{"id":4241,"date":"2026-09-21T11:43:12","date_gmt":"2026-09-21T14:43:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4241"},"modified":"2026-09-21T11:43:12","modified_gmt":"2026-09-21T14:43:12","slug":"festa-estranha-com-gente-esquisita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/09\/21\/festa-estranha-com-gente-esquisita\/","title":{"rendered":"Festa estranha, com gente esquisita"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Festa estranha, com gente esquisita<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Carolina Moriyama<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo m\u00eas de maio tivemos o prazer e a alegria de realizar o debate da Revista Percurso 75 \u2013 o segundo n\u00famero da revista dedicado \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos 40 anos do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. E o que essas duas edi\u00e7\u00f5es da revista e os seus respectivos debates nos mostraram \u00e9 que temos in\u00fameros motivos para celebrar. O Departamento chega em sua quarta d\u00e9cada cheio de vida, bonito e profundo, demonstrando seus v\u00e1rios eixos e suas m\u00faltiplas vozes, misturando experi\u00eancia e novidade, tradi\u00e7\u00e3o e diversidade, e sustentando com maturidade in\u00fameras tens\u00f5es e questionamentos. O que entrevemos nesses artigos, depoimentos, entrevistas, debates e leituras \u00e9 a pot\u00eancia da criatividade de seus membros que, em sua mais exuberante complexidade, t\u00eam sido capazes de conjugar as marcas perenes de seus fundamentos e de sua hist\u00f3ria com a abertura para a aventura do estranho, do presente e do futuro.<\/p>\n<p>Em meio a um cen\u00e1rio mais amplo no qual algoritmos, l\u00edderes inescrupulosos e bilion\u00e1rios parecem nos transformar em fantoches homogeneizados, ensimesmados e robotizados, em um tempo em que claramente se observa uma crescente impossibilidade de debate &#8211; marcado pela manipula\u00e7\u00e3o da realidade e banimento constante do outro, visto como pot\u00eancia inimiga \u2013 o Departamento completa 40 anos de cria\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia, encarnando de forma muito singular os poderes profundos da Psican\u00e1lise, da fala genu\u00edna de um si mesmo desperto, e da escuta em posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica de abertura ao outro.<\/p>\n<p>Vivemos um tempo intrigante, que convida a pensar nas condi\u00e7\u00f5es que sustentam ou impedem essa poss\u00edvel alteridade. Na conceitua\u00e7\u00e3o hegeliana de trag\u00e9dia, da qual provavelmente Ant\u00edgona \u00e9 sua representante mais acabada, observamos afirma\u00e7\u00f5es radicais de princ\u00edpios absolutamente leg\u00edtimos que se chocam sem qualquer possibilidade de conversa e de altera\u00e7\u00e3o. S\u00e3o di\u00e1logos surdos entre o novo e o antigo, os vivos e os mortos, os homens e os deuses, o indiv\u00edduo e o Estado, o feminino e o masculino, pretos e brancos. E \u00e9 dessa surdez, advinda da radicalidade do incomunic\u00e1vel, que nasce o sentido que outorgamos \u00e0 trag\u00e9dia. J\u00e1 o que pretendemos em um ambiente democr\u00e1tico, rico, que visa ser capaz de comportar o singular, \u00e9 desenvolvermos a possibilidade de gestarmos, a partir da hospitalidade, o conflito e a tens\u00e3o \u2013 para que eles possam, bem-vindos, serem vividos, processados e elaborados. Nesse contexto, vemos os opostos trabalhando, divergindo e convergindo, sem a necessidade de uma coincid\u00eancia for\u00e7ada e vazia que decorreria da ren\u00fancia dos fundamentos da diferen\u00e7a, nem de uma complementariedade que levaria a uma ideia de completude est\u00e9ril, nem de uma tr\u00e1gica afirma\u00e7\u00e3o da incomunicabilidade dessas ess\u00eancias \u2013 autoproclamadas como dogmas enclausurantes.<\/p>\n<p>Durante o debate testemunhamos esses pares de opostos trabalhando consistentemente. Conversa transmutante entre as mais velhas e as mais novas, a tradi\u00e7\u00e3o e a inova\u00e7\u00e3o, as teorias e as pr\u00e1ticas, os inegoci\u00e1veis e suas elasticidades, o mais \u00edntimo privado e o mais p\u00fablico pol\u00edtico, entre o feminino e o masculino, brancos e negros. E ficamos todos reanimados pela alegria que emanou da verdadeira conversa. Uma troca viva na qual a realidade, ao inv\u00e9s de negada e manipulada, readquire o poder de nos interrogar, nos deslocar e nos abrir para aquilo que nos espanta.<\/p>\n<p>O artigo de Ana Maria Sigal, sobre os inegoci\u00e1veis da psican\u00e1lise, promoveu durante o debate um centro gravitacional ao redor do qual muitos temas e indaga\u00e7\u00f5es puderam circular. Foi um efeito interessante. Pudemos nos propor quest\u00f5es enigm\u00e1ticas sobre as qualidades idiossincr\u00e1ticas dessa fonte singular \u2013 chamada Psican\u00e1lise \u2013 da qual nos sentimos todos bebedores. Ao mesmo tempo que pudemos acompanhar, ao longo da discuss\u00e3o, uma s\u00e9rie de movimentos diasp\u00f3ricos e transformativos dessa mesma Psican\u00e1lise, que se mostra, quando tensionada, capaz de tr\u00e2nsito, troca, muta\u00e7\u00e3o, amadurecimento e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O debate cresceu acompanhado, em diversos momentos, das leituras do excelente artigo de Silvia Alonso, bem como pelos ecos de sua instigante entrevista. Cofundadora do Departamento e da Revista Percurso, figura central nos momentos constitutivos e mutativos dessa institui\u00e7\u00e3o, sua presen\u00e7a generosa no debate e a extens\u00e3o e a profundidade dos temas tratados em seu artigo nos mostraram algumas facetas da episteme psicanal\u00edtica \u2013 que pode tanto se encastelar em postulados normatizadores quanto se abrir, ser fecundada e crescer a partir de novos interrogantes que aparecem no campo.<\/p>\n<p>Nesse horizonte vital sustentado pelo movimento de altern\u00e2ncia entre o fechamento e a abertura, o conc\u00eantrico e o exc\u00eantrico, de s\u00edstole e di\u00e1stole, rumo ao centro e para a periferia, circularam durante o debate outras escutas, outras vozes e novas ideias. Pudemos nos juntar (na di\u00e1stole) compondo os territ\u00f3rios fraternos da amizade, da comunalidade e da partilha, ressoando as m\u00faltiplas falas de reafirma\u00e7\u00e3o da singularidade do campo da psican\u00e1lise: o inconsciente, a puls\u00e3o, a sexualidade infantil, a transfer\u00eancia, a abstin\u00eancia e o m\u00e9todo psicanal\u00edtico. Pudemos nos separar na s\u00edstole, rumo \u00e0 sempre renovada voca\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise: ouvir dos humanos a voz do que nos \u00e9 estranho, o inconsciente. E poder ouvir os humanos \u2013 essencialmente aqueles cujas repetidas experi\u00eancias de humilha\u00e7\u00e3o flertaram com a possibilidade de arremess\u00e1-los para fora do humano: os beb\u00eas, as crian\u00e7as, os negros, os loucos, todas as pessoas com sa\u00eddas singulares e n\u00e3o bin\u00e1rias na tr\u00edade sexo-g\u00eanero-desejo, as mulheres, os velhos, os estrangeiros, os banidos, os outros.<\/p>\n<p>Nesse espa\u00e7o pudemos escutar as vozes de todas essas magn\u00edficas mulheres, porta-vozes de si mesmas e desses tantos outros residentes de territ\u00f3rios n\u00e3o hegem\u00f4nicos nos quais se move a psican\u00e1lise. Que emocionante ouvirmos Renata Cromberg fazendo circular a dedica\u00e7\u00e3o \u00edmpar e pioneira de Sabina Spielrein, Maria Helena Fernandes nos convidando a escutar, com imensa abertura, a mulher, o tempo, a dor, o envelhecimento e a pot\u00eancia do enamoramento, de perder o medo do amor. Que radical o convite simultaneamente feito e atendido por Maria Aparecida Miranda em seu artigo sobre a beleza negra e a subjetividade das meninas, em que nos conta dessa travessia feita por inteiro, de corpo e alma, adentrando as hist\u00f3rias de vida de meninas negras.<\/p>\n<p>Ainda sobre as quest\u00f5es do racismo, Adriana Dias e Ana Raquel Ribeiro comentaram sobre as dores e alegrias envolvidas na feitura do bel\u00edssimo texto <em>A branquitude atravessada pelo canto de Ossanha<\/em>. Capazes de sustentar o pr\u00f3prio movimento de abertura promovido pelo assombro diante do racismo e da branquitude, elas dedicaram-se profundamente a trabalhar a quest\u00e3o: o que somos capazes de escutar? Havendo-se com as quest\u00f5es da branquitude em si mesmas, e da percep\u00e7\u00e3o de que a falta de letramento racial nos impede de escutar as dores do racismo, elas exploraram as transforma\u00e7\u00f5es que esse atravessamento convocou: na escuta, na vida e no corpo. Viagem sem volta!<\/p>\n<p>Seguindo dentro do tema, tivemos ainda o prazer de escutar as considera\u00e7\u00f5es valios\u00edssimas de Solange Oliveira, cujo trabalho se prop\u00f4s a analisar o impacto do racismo na vida e na an\u00e1lise de um sujeito negro, mostrando como o racismo, ao inv\u00e9s de um epis\u00f3dio traum\u00e1tico isolado, deve ser entendido como um processo secular e cumulativo, adoecendo o sujeito sem que ele encontre representa\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas para o que viveu. Al\u00e9m disso, Solange tamb\u00e9m trouxe um debate interessante a respeito de uma suposta neutralidade do analista \u2013 que poderia se converter em silenciamento pol\u00edtico, \u00e9tico e em viol\u00eancia simb\u00f3lica \u2013 ao desconsiderar as viol\u00eancias sofridas pelo paciente.<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de lembrar as falas de Ana Claudia Patitucci e Paulo Jeronymo Pessoa de Carvalho, que nos mostraram o quanto a tentativa de institucionaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 avessa aos fundamentos da psican\u00e1lise, e o quanto a luta do Movimento Articula\u00e7\u00e3o contra a regulamenta\u00e7\u00e3o do campo se funda no compromisso \u00e9tico de n\u00e3o escorregar para o lugar de quem define \u201co que \u00e9 psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Sei que esse texto ficar\u00e1 indubitavelmente aqu\u00e9m do clima que vivemos no debate. Assistir e participar dos debates da Revista \u00e9 sempre uma experi\u00eancia muito enriquecedora. Estar diante dos autores, poder indag\u00e1-los, interpel\u00e1-los a partir daquilo que a sua escrita nos suscitou, \u00e9 um privil\u00e9gio dif\u00edcil de precisar. Trata-se de reacender as palavras para que elas n\u00e3o queimem em v\u00e3o, reanimar as letras e sermos reanimados por elas, vendo reviver o la\u00e7o que \u00e0s vezes se amortece entre a palavra, o pensamento e as pessoas. Trata-se de falarmos de um lugar com muitas pessoas, um lugar que tem alma, um lugar que tem revista (!), um lugar onde ainda h\u00e1 debate. Celebremos!!<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este t\u00edtulo se refere a uma passagem da m\u00fasica <em>Eduardo e M\u00f4nica<\/em> do compositor Renato Russo. Eduardo \u00e9 adolescente, ainda identificado com o mundo infantil, e faz esse coment\u00e1rio sobre a festa em que conhece M\u00f4nica, uma mulher. Ele \u00e9 ent\u00e3o convidado \u00e0 alteridade pelo enamoramento. Ele come\u00e7a a sair do seu mundinho, mas est\u00e1 atordoado. Ele diz: \u201cFesta estranha, com gente esquisita\u201d. Celebremos o assombro e a abertura que pode nos tornar capazes de fazer amizade e festejar com os nossos outros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do Conselho editorial da revista Percurso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebra\u00e7\u00e3o dos 40 anos do Departamento de Psican\u00e1lise em Debate da Revista Percurso. Por Carolina Moriyama.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[176],"edicao":[397],"autor":[401],"class_list":["post-4241","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-percurso","edicao-boletim-80","autor-carolina-moriyama","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4241"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4242,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4241\/revisions\/4242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4241"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4241"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}