eancias subjetivas importantes. Haveria ent\u00e3o um destino de posi\u00e7\u00f5es eternizadas de um colonizador e um colonizado. Essa seria nossa heran\u00e7a!<\/p>\n<p>Octavio Souza (1994) mostra como foi a utopia europeia de um para\u00edso terrestre que presidiu &#8220;nosso ato de batismo&#8221;, o que leva a uma procura de frui\u00e7\u00e3o imediata, uma busca de gozo imediato. Da\u00ed uma coloniza\u00e7\u00e3o essencialmente extrativista, restrita por longo per\u00edodo apenas ao litoral, o que fazia pensar em uma concep\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia como lugar de passagem. Segundo Octavio Souza, &#8220;foi particularmente aqui no Brasil que o fator er\u00f3tico alcan\u00e7ou predom\u00ednio maior&#8221;. Como aqui n\u00e3o havia, como na regi\u00e3o andina, a possibilidade do maravilhoso sob a forma de ouro, prata e pedras preciosas, foi necess\u00e1rio encontrar outras &#8220;representa\u00e7\u00f5es mitificantes&#8221;. &#8220;A nudez e a exuber\u00e2ncia da vida sexual do \u00edndio&#8230;&#8221;(p. 110). O que Octavio Souza prop\u00f5e \u00e9 &#8220;adotar a vis\u00e3o do para\u00edso do descobridor europeu para nos olharmos a n\u00f3s mesmos&#8221;. A partir desse princ\u00edpio, Octavio Souza faz uso dos textos de Freud para mostrar a proximidade entre exotismo e racismo. Afirma &#8220;o exotismo como uma maneira de neutralizar, atrav\u00e9s da estetiza\u00e7\u00e3o, a efic\u00e1cia pol\u00edtica de um povo&#8221;.<\/p>\n<p>Contardo Calligaris, no <em>Hello Brasil<\/em> (1991)<em>, <\/em>desenvolve tese semelhante, afirmando ainda mais gravemente, um destino de n\u00e3o lei para o\u00a0 Brasil.<\/p>\n<p>Parece que a busca de uma identidade nacional, que caracteriza os pensadores do Brasil a partir de 1930, contaminou os psicanalistas. Lembro aqui que Roberto Schwarz conclui o primeiro cap\u00edtulo do importante livro <em>Ao vencedor as batatas<\/em> (1977), que tem como t\u00edtulo \u201cAs ideias fora do lugar\u201d com a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201dAo longo de sua reprodu\u00e7\u00e3o social, incansavelmente, o Brasil p\u00f5e e rep\u00f5e id\u00e9ias europ\u00e9ias, sempre em sentido impr\u00f3prio.\u201d(p. 24). O Brasil parece ent\u00e3o condenado a estar sempre fora de centro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, destinado a cumprir o vatic\u00ednio de Charles Melman: uma impossibilidade de sair do lugar de colonizado.<\/p>\n<p><strong>E hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos pensar que tudo isso \u00e9 anacr\u00f4nico, j\u00e1 passou\u2026 Afinal, estamos em 2026! N\u00e3o somos mais os ex\u00f3ticos que viveram o terror de Estado. Temos publicado muito, analistas brasileiros v\u00e3o \u00e0 Fran\u00e7a, d\u00e3o cursos e confer\u00eancias. Deixamos de ser ex\u00f3ticos?<\/p>\n<p>Em epis\u00f3dio recente, em julho do ano passado, em evento organizado por Antonio Quinet e que reuniu v\u00e1rios psicanalistas brasileiros (Isildinha Nogueira, Joel Birman, entre muitos outros) com propostas de troca com analistas francesas, Colette Soler fez uma fala desastrosa. Afirmou que n\u00e3o estava escutando nada de psican\u00e1lise, que \u00e9 uma branca muito branca e ainda vestida de branco, e que a quest\u00e3o colonial n\u00e3o era uma quest\u00e3o que caberia na Fran\u00e7a. Parece que o capitalismo n\u00e3o passou por Paris&#8230; E o colonialismo seria uma consequ\u00eancia do capitalismo. E n\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o para instala\u00e7\u00e3o do capitalismo! E que o colonialismo n\u00e3o seria uma quest\u00e3o da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa fala levou \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de importante manifesto, \u201cPor uma psican\u00e1lise decolonial\u201d, elaborado pelo coletivo Cinema e Psican\u00e1lise,\u00a0 Brechas da Psican\u00e1lise<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> que teve um lan\u00e7amento comovente no Cine Bijou em 21 de julho do ano passado<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Nesse evento ocorreram falas importantes e tomo aqui a fala de Thamy Ayouch como guia para refletir sobre tudo isso.<\/p>\n<p>Thamy inicia sua fala ligando a fala de Colette Soler a um artigo, assinado\u00a0 por\u00a0 80 psicanalistas, publicado no <em>Le Monde<\/em> na Fran\u00e7a em 2019. Importantes psicanalistas, como por exemplo Jean Laplanche, assinaram esse manifesto.<\/p>\n<p>Transcrevo aqui o primeiro par\u00e1grafo desse artigo de 2019:<\/p>\n<p>\u201cO pensamento decolonial est\u00e1 se infiltrando na universidade. Amea\u00e7a as ci\u00eancias humanas e sociais sem poupar a psican\u00e1lise. Este fen\u00f4meno est\u00e1 se alastrando de forma preocupante. N\u00e3o hesitamos em falar de um fen\u00f4meno de controle que sub-repticiamente destila uma ideologia como conota\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias usando t\u00e9cnicas de propaganda.\u201d Falam em identidades assassinas, que pretendem se construir sobre o assassinato simb\u00f3lico do outro. E contribuiriam para o narcisismo das pequenas diferen\u00e7as. E assim vai\u2026<\/p>\n<p>Thamy Ayouch, na sua fala no evento no Cine Bijou, mostra que o colonialismo caracterizou a Fran\u00e7a durante s\u00e9culos. Conta de como se tentou tirar a palavra \u201cra\u00e7a\u201d do vocabul\u00e1rio franc\u00eas, porque o simples fato de falar em ra\u00e7a j\u00e1 seria racista. E h\u00e1 um desprezo terr\u00edvel por pessoas racizadas.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Thamy respondeu a esse manifesto no jornal <em>Lib<\/em><em>\u00e9ration<\/em>, falando em como esse manifesto expressa o narcisismo das grandes indiferen\u00e7as. Da branquitude.<\/p>\n<p>Thamy define a branquitude como uma postura enunciativa, discursiva. Postura que pretende sempre falar do lugar do universal. O racizado escapa do universal, escapa do familiar. Branquitude \u00e9 a tolice que elimina qualquer diferen\u00e7a. O manifesto de 2019 \u00e9 violent\u00edssimo e mostra como os psicanalistas n\u00e3o querem ouvir o diferente. S\u00e3o opera\u00e7\u00f5es de subalternidade. Elimina a singularidade de vozes singulares. Lembro aqui C\u00e9saire, que viveu na Fran\u00e7a na d\u00e9cada de 40 \u2014 em um contexto hist\u00f3rico bastante diferente do nosso \u2014 ao apelar \u00e0 indefensibilidade do modelo europeu, tendo em vista a brutalidade da viol\u00eancia colonial, mas, igualmente, a ilus\u00e3o prepotente dessa constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria da Europa como valor priorit\u00e1rio da civilidade.<\/p>\n<p>Thamy busca no Brasil essa psican\u00e1lise decolonial que seria vanguarda de pensamento no mundo. Colette Soler apresenta-se como branca parisiense e se indaga sobre o que fazia num col\u00f3quio como esse. Essa senhora, relata Thamy, termina sua fala dizendo que iria refletir sobre a exist\u00eancia ou n\u00e3o de um inconsciente decolonial&#8230; Assim, demonstrou em ato o que \u00e9 um inconsciente colonial. Desmente os analistas que, em Paris, discutiam a decolonialidade.<\/p>\n<p>Transcrevo aqui agora trechos do importante manifesto decolonial que ainda capta assinaturas:<\/p>\n<p>A colonialidade n\u00e3o \u00e9 apenas um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria. \u00c9 sobretudo sintoma, ferida aberta, trauma vivo, que insiste em retornar na linguagem, no corpo, na teoria. O racismo n\u00e3o \u00e9 um \u201cacidente brasileiro\u201d, mas a espinha dorsal do capitalismo global. A psican\u00e1lise n\u00e3o pode mais fingir que n\u00e3o v\u00ea, sem trair a si mesma. Como nos ensinou Frantz Fanon, cuja mem\u00f3ria celebramos neste ano em que completaria 100 anos:\u00a0<em>\u201cO colonizado que descobre sua condi\u00e7\u00e3<\/em><em>o come<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a j<\/em><em>\u00e1 a mud\u00e1<\/em><em>-la.<\/em><em>\u201d<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s descobrimos a nossa.A colonialidade n\u00e3o termina com as bandeiras. Ela marca a pele, o corpo, a l\u00edngua e os sil\u00eancios. Ela estrutura o desejo e as viol\u00eancias que atravessam o sujeito.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise nasceu para escutar aquilo que ningu\u00e9m queria ouvir. E hoje precisa ter a coragem de escutar tamb\u00e9m as feridas abertas pela colonialidade e pelo racismo estrutural, tornando-se, enfim, o que promete: um campo de escuta para o humano. Todo ele.<\/p>\n<p>Nossa fala \u00e9 um direito. Uma urg\u00eancia. Uma exig\u00eancia \u00e9tica.<\/p>\n<p>Por uma psican\u00e1lise descolonizada, viva, plural e comprometida com sua voca\u00e7\u00e3o original: escutar o que d\u00f3i, o que divide, o que foi recalcado \u2013 e abrir caminhos para novas gram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Somos marcados por nossa hist\u00f3ria, assim como qualquer pa\u00eds \u00e9 marcado pela sua.<\/p>\n<p>Temos uma hist\u00f3ria que d\u00e1 especificidades \u00e0 psican\u00e1lise no Brasil. O inconsciente n\u00e3o \u00e9 a-hist\u00f3rico. Cada vez mais pesquisamos os efeitos transgeracionais em todas as hist\u00f3rias de cada subjetividade. Buscamos a apropria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, produ\u00e7\u00e3o permanente, e n\u00e3o congelamento seja l\u00e1 em que lugar for.<\/p>\n<p>Como mostra Fanon (2020[1952])<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>, enquanto o discurso psicanal\u00edtico n\u00e3o estabelecer uma interroga\u00e7\u00e3o frontal, coerente e sistem\u00e1tica da incid\u00eancia racial na montagem das subjetividades, seguir\u00e1 reproduzindo a l\u00f3gica colonial em seu pilar estruturante.<\/p>\n<p>Desse modo, podemos compreender por que, para Fanon, o problema fundamental colocado pelo racismo n\u00e3o \u00e9 tanto o da diferen\u00e7a fenot\u00edpica entre os povos, mas sim o da coloca\u00e7\u00e3o da interroga\u00e7\u00e3o, de por que motivo fizemos da branquitude europeia \u2014 e dos valores de pensamento que a acompanham \u2014 o referencial de superioridade, o marcador de valor para diferenciar as ra\u00e7as.<\/p>\n<p>Valendo-se do discurso psicanal\u00edtico, Fanon d\u00e1 um passo al\u00e9m daquele poss\u00edvel a Freud, interligando em sua cr\u00edtica a subjetividade e as estruturas fundamentais do poder que sustentam a coloniza\u00e7\u00e3o. Coube a ele o trabalho de indicar a psican\u00e1lise como um saber que poderia se voltar \u00e0 considera\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia do poder colonial e da diferen\u00e7a racial nas subjetividades.<\/p>\n<p><strong>Para concluir<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 no mergulho na nossa singularidade que nos conectaremos com as for\u00e7as de vida globais e c\u00f3smicas. Que sejamos capazes de instaurar territ\u00f3rios flutuantes que nos ancoram no Negro Oceano Atl\u00e2ntico. E \u00cdndico e Pac\u00edfico e Vermelho. Que possamos resgatar nossas hist\u00f3rias de singulariza\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Calligaris (1991) <em>Hello Brasil, <\/em>Ed. Escuta, S.P.<\/p>\n<p>Chnaiderman (1998) &#8220;Existe uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d <em>Percurso , <\/em>n. 20, 1998.<\/p>\n<p>Derrida (1981) \u201cG\u00e9opsychanalyse\u201d <em>in G\u00e9opsychanalyse, les souterrains de l\u2019institution<\/em>, Rencontre Franco-latino-am\u00e9ricaine, Paris, Confrontation, fev. 1981.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Fanon (2020\/1952) <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas, <\/em>Ed. N-1, SP.<\/p>\n<p>Mbembe, (2018) <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra, <\/em>N-1, SP.<\/p>\n<p>Major (1981) \u201cOuverture\u201d in <em>G\u00e9opsychanalyse, les souterrains de l\u2019institution<\/em>, Rencontre Franco-latino-am\u00e9ricaine, Paris, Confrontation, fev. 1981.<\/p>\n<p>Melman. \u201cLe Complexe de Colombe\u201d <em>in D\u2019un inconscient post-colonial, s\u2019il existe,<\/em> Paris, Association Freudienne International, Maison de l\u2019Am\u00e9rique Latine, 1995.<\/p>\n<p>Negri, M. Hardt (2018) <em>Assembly, A organiza\u00e7\u00e3o multitudin\u00e1ria do comum,<\/em> Ed. Filos\u00f3fica Polit\u00e9ia, SP.<\/p>\n<p>Pelbart (2019) \u201cNegros, judeus, palestinos: do monop\u00f3lio do sofrimento\u201d. <em>Percurso <\/em>69, 2019, p. 54.<\/p>\n<p>Souza (1994) <em>Fantasia de Brasil: as identifica\u00e7\u00f5es na busca de uma identidade nacional<\/em>, Ed. Escuta, S. <em>P.<\/em><\/p>\n<p>Schwartz (1992) <em>Ao vencedor as batatas, <\/em>Livraria Duas Cidades, S.P.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Mara Caff\u00e9<\/strong><a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando recebi, por meio da Anne Eg\u00eddio, o convite para participar deste evento ligado ao grupo de trabalho <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/em>, emocionei-me a ponto de marejar os olhos (ser\u00e1 que a Anne percebeu?). Naquele instante, e desde ent\u00e3o, n\u00e3o consegui compreender o transbordamento do meu afeto. Fui atravessada por algo forte e enigm\u00e1tico. N\u00e3o identifico ao certo o que me aconteceu. Talvez parte daquilo tenha a ver com a Anne, com a hist\u00f3ria dela no Departamento e com a nossa hist\u00f3ria pessoal. E outra parte, talvez, tenha a ver com a tem\u00e1tica desse novo grupo, que me toca especialmente: a brasilidade, com tudo o que ela mobiliza em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Tento, agora, entender melhor o que se passou em mim. O termo <em>brasileira <\/em>no t\u00edtulo do grupo me produz um sentimento peculiar. Uma interpela\u00e7\u00e3o, quase uma convoca\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o sei para qu\u00ea. Sigo em associa\u00e7\u00e3o livre: por que a emo\u00e7\u00e3o com a brasilidade? Lembrei-me do tempo de crian\u00e7a na escola estadual de Santo Andr\u00e9, cidade onde nasci e fiz os estudos prim\u00e1rios, iniciando o dia com todos os alunos em fila, no p\u00e1tio da escola, cantando o hino nacional enquanto a bandeira do Brasil era hasteada lentamente. Nos idos de 1968 havia uma forte onda nacionalista no ambiente social. Est\u00e1vamos sob um regime autorit\u00e1rio de direita, no culto aos s\u00edmbolos patri\u00f3ticos e em meio a viol\u00eancias inomin\u00e1veis \u2014 algo que revisitamos recentemente no governo do ex-presidente, hoje presidi\u00e1rio, Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Meu pai, militante de esquerda que atuava junto ao movimento dos trabalhadores em Santo Andr\u00e9, contava didaticamente \u00e0s filhas suas impress\u00f5es e an\u00e1lises pol\u00edticas, alertando-nos para que n\u00e3o pronunci\u00e1ssemos nada disso na escola. Tempos duros, de muita persegui\u00e7\u00e3o. Em casa, \u00e9ramos contra os ianques, o imperialismo norte-americano, o <em>p\u00e3o e circo<\/em> da televis\u00e3o brasileira e at\u00e9 mesmo das copas mundiais de futebol, ainda que abr\u00edssemos uma exce\u00e7\u00e3o, assistindo \u00e0s finais em fam\u00edlia, junto com tios(as) e primos(as)! Tamb\u00e9m acompanh\u00e1vamos \u201creligiosamente\u201d, e com grande emo\u00e7\u00e3o, o bal\u00e9 russo Beryozka, exibido na TV durante suas turn\u00eas internacionais, cultivando s\u00edmbolos patri\u00f3ticos de outras terras voltadas ao comunismo.<\/p>\n<p>Apesar das li\u00e7\u00f5es paternas, cantar o hino do Brasil em un\u00edssono com as crian\u00e7as da escola, e vibrar nas finais da Copa do Mundo com o Brasil finalista (vai, Brasil!), eram momentos de intensa emo\u00e7\u00e3o e alegria. Assim, a bandeira verde e amarela que me causava horror, quando estampava o Brasil do \u201came-o ou deixe-o\u201d e da ditadura militar sangrenta, era a mesma bandeira que, erguida no mastro e tremulando ao vento, me arrebatava no momento de cantar com os(as) colegas \u201ccamaradas\u201d da escola e de torcer pelo Brasil na Copa.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o amb\u00edgua em torno dos s\u00edmbolos da p\u00e1tria atravessou minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia e, de algum modo, reapareceu com o convite da Anne. Mas \u00e9 poss\u00edvel que essa experi\u00eancia n\u00e3o seja apenas minha. Talvez muitos de n\u00f3s, por caminhos diferentes, tenhamos sido formados nessa tens\u00e3o entre identifica\u00e7\u00e3o e recusa, entre pertencimento e ex\u00edlio interno, entre amor e recha\u00e7o pelos muitos e distintos brasis que habitamos.<\/p>\n<p>Hoje, envolvida em uma pesquisa sobre diferentes modelos de psican\u00e1lise, selecionando autoras(es) e coletivos do Norte e do Sul Global, me vejo com um olho no Brasil e em nossas produ\u00e7\u00f5es. Produ\u00e7\u00f5es t\u00e3o diversas quanto os brasis que constru\u00edmos. Por vezes \u2013 talvez seja mais correto dizer: por muitas vezes \u2013 s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas, racistas e homof\u00f3bicas, como aquelas referidas ao tempo da ditadura militar brasileira, tal como o c\u00e9lebre caso de Am\u00edlcar Lobo, m\u00e9dico ligado \u00e0 viol\u00eancia de Estado e posteriormente associado ao campo psicanal\u00edtico. Podemos acrescentar, ainda, as formas silenciosas, por\u00e9m persistentes, de exclus\u00e3o e preconceito racial que marcaram trajet\u00f3rias como as de Virg\u00ednia Bicudo e Neusa Santos Souza. J\u00e1 por outras vezes \u2013 mais facilmente cont\u00e1veis \u2013 observamos produ\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas inventivas, insurgentes, plurais e abertas \u00e0s diferen\u00e7as. Todas elas, em suas viol\u00eancias e inven\u00e7\u00f5es, parecem compor esse mosaico contradit\u00f3rio, desigual e m\u00faltiplo que talvez possamos chamar de psican\u00e1lises brasileiras.<\/p>\n<p>Volto ao nome do grupo &#8211; <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/em>, destacando agora a forma da indaga\u00e7\u00e3o, que remete o enunciado a um campo de abertura e incerteza. Introduz uma pergunta no lugar de afirmar um campo de pesquisa bem delimitado. Al\u00e9m disso, p\u00f5e em jogo, no corpo mesmo da psican\u00e1lise, uma quest\u00e3o identit\u00e1ria, tema bastante pol\u00eamico nos dias de hoje. Como rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e irrefletida, dessas que nos tomam antes mesmo de pensarmos, me vi testando um sim e depois um n\u00e3o \u00e0 pergunta: \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d. Sim, existe. Ou ent\u00e3o: n\u00e3o, n\u00e3o existe. E depois para resolver o impasse: Sim e n\u00e3o, ao mesmo tempo. Mas por que a pressa em me posicionar? Dizer sim ou n\u00e3o, isso ou aquilo, como se fosse preciso escolher um lado e deixar o outro de fora? Teria algo a ver com o meu conflito patri\u00f3tico da inf\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Associo livremente, mais uma vez. As crian\u00e7as pequenas costumam reagir aos enigmas a partir do pensamento bin\u00e1rio, procurando rapidamente uma posi\u00e7\u00e3o. Geralmente, n\u00e3o recorrem ao \u201cdepende\u201d ou \u201cisso \u00e9 relativo\u201d diante das interpela\u00e7\u00f5es que lhes fazemos. Angustiam-se, por exemplo, frente \u00e0 pergunta maliciosa: de quem voc\u00ea gosta mais, da mam\u00e3e ou do papai? Como se fosse preciso escolher um e perder o outro.<\/p>\n<p>Mas o \u201csim ou n\u00e3o\u201d, o \u201cesse ou aquele\u201d tamb\u00e9m podem ser posi\u00e7\u00f5es adultas, refletidas e politicamente assumidas. Nesse caso, por\u00e9m, exigem tempo de elabora\u00e7\u00e3o e a suspens\u00e3o provis\u00f3ria do ju\u00edzo, para que o pensamento possa se desenvolver. Nada parecido com a minha rea\u00e7\u00e3o apressada e irrefletida do in\u00edcio, quando fui convidada a escrever para esse evento. Nesse sentido, penso que a interroga\u00e7\u00e3o no t\u00edtulo do grupo \u00e9 justamente o que o torna provocativo e desafiador, na medida em que se queira sustentar a indaga\u00e7\u00e3o, a forma de pergunta, abrindo um campo de incertezas e suspendendo provisoriamente os julgamentos apressados e as posi\u00e7\u00f5es inteiramente convictas. Assim, o grupo parece ter um desafio: manter a indaga\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo. Talvez, ent\u00e3o, a pergunta &#8220;existe uma psican\u00e1lise brasileira?&#8221; n\u00e3o deva ser respondida com uma defini\u00e7\u00e3o, mas sustentada como um problema. Um problema que nos obriga a pensar o lugar da psican\u00e1lise no Brasil hoje, suas alian\u00e7as, seus impasses e suas possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De todo modo, e voltando outra vez ao t\u00edtulo do grupo, decidi refletir sobre o que poderia estar contido na express\u00e3o \u201cpsican\u00e1lise brasileira\u201d, assim declinada no singular. Seria poss\u00edvel unificarmos em \u201cuma\u201d psican\u00e1lise tudo aquilo que produzimos em diferentes \u00e9pocas, territ\u00f3rios e perspectivas no vasto campo nacional? Seria poss\u00edvel \u2013 ou mesmo desej\u00e1vel &#8211; encontrarmos uma ess\u00eancia de Brasil nas diversas psican\u00e1lises que praticamos? A que isto responderia? O que est\u00e1 em jogo aqui: um desejo de identidade? ou a sua pr\u00f3pria coloca\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Sabemos que um dos cernes da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica est\u00e1 mais na desterritorializa\u00e7\u00e3o e na desidentifica\u00e7\u00e3o do que na fixa\u00e7\u00e3o em identidades est\u00e1veis ou ess\u00eancias culturais. Ao mesmo tempo \u2014 e isto tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para a psican\u00e1lise \u2014 o sujeito se constitui a partir de refer\u00eancias simb\u00f3licas e de pertencimentos, ainda que nunca se reduza a eles. O grupo de trabalho <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/em> parece se situar nesse entroncamento, tendo como desafio sustentar a tens\u00e3o entre desidentifica\u00e7\u00e3o e pertencimento.<\/p>\n<p>No fluxo dessas reflex\u00f5es, me vi, por fim, entretida em identificar ou imaginar psican\u00e1lises brasileiras. Primeiramente, considerei psican\u00e1lises que n\u00e3o se pensam como ess\u00eancia nacional, nem como variantes folcl\u00f3ricas da psican\u00e1lise europeia, mas como pr\u00e1ticas situadas; que reconhe\u00e7am as marcas coloniais, raciais e de classe que atravessam nossa hist\u00f3ria; que n\u00e3o reproduzam teorias importadas como dogmas, mas as retrabalhem a partir das urg\u00eancias e desafios que se colocam em nossas cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>Psican\u00e1lises que sustentem o que lhes \u00e9 espec\u00edfico, que dialoguem com os estudos sociol\u00f3gicos, <em>queer<\/em> e decoloniais sem se dilu\u00edrem neles; que n\u00e3o percam o compromisso \u00e9tico com a escuta da singularidade de cada sujeito ou de cada grupo de sujeitos, seja nos atendimentos individuais, seja nos grupais, reconhecendo que as singularidades nunca reproduzem nem se reduzem completamente \u00e0s normas sociais ou aos discursos prontos. Isso porque o inconsciente, ainda que tecido nesse caldo hist\u00f3rico e simb\u00f3lico, introduz deslocamentos, fissuras e reconfigura\u00e7\u00f5es. Essas psican\u00e1lises mobilizam imagin\u00e1rios, significantes, mitos, narrativas, representa\u00e7\u00f5es ou tra\u00e7os referentes \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o social, conforme cada territ\u00f3rio e repert\u00f3rio local considerado. Escutam esses elementos no dizer e no estar das(os) analisantes, em seus sonhos, lapsos, sintomas e express\u00f5es corporais. Isso, para mim, poderia significar um conjunto diverso de psican\u00e1lises brasileiras atentas ao que se passa nos contextos simb\u00f3licos de um Brasil diverso, plural, desigual, injusto, criativo, um Brasil h\u00edbrido no sentido de Gl\u00f3ria Anzaldua.<\/p>\n<p>No \u00e1pice desse jogo de imagina\u00e7\u00e3o, me vi distanciada do que se apresenta frequentemente como realidade observ\u00e1vel. Considerei que, na pr\u00e1tica, essas psican\u00e1lises sonhadas n\u00e3o se mostram imunes \u00e0s mesmas for\u00e7as que buscam questionar. Em maior ou menor grau, todes n\u00f3s, de algum modo, corremos o risco de reproduzir ditames racistas, patriarcais, classistas, mis\u00f3ginos, homof\u00f3bicos e transf\u00f3bicos, sustentados por transmiss\u00f5es ainda marcadas por valores e teorias de base colonial, como aquelas historicamente consolidadas nos centros hegem\u00f4nicos de forma\u00e7\u00e3o, constitu\u00eddos majoritariamente &#8211; ou at\u00e9 exclusivamente &#8211; por pessoas cis brancas. Nesse sentido, psican\u00e1lises conservadoras e violentas n\u00e3o s\u00e3o um problema externo ou localizado, mas algo que nos atravessa e nos implica, exigindo uma vigil\u00e2ncia \u00e9tica e pol\u00edtica permanente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, essa realidade vem se transformando, ainda que de modo lento e desigual, com a amplia\u00e7\u00e3o do acesso aos institutos \u2014 por exemplo, por meio das pol\u00edticas de cotas para pessoas negras, pardas e ind\u00edgenas e, de forma ainda mais incipiente, para pessoas trans \u2014trazendo novas cores, presen\u00e7as e perspectivas para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Do que foi se tecendo at\u00e9 aqui, podemos pensar que se h\u00e1 algo como psican\u00e1lises brasileiras, elas talvez n\u00e3o se deixem capturar por uma defini\u00e7\u00e3o est\u00e1vel, mas se desenhem justamente nesse movimento: entre pertencimentos e deslocamentos, entre heran\u00e7as e inven\u00e7\u00f5es, entre a repeti\u00e7\u00e3o de formas institu\u00eddas e a abertura ao que nelas pode vacilar, se transformar ou mesmo se desfazer.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, ainda no fluxo associativo, imaginei o nome\/pergunta: <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?<\/em> como uma interpela\u00e7\u00e3o \u00e0s(aos) psicanalistas contempor\u00e2neas(os), de dentro e de fora do nosso pa\u00eds, que afirmam a exist\u00eancia de uma psican\u00e1lise brasileira de vanguarda, antirracista, que se colocaria hoje como express\u00e3o de uma pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria. Mas o que estaria em jogo nessa ideia de <em>vanguarda<\/em>? Ela efetivamente desloca os centros tradicionais de legitima\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise ou mant\u00e9m nossa produ\u00e7\u00e3o ainda referida ao olhar europeu, mesmo quando valorizada positivamente? Afinal, o que significa ocupar o lugar da novidade ou da renova\u00e7\u00e3o no imagin\u00e1rio psicanal\u00edtico contempor\u00e2neo? Ou, para retomar o nome\/pergunta: Quem existe uma psican\u00e1lise brasileira? Quem \u2013 ou o qu\u00ea \u2013 faz existir uma psican\u00e1lise brasileira?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Maio de 2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A grava\u00e7\u00e3o oficial do evento pode ser assistida na \u00edntegra na Eventoteca e tamb\u00e9m no <em>YouTube<\/em> do Departamento de Psican\u00e1lise: <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?mpg=07.08.04&amp;acao=ver&amp;id=155&amp;pg=0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?mpg=07.08.04&amp;acao=ver&amp;id=155&amp;pg=0<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psic\u00f3loga cl\u00ednica e psicanalista, membra do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae e articuladora da \u00e1rea de Eventos do Conselho de Dire\u00e7\u00e3o \u2013 gest\u00e3o 2026-2027.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Mara Caff\u00e9, <em>Psican<\/em><em>\u00e1lise e Direito: a escuta anal\u00edtica e a fun\u00e7\u00e3o normativa jur\u00ed<\/em><em>dica<\/em>. Quartier Latin, 2010, 2003; Miriam Chnaiderman, <em>Uma psican\u00e1<\/em><em>lise errante,<\/em> Blucher, 2024; Rafael Alves Lima, <em>Psican<\/em><em>\u00e1lise na d<\/em><em>itadura (1964-1985):<\/em> <em>Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria, <\/em><em>c<\/em><em>l<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nica e <\/em><em>p<\/em><em>ol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica<\/em>, Perspectiva, 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Para conhecer a <em>Campanha Levante! Por uma psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise antirracista<\/em> \u2013 e para quem quiser fazer uma doa\u00e7\u00e3o extra ainda hoje, ou se tornar um contribuinte recorrente, clique no link de acesso: <a href=\"https:\/\/benfeitoria.com\/psicanaliseantirracista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/benfeitoria.com\/psicanaliseantirracista<\/a>.<br \/>\nPara contribuir direto, clique em APOIO ap\u00f3s entrar no link e aparecer\u00e1 a seguinte mensagem (que tamb\u00e9m poder\u00e1 ser acessada diretamente clicando nos termos abaixo):<br \/>\nDe qual forma deseja colaborar?<br \/>\n<a href=\"https:\/\/benfeitoria.com\/pagamento\/psicanaliseantirracista\/tipo\/contribution\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Colabora\u00e7\u00e3o \u00fanica: Quero fazer uma doa\u00e7\u00e3o pontual para a campanha<\/a>.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/benfeitoria.com\/pagamento\/psicanaliseantirracista\/tipo\/subscription\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Colabora\u00e7\u00e3o mensal: Quero me tornar um doador mensal da campanha<\/a>.<br \/>\nEm caso de d\u00favida ou dificuldade, entre em contato com a nossa secret\u00e1ria Cl\u00e1udia atrav\u00e9s do celular institucional\/whatsapp: 11-94981-3626.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> CHNAIDERMAN, Miriam (1998). \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d. <em>Percurso: Revista de Psican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, Instituto Sedes Sapientiae, v. 20, 1998, 1\u00ba semestre.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Pelo Grupo de Trabalho <em>Existe uma psican\u00e1lise brasileira?, <\/em>composto por Adriana Novais, Ana Carolina Vasarhelyi, Andre Bizzi, Anne Egidio, Cristina Lopergolo, Daniel Rodrigues L\u00edrio, Eva Wongtschowski, Francisco Alves, Juliana Farah, Lucila de Jesus, Luisa Godoy, Marcelo L\u00e1baki, Marcelo Vial, Marcia Eugenia Cerdeira, Maria Aparecida Pinto, Mariana Melar\u00e9, Marina Bialer, Maristela Vendramel Ferreira, Patricia Ferreira de Andrade, Renata Arouca de Oliveira Morais, Susana Carrillo Le Roux, Valdira Penedo, Vanessa Tonon Calderelli.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Texto produzido para o evento \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d (15 de maio, 2026).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Psicanalista e documentarista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Durante o debate que ocorreu no dia 15 de maio de 2026 a convite do grupo de trabalho \u201cExiste uma psican\u00e1lise brasileira?\u201d, Mara Caff\u00e9 sugeriu, para evitar manter a identidade colonial, a utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201ccontracolonial\u201d, proposto por Ant\u00f4nio Bispo dos Santos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Fazem parte desse grupo: Ana L\u00facia Bastos, Bruna Elage, Isildinha Baptista Nogueira, Lilian Carbone, Patr\u00edcia Villas-Boas, Roberta Kehdy, Luciana Chau\u00ed. Ivan Cabral tamb\u00e9m assinou e participou da elabora\u00e7\u00e3o do Manifesto.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u00c9 poss\u00edvel assistir o evento no Canal do YouTube \u201cColetivo Cinema e Psican\u00e1lise nas Brechas \u2013 Por uma psican\u00e1lise decolonial\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Thammy Ayouch faz uma diferen\u00e7a entre racializa\u00e7\u00e3o e raciza\u00e7\u00e3o. Raciza\u00e7\u00e3o seria a desumaniza\u00e7\u00e3o, o massacre e a explora\u00e7\u00e3o de corpos escravizados e explorados. A raciza\u00e7\u00e3o \u00e9 o lado negativo da racialidade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Aqui, para falar de Fanon, baseei-me na fala de Deivison Faustino no evento de lan\u00e7amento do Manifesto Por uma psican\u00e1lise decolonial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sustenta\u00e7\u00e3o dessa indaga\u00e7\u00e3o \u00e9 o que move a cria\u00e7\u00e3o do novo GT no Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[141],"tags":[268],"edicao":[379],"autor":[258,377,385,167],"class_list":["post-4168","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento-2","tag-formacao-continua","edicao-boletim-79","autor-cristina-petry","autor-mara-caffe","autor-marcelo-vial","autor-miriam-chnaiderman","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4168"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4168\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4169,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4168\/revisions\/4169"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4168"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4168"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}