{"id":4228,"date":"2026-09-21T11:10:13","date_gmt":"2026-09-21T14:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4228"},"modified":"2026-09-23T17:21:32","modified_gmt":"2026-09-23T20:21:32","slug":"acreditamos-na-ficcao-ou-um-mundo-sem-metaforas-e-um-mundo-em-coma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/09\/21\/acreditamos-na-ficcao-ou-um-mundo-sem-metaforas-e-um-mundo-em-coma\/","title":{"rendered":"Acreditamos na fic\u00e7\u00e3o ou <em>um mundo sem met\u00e1foras \u00e9 um mundo em coma<\/em>"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Acreditamos na fic\u00e7\u00e3o ou <\/strong><strong><em>um mundo sem met\u00e1foras <\/em><\/strong><strong><em>\u00e9 <\/em><\/strong><strong><em>um mundo em coma<\/em><\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><em><sup>[1]<\/sup><\/em><\/strong><\/a><strong>.\u00a0 Reflex\u00f5es sobre a Flip 2026.<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Daniela Athuil<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma brincadeira transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o que meus filhos adoram. Consiste em desafiarmos uns aos outros a responder sobre certos dilemas morais ou situa\u00e7\u00f5es esdr\u00faxulas, \u00e0s quais pode-se acrescentar a ideia de uma recompensa financeira. Os contextos s\u00e3o propositadamente provocativos e nos fazem imaginar cenas moralmente conden\u00e1veis, cru\u00e9is, repugnantes ou rid\u00edculas.<\/p>\n<p><em>como revelar-te se me revelas?<\/em> (Orides Fontela)<\/p>\n<p>Conhecido como jogo dos <em>dilemas morais<\/em>, e batizado pelos meus filhos de <em>dilemas est\u00fapidos<\/em>, essa esp\u00e9cie de exerc\u00edcio de suspens\u00e3o moral tempor\u00e1ria e de negocia\u00e7\u00e3o de limites me fez pensar que uma das coisas que a fic\u00e7\u00e3o nos permite \u00e9 habitar, por meio de suas personagens ou situa\u00e7\u00f5es, o campo das contradi\u00e7\u00f5es e ambiguidades, ou seja, a criar outras vers\u00f5es de n\u00f3s, menos pautadas por regras sociais e morais.<\/p>\n<p>A gra\u00e7a do jogo n\u00e3o est\u00e1 exatamente na resposta dada, mas tal como na fic\u00e7\u00e3o, ou como no processo do sonhar, o que mobiliza e torna interessante a brincadeira \u00e9 a permiss\u00e3o em inventar outras formas de existir, sentir e pensar. At\u00e9 onde ser\u00edamos capazes de ir em nossas transgress\u00f5es imagin\u00e1rias? Liberdade imaginativa que possibilitou a cria\u00e7\u00e3o de personagens abomin\u00e1veis da literatura, e tantos outros radicalmente ordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 no exerc\u00edcio de brincar sem o crivo moral ditando nossa imagina\u00e7\u00e3o que triunfamos na habilidade em separar o pensar do fazer.<\/p>\n<p><em>toda palavra \u00e9 crueldade<\/em> (O.F.)<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 o mesmo benef\u00edcio: tornar p\u00fablicos nossos pensamentos privados, sem que eles sejam concretizados por n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m prerrogativa da fic\u00e7\u00e3o transfigurar a experi\u00eancia do real, uma outra dimens\u00e3o do processo imaginativo que vem em nosso socorro, dessa vez n\u00e3o para que nossos pensamentos tenham espa\u00e7o fora da a\u00e7\u00e3o, mas para que possamos pensar o indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Numa das mesas da programa\u00e7\u00e3o oficial da Flip, com Paloma Vidal e Eduardo Dalfon, uma das quest\u00f5es levantadas pela mediadora Gabriela Mayer era justamente a fronteira entre o espa\u00e7o da fic\u00e7\u00e3o e sua interpola\u00e7\u00e3o com a realidade.<\/p>\n<p>Eduardo, autor de <em>O boxeador polon\u00eas<\/em>, diz que \u00e9 preciso fazer com que o leitor crie uma conex\u00e3o emocional com o texto, e comungue com o autor de uma verdade l\u00e1 onde a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confunde com a ades\u00e3o.<\/p>\n<p><em>se o del\u00edrio te eleva \u00e0 pot\u00eancia do abismo<\/em> (O.F.)<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma dimens\u00e3o onde a fic\u00e7\u00e3o nos permite reconhecer, criar e habitar a pele das nossas mais profundas contradi\u00e7\u00f5es e dos nossos mais \u00edntimos rid\u00edculos, h\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o elaborativa, de tornar poss\u00edvel dizer aquilo que n\u00e3o se pode pensar ou falar, n\u00e3o por ser um segredo, mas por ser irrepresent\u00e1vel ou inacess\u00edvel. Uma esp\u00e9cie de equipamento para o enfrentamento do real, \u00e0 maneira de um escafandro, imagem trazida por Eduardo para falar dos processos traum\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Em mais um exerc\u00edcio de associa\u00e7\u00e3o livre, chego ent\u00e3o \u00e0s \u00f3timas li\u00e7\u00f5es do professor Sidnei Barreto em defesa da met\u00e1fora (a respira\u00e7\u00e3o da linguagem), juntando-as ao escafandro de Eduardo Dalfon. \u201cUm mundo sem met\u00e1fora \u00e9 um mundo em coma\u201d. A fic\u00e7\u00e3o e seu processo imaginativo, metaf\u00f3rico, tal como um escafandro, nos permitiria respirar e alcan\u00e7ar lugares inacess\u00edveis de outro modo.<\/p>\n<p><em>n\u00e3o mais sabemos do barco, mas h\u00e1 sempre um n\u00e1ufrago<\/em> (O.F.)<\/p>\n<p>Ana Paula Tavares, poeta angolana, autora de <em>Um rio preso nas m\u00e3os<\/em> e <em>Amargos como os frutos<\/em>, entre outros, (uma grata surpresa para mim, que n\u00e3o a conhecia), em conversa com Tarso de Melo, tamb\u00e9m nos fala dessa voca\u00e7\u00e3o escafandrista da literatura, numa exposi\u00e7\u00e3o que levou o p\u00fablico ali presente \u00e0 emo\u00e7\u00e3o ao escut\u00e1-la contar sobre sua rela\u00e7\u00e3o com a poesia como for\u00e7a de vida e de enfrentamento do sistema colonial. \u201cTentei com a poesia falar com as pessoas at\u00e9 assumirem sua forma de sujeito, e n\u00e3o mais de objeto\u201d.<\/p>\n<p>A homenageada pela Flip deste ano, a poeta Orides Fontela, cuja sonoridade po\u00e9tica cortante e precisa estava presente n\u00e3o s\u00f3 nas falas das mesas em sua homenagem, mas parecia ecoar como um canto nas ruas de Paraty, sustenta, num limite de espessura m\u00ednima, esse ponto de maior tens\u00e3o, onde a palavra toca a coisa, onde a fic\u00e7\u00e3o corta o real, sem desfaz\u00ea-lo.<\/p>\n<p><em>a um passo<\/em><br \/>\n<em>do p\u00e1ssaro<\/em><br \/>\n<em>res<\/em><br \/>\n<em>piro<\/em> (O.F.)<\/p>\n<p>De f\u00e9rias do nosso cotidiano rabugento, sujeitos aos mesmos trope\u00e7os que nossos autores mais admirados, nos esquecemos por alguns dias (sem deixar de falar delas, ali\u00e1s, falou-se muito), das cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, das guerras, e de que o mundo tem se tornado real demais, irrespir\u00e1vel.<\/p>\n<p>A Flip \u00e9 cheia de sua pr\u00f3pria vida, feita de gente que insiste em procurar imagens, em cri\u00e1-las, de gente que quer \u201clamber o mundo\u201d, express\u00e3o usada por Andrea Del Fuego em conversa sobre o que pode a imagina\u00e7\u00e3o em suas experimenta\u00e7\u00f5es da linguagem. E essa esp\u00e9cie de banquete de palavras com as quais nos servimos ao ler um livro, me remete a uma outra dimens\u00e3o que a literatura nos oferece que \u00e9 a do prazer, especialmente o prazer de compartilhar a experi\u00eancia de ler e o que ela provoca em n\u00f3s.<\/p>\n<p><em>nunca amar o que n\u00e3o vibra, nunca crer no que n\u00e3<\/em><em>o canta<\/em> (O.F.)<\/p>\n<p>E se acreditamos na fic\u00e7\u00e3o \u00e9 porque nesse circuito infinito, onde uma hist\u00f3ria produz tantas outras, ela nos permite tanto quanto nos impele a lidar com a banalidade do mundo, nos devolvendo o ar, o espanto, a sensibilidade e ainda o prazer do compartilhamento.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Express\u00e3o criada por Sidnei Barreto Nogueira, doutor e mestre em Semi\u00f3tica e Lingu\u00edstica Geral pela FFLCH-USP\/SP, Babalorix\u00e1 da CCRIAS- SP, escritor, pensador preto decolonial e diretor do Instituto Il\u00ea Ar\u00e1-SP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial do boletim online.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante da brutalidade do real, a literatura como dispositivo de salvamento. Reflex\u00f5es de Daniela Athuil tramadas no encantamento de Orides Fontela.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[366],"tags":[88,248],"edicao":[397],"autor":[61],"class_list":["post-4228","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-viagem","tag-literatura","tag-viagem","edicao-boletim-80","autor-daniela-athuil","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4228"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4277,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4228\/revisions\/4277"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4228"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4228"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}