{"id":4252,"date":"2026-09-21T12:04:34","date_gmt":"2026-09-21T15:04:34","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4252"},"modified":"2026-09-21T12:07:29","modified_gmt":"2026-09-21T15:07:29","slug":"acessos-e-excessos-no-campo-da-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/09\/21\/acessos-e-excessos-no-campo-da-psicanalise\/","title":{"rendered":"Acessos e excessos no campo da psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Acessos e excessos no campo da psican\u00e1lise<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1] <\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>USP 2026<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Boa tarde, agrade\u00e7o o convite de Renata Arouca, com quem trabalhei por v\u00e1rios anos no Movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras, movimento este que se dedica \u00e0s lutas para n\u00e3o regulamentar a psican\u00e1lise, para mant\u00ea-la livre das inger\u00eancias de Estado e por uma psican\u00e1lise leiga e laica. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m aos organizadores do evento, e sa\u00fado os companheiros que compartilham a mesa. Sempre \u00e9 um prazer falar na USP.<\/p>\n<p>Para falar de acessos e excessos \u00e9 preciso circunscrever esta quest\u00e3o para saber: Excesso de qu\u00ea? Acessos aonde? Acho excelente a proposta desta mesa porque permite que sejam tomados diversos caminhos. Gostaria de falar sobre a forma\u00e7\u00e3o de analistas, um tema que me \u00e9 caro e em torno do qual transito h\u00e1 50 anos no Brasil e por outros 10 anos antes de vir da Argentina. Podemos ser inclu\u00eddos, ter acesso e podemos circular por diversos lugares na psican\u00e1lise, mas importa saber de qual psican\u00e1lise falamos. H\u00e1 tamb\u00e9m excessos que se cometem em nome da psican\u00e1lise e vou falar de alguns deles.<\/p>\n<p>Tomarei o caminho da forma\u00e7\u00e3o para circunscrever campos; em princ\u00edpio falarei da psican\u00e1lise e da psican\u00e1lise que pratico, que est\u00e1 relacionada \u00e0 institui\u00e7\u00e3o a que perten\u00e7o. Isto n\u00e3o impede que existam muitas outras formas de abordar o sofrimento do ser humano, desde a psican\u00e1lise e fora dela.<\/p>\n<p>Cheguei ao Brasil h\u00e1 50 anos, data do golpe militar na Argentina; fui exilada pol\u00edtica num primeiro momento e depois passei a ser residente brasileira por op\u00e7\u00e3o. Um dos motivos que me determinou a ficar foi que j\u00e1 tinha afincado minhas ra\u00edzes no Brasil, tinha filhos brasileiros e, como elemento muito importante, um projeto pol\u00edtico-t\u00e9cnico institucional consolidado. No mesmo ano em que cheguei, conheci Regina Schnaiderman e Roberto Azevedo, que estavam engajados no plano de criar um curso para forma\u00e7\u00e3o de analistas que se diferenciasse da forma\u00e7\u00e3o oficial ligada \u00e0 Internacional de Psican\u00e1lise (IPA). Sempre a quest\u00e3o era: a quem pertencia legitimamente a psican\u00e1lise? Hoje continuamos discutindo esta quest\u00e3o, e \u00e9 por isto que vou definir um campo &#8211; sem dizer que seja o verdadeiro ou o leg\u00edtimo, mas sim o campo com o qual me sinto identificada, um campo poss\u00edvel. Nos anos 1970 fui continuar minha forma\u00e7\u00e3o na Europa, ficando na Inglaterra, onde havia algumas op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o: a Hampstead Clinic, comandada por Anna Freud; a Tavistock Clinic, formada por v\u00e1rios analistas independentes, com grande abertura para a psican\u00e1lise de crian\u00e7as, de grupos, de fam\u00edlia, e que desenvolvia o projeto de forma\u00e7\u00e3o a partir da inser\u00e7\u00e3o cl\u00ednica; a Sociedade de Psican\u00e1lise e grupos alternativos como a comunidade terap\u00eautica de Ronald Laing e David Cooper, que funcionava como uma unidade experimental dentro do Hospital Shenley, em Hertfordshire, nos arredores de Londres.<\/p>\n<p>A Villa 21 foi um marco do movimento da antipsiquiatria e das comunidades terap\u00eauticas democr\u00e1ticas. Cooper buscava tratar jovens em primeiro surto psic\u00f3tico eliminando as barreiras tradicionais de poder entre m\u00e9dicos e pacientes, evitando m\u00e9todos invasivos e focando na conviv\u00eancia e na autonomia dos sujeitos, ligado ao movimento italiano da antipsiquiatria de Franco Basaglia. Optei por me incorporar a Tavistock Clinic e compartilhar dois dias por semana na comunidade terap\u00eautica de Cooper. Desde os prim\u00f3rdios estava interessada nos movimentos alternativos. Quando regressei desta experi\u00eancia, me encontrei, em Buenos Aires, com um novo grupo, que me ofereceu as ferramentas para estudar e trabalhar: o grupo Plataforma, articulado por psicanalistas politicamente engajados, que estavam em conflito com a Internacional. Nesta experi\u00eancia recolhi as melhores ferramentas que me acompanharam ao Brasil.<\/p>\n<p>O grupo que se formava aqui no Brasil questionava determinados par\u00e2metros de modo muito parecido ao que n\u00f3s, argentinos, hav\u00edamos feito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas e suas institui\u00e7\u00f5es, a partir de elabora\u00e7\u00f5es que ainda hoje defendemos para pensar a democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. Plataforma foi um movimento que teve suas origens no questionamento que um grande grupo de analistas fez, no Congresso de Roma, sobre a agressividade. Tratava-se de identificar a agressividade como simples produto do mundo interno do sujeito ou consider\u00e1-la articulada \u00e0 forma como uma sociedade capitalista e neoliberal afeta o sujeito na constitui\u00e7\u00e3o da neurose. Hoje, segue sendo necess\u00e1rio insistir na import\u00e2ncia do la\u00e7o social como vari\u00e1vel que determina a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Sendo fundamental conhecermos Freud, n\u00e3o se pode coagular um pensamento e mant\u00ea-lo fora das coordenadas de seu tempo hist\u00f3rico. Por isso, trata-se de voltar a Freud para faz\u00ea-lo trabalhar: desenterrar as vias de pensamento que ficaram submersas, empurrar a teoria a seus limites e revis\u00e1-la em busca dos pressupostos epistemol\u00f3gicos a serem repensados \u00e0 luz das novas conceitualiza\u00e7\u00f5es. Se Freud deixa muitas pontas em aberto, que podemos explorar, existem princ\u00edpios aos quais n\u00e3o se pode renunciar para nos pensarmos no campo da psican\u00e1lise. Quais seriam os inegoci\u00e1veis ou os fundamentos para nos dizermos dentro desse campo?<\/p>\n<p>Aqui acontecem os excessos: identificamos espa\u00e7os que se dizem de forma\u00e7\u00e3o de analistas, mas que baseiam sua transmiss\u00e3o em ideias frontalmente contr\u00e1rias \u00e0 psican\u00e1lise. N\u00e3o se trata de regulamentar a psican\u00e1lise dizendo quem \u00e9 ou quem n\u00e3o \u00e9 psicanalista, submetendo o of\u00edcio de psicanalista a uma autoriza\u00e7\u00e3o exterior \u00e0 sua \u00e9tica, mas sim podemos dizer que h\u00e1 pr\u00e1ticas que est\u00e3o fora do campo psicanal\u00edtico. O movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras se formou no ano 2000, em resposta a uma tentativa da SPOB &#8211; Sociedade psicanal\u00edtica ortodoxa brasileira -, uma sociedade evang\u00e9lica, de regulamentar a psican\u00e1lise a partir de uma vis\u00e3o absolutamente contr\u00e1ria aos princ\u00edpios cient\u00edficos deste saber. Tal grupo pretendia deter o poder ao criar uma autarquia que autorizasse o exerc\u00edcio deste of\u00edcio. Muitos grupos religiosos se apropriaram da psican\u00e1lise visando a dar tintas de cientificidade a seu discurso. De nossa parte, batalhamos por uma psican\u00e1lise laica e leiga &#8211; pois n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma forma\u00e7\u00e3o pr\u00e9via em medicina ou psicologia para aceder \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de analista, conforme j\u00e1 registrara Freud em seu exemplar trabalho de 1926, &#8220;A quest\u00e3o da an\u00e1lise leiga\u201d.<\/p>\n<p>Como saber e pr\u00e1tica subversivos, a psican\u00e1lise se debru\u00e7a sobre a verdade do sujeito singular e \u00fanico. Por isso \u00e9 laica, independente de normas \u00e9ticas ou morais de cunho religioso para o que se desenvolve no campo da teoria e da cl\u00ednica &#8211; campo de uma pr\u00e1xis que justamente visa \u00e0 desaliena\u00e7\u00e3o do sujeito. Como ent\u00e3o formular ideias que nos permitam dar contorno e piso \u00e0s quest\u00f5es que poderiam caracterizar este saber? Como definir condi\u00e7\u00f5es do campo sem enquadr\u00e1-lo ou aprision\u00e1-lo, mas que nos ofere\u00e7am alguma formula\u00e7\u00e3o para caracteriz\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Penso que h\u00e1 certos <em>inegoci\u00e1veis<\/em> para definir um campo: s\u00e3o coordenadas b\u00e1sicas que minha forma\u00e7\u00e3o freudiana considera princ\u00edpios fundamentais que definem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para defini-lo nos tempos atuais. Penso nas funda\u00e7\u00f5es, nos alicerces de uma constru\u00e7\u00e3o sem os quais n\u00e3o se sustentaria. Tal caracteriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 exposta e aberta aos debates que cada um queira travar, fundamentar e registrar, considerado o necess\u00e1rio rigor epistemol\u00f3gico a respeito do que \u00e9 anal\u00edtico, do que \u00e9 o objeto da psican\u00e1lise. Consideramos conceitos fundamentais a serem conservados, no campo da teoria:<\/p>\n<p>1) O inconsciente<br \/>\n2) A sexualidade infantil<br \/>\n3) A puls\u00e3o<\/p>\n<p>No campo da cl\u00ednica, os conceitos de:<br \/>\n1) Transfer\u00eancia<br \/>\n2) Abstin\u00eancia<\/p>\n<p>As quest\u00f5es relativas ao m\u00e9todo s\u00e3o vari\u00e1veis, segundo o <em>setting<\/em> implementado, pois associa\u00e7\u00e3o livre e aten\u00e7\u00e3o flutuante podem se modificar em configura\u00e7\u00f5es especiais tais como o uso da tela nas an\u00e1lises <em>online<\/em>, em grupos de conversa e sob outras diversas modalidades grupais.<\/p>\n<p>Ao falarmos em abstin\u00eancia, recusamos uma compreens\u00e3o equivocada que exigisse que o analista n\u00e3o tivesse participa\u00e7\u00e3o, como sujeito, da hist\u00f3ria de seu tempo. Outrora a participa\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o oficial de forma\u00e7\u00e3o de analistas exigiu que o analista se abstivesse de sua fun\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e se mostrasse neutro, a fim de n\u00e3o obstruir a proje\u00e7\u00e3o do paciente. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o conceito de abstin\u00eancia em Freud, que se refere a se abster de desejar pelo outro, apontando para a capacidade do analista de n\u00e3o escolher caminhos para o analisando, a quem cabe responsabilizar-se pela sua subjetividade e pelas escolhas que podem transcorrer durante uma an\u00e1lise. Porque a neutralidade n\u00e3o existe, a an\u00e1lise do analista \u00e9 fundamental para permitir-lhe uma escuta mais ampla.<\/p>\n<p>Entretanto, questionamos a an\u00e1lise did\u00e1tica, que se apresenta como uma an\u00e1lise que controla a forma\u00e7\u00e3o, por isso se constituindo essencialmente contra o trabalho anal\u00edtico: somos favor\u00e1veis ao reconhecimento institucional da liberdade do candidato para escolher analista e supervisores. Entendemos que o conceito de an\u00e1lise n\u00e3o admite adjetiva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma \u00fanica an\u00e1lise, a an\u00e1lise do sujeito. Toda an\u00e1lise \u00e9 exclusivamente um trabalho com o inconsciente, n\u00e3o tem fun\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas ou did\u00e1ticas. Tampouco \u00e0queles que conduzem as an\u00e1lises caberia qualificar seus pacientes no \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o. Somos contra a verticalidade de uma estrutura de poder que rege as institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o. A verticalidade imposta \u00e0 institui\u00e7\u00e3o pela designa\u00e7\u00e3o de analistas didatas reproduz, de certa forma, um desejo excessivo de Freud, o de manter o controle da forma\u00e7\u00e3o num contexto em que sua deten\u00e7\u00e3o do poder come\u00e7ava a ser questionada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ressaltamos a necessidade de superar certas restri\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 psican\u00e1lise nos seus come\u00e7os, ao expandi-la para o trabalho grupal, assim como inclu\u00ed-la nos servi\u00e7os p\u00fablicos que lhe consintam maior alcance social, para sua efetiva deselitiza\u00e7\u00e3o. Ao incluirmos a psican\u00e1lise no hospital, nos servi\u00e7os de sa\u00fade, nos CAPS, tais espa\u00e7os tamb\u00e9m podem funcionar como espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o &#8211; uma ideia interessante que se pode basear nos trabalhos da Cl\u00ednica Tavistock. N\u00e3o se transforma algu\u00e9m em analista oferecendo-lhe um curso, \u00e9 necess\u00e1rio entender que esta forma\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa e requer tempo e pr\u00e1tica da fun\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. A universidade n\u00e3o pode formar analistas, pode pesquisar e trabalhar com os conte\u00fados te\u00f3ricos, mas n\u00e3o forma propriamente algu\u00e9m para clinicar. Tal percurso se d\u00e1 nos contextos das institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o ou, por vezes, das forma\u00e7\u00f5es independentes, raz\u00e3o pela qual contestamos propostas de forma\u00e7\u00e3o de analistas em bacharelados. Nos pr\u00f3prios lugares de trabalho se podem articular espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o, tendo em conta a pr\u00e1tica cl\u00ednica, a exig\u00eancia de an\u00e1lise pessoal e o estudo da teoria. Pensando com esta liberdade, identificamos a possibilidade de que a psican\u00e1lise trabalhe em diferentes territ\u00f3rios, democratizando-se quando exercida por pessoas bem formadas. Novamente, deselitizar n\u00e3o implica diminuir o rigor da forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o ponto de vista epistemol\u00f3gico, reivindicamos a leitura de Freud sem sacralizar sua obra, o que envolve recriar e reconstruir conte\u00fados que foram elaborados segundo o contexto social em que Freud viveu e que se inscreveu em suas formula\u00e7\u00f5es. Sem d\u00favida, sua teoria emerge em uma sociedade branca-europeia, mis\u00f3gina, onde primava o patriarcalismo. Pouqu\u00edssimas mulheres tinham ent\u00e3o acesso tanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social. Nesse contexto, Freud elaborou a teoria da sexua\u00e7\u00e3o na mulher pressupondo o homem como universal, o que levou a posi\u00e7\u00f5es preconceituosas em quest\u00f5es de g\u00eanero. Ao tomar a psicologia masculina como universal, resultou em desqualificar o lugar da mulher como sujeito igual e reafirmar o poder do homem. No decorrer dos anos, coube-nos trabalhar intensamente no estudo da sexualidade para aprofundar conceitos que faziam obst\u00e1culo \u00e0 escuta das novas sexualidades que come\u00e7avam a se manifestar frente a uma sociedade menos repressora.<\/p>\n<p>A obra de Freud oferece, por\u00e9m, grandes aberturas para trabalharmos a diversidade da sexualidade: a teoria da bissexualidade inerente ao ser humano, a conceitualiza\u00e7\u00e3o de uma puls\u00e3o perversa polimorfa, a escolha de um objeto vicariante que caracteriza a puls\u00e3o, em contraposi\u00e7\u00e3o ao conceito de instinto, o trabalho com o complexo de \u00c9dipo ampliado, que nos defronta com a possibilidade de que cada sujeito tome o mesmo sexo como objeto de amor e de identifica\u00e7\u00e3o foram vias antes pouco exploradas, que hoje em dia encontram um desenvolvimento muito maior. As transforma\u00e7\u00f5es na teoria e na pr\u00e1tica s\u00e3o elementos decisivos para manter a psican\u00e1lise viva. Por isso n\u00e3o cessamos de pesquisar, estudar e publicar trabalhos nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao seguirmos pensando os grandes problemas que atravessam nossa sociedade atual, fomos ainda ganhando uma nova consci\u00eancia do racismo estrutural que atravessa o Brasil e nos interessando pelas pol\u00edticas antirracistas &#8211; o que atende \u00e0 considera\u00e7\u00e3o da alteridade e do contexto social como produtores de marcas no inconsciente. Desse gesto pol\u00edtico decorrem consequ\u00eancias te\u00f3ricas e cl\u00ednicas: repensar a metapsicologia a partir do mapeamento de fen\u00f4menos sociais nos quais o racismo tem grande express\u00e3o.<\/p>\n<p>Se no inconsciente recalcado primariamente se guardam as primeiras representa\u00e7\u00f5es, marcas-coisas da inf\u00e2ncia mais pret\u00e9rita, que esta seja produzida num determinado meio social e pol\u00edtico tem suas consequ\u00eancias: a rela\u00e7\u00e3o com a branquitude ou a negritude tamb\u00e9m deixa suas marcas recalcadas, formando parte do inconsciente primitivo produto do recalcamento prim\u00e1rio. Portanto se tratava de reconhecer que o inconsciente tem cor. J\u00e1 Fanon tinha manifestado que o inconsciente n\u00e3o \u00e9 neutro, reiterando a ideia de que fantasias, sintomas, identifica\u00e7\u00f5es surgem da cultura que nos atravessa e incluir, em nossas refer\u00eancias te\u00f3ricas, autores como Neusa Santos Souza, Grada Kilomba, Franz Fanon, Cida Bento, Isildinha Baptista Nogueira e tantos outros, possibilitou reformular algumas ideias relativas ao narcisismo e ao Ideal do eu, assim como recolocar quest\u00f5es importantes sobre a transfer\u00eancia e o manejo da contratransfer\u00eancia do analista que se precisa letrar, para se haver com seu racismo estrutural. A despeito do necess\u00e1rio reconhecimento de que nossa institui\u00e7\u00e3o \u00e9 majoritariamente composta por pessoas brancas, h\u00e1 um intenso movimento interno visando a uma repara\u00e7\u00e3o ativa face \u00e0 exclus\u00e3o por tantos anos vivida. Somente o acesso a colegas negros (pretos e pardos) e ind\u00edgenas modifica esta paisagem, o que temos visado atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de cotas raciais, cujo n\u00famero investimos em ampliar.<\/p>\n<p>Excessos<\/p>\n<p>Empenhados em manter o trip\u00e9 formativo com qualidade, acreditamos que uma democratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode acarretar uma banaliza\u00e7\u00e3o. Ser analista \u00e9 um of\u00edcio que se transmite no corpo a corpo. O of\u00edcio de psicanalista requer muitos anos de forma\u00e7\u00e3o tomando a cl\u00ednica, a teoria e a pr\u00f3pria an\u00e1lise como elementos indispens\u00e1veis para poder escutar o sofrimento do outro. Hoje em dia, encontramos no campo da transmiss\u00e3o excessos de facilita\u00e7\u00e3o do caminho a ser percorrido.<\/p>\n<p>Parto da ideia de que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um aprendizado que se possa cursar numa universidade, nem dispor de um programa de estudos fixo e estruturado que proporcione uma titula\u00e7\u00e3o a partir do que registram os livros. Simplesmente n\u00e3o existe um t\u00edtulo de psicanalista, j\u00e1 que a forma\u00e7\u00e3o tem como eixo principal a an\u00e1lise do analista: um trabalho \u00e1rduo, pessoal, \u00fanico e singular, sustentado na transfer\u00eancia, e intermin\u00e1vel. Sublinho: \u00c9 no corpo a corpo que se transmite um of\u00edcio. Deste modo, qualquer tentativa de regulamentar a psican\u00e1lise entraria em contradi\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria \u00e9tica, implicaria aceitar que um tratamento psicanal\u00edtico pode ser regulamentado ou que a universidade teria condi\u00e7\u00f5es de oferecer tal forma\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise na universidade tem grande import\u00e2ncia, como pesquisa, como modo de interrogar a teoria e faz\u00ea-la conversar com saberes relacionados, mas n\u00e3o poderia formar um analista, seja em n\u00edvel de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, seja na gradua\u00e7\u00e3o. Muito nos preocupam os abusos e os excessos, queremos pensar tamb\u00e9m junto \u00e0 universidade na difus\u00e3o de uma pr\u00e1tica democratizada, rigorosa e s\u00e9ria, acess\u00edvel \u00e0 popula\u00e7\u00e3o como alternativa aos aconselhamentos, <em>coachings<\/em> ou outras t\u00e9cnicas de efeitos r\u00e1pidos que s\u00e3o produtos de uma sociedade neoliberal que se pauta pelo dinheiro. Queremos pensar juntos, ouvir e ser ouvidos neste \u00e1rduo caminho de levar a psican\u00e1lise \u00e0 sociedade como um todo e poder atender popula\u00e7\u00f5es que ficam \u00e0 margem. Pois o excesso de ofertas absolutamente deformadas afeta a forma\u00e7\u00e3o desej\u00e1vel a um analista.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Trabalho apresentado na Mesa <em>A psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise brasileira entre o acesso e o excesso<\/em>, partilhada com Jo\u00e3o Sales e Ludmila Frateschi sob a media\u00e7\u00e3o de Renata Arouca por ocasi\u00e3o do evento <em>A forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica no Brasil: desafios, extravios, perspectivas, <\/em>coordenado por Daniel Kupermann em 31 de agosto de 2026 no Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, supervisora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o de Ana Sigal sobre os fundamentos inegoci\u00e1veis de uma pr\u00e1xis laica e leiga evidencia import\u00e2ncia da luta pela n\u00e3o-regulamenta\u00e7\u00e3o desse of\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[361,406],"edicao":[397],"autor":[148],"class_list":["post-4252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-o-que-resta","tag-transmissao-da-psicanalise","edicao-boletim-80","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4252"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4252\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4253,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4252\/revisions\/4253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4252"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4252"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}