{"id":4187,"date":"2026-06-12T15:15:08","date_gmt":"2026-06-12T18:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4187"},"modified":"2026-06-12T15:15:08","modified_gmt":"2026-06-12T18:15:08","slug":"rede-contra-assedio-e-misoginia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/rede-contra-assedio-e-misoginia\/","title":{"rendered":"Rede contra ass\u00e9dio e misoginia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Rede contra ass\u00e9dio e misoginia<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Laura Mazzini Ferreira<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algo come\u00e7a a ressoar. Tum tum tum. Tambores?<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Seria uma convoca\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>No dia 07 de mar\u00e7o, mais de 300 mulheres aguardaram por mais de uma hora a abertura de uma sala virtual, para uma reuni\u00e3o ampliada da Coletiva Psicanalista Trabalha. Havia urg\u00eancia: falar sobre den\u00fancias de ass\u00e9dio, abuso e misoginia no campo da psican\u00e1lise. Uma abertura que tarda, um enquadre que demora a se constituir, mas que vai, ainda assim, encontrando lugar para aquilo que insiste.<\/p>\n<p>Quando a sala se abre, m\u00faltiplas janelas se acendem. Rostos, vozes, sil\u00eancios.<\/p>\n<p>De cada janela, uma mulher, uma hist\u00f3ria, um choro, uma hesita\u00e7\u00e3o, uma den\u00fancia, muitos sil\u00eancios. E tamb\u00e9m muitas escutas. Reconhecimentos e muitos graus de viol\u00eancias. D\u00favidas, ambiguidades. E aquilo que tamb\u00e9m ainda n\u00e3o encontra palavras: restos n\u00e3o simbolizados, experi\u00eancias que se apresentam como fragmentos, tra\u00e7os, imagens, cenas, sentimentos, mem\u00f3rias e hist\u00f3rias, que podem ir tomando forma.<\/p>\n<p>Como em outras ondas feministas, uma pergunta se imp\u00f5e: quais viol\u00eancias ainda n\u00e3o conseguimos escutar?<\/p>\n<p>Atravessadas pelos efeitos dessa grande reuni\u00e3o Coletiva, algumas mulheres de nosso Departamento foram se organizando de forma aut\u00f4noma e org\u00e2nica, com o desejo de ampliar esta discuss\u00e3o com outras colegas deste Departamento de Psican\u00e1lise.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Um in\u00edcio que aconteceu no reconhecimento entre pares, em mensagens de WhatsApp com fun\u00e7\u00e3o de reconhecimento do horror vivido por tantas mulheres e por cada uma de n\u00f3s, em diversas inst\u00e2ncias e micro situa\u00e7\u00f5es cotidianas. Mas uma quest\u00e3o preponderava: como isso nos afeta e como vem circulando e sendo cuidado em nosso espa\u00e7o de pertencimento, em nosso Departamento de Psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Uma rede come\u00e7a a se entrela\u00e7ar, no trabalho fino que mulheres est\u00e3o cansadas de sustentar, mas ao qual seguem, paradoxalmente, sempre sendo convocadas. Desta vez, algo se desloca: n\u00e3o apenas sustentar, mas tamb\u00e9m interrogar, acolher, fazer a palavra circular, denunciar, transformar. A tens\u00e3o entre urg\u00eancia e elabora\u00e7\u00e3o se faz presente. De um lado, a for\u00e7a dos relatos, a necessidade de respostas, encaminhamentos e a convoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De outro, o tempo da escuta, da elabora\u00e7\u00e3o, da constru\u00e7\u00e3o de sentido. Sustentar essa tens\u00e3o, sem reduzir um polo ao outro, talvez seja uma de nossas tarefas mais delicadas. Habitar esse espa\u00e7o, sem apressar seu fechamento, mantendo a pot\u00eancia do movimento.<\/p>\n<p>Nesse sentido, os di\u00e1logos entre gera\u00e7\u00f5es mostram-se fundamentais. N\u00e3o apenas como transmiss\u00e3o de conhecimento, mas como possibilidade de estabelecer la\u00e7os que permitam aproxima\u00e7\u00f5es \u00e0quilo que nos escapa. Entre tempos distintos da psican\u00e1lise, em sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, algo que n\u00e3o se fixa, pode circular.<\/p>\n<p>Algo do campo do indiz\u00edvel come\u00e7a a pressionar por inscri\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas como repeti\u00e7\u00e3o, mas como elabora\u00e7\u00e3o, reconhecimento e posicionamento.<\/p>\n<p>Talvez a quest\u00e3o n\u00e3o seja apenas o que temos a dizer, mas tamb\u00e9m o que e como temos condi\u00e7\u00f5es de escutar, como grupo, como institui\u00e7\u00e3o, como psicanalistas.<\/p>\n<p>Como criar um espa\u00e7o de acolhimento para aquilo que pode nos atravessar, em rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o pr\u00f3ximas de todas n\u00f3s?<\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00f5es de mulheres do Departamento, mas tamb\u00e9m de fora dele, come\u00e7aram a circular entre n\u00f3s. Criamos um grande acervo de escritas pr\u00f3prias e pr\u00f3ximas a n\u00f3s. Quest\u00f5es e ideias que s\u00e3o pensadas, trabalhadas e elaboradas h\u00e1 muito tempo, por tantas, mas que muitas vezes n\u00e3o ganham a devida visibilidade. As viol\u00eancias que hoje emergem n\u00e3o s\u00e3o apenas novas, s\u00e3o tamb\u00e9m aquelas que n\u00e3o puderam ser simbolizadas anteriormente e que retornam sob a forma de den\u00fancia, buscando reconhecimento e destino.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se desdobra: quais viol\u00eancias permanecem sem espa\u00e7o de escuta? Como lidar com nossas pr\u00f3prias zonas de recusa, preconceito e desmentido? Que revis\u00f5es cr\u00edticas da metapsicologia e da hist\u00f3ria psicanal\u00edtica se tornam necess\u00e1rias diante de silenciamentos, como de autoras apagadas ou que seguem sendo patologizadas? E se pensarmos no entrela\u00e7amento por ra\u00e7a, classe, g\u00eanero? Quem fala, a partir de quais lugares? O que produz? Como s\u00e3o escutadas?<\/p>\n<p>O que emerge, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o narrativas lineares, mas diversas apresenta\u00e7\u00f5es, que pedem tempo. Tempo de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse movimento convoca a psican\u00e1lise a voltar seu olhar para seus pr\u00f3prios impasses epistemol\u00f3gicos, cl\u00ednicos e pol\u00edticos. Ao longo de sua hist\u00f3ria, manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas produzidas em contextos de viol\u00eancia e trauma foram, n\u00e3o raramente, interpretadas a partir da categoria da histeria, produzindo tens\u00f5es persistentes entre acontecimento, fantasia e verdade ps\u00edquica. Se a descoberta freudiana da fantasia inconsciente foi decisiva para a constitui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, ela tamb\u00e9m inaugurou um campo de delicada complexidade: o risco de que experi\u00eancias efetivas de viol\u00eancia sejam deslocadas, minimizadas ou recobertas por leituras excessivamente centradas na dimens\u00e3o fantasm\u00e1tica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que insiste \u00e9, em que medida, em determinados contextos hist\u00f3ricos e institucionais, certos usos da teoria puderam operar como defesa frente ao insuport\u00e1vel, contribuindo para formas de desmentido, apagamento ou desautoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia traum\u00e1tica. Retomar criticamente essa tens\u00e3o implica sustentar, sem reducionismos, a articula\u00e7\u00e3o entre realidade ps\u00edquica e la\u00e7o social, reconhecendo que o sofrimento subjetivo se constitui tamb\u00e9m em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, materiais e pol\u00edticas. Trata-se, portanto, de interrogar continuamente quais dispositivos cl\u00ednicos, \u00e9ticos e te\u00f3ricos s\u00e3o necess\u00e1rios para que a escuta anal\u00edtica n\u00e3o reproduza mecanismos de silenciamento, invalida\u00e7\u00e3o ou retraumatiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia vivida.<\/p>\n<p>Hoje, o patriarcado \u00e9 interrogado como estrutura hist\u00f3rica e operador ativo tamb\u00e9m no campo psicanal\u00edtico, incidindo na constitui\u00e7\u00e3o dos sujeitos, na produ\u00e7\u00e3o de saberes e nos modos de escuta. N\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o, mas como trama estrutural difusa que atravessa rela\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es, discursos e formas de subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que fazemos quando n\u00e3o nos posicionamos?<\/p>\n<p>De que modo sustentamos ainda que, involuntariamente, certos lugares de poder?<\/p>\n<p>Como implicar os psicanalistas homens? Qual tarefa cabe a eles nesse processo?<\/p>\n<p>Essas discrep\u00e2ncias t\u00eam efeitos concretos na circula\u00e7\u00e3o de saber, no reconhecimento, mas tamb\u00e9m naquilo que pode ou n\u00e3o ser pensado. A rede se move e, ao se mover, desloca um campo por muito tempo silenciado.<\/p>\n<p>Criar condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para que algo possa ser dito e escutado implica sustentar espa\u00e7os em que d\u00favidas, ambiguidades e ambival\u00eancias possam existir, sem a pressa do julgamento ou do fechamento. Reconhecer que diferentes relatos envolvem diferentes graus de vulnerabilidade, diferentes temporalidades, diferentes destinos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Essa rede tem se constitu\u00eddo como um trabalho ps\u00edquico coletivo: uma trama de diferen\u00e7as, escutas e cuidados que busca tornar analis\u00e1veis os modos pelos quais a viol\u00eancia patriarcal se inscreve na vida ps\u00edquica, nos v\u00ednculos e nas institui\u00e7\u00f5es. Um posicionamento \u00e9tico e pol\u00edtico que procura deslocar aquilo que historicamente foi lan\u00e7ado \u00e0s margens \u2014 ao sil\u00eancio, \u00e0 desautoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 abje\u00e7\u00e3o \u2014 para o campo do poss\u00edvel: do que pode ser escutado, nomeado e elaborado, abrindo de pequenas janelas a brechas, nas formas, muitas vezes naturalizadas, de reprodu\u00e7\u00e3o da misoginia e das hierarquias patriarcais.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto foi elaborado em colabora\u00e7\u00e3o com um subgrupo reunido a parte desta Rede para publica\u00e7\u00e3o no boletim online, composto por organizadoras do movimento junto a Lia Serra e Maria Aparecida Kfouri Aidar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Laura Mazzini Ferreira, psicanalista, psic\u00f3loga pela USP, especialista em Psicossom\u00e1tica pelo Sedes, integrante do grupo de pesquisa do GT O feminino e o imagin\u00e1rio cultural contempor\u00e2neo e aspirante a membra do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes Sapientiae. Em coautoria com D\u00e9bora Albiero e Fernanda Franceschi. D\u00e9bora Gaino Albiero \u00e9 psic\u00f3loga, psicanalista, mestre em psicologia cl\u00ednica pela USP, aspirante a membra do Departamento de Psican\u00e1lise, participante dos GTs Matrizes cl\u00ednicas, Comunidade de destino e Bollas: pensamento e cl\u00ednica n\u00e3o-mec\u00e2nicos e do Grupo de apoio \u00e0 FLAPPSIP. Fernanda Franceschi \u00e9 psicanalista, educadora, mestre em Psicologia cl\u00ednica pela PUC\/SP, co-fundadora do Coletivo Caju e aspirante a membra do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Refer\u00eancia ao texto &#8220;O que eu fa\u00e7o com a agressividade do outro?\u201d, publicado por Camila Flaborea na edi\u00e7\u00e3o 78 do boletim online, abril 2026, em torno da pe\u00e7a de mesmo t\u00edtulo, em cartaz no Teatro do Centro da Terra. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/o-que-eu-faco-com-a-agressividade-do-outro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/04\/13\/o-que-eu-faco-com-a-agressividade-do-outro\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Est\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o desta Rede contra Ass\u00e9dio e Misoginia: Ana Cristina Delgado Lop\u00e9rgolo (membra), D\u00e9bora Gaino Albiero (aspirante a membra), Fernanda Franceschi (aspirante a membra); Juliana Farah (membra); Laura Mazzini Ferreira (aspirante a membra); Renata Grecco (aspirante a membra).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres do Departamento de Psican\u00e1lise fazem tecido na busca por equidade e respeito.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[325,361],"edicao":[379],"autor":[393],"class_list":["post-4187","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-feminismos","tag-o-que-resta","edicao-boletim-79","autor-laura-mazzini-ferreira","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4187"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4188,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4187\/revisions\/4188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4187"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4187"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}