{"id":4184,"date":"2026-06-12T15:09:37","date_gmt":"2026-06-12T18:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4184"},"modified":"2026-06-12T15:09:37","modified_gmt":"2026-06-12T18:09:37","slug":"a-pergunta-que-nao-quer-calar-o-que-pode-a-clinica-psicanalitica-diante-dos-quadros-de-autismo-na-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/a-pergunta-que-nao-quer-calar-o-que-pode-a-clinica-psicanalitica-diante-dos-quadros-de-autismo-na-infancia\/","title":{"rendered":"A pergunta que n\u00e3o quer calar: o que pode a cl\u00ednica psicanal\u00edtica diante dos quadros de autismo na inf\u00e2ncia?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A pergunta que n\u00e3o quer calar: o que pode a cl\u00ed<\/strong><strong>nica psicanal<\/strong><strong>\u00edtica diante dos quadros de autismo na inf\u00e2<\/strong><strong>ncia?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Marise Bartolozzi Bastos<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tratamento das psicoses infantis e do autismo imp\u00f5e uma s\u00e9rie de quest\u00f5es aos psicanalistas que se dedicam \u00e0 cl\u00ednica com crian\u00e7as por ser um trabalho que apresenta particularidades que n\u00e3o foram previstas nas teoriza\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica freudiana, uma vez que n\u00e3o estamos diante do <em>setting<\/em> cl\u00e1ssico da \u201ccura pela palavra\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como pensar uma perspectiva de tratamento psicanal\u00edtico dirigido a crian\u00e7as que muitas vezes n\u00e3o falam e pouco ou nada se interessam pelo contato com o outro?<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel que o analista se interrogue sobre os princ\u00edpios da psican\u00e1lise que ir\u00e3o nortear as suas interven\u00e7\u00f5es j\u00e1 que no tratamento dessas crian\u00e7as, in\u00fameras vezes, n\u00e3o h\u00e1 palavra, n\u00e3o h\u00e1 grafismo, n\u00e3o h\u00e1 brincar.<\/p>\n<p>Para introduzir a quest\u00e3o, vale lembrarmos duas c\u00e9lebres frases proferidas por Jacques Lacan: a primeira no semin\u00e1rio sobre as psicoses quando afirma que \u201ca psicose n\u00e3o \u00e9 estrutural, de jeito nenhum, da mesma maneira na crian\u00e7a e no adulto\u201d (1985, p. 135) e a segunda respondendo a J-A Miller na \u201cAbertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica\u201d de Vincennes (1977, p. 9) quando diz que \u201ca psicose \u00e9 isso diante do que um analista n\u00e3o deve recuar em nenhum caso\u201d.<\/p>\n<p>A psicose infantil e o autismo apresentam formas de conex\u00e3o\/desconex\u00e3o com o Outro distintas das rupturas promovidas pelo desencadeamento cl\u00e1ssico da psicose no adulto. No caso das crian\u00e7as isso pode acarretar consequ\u00eancias importantes em seu processo de socializa\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e de escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, quando se trata de um quadro de autismo na inf\u00e2ncia, sabemos que o trabalho anal\u00edtico dever\u00e1 lidar com algumas quest\u00f5es que exigem manejos cl\u00ednicos diferentes daqueles adotados na dire\u00e7\u00e3o de tratamento da crian\u00e7a neur\u00f3tica como, por exemplo, buscar estrat\u00e9gias inclusivas que tornem poss\u00edvel a circula\u00e7\u00e3o social da crian\u00e7a e a sua escolariza\u00e7\u00e3o. Temos aqui um desafio importante para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica pautada no <em>setting<\/em> cl\u00e1ssico, uma vez que a interlocu\u00e7\u00e3o com educadores n\u00e3o poder\u00e1 ser descartada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a import\u00e2ncia de um trabalho de escuta dos pais que, n\u00e3o raro, ap\u00f3s terem percorrido um longo caminho de consultas m\u00e9dicas em busca de diagn\u00f3stico, precisam de um espa\u00e7o de acolhimento que possibilite o luto do filho(a) idealizado(a) e a ressignifica\u00e7\u00e3o do lugar dessa crian\u00e7a na linhagem familiar.<\/p>\n<p>Sabemos, tamb\u00e9m, que o espa\u00e7o, o corpo e o l\u00fadico encontrar\u00e3o dificuldades em serem representados no brincar e exigir\u00e3o novos recursos no campo das interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas; destacamos, ainda, a necessidade de um trabalho que fa\u00e7a apostas na emerg\u00eancia do sujeito e possa barrar o gozo do Outro que se imp\u00f5e a essa crian\u00e7a, o que se apresenta como um desafio \u00e9tico ao terapeuta que precisar\u00e1 operar no avesso da cl\u00ednica psicanal\u00edtica convencional (operando uma psican\u00e1lise invertida que vai do real ao simb\u00f3lico), ou seja, fazendo um trabalho de constru\u00e7\u00e3o, de antecipa\u00e7\u00e3o subjetiva, em contraponto \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o esperada de um processo anal\u00edtico tradicional que vai do simb\u00f3lico ao real. (Soler, 1994; Vorcaro, 1999).<\/p>\n<p>O trabalho psicanal\u00edtico com os quadros de autismo(s) na inf\u00e2ncia tem buscado investigar e aprofundar os aportes te\u00f3rico-cl\u00ednicos que possam fazer face aos diferentes desafios\/obst\u00e1culos que essa cl\u00ednica apresenta, entre eles, o de ser atravessada por diversas posi\u00e7\u00f5es discursivas, a saber: dos pais, da escola e dos especialistas da sa\u00fade implicados na rede de atendimentos a essas crian\u00e7as (m\u00e9dicos, fonoaudi\u00f3logos, terapeutas ocupacionais e outros).<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 objeto de nossa discuss\u00e3o abordar o hist\u00f3rico debate acerca da etiologia psicog\u00eanica ou organog\u00eanica do autismo, tampouco traremos as diverg\u00eancias acerca das defini\u00e7\u00f5es e do diagn\u00f3stico do que se entende por autismo e psicose na inf\u00e2ncia, pois sabemos que mesmo entre os psicanalistas de uma mesma orienta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre o diagn\u00f3stico diferencial entre a psicose infantil e o autismo.<\/p>\n<p>O que queremos ressaltar \u00e9 o fato de que na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, os quadros de autismo na inf\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o tratados com medicamentos ou medidas educativas de modelagem do comportamento, como sugerem m\u00e9dicos organicistas e terapeutas cognitivistas, mas estamos diante de sujeitos que devem ser escutados na sua singularidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">O trabalho com uma crian\u00e7a autista se faz ao avesso da cura cl\u00e1ssica: o objetivo do analista n\u00e3o \u00e9 interpretar os fantasmas de um sujeito do inconsciente j\u00e1 constitu\u00eddo, mas permitir o advento do sujeito. Faz-se aqui <em>int\u00e9<\/em><em>rprete<\/em>, no sentido de <em>tradutor <\/em>de l\u00edngua estrangeira, ao mesmo tempo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a e aos pais. Sabemos a que ponto as condutas estereotipadas e as rea\u00e7\u00f5es paradoxais das crian\u00e7as autistas podem desorganizar os pais, ocultando, para eles, inclusive o valor de ato ou de fala de tal produ\u00e7\u00e3o de seu filho. Este primeiro trabalho de tradutor vai permitir, aos pais olhar a crian\u00e7a em seu brilho de chama a\u00ed onde ent\u00e3o s\u00f3 viam dejeto. (Laznik, 1997, p.11, it\u00e1licos do autor)<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise para pensar o(s) autismo(s) trata das rela\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a com o campo da linguagem, ou seja, a partir das primeiras (im)possibilidades da crian\u00e7a de entrada no mundo simb\u00f3lico, ou dito de outro modo, a partir da rela\u00e7\u00e3o do beb\u00ea com a m\u00e3e (ou qualquer outro adulto) que se apresenta diante da crian\u00e7a como o primeiro Outro primordial.<\/p>\n<p>O filhote humano nasce prematuro e, portanto, s\u00e3o imprescind\u00edveis os cuidados de um adulto para que o beb\u00ea possa sobreviver e humanizar-se. O olhar, o toque, o cuidado, a palavra, ir\u00e3o banhar o beb\u00ea nesse universo simb\u00f3lico atribuindo-lhe um lugar a partir do qual ele poder\u00e1 se reconhecer. \u00c9 o campo da linguagem que tornar\u00e1 poss\u00edvel que o filhote da esp\u00e9cie transforme o mero organismo em um corpo er\u00f3geno, mapeado pelo investimento libidinal que o adulto far\u00e1 nos cuidados com o beb\u00ea.<\/p>\n<p>Lacan afirma (1998) que \u201cO Outro \u00e9 o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, \u00e9 o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer\u201d (p. 194). Se algo impossibilita a apresenta\u00e7\u00e3o desse mundo simb\u00f3lico ao beb\u00ea, se algum impasse ocorre nesse investimento do Outro primordial sobre o beb\u00ea, pode ocorrer um entrave na entrada desse filhote de humano no campo da linguagem, dificultando, portanto, a sua constitui\u00e7\u00e3o como sujeito desejante.<\/p>\n<p>Para Laznik (2004), os primeiros sinais de uma estrutura\u00e7\u00e3o aut\u00edstica est\u00e3o na aus\u00eancia de olhar entre a crian\u00e7a e a m\u00e3e durante os primeiros meses de vida. Contudo, este n\u00e3o-olhar entre m\u00e3e-beb\u00ea n\u00e3o desencadeia necessariamente uma s\u00edndrome aut\u00edstica, mas revela uma dificuldade no estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o especular. A autora articula esse entrave na instaura\u00e7\u00e3o da imagem do corpo com uma consequente impossibilidade da instaura\u00e7\u00e3o do circuito pulsional e com a n\u00e3o instaura\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica fundamental \u2013 a presen\u00e7a\/aus\u00eancia materna \u2013 desviando a crian\u00e7a do advir de um sujeito desejante. Observa-se, portanto, que h\u00e1 um obst\u00e1culo na pr\u00f3pria presen\u00e7a original do Outro que \u00e9 um marco importante na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Kupfer (2000) assinala que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">o corpo de um beb\u00ea jamais sair\u00e1 de sua condi\u00e7\u00e3o de organismo biol\u00f3gico se n\u00e3o houver um outro ser que o pilote em dire\u00e7\u00e3o ao mundo humano, que lhe dirija os atos para al\u00e9m dos reflexos e, principalmente, que lhes d\u00ea sentido. Assim, de nada adiantar\u00e1 um organismo absolutamente s\u00e3o se n\u00e3o houver quem o introduza no mundo do humano, vale dizer, da linguagem. (p.51)<\/p>\n<p>Portanto, tais coloca\u00e7\u00f5es deixam claro que n\u00e3o s\u00e3o as m\u00e3es reais \u2013 que encarnam esse papel social \u2013 as respons\u00e1veis pelo estabelecimento de um quadro de autismo na crian\u00e7a. Para os psicanalistas trata-se de algo que faz obst\u00e1culo ao estabelecimento da fun\u00e7\u00e3o do Outro primordial, enquanto um operador ps\u00edquico fundamental \u2013 tesouro dos significantes \u2013 que introduzir\u00e1 o beb\u00ea humano no campo da linguagem.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a dire\u00e7\u00e3o de tratamento na cl\u00ednica psicanal\u00edtica do autismo apontaria seu vetor para os momentos fundantes da constitui\u00e7\u00e3o do psiquismo e caber\u00e1 ao analista fazer um trabalho de constru\u00e7\u00e3o e antecipa\u00e7\u00e3o subjetiva que \u00e9 o avesso da desconstru\u00e7\u00e3o proposta em um processo anal\u00edtico convencional.<\/p>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas com crian\u00e7as psic\u00f3ticas e autistas t\u00eam como norte possibilitar aberturas significantes, e mesmo que seja pela via de nomear alguns deles, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 permitir que a crian\u00e7a possa desdobr\u00e1-los para encontrar um lugar poss\u00edvel de enuncia\u00e7\u00e3o. Talvez isso possibilite que a crian\u00e7a consiga dizer de si e do outro, \u201csaindo da aliena\u00e7\u00e3o a que estava fixada para um local separado do lugar de gozo &#8230; a que estava submetida. Isto seria um ato anal\u00edtico com crian\u00e7as: um ato que permitiria uma abertura &#8230; um engajamento da crian\u00e7a ao Outro simb\u00f3lico, e assim, do la\u00e7o social.\u201d (Neves &amp; Vorcaro, 2010, p.394).<\/p>\n<p>Vemos, portanto, a presen\u00e7a da \u201cprimeira educa\u00e7\u00e3o\u201d (introdu\u00e7\u00e3o do beb\u00ea humano no campo dos humanos) no ato anal\u00edtico com crian\u00e7as autistas. Trata-se de abrir para elas o la\u00e7o com o Outro simb\u00f3lico, a\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do agente materno na qualidade de Outro primordial.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o mote para afirmarmos que na cl\u00ednica psicanal\u00edtica com crian\u00e7as autistas, psican\u00e1lise e educa\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o deve ser tomada como sin\u00f4nimo de pedagogia) podem convergir, posto que \u201ceducar \u00e9 transmitir marcas simb\u00f3licas que possibilitem ao pequeno sujeito usufruir um lugar no campo da palavra e da linguagem a partir do qual seja poss\u00edvel se lan\u00e7ar \u00e0s empresas imposs\u00edveis do desejo.\u201d (Lajonqui\u00e8re, 2004, para.18)<\/p>\n<p>Parte-se do princ\u00edpio de que tratar essas crian\u00e7as \u00e9 dar-lhes a chance de retomar a estrutura\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, reordenando o campo da palavra e da linguagem, a partir do qual o sujeito poder\u00e1 usufruir de um lugar de enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa mesma linha, Antonio Di Ciaccia (1997, p.21) afirma que \u201co dever do analista \u00e9 ent\u00e3o o de fazer com que a palavra constitua o sujeito.\u201d<\/p>\n<p>Podemos afirmar, ent\u00e3o, que quando se trata da cl\u00ednica com crian\u00e7as autistas, as pr\u00e1ticas anal\u00edticas e educacionais n\u00e3o s\u00e3o disjuntas, caminham em uma mesma dire\u00e7\u00e3o e em um mesmo sentido, podendo, assim, estar em uma rela\u00e7\u00e3o de continuidade, tal como na figura topol\u00f3gica da banda de Moebius<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. (Bastos, 2012)<\/p>\n<p>A banda de Moebius \u00e9 uma figura que subverte nosso espa\u00e7o comum de representa\u00e7\u00f5es, posto que as no\u00e7\u00f5es de avesso e direito passam a ser contidas uma na outra.<\/p>\n<p>Temos uma estrutura que permite localizar<em> o<\/em> <em>tratar e o educar em uma rela\u00e7\u00e3o de continuidade<\/em>, pois essa superf\u00edcie tem a propriedade de ter apenas um \u00fanico lado, uma vez que o lado direito da fita se prende ao lado do avesso.<\/p>\n<p>Eis a quest\u00e3o enigm\u00e1tica dessa figura topol\u00f3gica, que nos coloca diante de um paradoxo: na superf\u00edcie moebiana o <em>dentro <\/em><em>\u00e9 o<\/em> <em>fora<\/em>, o <em>direito \u00e9 <\/em><em>o avesso<\/em> e, portanto, nos valemos da fita moebiana para dizer que na perspectiva psicanal\u00edtica de tratamento das crian\u00e7as autistas o <em>tratar <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>o educar<\/em> <em>e o educar \u00e9<\/em> <em>o tratar.<\/em> (Bastos, 2012)<\/p>\n<p>Apostamos em uma articula\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e educa\u00e7\u00e3o que subverte a premissa de que se trata de campos disjuntos, pois ao se estabelecerem em uma rela\u00e7\u00e3o de continuidade na fita moebiana, temos uma pr\u00e1tica cl\u00ednica que articula psican\u00e1lise e educa\u00e7\u00e3o, uma vez que nessa cl\u00ednica do <em>infans<\/em>, faz-se falar ao tratar educando e ao educar tratando.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4185\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/perguntas.gif\" alt=\"\" width=\"187\" height=\"114\" \/><\/p>\n<p>Disso decorre uma outra perspectiva importante no trabalho com crian\u00e7as autistas que \u00e9 a inclus\u00e3o escolar. Sabemos que essa inclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e a interlocu\u00e7\u00e3o com os profissionais do campo da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o costuma ser confort\u00e1vel para os psicanalistas. O tema configura, portanto, um desafio para aqueles que se dedicam a essa cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Contudo, a escola pode ser uma \u201cferramenta terap\u00eautica\u201d para uma crian\u00e7a que viveu entraves em seu processo de constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, posto que a institui\u00e7\u00e3o escolar, enquanto discurso social, oferece a essa crian\u00e7a as leis que regem as rela\u00e7\u00f5es entre os homens, leis que regem o simb\u00f3lico, podendo assim contribuir para uma retomada da estrutura\u00e7\u00e3o subjetiva que sofreu entraves.<\/p>\n<p>Vemos aqui a possibilidade de haver efeitos terap\u00eauticos na inclus\u00e3o escolar, no sentido de promover a circula\u00e7\u00e3o social da crian\u00e7a, pois a escola oferece mais do que a chance de aprender, ela oferece uma possibilidade de ordena\u00e7\u00e3o do campo simb\u00f3lico, oferece as leis que regem as rela\u00e7\u00f5es entre os humanos para que a crian\u00e7a se aproprie daquilo que lhe for poss\u00edvel. A inclus\u00e3o escolar \u00e9 vista como uma aposta de que a circula\u00e7\u00e3o discursiva \u2013 a institui\u00e7\u00e3o escolar \u2013 possa produzir efeitos de sujeito no tratamento dessas crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Bastos, M. B. (2012). <em>Incid<\/em><em>\u00eancias do educar no tratar: desafios para a cl\u00ed<\/em><em>nica psicanal<\/em><em>\u00edtica da psicose infantil e do autismo<\/em> [Tese de Doutorado]. Instituto de Psicologia, Universidade de S\u00e3o Paulo. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47131\/tde-21092012-105601\/pt-br.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47131\/tde-21092012-105601\/pt-br.html<\/a><\/p>\n<p>Ciaccia, A. D. (1997). Da pedagogia \u00e0 psican\u00e1lise.\u00a0<em>Estilos da Cl\u00ednica<\/em>,\u00a0<em>2<\/em>(2), 18-26.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.1981-1624.v2i2p18-26\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.1981-1624.v2i2p18-26<\/a><\/p>\n<p>Kupfer, M. C. M. (2000). <em>Educa\u00e7\u00e3o para o futuro. <\/em>S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1977). Abertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. <em>Ornicar?,<\/em>\u00a09,\u00a07-14.\u00a0Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/traco-freudiano.org\/tra-lacan\/abertura-secao-clinica\/abertura-clinica.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/traco-freudiano.org\/tra-lacan\/abertura-secao-clinica\/abertura-clinica.pdf<\/a><\/p>\n<p>Lacan, J. (1985). <em>O<\/em> <em>semin\u00e1rio, livro 2: o eu na teoria de Freud e na<\/em> <em>t\u00e9<\/em><em>cnica da psican\u00e1lise, 1954-1955.<\/em> Rio de Janeiro: J.Z.E.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1998). <em>O<\/em> <em>semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos<\/em> <em>fundamentais da psican\u00e1lisee, 1964.<\/em> Rio de Janeiro: J.Z.E.<\/p>\n<p>Lajonqui\u00e8re, L. (2004). A inf\u00e2ncia, a escola e os adultos. In <em>Anais, 5.<\/em> <em>Col\u00f3quio do LEPSI IP\/FE-USP, <\/em>S\u00e3o Paulo, 2004. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.proceedings.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=MSC0000000032004000100003&amp;lng=pt&amp;nrm=isso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.proceedings.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=MSC0000000032004000100003&amp;lng=pt&amp;nrm=isso<\/a><\/p>\n<p>Laznik, M.-C.\u00a0(1997). <em>Rumo \u00e0 palavra. Tr\u00eas crian\u00e7as autistas em psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p>Laznik, M-C. (2004). <em>A voz da sereia: O autismo e os impasses na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/em> Salvador: \u00c1lgama.<\/p>\n<p>Neves, B. R. da C., &amp; Vorcaro, \u00c2ngela M. R. (2010). A interven\u00e7\u00e3o do psicanalista na cl\u00ednica com beb\u00eas: Rosine Lefort e o caso N\u00e1dia.\u00a0<em>Estilos da Cl\u00ednica<\/em>,\u00a0<em>15<\/em>(2), 380-399.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.1981-1624.v15i2p380-399\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.1981-1624.v15i2p380-399<\/a><\/p>\n<p>Soler, C. (julho 1994). Le d\u00e9sir du psychanalyste. O\u00f9 est la diff\u00e9rence? <em>Lettre Mensuelle, 131, <\/em>11-13. Paris: Campo Freudiano.<\/p>\n<p>Volnovich, J. (1993). <em>A psicose na crian\u00e7a<\/em>. Rio de Janeiro: Relume-Dumar\u00e1.<\/p>\n<p>Vorcaro, A. (1999). <em>Crian\u00e7as na psican\u00e1<\/em><em>lise: Cl\u00ed<\/em><em>nica, institui\u00e7\u00e3<\/em><em>o, la\u00e7o<\/em> <em>social<\/em>. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae; Doutora pelo IPUSP, pesquisadora do LEPSI-USP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A banda de Moebius (Figura 1) \u00e9 um instrumento topol\u00f3gico (proposta pelo matem\u00e1tico Ferdinand Moebius em 1861) que serve para caracterizar uma estrutura que subverte nosso espa\u00e7o comum de representa\u00e7\u00f5es. Pode ser constru\u00edda com uma meia-tor\u00e7\u00e3o dada, por exemplo, em uma tira retangular de papel, para depois se tomar suas duas extremidades e junt\u00e1-las. Esse movimento \u00e9 necess\u00e1rio para caracterizar uma estrutura que subverte o espa\u00e7o de representa\u00e7\u00f5es, pois as no\u00e7\u00f5es de avesso e direito passam a ser contidas uma na outra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistadora no Roda Viva, Marise Bastos indica tratar e educar; psican\u00e1lise invertida e inclus\u00e3o escolar como quest\u00f5es relevantes abertas no programa da TV Cultura.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[392,126],"edicao":[379],"autor":[391],"class_list":["post-4184","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-autismos","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-79","autor-marise-bartolozzi-bastos","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4184"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4186,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4184\/revisions\/4186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4184"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4184"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}