{"id":4193,"date":"2026-06-12T15:20:21","date_gmt":"2026-06-12T18:20:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4193"},"modified":"2026-06-12T15:24:02","modified_gmt":"2026-06-12T18:24:02","slug":"o-romance-da-origem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/06\/12\/o-romance-da-origem\/","title":{"rendered":"O romance da origem"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O romance da origem <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por D\u00e9<\/strong><strong>borah de Paula Souza<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Escrever sobre o fim do mundo pede aten\u00e7\u00e3o aos sinais pois as sirenes de alerta j\u00e1 est\u00e3o ligadas. Mas escrever sobre o in\u00edcio exige uma imagina\u00e7\u00e3o radical e \u00e9 ela quem conduz o romance <\/em>Os imortais<em>, da autora brasiliense Paulinny Tort, lan<\/em><em>\u00e7ado pela editora F\u00f3<\/em><em>sforo no in<\/em><em>\u00edcio de 2026. Resenhas e cr\u00edticas anunciam que este \u00e9 um livro \u201cpara se ler com espanto\u201d. Assim me aconteceu.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto os bons vinhos trazem no r\u00f3tulo a sua \u201cdenomina\u00e7\u00e3o de origem controlada\u201d, o romance <em>Os imortais<\/em> tem origem descontrolada, justamente a nossa. A hist\u00f3ria se passa no paleol\u00edtico, muito anterior ao cultivo do solo ou domestica\u00e7\u00e3o de animais. Estamos entre as ravinas, cavernas e vulc\u00f5es. O livro fala de n\u00f3s antes de n\u00f3s.<\/p>\n<p>O deslocamento de um cl\u00e3 de neandertais e seu encontro com o cl\u00e3 de homo sapiens dispara a hist\u00f3ria. J\u00e1 estava tudo l\u00e1: a disputa violenta por territ\u00f3rio, abrigo e alimento, a hostilidade com o estrangeiro. Desde os prim\u00f3rdios, as guerras est\u00e3o destinadas ao fracasso, quem vence tamb\u00e9m estar\u00e1 derrotado, prev\u00ea a narradora. A obra n\u00e3o se det\u00e9m s\u00f3 nas batalhas, se estende ao conv\u00edvio, \u00e0 necessidade de coopera\u00e7\u00e3o, \u00e0 guian\u00e7a dos mais s\u00e1bios, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos filhotes.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de pertencimento \u00e0 natureza \u00e9 aguda, a sobreviv\u00eancia depende da coleta de gr\u00e3os e da ca\u00e7a de animais. \u201cA fome \u00e9 um transe\u201d, a sede uma tortura, a descoberta de um riacho antecede sua vis\u00e3o: s\u00e3o os p\u00e9s que sabem da trilha amaciada pela proximidade da \u00e1gua; os tipos de insetos, p\u00e1ssaros ou pedrinhas informam sobre o territ\u00f3rio, \u00e9 preciso farejar e consultar nuvens.<\/p>\n<p>Os personagens: o Homem, a Mulher, a Velha, a ama de leite, os ca\u00e7adores, os fazedores (das ferramentas de pedras e ossos), a menina, a pequenina etc.\u00a0 Seriam nomes universais? H\u00e1 tamb\u00e9m algo perturbador na composi\u00e7\u00e3o de \u201cpequeno\u201d \u2013 um macho de suposta coragem e baixa estatura. Sim, alguns nomes s\u00e3o grafados com mai\u00fascula, outros n\u00e3o.\u00a0 O pequeno \u00e9 min\u00fasculo.<\/p>\n<p>A menina sapiens que acaba vivendo com o bando de neandertais \u00e9 a protagonista. Desde que a beb\u00ea surge berrando na hist\u00f3ria, fica dif\u00edcil desgrudar os olhos dela. Assombro maior traz o Homem, o guia neandertal, o respons\u00e1vel por apontar o caminho, o que se atreve a pensar o que ainda era impens\u00e1vel, \u201caquele que anda tomado pelo sublime\u201d. Um xamanismo incipiente se insinua, com sonhos e outras comunica\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed um ponto de magia permanente do livro: sua linguagem fricciona palavras com gestos, vocaliza\u00e7\u00f5es, chamamentos e o arreganhar dos dentes. A leitura nos coloca dentro do ritual.<\/p>\n<p>Eles j\u00e1 conheciam o Fogo, tamb\u00e9m este um personagem m\u00edtico, ligado \u00e0s supersti\u00e7\u00f5es de velhas curandeiras e de cozinheiras, que oferecem o tutano dos ossos \u00e0s crian\u00e7as e aos doentes, ou sopa de carac\u00f3is no per\u00edodo mais fam\u00e9lico. A lida com javalis e outras feras indicam que o que est\u00e1 em jogo numa ca\u00e7ada \u00e9 maior do que podemos pressentir, sendo os cavalos selvagens os representantes da beleza mais perigosa, registrada nos desenhos rupestres.<\/p>\n<p>Quase tudo \u00e9 relatado num presente absoluto, em terceira pessoa. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel definir exatamente o pr\u00f3ximo passo nessa extens\u00e3o sem conjecturas: o que pensavam, afinal, a mulher e o homem primevos? O quanto \u00e9 poss\u00edvel adivinh\u00e1-los? N\u00e3o se sabe a priori, resta seguir o fio da hist\u00f3ria. O livro n\u00e3o parte de tratados cient\u00edficos, a autora admite que estudou o suficiente para n\u00e3o cometer erros \u00f3bvios, mas os rastros das escava\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas n\u00e3o bastam para definir os contornos da subjetividade e do pensamento de nossos ancestrais. A core\u00f3grafa Pina Bausch declarava que, antes do movimento, o que a interessava era o impulso, aquilo que fazia mover. Quais s\u00e3o os primeiros passos dessa dan\u00e7a que nos trouxe at\u00e9 aqui? Sob que c\u00e9u e em que terreno t\u00e3o antigo ela se sustentou?<\/p>\n<p>A autora aposta que sentir \u00e9 um modo de conhecimento e permite-se conviver com os homin\u00eddeos que inventou. Paulinny levou cinco anos para escrever <em>Os imortais<\/em>, ela considera pouco tempo (lembra que Flaubert passou dez com sua Madame Bovary): \u201c\u00c9 preciso ficar pelo tempo que for necess\u00e1rio. (&#8230;). Quanto mais, melhor. Esse \u00e9 o modo que permite achar os sons, porque nos coloca em contato com uma voz mais secreta, mais \u00edntima\u201d.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio da natureza selvagem e no abrigo das cavernas, os acontecimentos se desdobram. N\u00e3o \u00e9 o caso cit\u00e1-los aqui, e n\u00e3o apenas pelo risco do <em>spoiler<\/em>. \u00c9 que a linguagem seria tra\u00edda. Ent\u00e3o reproduzo um trecho da vis\u00e3o da Mulher:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um campo de cabelos brancos que brotam em tufos da terra, e s\u00e3o cabelos humanos, ondulando para cima como algas dentro de um rio. A Mulher atravessa esse campo. Chega a uma escarpa onde os mortos, bem despertos, est\u00e3o sentados (&#8230;). Agora pode ver. S\u00e3o linhas e mais linhas de mortos, as suas av\u00f3s, as av\u00f3s de suas av\u00f3s, dispostas at\u00e9 a primeira mulher, at\u00e9 o primeiro homem. Mas, assim que pensa nisso, os mortos se diluem e desaparecem, transformados em fina n\u00e9voa. Ela desprega as p\u00e1lpebras, esfrega o rosto, dissolvendo o Sonho. Est\u00e1 escuro ainda.\u201d (&#8230;).<\/p>\n<p>A minha fantasia \u00e9 que autora sonhou esse sonho, come\u00e7ou a escrever no escuro e o dia amanheceu muitas vezes at\u00e9 que o livro encontrasse seus viventes, sua respira\u00e7\u00e3o e suas l\u00ednguas. O in\u00edcio de cada cap\u00edtulo, grafado com s\u00edlabas e sinais, \u00e9 uma invoca\u00e7\u00e3o das musas (tal qual a<em> Eneida<\/em>, do poeta Virg\u00edlio). Alguns j\u00e1 classificaram a obra como uma epopeia. Para o escritor Caetano Galindo, autor da apresenta\u00e7\u00e3o da capa, trata-se de \u201cum pequeno milagre\u201d. Gra\u00e7as ao poder de escavar fundo nossas ra\u00edzes, a autora tocou simultaneamente o contempor\u00e2neo e o atemporal.<\/p>\n<p>O desejo de escrever um artigo sobre este livro para este Boletim de psicanalistas tem a ver com o prazer da leitura e tamb\u00e9m pela companhia que ele pode fazer ao trabalho cl\u00ednico, com sua imagina\u00e7\u00e3o criadora, seu faro e seu interesse pela inf\u00e2ncia da linguagem.<\/p>\n<p><strong>A autora e suas refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Paulinny Tort nasceu em 1979, em Bras\u00edlia, cresceu numa casa s\u00f3 de mulheres, onde havia pouco dinheiro e muitos livros. \u00c9 jornalista e mestre em comunica\u00e7\u00e3o, diz que nunca teve a objetividade necess\u00e1ria para atuar como rep\u00f3rter. Trabalhou mais na r\u00e1dio e na promo\u00e7\u00e3o de eventos e programas liter\u00e1rios. Interessada em ci\u00eancias naturais, cursou por dois anos a faculdade de biologia e fez est\u00e1gio de campo, como pesquisadora de macacos-prego, junto \u00e0 professora Patr\u00edcia Izar, primat\u00f3loga especialista em comportamento animal.<\/p>\n<p>Estreou como escritora em 2016 com o romance <em>Allegro ma non troppo<\/em>, semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos. Com <em>Erva Brava, <\/em>seu primeiro livro de contos, foi finalista do Jabuti em 2022 e levou o Pr\u00eamio APCA.<\/p>\n<p>Nas entrevistas de divulga\u00e7\u00e3o de <em>Os imortais<\/em>, a autora \u00e9 generosa ao falar de suas refer\u00eancias culturais, embora muito reticente ao comentar a pr\u00f3pria obra. Entre suas sofisticadas leituras est\u00e3o Shakespeare, Freud (ela cita <em>Totem e tabu<\/em>), S\u00eaneca, todos os gregos cl\u00e1ssicos que remetem \u00e0s origens e ao contato com os mortos, os comp\u00eandios de linguagem, com destaque para Steven Pinker, e o contempor\u00e2neo <em>Escute as f<\/em><em>eras, <\/em>da antrop\u00f3loga Nastassja Martin, que evoca a floresta e o bestial (j\u00e1 resenhado no Boletim).<\/p>\n<p>Como o ritmo dos Imortais \u00e9 peculiar, a autora tamb\u00e9m costuma ser questionada por suas refer\u00eancias de sil\u00eancio: m\u00fasica minimalista e antigos filmes japoneses, bem como seu gosto por ficar pr\u00f3xima da natureza. Quando est\u00e1 na cidade, presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s plantas e ao nosso conv\u00edvio com outras esp\u00e9cies: \u201cA gente passa no mercado pelas caixas de ovos com a maior naturalidade, mas se for parar para pensar \u00e9 uma loucura.\u201d O mesmo vale para os caminh\u00f5es que carregam bois e galinhas, a mortandade de \u00e1rvores, a ideia permanente da superioridade humana, devorando tudo. Mas esse tipo de observa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pude notar ao procurar artigos e entrevistas com Paulinny Tort.<\/p>\n<p>Quanto ao romance, a escritora recusa-se a fornecer chaves de interpreta\u00e7\u00e3o. Seu desejo \u00e9 contar uma hist\u00f3ria que possa ser desfrutada pelos leitores. Ela n\u00e3o tem interesse em explicar nada. \u201cNo fim das contas, cada um v\u00ea o que deseja e o que pode ver\u201d. Sem ilus\u00f5es sobre o poder da comunica\u00e7\u00e3o, reconhece a dist\u00e2ncia entre \u201co que se quer dizer e o que \u00e9 dito. E ainda tem o receptor, que desvia a mensagem de sua inten\u00e7\u00e3o original\u201d. Encara a escrita ficcional como um roteiro para a imagina\u00e7\u00e3o. Sil\u00eancios, brechas e buracos favorecem o circuito.<\/p>\n<p>Boa parte dessas informa\u00e7\u00f5es achei na rede, em <em>podcast<\/em>, artigos e numa boa entrevista, \u201cA faroleira na escurid\u00e3o\u201d, conduzida pelo escritor Rog\u00e9rio Pereira e publicada na revista de literatura <em>Rascunho<\/em>. Ali a autora se define como uma \u201cfaroleira\u201d. Acende a luz\u00a0 no alto da torre, indica aos navegantes a presen\u00e7a da terra, mas n\u00e3o controla a carga, a tripula\u00e7\u00e3o nem o destino das embarca\u00e7\u00f5es. Com seu livro, estamos no mar aberto.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim <span style=\"color: #a21616;\">on<\/span>line.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contar a hist\u00f3ria dos in\u00edcios exige imagina\u00e7\u00e3o radical nas palavras de D\u00e9borah de Paula Souza.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[83,361],"edicao":[379],"autor":[139],"class_list":["post-4193","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-leituras","tag-o-que-resta","edicao-boletim-79","autor-deborah-de-paula-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4193"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4193\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4198,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4193\/revisions\/4198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4193"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4193"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}