{"id":4170,"date":"2026-06-12T12:57:57","date_gmt":"2026-06-12T15:57:57","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4170"},"modified":"2026-06-12T12:57:57","modified_gmt":"2026-06-12T15:57:57","slug":"desarmar-o-dispositivo-notas-para-despactuar-a-branquitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/desarmar-o-dispositivo-notas-para-despactuar-a-branquitude\/","title":{"rendered":"Desarmar o dispositivo: notas para despactuar a branquitude"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Desarmar o dispositivo: notas para despactuar a branquitude <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Breno Sniker<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este ano, o Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae deu continuidade a um projeto articulado no ano passado: oferecer supervis\u00e3o gratuita para alunos pretos, pardos e ind\u00edgenas dos cursos de forma\u00e7\u00e3o vinculados ao Departamento. Nas reuni\u00f5es de articula\u00e7\u00e3o do grupo, temos discutido, de um lado, nosso papel nessa luta antirracista e, de outro, como o racismo de cada um de n\u00f3s pode operar no pr\u00f3prio dispositivo da supervis\u00e3o. Esse projeto \u00e9 uma proposta audaciosa em diversos sentidos, sobretudo, em seu ineditismo. Cito isso, pois parte do que se segue foi produto da proposta feita por esse grupo em pensar o pacto da branquitude e sua opera\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>O que se segue \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o. De um lado, um coment\u00e1rio ao texto de Cida Bento, <em>O pacto da branquitude<\/em>, pensando a reprodu\u00e7\u00e3o desse pacto nos dispositivos de que participamos. De outro, uma elabora\u00e7\u00e3o a partir do mal-estar que me ficou da discuss\u00e3o sobre nossa pol\u00edtica de cotas, no evento &#8220;O racismo nosso de cada dia: do pensamento \u00e0 a\u00e7\u00e3o&#8221;: estava pensando as cotas como um dispositivo, mas sua discuss\u00e3o no texto tomou uma propor\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o esperava. Pe\u00e7o ao leitor que aceite essa juntura: ela \u00e9, em alguma medida, o pr\u00f3prio sintoma do problema que tento pensar.<\/p>\n<p><em>Pacto<\/em> \u00e9 um termo de origem religiosa e arcaica: designa o v\u00ednculo que se sela entre partes e cuja for\u00e7a reside, paradoxalmente, no fato de ele n\u00e3o precisar ser dito. Opera no sil\u00eancio, sustenta-se no n\u00e3o-dito, transmite-se pela cumplicidade t\u00e1cita de quem dele participa sem jamais ter assinado. H\u00e1 nele algo da estrutura formal do sagrado, mas em sinal invertido: n\u00e3o o que aben\u00e7oa e eleva, mas o que sela e exclui. Algo da ordem do que \u00e9 selado e, por estar selado, torna-se intoc\u00e1vel. Da\u00ed a dimens\u00e3o particularmente perversa do pacto da branquitude: ele se mant\u00e9m vivo precisamente porque seus signat\u00e1rios n\u00e3o se reconhecem como tais, e porque nome\u00e1-lo j\u00e1 seria, em alguma medida, tra\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Uma forma produtiva de nomear o que pactuamos, e de identificar os mecanismos pelos quais o pacto da branquitude se reproduz em nosso campo de forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 aproxim\u00e1-lo da no\u00e7\u00e3o foucaultiana de dispositivo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201c<\/em><em>um conjunto decididamente heterog\u00eaneo, que comporta discursos, institui\u00e7\u00f5es, arranjos arquitet\u00f4nicos, decis\u00f5es regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados cient\u00edficos, proposi\u00e7\u00f5<\/em><em>es filos\u00f3<\/em><em>ficas, morais, filantr<\/em><em>\u00f3<\/em><em>picas, em resumo: do dito, tanto quanto do n\u00e3o dito, eis os elementos do dispositivo. O dispositivo propriamente <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a rede que se pode estabelecer entre esses elementos.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>E em como esse conjunto se relaciona com o poder:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201c<\/em><em>O dispositivo est\u00e1, ent\u00e3o, sempre inscrito em um jogo de poder, mas sempre ligado, tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m, a um ou alguns limites de saber, que nascem dele, mas tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m o condicionam. \u00c9 isto o dispositivo: estrat<\/em><em>\u00e9<\/em><em>gias de rela\u00e7\u00f5<\/em><em>es de for<\/em><em>\u00e7as suportando tipos de saber e suportadas por eles.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sem tens\u00e3o: o dispositivo foucaultiano \u00e9 estrat\u00e9gico sem ser intencional, emerge de uma urg\u00eancia hist\u00f3rica e produz efeitos sem signat\u00e1rios; o pacto, em Bento, preserva algo da gram\u00e1tica do acordo, mesmo que t\u00e1cito. Trabalho aqui justamente nessa juntura: tomar os dispositivos como o modo pelo qual o pacto se materializa institucionalmente, e o pacto como aquilo que d\u00e1 ao dispositivo sua densidade subjetiva e sua resist\u00eancia \u00e0 desmontagem.<\/p>\n<p><strong>Dispositivos epist\u00eamicos<\/strong><\/p>\n<p>A aus\u00eancia de autores negros no curr\u00edculo opera como interdi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Holmes (sobre o qual retorno adiante) mostrou que a maioria dos professores e analistas em forma\u00e7\u00e3o concordou que pessoas negras eram sub-representadas tanto como autores quanto como sujeitos nas leituras obrigat\u00f3rias.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Em outras palavras, quem n\u00e3o se v\u00ea no corpus te\u00f3rico n\u00e3o se reconhece como sujeito autorizado do saber, e o que n\u00e3o aparece no corpus n\u00e3o existe como problema cl\u00ednico leg\u00edtimo.<\/p>\n<p><strong>Dispositivos de sele\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o na sele\u00e7\u00e3o permite que crit\u00e9rios racialmente codificados: dic\u00e7\u00e3o, trejeitos de fala, refer\u00eancias culturais, rede de rela\u00e7\u00f5es, autores lidos, lugares frequentados e modos est\u00e9ticos funcionem como triagem sem precisar se nomear como tal. Uma cumplicidade t\u00e1cita que n\u00e3o precisa ser explicitada. Um argumento nesse sentido \u00e9 desenvolvido por Grada Kilomba ao demonstrar que sujeitos negros s\u00e3o frequentemente reconhecidos como interlocutores v\u00e1lidos apenas quando enquadram suas ideias \u201cem uma linguagem familiar e confort\u00e1vel para um grupo dominante\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>Dispositivos de transmiss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o, estruturalmente assim\u00e9trica, reencena a assimetria racial mais ampla quando aquele que transmite \u00e9 branco e aquele que escuta \u00e9 negro. O mesmo pode ser pensado no dispositivo da supervis\u00e3o, onde a assimetria racial pode atravessar o pr\u00f3prio encontro numa forma de desautoriza\u00e7\u00e3o da escuta. Isso pode comparecer como medo, ou como conjunto de explica\u00e7\u00f5es e justificativas dadas pelo supervisionando para apostas cl\u00ednicas simples que eventualmente falham, explica\u00e7\u00f5es que talvez n\u00e3o fossem mobilizadas se a assimetria racial n\u00e3o estivesse, ela mesma, em jogo no encontro.<\/p>\n<p><strong>Dispositivos de isolamento<\/strong><\/p>\n<p>Persistem nos discentes negros altos \u00edndices de interrup\u00e7\u00e3o dos estudos, seja porque a forma de administra\u00e7\u00e3o do sistema de cotas falha em sua efetiva\u00e7\u00e3o, seja porque n\u00e3o se relaciona com as ang\u00fastias espec\u00edficas desses ingressantes.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> O isolamento de ser o \u201cnegro \u00fanico\u201d em um instituto \u00e9, em si, um dispositivo de desgaste que opera de modo cumulativo: cada situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 nomeada, cada refer\u00eancia que n\u00e3o ressoa, cada sil\u00eancio do supervisor diante do sofrimento racial se acumula sem possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n<p><strong>Dispositivos econ\u00f4micos<\/strong><\/p>\n<p>O custo da forma\u00e7\u00e3o (an\u00e1lise pessoal, supervis\u00e3o, semin\u00e1rios) funciona como barreira de entrada que reproduz as desigualdades raciais j\u00e1 existentes na distribui\u00e7\u00e3o de renda. Isso \u00e9 estrutural: um dispositivo, n\u00e3o uma quest\u00e3o individual.<\/p>\n<p><strong>Excurso: a cota como sintoma institucional<\/strong><\/p>\n<p>Os dispositivos elencados acima descrevem mecanismos consolidados. Mas vale um excurso sobre um mecanismo que se pretende corretivo, o sistema de cotas, e que, dependendo de como \u00e9 administrado, pode operar paradoxalmente como refor\u00e7o do mesmo pacto que se prop\u00f5e a desfazer.<\/p>\n<p>Segundo o Censo 2022 do IBGE, 43,5% da popula\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo se autodeclara preta ou parda. O sistema de cotas visa a reparar o desencontro entre essa composi\u00e7\u00e3o racial da cidade e a composi\u00e7\u00e3o historicamente branca do corpo discente, docente e de integrantes da comunidade Sedes; como membros do Departamento de Psican\u00e1lise a ele aderimos, reconhecendo que a sub-representa\u00e7\u00e3o de pessoas negras na forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica n\u00e3o \u00e9 dado natural, mas efeito sedimentado de barreiras, simb\u00f3licas, econ\u00f4micas e institucionais.<\/p>\n<p>Se a cidade tem 43,5% de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas e a cota \u00e9 de 10%, h\u00e1 uma defasagem de mais de 33 pontos percentuais entre a demografia da cidade e o que a institui\u00e7\u00e3o se prop\u00f5e a refletir. Nesses termos, a cota n\u00e3o repara o desencontro: ela o administra. E o risco dessa administra\u00e7\u00e3o \u00e9 duplo.<\/p>\n<p>No plano sociol\u00f3gico, 15% \u00e9 justamente o limiar<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> abaixo do qual grupos minorizados, segundo estudos cl\u00e1ssicos sobre din\u00e2micas institucionais, como os de Rosabeth Moss Kanter nos anos 1970, originalmente voltados para g\u00eanero em ambientes corporativos e posteriormente estendidos a outros marcadores<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, tendem a ocupar o lugar de <em>tokens<\/em>. Tornam-se hipervis\u00edveis como exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o lidos como representantes de seu grupo e n\u00e3o como singularidades, e a institui\u00e7\u00e3o pode invoc\u00e1-los para se eximir de transforma\u00e7\u00f5es estruturais: \u201ctemos negros aqui, ent\u00e3o o problema est\u00e1 resolvido\u201d. A cota baixa funciona, paradoxalmente, como prova de que o pacto da branquitude segue operando, agora com \u00e1libi.<\/p>\n<p>No plano metapsicol\u00f3gico, uma cota de 10% pode operar como um <em>desmentido institucional<\/em>: a institui\u00e7\u00e3o reconhece formalmente o problema (h\u00e1 cota, logo h\u00e1 reconhecimento da exclus\u00e3o hist\u00f3rica) e, simultaneamente, desautoriza a percep\u00e7\u00e3o desse mesmo problema na sua magnitude real (10% diz: \u201co problema existe, mas nesta propor\u00e7\u00e3o\u201d). \u00c9 o que Ferenczi descreveu como <em>desmentido<\/em> (<em>Verleugnung<\/em>) em \u201cConfus\u00e3o de l\u00ednguas entre os adultos e a crian\u00e7a\u201d (1933): a opera\u00e7\u00e3o pela qual se reconhece formalmente um acontecimento ao mesmo tempo em que se desautoriza a percep\u00e7\u00e3o que o sujeito tem dele.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> O reconhecimento, longe de reparar, funciona como ve\u00edculo da desqualifica\u00e7\u00e3o. Ferenczi mostrou que esse mecanismo \u00e9 mais devastador que a nega\u00e7\u00e3o pura, porque retira do sujeito a possibilidade mesma de contesta\u00e7\u00e3o: como lutar contra uma inst\u00e2ncia que j\u00e1 reconheceu o problema? A cota baixa pode operar, no plano institucional, com a mesma l\u00f3gica: reconhece-se para melhor desmentir. Pode ser, nesse sentido, mais sofisticada que a aus\u00eancia de cota, porque inocula a institui\u00e7\u00e3o contra a cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Resta, evidentemente, a leitura mais favor\u00e1vel: 10% pode ser teto pol\u00edtico ou piso estrat\u00e9gico. Se for piso, isto \u00e9, primeira medida de uma pol\u00edtica em constru\u00e7\u00e3o, com revis\u00e3o prevista, com indicadores de monitoramento, com efeito catalisador sobre outras transforma\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tokenismo, \u00e9 in\u00edcio de processo. A diferen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 no n\u00famero isolado, mas no enquadre institucional em que esse n\u00famero aparece: a cota \u00e9 apresentada como suficiente ou como insuficiente-em-movimento? H\u00e1 prazo para revis\u00e3o? H\u00e1 comiss\u00e3o de acompanhamento? H\u00e1 mudan\u00e7a correspondente no corpo docente, ou apenas no discente?<\/p>\n<p>Talvez a quest\u00e3o produtiva n\u00e3o seja \u201c10% \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 tokenismo\u201d, mas: o que essa cifra revela sobre o que a institui\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de suportar como transforma\u00e7\u00e3o? O n\u00famero n\u00e3o \u00e9 apenas t\u00e9cnico, \u00e9 sintom\u00e1tico. Ele expressa o ponto at\u00e9 o qual o pacto consente em se rever sem se desfazer. Nesse sentido, 10% n\u00e3o \u00e9 um dado a ser avaliado moralmente, insuficiente versus suficiente, mas a ser lido como \u00edndice cl\u00ednico da posi\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o diante de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O mapeamento desses dispositivos n\u00e3o tem pretens\u00e3o exaustiva. Ele tenta apenas tornar vis\u00edvel a rede heterog\u00eanea de mecanismos discursivos, econ\u00f4micos, seletivos, transferenciais, administrativos pela qual o pacto da branquitude se reproduz no campo da forma\u00e7\u00e3o. O gesto que proponho \u00e9 menos o de denunciar ou negar os investimentos de membros do Departamento em importantes a\u00e7\u00f5es afirmativas, e mais o de oferecer um vocabul\u00e1rio anal\u00edtico para que cada um desses dispositivos possa ser nomeado e, eventualmente, desarmado.<\/p>\n<p><strong>Sobre a Comiss\u00e3o Holmes<\/strong><\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Holmes (CO-REAP \u2014 Commission on Racial Equality in American Psychoanalysis) foi criada em 2020 pela Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Americana (APsA) em resposta ao movimento antirracista que ganhou for\u00e7a naquele ano, especialmente ap\u00f3s o assassinato de George Floyd. A comiss\u00e3o foi presidida pela psicanalista Dorothy Holmes e teve como mandato investigar o racismo sist\u00eamico dentro da pr\u00f3pria psican\u00e1lise americana: n\u00e3o o racismo que os analistas tratam nos pacientes, mas o racismo que opera nas institui\u00e7\u00f5es onde os analistas se formam, ensinam e trabalham.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o combinou question\u00e1rios, entrevistas e grupos focais com candidatos, analistas formados, professores e supervisores, brancos e n\u00e3o brancos, em institutos filiados \u00e0 APsA e em institutos independentes. Os achados foram contundentes: candidatos negros e de outras minorias racizadas relataram sistematicamente sentir-se menos livres para discutir ra\u00e7a, etnicidade e outros marcadores identit\u00e1rios com seus analistas didatas e supervisores; relataram experi\u00eancias de racismo que n\u00e3o foram elaboradas institucionalmente; e descreveram um isolamento cr\u00f4nico como \u201c\u00fanicos\u201d em seus institutos. A presidente da comiss\u00e3o afirmou explicitamente que tudo o que encontraram na APsA era verdadeiro tamb\u00e9m nos institutos independentes, o que torna o relat\u00f3rio uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel para pensar qualquer institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Bento C. (2022). <em>O pacto da branquitude<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p>Collins P. H. (2019). <em>Pensamento feminista negro: conhecimento, consci\u00eancia e a pol\u00edtica do empoderamento<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jamille Pinheiro Dias. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>Ferenczi S. (1932\/1990). <em>Di<\/em><em>\u00e1rio cl\u00ed<\/em><em>nico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n<p>Ferenczi S. (1933\/2011). \u201cConfus\u00e3o de l\u00ednguas entre os adultos e a crian\u00e7a.\u201d In: <em>Obras completas: Psican\u00e1lise IV<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n<p>Foucault M. (1977\/2013). \u201cO jogo de Michel Foucault\u201d (entrevista). In: <em>Ditos e escritos<\/em>, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, pp. 45\u201377.<\/p>\n<p>Holmes D. E. et al. (2024). \u201cIn pursuit of racial equality in american psychoanalysis: Findings and recommendations from the Holmes Commission.\u201d <em>Journal of the American Psychoanalytic Association<\/em>, v. 72, n. 3, pp. 407\u2013552.<\/p>\n<p>IBGE (2023). <em>Censo demogr\u00e1fico 2022: Identifica<\/em><em>\u00e7\u00e3o <\/em><em>\u00e9<\/em><em>tnico-racial da popula\u00e7\u00e3o, por sexo e idade: Resultados do universo<\/em>. Rio de Janeiro: IBGE.<br \/>\nIgn\u00e1cio A. Paim Filho e Wania M. C. F. Cidade (2020). \u201cPodem negros e negras frequentarem os institutos de psican\u00e1lise?\u201d <em>Observat<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rio da FEBRAPSI<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/febrapsi.org\/publicacoes\/observatorio\/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/febrapsi.org\/publicacoes\/observatorio\/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise\/<\/a><\/p>\n<p>Kanter R. M. (1977). <em>Men and women of the corporation<\/em>. New York: Basic Books.<\/p>\n<p>Kilomba G. (2019). <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o: epis\u00f3dios de racismo cotidiano<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3.<\/p>\n<p>Leonardi F. G. &amp; Faustino D. M. (2025). \u201cRacismo e sofrimento mental de estudantes negros na universidade.\u201d <em>Olhares: Revista do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da Unifesp<\/em>, v. 13, n. 1.<\/p>\n<p>Wingfield A. H. (2019). <em>Flatlining: Race, Work, and Health Care in the New Economy<\/em>. Berkeley: University of California Press.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista e psic\u00f3logo, doutor em Psicologia Cl\u00ednica e mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professor no Curso de Psican\u00e1lise, integrante da Comiss\u00e3o de Admiss\u00e3o e supervisor no Projeto de supervis\u00e3o para estudantes negros e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Foucault M. (1977). &#8220;O Jogo de Michel Foucault&#8221; (entrevista). In: <em>Ditos e escritos<\/em>, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2013, p. 45.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Foucault M. (1977). &#8220;O Jogo de Michel Foucault&#8221; (entrevista). In: <em>Ditos e escritos<\/em>, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2013, p. 47.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Holmes D. E. et al. (2024). &#8220;In Pursuit of Racial Equality in American Psychoanalysis: Findings and Recommendations from the Holmes Commission.&#8221; <em>Journal of the American Psychoanalytic Association<\/em>, v. 72, n. 3, p. 407\u2013552.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5] <\/a> Collins P. H. (2019). <em>Pensamento feminista negro: conhecimento, consci\u00eancia e a pol\u00edtica do empoderamento<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jamille Pinheiro Dias. S\u00e3o Paulo: Boitempo, p. 20; <em>apud<\/em> Kilomba G. (2019). <em>Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o: epis<\/em><em>\u00f3dios de racismo cotidiano<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, p. 65.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6] <\/a>Ign\u00e1cio A. Paim Filho e Wania M. C. F. Cidade (2020) &#8220;Podem negros e negras frequentarem os institutos de psican\u00e1lise?&#8221; <em>Observat\u00f3rio da FEBRAPSI<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/febrapsi.org\/publicacoes\/observatorio\/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/febrapsi.org\/publicacoes\/observatorio\/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise\/<\/a>; Leonardi F. G. &amp; Faustino D. M. (2025). &#8220;Racismo e sofrimento mental de estudantes negros na universidade.&#8221; <em>Olhares: Revista do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da Unifesp<\/em>, v. 13, n. 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Kanter situa em torno de 15% o limiar abaixo do qual os efeitos de tokenismo operam com m\u00e1xima intensidade: hipervisibilidade, leitura como representante do grupo, isolamento. A passagem para uma posi\u00e7\u00e3o em que a tida minoria pode efetivamente se constituir como grupo, e n\u00e3o como conjunto de exce\u00e7\u00f5es, ocorre, segundo ela, quando se atinge cerca de 35% do total. Os 10% propostos pelo sistema de cotas est\u00e3o, portanto, claramente na zona cr\u00edtica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Kanter R. M. (1977). <em>Men and Women of the Corporation<\/em>. New York: Basic Books. A extens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de tokenismo para o contexto racial em institui\u00e7\u00f5es \u00e9 desenvolvida, entre outras, em Wingfield A. H. (2019). <em>Flatlining: Race, Work, and Health Care in the New Economy<\/em>. Berkeley: University of California Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ferenczi S. (1933\/2011). &#8220;Confus\u00e3o de l\u00ednguas entre os adultos e a crian\u00e7a.&#8221; In: <em>Obras Completas: Psican\u00e1lise IV<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, p. 117. A elabora\u00e7\u00e3o do desmentido como mecanismo distinto do recalque \u00e9 retomada no <em>Di\u00e1rio Cl\u00ednico<\/em> (1932\/1990. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pol\u00edticas antirracistas ainda s\u00e3o insuficientes e podem ser trai\u00e7oeiras. 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