{"id":4254,"date":"2026-09-21T12:12:54","date_gmt":"2026-09-21T15:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4254"},"modified":"2026-09-23T17:25:08","modified_gmt":"2026-09-23T20:25:08","slug":"parametros-da-politica-de-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/09\/21\/parametros-da-politica-de-agora\/","title":{"rendered":"Par\u00e2metros da pol\u00edtica de agora"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Par\u00e2<\/strong><strong>metros da pol<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>tica de agora<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong>Tales Ab<\/strong><strong>\u2019<\/strong><strong>S\u00e1ber<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c\u2026 eles n\u00e3o sabem o que fazem, mas o fazem assim mesmo\u201d<br \/>\nMarx, <em>O capital<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. Complexidade, fragmenta\u00e7\u00e3o e multiplica\u00e7\u00e3o dos mundos pol\u00edticos<\/strong><\/p>\n<p>Poucas vezes, ao longo de todo processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira, estivemos em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o explicitamente complexa e pesada.<\/p>\n<p>Complexa do ponto de vista dos territ\u00f3rios comuns da pol\u00edtica, aquela que se apresenta a todos, com suas no\u00e7\u00f5es tradicionais que se resolvem com a elei\u00e7\u00e3o de um governo. Complexa do ponto de vista das m\u00faltiplas forma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que se enraizam em subjetividades pol\u00edticas, at\u00e9 mesmo em n\u00edveis biopol\u00edticos que se formam agora \u2013 o que, no n\u00edvel dos corpos, faz viver ou morrer, ou mesmo\u2026 matar. Complexa do ponto de vista geopol\u00edtico, com a emerg\u00eancia do Imp\u00e9rio de confronto e de imposi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita estadunidense, que nos tem como alvo \u2013 um movimento nacionalista, de capitalismo central, bem articulado \u00e0s c\u00e9lulas multiplicadas das forma\u00e7\u00f5es neofascistas, xen\u00f3fobas e negacionistas mundiais. O que isso implica na ideia brasileira de na\u00e7\u00e3o? Situa\u00e7\u00e3o complexa tamb\u00e9m pela fragmenta\u00e7\u00e3o liberal das pautas de esquerda, ainda b\u00e1sicas, por reconhecimento e direito fundamentais, por\u00e9m sem for\u00e7a de totaliza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica comum. E complexa pela presen\u00e7a de uma crise ambiental generalizada, rand\u00f4mica e mort\u00edfera. Complexa pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na terra aplainada da vida de mercado globalizada, uma 4\u00aa ou 5\u00aa revolu\u00e7\u00e3o industrial, j\u00e1 mundial e total, que acontece em tempo t\u00e3o curto, em <em>tempo real<\/em>, que se confunde com o tempo apocal\u00edptico \u2013 ideia que, n\u00e3o por acaso, \u00e9 cantada em prosa e verso por pastores e estudada como conceito e forma por fil\u00f3sofos em toda parte. N\u00e3o sabemos ainda quantos milh\u00f5es de profissionais e gestores simb\u00f3licos ser\u00e3o desempregados pela Intelig\u00eancia Artificial j\u00e1 onipresente, ocupando seus lugares e pap\u00e9is mais e mais. Mas a ansiedade de tal cat\u00e1strofe \u2013 a velha diferen\u00e7a entre o avan\u00e7o t\u00e9cnico dos meios de produ\u00e7\u00e3o versus as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, de Marx \u2013 j\u00e1 est\u00e1 muito presente nas vidas.<\/p>\n<p><strong>2. Subjetiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de um psicanalista pol\u00edtico, de um psicanalista atento \u00e0 sociedade e \u00e0 pol\u00edtica como parte necess\u00e1ria de seu pr\u00f3prio trabalho, que considera o <em>self cultural ou dial<\/em><em>\u00e9<\/em><em>tico<\/em>, podemos observar n\u00edveis pr\u00e1ticos de engajamento e de formata\u00e7\u00e3o do desejo sobre o mundo, em disputa e em conflito aberto por posi\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>Em geral, na maioria das vezes, os pr\u00f3prios psicanalistas representamos uma classe m\u00e9dia cultivada, de n\u00edvel cient\u00edfico superior, comprometida com justi\u00e7a social, democracia e alguma cr\u00edtica, na maioria das vezes genericamente liberal, mas tamb\u00e9m social-democrata e, em algumas poucas vezes, socialista. Como categoria ligada a aparelhos ideol\u00f3gicos de Estado liberais e sociais, como as Universidades, institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o, sistemas de sa\u00fade p\u00fablico e privado, sistema educacional social, os psicanalistas e terapeutas oscilam entre receber a renda m\u00ednima para a reprodu\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria classe m\u00e9dia e participar da vida de distin\u00e7\u00e3o e de privil\u00e9gios simb\u00f3licos, com renda muito superior \u00e0 m\u00e9dia do trabalho nacional, quando atendem os ricos brasileiros em seus consult\u00f3rios particulares e recebem parte da acumula\u00e7\u00e3o geral. Em grandes linhas, costumamos ser uma classe m\u00e9dia brasileira tendente ao alto, de engajamento cient\u00edfico, pol\u00edtico racional, t\u00e9cnico burocr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o do Estado, democr\u00e1tica progressista.<\/p>\n<p>Uma classe de <em>conhecedores de uma esp<\/em><em>\u00e9<\/em><em>cie de saber estruturado, <\/em>como s\u00e3o os professores, os artistas, os funcion\u00e1rios p\u00fablicos gestores, que baseia a pr\u00f3pria biopol\u00edtica na ideia de um trabalho amplo e mediado por uma sociedade e um pa\u00eds melhores, por construir, com compromisso social e ci\u00eancia. Uma esquerda de classe m\u00e9dia, urbana, cosmopolita, racional e progressista esperan\u00e7osa, que muitas vezes participa dos privil\u00e9gios da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, se essa posi\u00e7\u00e3o foi simb\u00f3lica e politicamente hegem\u00f4nica durante todo o per\u00edodo da redemocratiza\u00e7\u00e3o e do primeiro tempo da \u00faltima democracia brasileira, sabemos agora que ela n\u00e3o \u00e9 mais o horizonte garantido da cultura pol\u00edtica. Um processo hist\u00f3rico corrosivo do car\u00e1ter do sujeito pol\u00edtico, rumo a tend\u00eancias gerais autorit\u00e1rias, quebrou a unidade simb\u00f3lica e a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de massas, a esperan\u00e7a progressista e democr\u00e1tica no Brasil. Essa nova pol\u00edtica simb\u00f3lica popular de extrema direita tamb\u00e9m confronta a pr\u00f3pria legitimidade da nossa classe m\u00e9dia democr\u00e1tica, de cultos razoavelmente bem pagos e seus mundos.<\/p>\n<p>Uma das crises de nosso tempo \u00e9 o avan\u00e7o invis\u00edvel da convoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do direito \u00e0 viol\u00eancia como forma de estar na pol\u00edtica, que aparece sob muitas modalidades: como <em>convers<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o<\/em> <em>da pol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica em viol<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia direta <\/em>legitimada, elidindo toda racionalidade discursiva e abrindo espa\u00e7o para a for\u00e7a identificat\u00f3ria e estrat\u00e9gica, atrav\u00e9s da fantasia de uma guerra, da mentira em massa. O fascismo pode ser pensado como a fun\u00e7\u00e3o social, a <em>velocidade<\/em>, com que a pol\u00edtica \u00e9 transformada em viol\u00eancia para fins conservadores. O movimento opera tanto a viol\u00eancia da agress\u00e3o simb\u00f3lica, da ruptura com o estatuto de direitos comuns de reconhecimento \u2013 racismos, machismos, sexismos, xenofobias, nacionalismo autorit\u00e1rio, aceita\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica de exce\u00e7\u00e3o como norma etc. \u2013quanto um projeto real maior, de restri\u00e7\u00e3o de direitos e destrui\u00e7\u00e3o da democracia existente.<\/p>\n<p>Essa subjetiva\u00e7\u00e3o psico-pol\u00edtica que confia na lideran\u00e7a da viol\u00eancia, destrutiva e n\u00e3o mediada, alheia a qualquer dado hist\u00f3rico se produziu concretamente, imanentemente, ao processo autom\u00e1tico da luta pelo poder no Brasil e \u00e0 pr\u00f3pria democracia liberal funcionando, por assim dizer. Foi o resultado efetivo da convoca\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais e t\u00e9cnicas do tempo para o embate pol\u00edtico hist\u00f3rico \u201cnormal\u201d, a luta pelo poder e o governo do Estado, que aconteceu nos \u00faltimos dez anos. A ruptura psico-pol\u00edtica, que fragmentou a unidade da consci\u00eancia nacional por democracia e desenvolvimento social, arruinando a pr\u00f3pria ideia moderna de na\u00e7\u00e3o de modo novo, se deu no ano e meio de batalha pol\u00edtica \u201cleg\u00edtima\u201d, de radical vale tudo, que anulou e derrubou o segundo governo eleito petista de Dilma Rousseff \u2013 e sua insist\u00eancia neodesenvolvimentista, reindustrializante.<\/p>\n<p>Todos vimos esse complexo processo hist\u00f3rico, da vida comum de uma democracia for\u00e7ando a sua crise, que simplesmente rep\u00f4s a for\u00e7a pol\u00edtica do autoritarismo entre n\u00f3s. \u00c9 a hist\u00f3ria de como os liberais brasileiros, de fato neoliberais, tucanos (saudosa mem\u00f3ria\u2026) abriram fogo ao governo petista de centro-esquerda e industrializante, n\u00e3o reconhecendo o resultado da elei\u00e7\u00e3o de 2014. Aquela ruptura do pacto de reconhecimento existente deu fundamento impertinente para um processo de <em>impeachment<\/em>, logo encampado pela direita fisiol\u00f3gica brasileira, com base em uma abstrusa acusa\u00e7\u00e3o geral de corrup\u00e7\u00e3o imputada aos governos petistas. Os engajamentos no processo, planejado, financiado e apoiado midiaticamente, foram amplos e populares. Com a guerra pol\u00edtica declarada, abriu-se a porta da vida social \u00e0 nova direita, neoliberal autorit\u00e1ria ou explicitamente neofascista. Porque foi de fato a energia de choque do \u00f3dio pol\u00edtico e da mentira em massa \u2013 coisas como <em>kits gays<\/em>, mamadeiras de piroca, banheiros trans, proibi\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es etc. \u2013, que os fascistas promoveram como cultura, que liberou a excita\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o das massas populares ao redor do ide\u00e1rio. Ao fim do processo, em que liberais oportunistas andaram de m\u00e3os dadas com fascistas de linguagem de viol\u00eancia de massas eficaz, a extrema direita que emergia simplesmente derrubou os supostos cavaleiros que os dirigiam, e Bolsonaro, com tudo de pior no mundo que ele sempre representou, chegou ao poder.<\/p>\n<p>O processo pol\u00edtico pode ser descrito por estes fatos hist\u00f3ricos efetivos, por assim dizer. Mas a abertura da experi\u00eancia hist\u00f3rica da subjetiva\u00e7\u00e3o neofascista \u00e9 muito mais complexa. Os psicanalistas apontaram o processo da radicalidade subjetiva da pol\u00edtica da destrui\u00e7\u00e3o em jogo pela primeira vez, j\u00e1 na \u00e9poca em que ocorriam<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Hoje vemos fil\u00f3sofos pol\u00edticos, com dez anos de atraso, tentarem a explica\u00e7\u00e3o de que se trata de fato, de fascismo quando ao tempo original da coisa apenas se recusava a possibilidade real de Bolsonaro chegar ao poder. Pois, na confus\u00e3o geral produzida para derrubar o governo Dilma-petista, ele chegou, ocupou e destruiu, como era de se esperar. Subiu a rampa do pal\u00e1cio com o juiz her\u00f3i dos ca\u00e7adores seletivos de corruptos que, com a\u00e7\u00f5es irregulares e ilegais, levou Lula \u00e0 cadeia, deixando Bolsonaro sem advers\u00e1rio. E legitimando para certa classe m\u00e9dia antissocial brasileira o seu novo l\u00edder, chefe de gangue pol\u00edtica, o capit\u00e3o expulso do ex\u00e9rcito Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Esta imensa crise pol\u00edtica \u201cnormal\u201d, de uma democracia e sociedade radicalmente cindidas e de imensa desigualdade de poderes como \u00e9 a nossa, uniu liberais, neoliberais, autorit\u00e1rios e fascistas, para a derrubada de um governo burocr\u00e1tico progressista, que for\u00e7ava investimentos industriais ao capital brasileiro, enquanto os ricos do pa\u00eds preferiam juros garantidos de 15% ao ano. Ao final, o processo deu no amplo predom\u00ednio pol\u00edtico dos novos fascistas, neoliberais autorit\u00e1rios, que os liberais acreditavam controlar e a esquerda cr\u00edtica evitava nomear.<\/p>\n<p>Socialmente, esse processo vis\u00edvel da pol\u00edtica significou um redesenho expressivo dos interesses de classe e das identifica\u00e7\u00f5es, das nomea\u00e7\u00f5es na politiza\u00e7\u00e3o de tudo na vida, promovida pelos \u201cconservadores\u201d brasileiros do nada. Entramos no tempo em que a mo\u00e7a que trabalha em minha casa, uma brasileira batalhadora das \u201cclasses m\u00e9dias\u201d ditas C, dos tr\u00eas ou quatro mil reais por m\u00eas, podia dizer com orgulho, a partir de sua vida no TikTok, no Instagram e nos dois programas de pastores que ouve todos os dias: \u201cEu sou de direita\u201d. E, com esta autoidentifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, criticar os pregui\u00e7osos e perversos do Bolsa Fam\u00edlia, n\u00e3o aceitar a vitimiza\u00e7\u00e3o dos negros, autorizar o massacre policial de bandidos e admirar abertamente a vida e os h\u00e1bitos dos ricos, que n\u00e3o devem ser criticados nem pensados como problema de nenhum modo.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o ideol\u00f3gica p\u00f3s-democr\u00e1tica foi feita e alimenta agora a vida dura de uma trabalhadora brasileira com o <em>surplus<\/em> do prazer desrecalcado de odiar os de baixo, os mais pobres do que ela; desde a autoriza\u00e7\u00e3o de um amplo sistema ideol\u00f3gico e de justificativas que de fato chegou ao poder pautando o desejo pol\u00edtico desde cima.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a tomada totalizante do campo antipetista pelo neofascismo, liberado estrategicamente por liberais anti-esquerda em guerra total pelo poder, h\u00e1 muito se tornou uma reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de classes e de interesses no Brasil. Baseado em estrutura simb\u00f3lica <em>s\u00e1<\/em><em>dico paranoica<\/em>; ativa\u00e7\u00e3o, com t\u00e9cnica de agora, de princ\u00edpios ps\u00edquicos muito arcaicos; o bolsonarismo se tornou movimento pol\u00edtico concreto de classes e de pr\u00e1ticas sociais correntes, redesenhados para a sua guerra, como choque antidemocr\u00e1tico, antissocial e p\u00f3s progressista. A essa altura n\u00e3o podemos mais negar a integra\u00e7\u00e3o de amplos setores de classe pactuados e interessados no sucesso da pol\u00edtica neofascista. Esses setores da vida nacional foram organizados e integrados na ordem pol\u00edtica da nova direita, e oscilam constantemente entre 20% (n\u00facleo duro permanente) e 40% (tend\u00eancia est\u00e1vel) da opini\u00e3o p\u00fablica nacional pesquisada. A tentativa massiva de golpe, com ampla base, financiamento e participa\u00e7\u00e3o popular, de 8 de janeiro de 2022, n\u00e3o foi um fen\u00f4meno social vazio, solto no ar da vida brasileira, um raio solit\u00e1rio caindo sobre Bras\u00edlia e o Brasil. De fato, o bolsonarismo convocou, organizou e armou simbolicamente \u2013 com argumentos e excitadas pr\u00e1ticas de propaganda e mentira em massa, movidas pelos pr\u00f3prios adeptos em todo o pa\u00eds \u2013 os setores sociais que passaram a marchar, por del\u00edrio e por interesse, pelo capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Passou a existir um povo de Bolsonaro, que o fascismo chama de <em>povo brasileiro<\/em>, suas bases sociais reais, que d\u00e3o lastro e d\u00e3o corpos ao movimento, e que a esquerda institucional e tamb\u00e9m a identit\u00e1ria, n\u00e3o se incomodou suficientemente em ter perdido para a democracia. N\u00e3o se trata apenas de direita versus esquerda, mas de reordena\u00e7\u00e3o intensa da pr\u00f3pria tessitura social \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Trata-se afinal, de amplos setores do agroneg\u00f3cio, de 70% dos evang\u00e9licos e de toda fam\u00edlia militar e policial em todos os Estados brasileiros. Trata-se, ainda, de qualquer tipo de miliciano, capanga, matador, garimpeiro que se espalham pelo pa\u00eds, al\u00e9m de uma classe m\u00e9dia arrivista e voraz, viciada em consumo e ostenta\u00e7\u00e3o, antissocial por tradi\u00e7\u00e3o nacional, servil ao poder e em busca de algum grau de explora\u00e7\u00e3o qualquer de algu\u00e9m. Mais hordas de pobres brasileiros de vida p\u00e9ssima, que t\u00eam apenas o ressentimento e a agress\u00e3o como pol\u00edtica, e mais os computadores que fazem c\u00e1lculos em milh\u00f5es de d\u00f3lares e de euros da Faria Lima, em busca de ajuste fiscal e de privatiza\u00e7\u00e3o para eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Isto tudo contra aquela classe geral dos <em>conhecedores<\/em>, classe m\u00e9dia urbana informada e formada, liberal, democrata dos direitos civis e humanos, de professores, cientistas, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, artistas, psic\u00f3logos e psicanalistas, muitas vezes bem pagos para acreditar em seu pr\u00f3prio mundo. E contra os pobres que mant\u00eam a \u00e1rdua consci\u00eancia de seus interesses de classe e de ra\u00e7a, que n\u00e3o se transformaram em indiv\u00edduos em busca de uma supremacia qualquer, um assalto qualquer a direitos, vida ou ambiente, o fundo real da expectativa de poder bolsonarista. Mais a consci\u00eancia popular lulista do nordeste brasileiro.<\/p>\n<p>O que vemos \u00e9 que a hegemonia integradora nacional do progressismo democr\u00e1tico, liberal social-democrata sem pressa, foi quebrada e fragmentada em outros modos de ser da pol\u00edtica. A l\u00f3gica pol\u00edtica nacional que garantiu a democracia formal at\u00e9 2016, que sabemos ser socialmente defeituosa, foi corro\u00edda, foi distorcida e foi fraturada em nome de um novo <em>real pol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tico<\/em>.<\/p>\n<p>Ela foi esburacada por uma gigantesca m\u00e1quina de interesses e sociedade, que funciona com nova t\u00e9cnica, entre a falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, o negacionismo impertinente e a certeza de que o ressentimento pode ser operado pela integra\u00e7\u00e3o dos ideais dos eus ao l\u00edder fascista, com o ganho imediato do desrecalque s\u00e1dico, pela ordem de uma primazia, um poder qualquer, sobre qualquer diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A unidade da consci\u00eancia democr\u00e1tica brasileira est\u00e1 perfurada e sitiada, por todas as pr\u00e1ticas discursivas e sociais, incluindo a\u00ed a pr\u00f3pria demencia\u00e7\u00e3o e a f\u00faria de atua\u00e7\u00e3o dos adeptos, que chamamos de neofascismo.<\/p>\n<p><strong>3. Choque e terrorismo imperial<\/strong><\/p>\n<p>A fase do neofascismo em seus v\u00ednculos com os Estados mudou.<\/p>\n<p>Muitos pensaram a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em 2018 como resultado pontual da importa\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias de ocupa\u00e7\u00e3o das redes sociais, manipula\u00e7\u00e3o e envio de not\u00edcias falsas em massa, do tipo Cambridge Analytica, a estrat\u00e9gia que elegeu Donald Trump, esquecendo que a organiza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o das novas direitas nas redes e na pol\u00edtica de assalto, no Brasil, ocorreu anos antes do epis\u00f3dio da elei\u00e7\u00e3o do fascista popular brasileiro. Os grupos de ataque \u00e0 democracia brasileira e \u00e0 Dilma Rousseff se organizaram fortemente por si mesmos desde 2011. Eles surgiram como frentes de combate ao Plano Nacional de Direitos Humanos dos governos de esquerda; \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade sobre os mortos e os desaparecidos da ditadura. No \u00e2mbito rural, como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra o avan\u00e7o da regulamenta\u00e7\u00e3o do reconhecimento de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, com base na arqueologia dos cemit\u00e9rios originais, <em>os tekohas<\/em>, conquistado pelos antrop\u00f3logos pol\u00edticos junto ao governo e, amplamente, no ressentimento de classe m\u00e9dia que se descobria conservadora, contra o estabelecimento das cotas raciais e sociais nas Universidades P\u00fablicas e movimentos semelhantes de estrutura\u00e7\u00e3o de interesses sociais e coletivos no Brasil.<\/p>\n<p>2011 \u00e9 exatamente o ano do primeiro rob\u00f4 de replica\u00e7\u00e3o e multiplica\u00e7\u00e3o de mensagens bolsonaristas nas redes. Junto com ele, o uso das redes sociais e <em>chats <\/em>de direita inundaram gradualmente a internet. Grupos de militares e ex-militares, centralizados nos Clubes Militares, se autoorganizaram para reviver farsescamente a ideia de comunismo no governo e no pa\u00eds, convocando a guerra simb\u00f3lica pela pr\u00f3pria vida, repetindo sintomas pol\u00edticos do passado, para atacar a Comiss\u00e3o da Verdade que os levava a julgamento simb\u00f3lico. Olavo de Carvalho centralizava um outro <em>hub<\/em> de cursos de extrema direita nas redes, formando pseudo fil\u00f3sofos e intelectuais no pensamento reacion\u00e1rio e supremacista branco norteamericano. A partir de 2013, com a reabertura do espa\u00e7o pol\u00edtico das ruas pela esquerda do Movimento Passe Livre, a nova direita o ocupou inteiramente e novos propagandistas neoliberais e neofascistas se tornaram <em>influencers <\/em>de internet, comunicadores e propagandistas de massa, convocando as a\u00e7\u00f5es pelo <em>impeachment <\/em>\u2013 coisas do tipo Vem pra Rua, MBL, Endireita Brasil. Apoiados na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, do ent\u00e3o juiz S\u00e9rgio Moro em conluio ilegal com o ent\u00e3o promotor evang\u00e9lico Deltan Dallagnol, em um processo que ocupava todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais nacionais, por baixo e nas ruas centenas de grupos autoorganizados para a pol\u00edtica de assalto davam legitimidade e for\u00e7avam a queda do governo eleito. Este processo, que foi uma avalanche, n\u00e3o encontrou nenhuma resist\u00eancia organizada e popular \u00e0 esquerda, paralisada no pr\u00f3prio mal-estar da exposi\u00e7\u00e3o cotidiana da grande corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras.<\/p>\n<p>Em um ano e meio de campanha cont\u00ednua, de grande engajamento popular, em 2015 e 2016, o pol\u00edtico vazio e tradicional de direita Michel Temer foi levado ao poder. Todo o movimento que redesenhou e reinventou a direita nacional se deu inteiramente <em>antes de Trum<\/em>p <em>se eleger, <\/em>com seu estrategista Stevie Bannon e a sua\u00a0 ocupa\u00e7\u00e3o das redes sociais norte-americanas.<\/p>\n<p>O resultado pol\u00edtico do golpe brasileiro foi imensamente maior do que ele pr\u00f3prio. Foi a cria\u00e7\u00e3o de uma mobiliza\u00e7\u00e3o e subjetiva\u00e7\u00e3o organizada de extrema direita no Brasil, nossa grande contribui\u00e7\u00e3o ao neofascismo do tempo. A cria\u00e7\u00e3o de fato de um <em>partido fascista brasileiro nas redes<\/em> levaria o impens\u00e1vel Bolsonaro ao poder j\u00e1 em seguida, em 2018. O mesmo partido que est\u00e1 disputando o poder agora, com todas as suas for\u00e7as, dispositvos de propaganda em massa e t\u00e9cnicas psico-pol\u00edticas favor\u00e1veis. O partido bolsonarista neofascista, que liquidou a centro direita brasileira e passou a controlar toda pol\u00edtica \u00e0 direita, por ser de massa e por ser popular, se consolidou.<\/p>\n<p>O Brasil chegava, por si mesmo, pelas pr\u00f3prias for\u00e7as, ao mesmo n\u00edvel de pa\u00edses tomados pelo populismo de extrema direita e autocracias da d\u00e9cada de 2010: as Filipinas de Duterte, a Turquia de Erdogan, a Hungria de Orb\u00e1n, a R\u00fassia de Putin.\u00a0 Com o surgimento concomitante dos movimentos xen\u00f3fobos oportunistas em outros pa\u00edses, como Espanha e Portugal, com o <em>Brexit <\/em>na Inglaterra, o crescimento do <em>Front National<\/em> de Marine Le Pen na Fran\u00e7a, a primeira elei\u00e7\u00e3o de Trump, os n\u00facleos de propaganda fascista populares espalhados pelas redes sociais se tornaram de fato um movimento mundial.<\/p>\n<p>O capitalismo em crise generalizada, do mundo do trabalho, ambiental, da corros\u00e3o do car\u00e1ter na cultura global do consumo e da propaganda, tenta regular a sua pr\u00f3pria cat\u00e1strofe, a permanente e a iminente, com a gest\u00e3o da viol\u00eancia e do exterm\u00ednio neofascista.<\/p>\n<p>Este movimento, das emerg\u00eancias do neofascismo dos anos de 2010, do qual o Brasil foi uma vanguarda, est\u00e1 sendo superado hoje em um novo est\u00e1gio. Uma nova guerra fria mundial j\u00e1 desencadeada organiza e convoca os n\u00facleos neofascistas em toda parte desde a preponder\u00e2ncia imperial norte-americana. A reelei\u00e7\u00e3o de Donald Trump em 2024 mudou a escala e a produtividade do neofascismo mundial. Ele simplesmente partiu para a a\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00e3o de direitos nos EUA \u2013 que hoje est\u00e1 censurado e busca censurar o mundo \u2013 e para a guerra, de EUA cercando a China, invadindo Venezuela e atacando o Ir\u00e3, de Israel dizimando Gaza e sua popula\u00e7\u00e3o, da R\u00fassia invadindo a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Como sabemos, e tudo no tempo \u00e9 muito expl\u00edcito e documentado dia a dia, do ponto de vista do novo Imp\u00e9rio de coer\u00e7\u00e3o e agress\u00e3o norteamericano, o Brasil deve se submeter. Trata-se de quebrar o multilateralismo do livre com\u00e9rcio, que posicionou melhor o Brasil no mundo nos anos 2000 e que, em conjunto com a\u00e7\u00f5es de transfer\u00eancia de renda e valoriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, mudou o patamar de integra\u00e7\u00e3o dos pobres na ideia de uma sociedade de consumo universal, nos primeiros governos Lula.<\/p>\n<p>O descendente cubano, anticomunista de Miami, Secret\u00e1rio de Estado norte-americano Marco Rubio, indicado como vice-rei para a incorpora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina, prepara em fogo alto todo tipo de interven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras visando a nos impingir um definitivo bolsonarismo 2.0. Sabemos o que ele significa, caso o plano, costurado e vindo diretamente dos EUA, d\u00ea certo: destrui\u00e7\u00e3o acelerada de contratos e compromissos sociais, a come\u00e7ar pelas Universidades p\u00fablicas brasileiras, ataque \u00e0 direitos civis garantidos, libera\u00e7\u00e3o do crime policial generalizado, privatiza\u00e7\u00e3o de Petrobras e Banco do Brasil, pol\u00edtica fiscal de choque, reorganiza\u00e7\u00e3o institucional autorit\u00e1ria e possivelmente um outro golpe. Os ganhos hist\u00f3ricos dif\u00edceis de algum lugar para a pobreza brasileira em alguma sociedade de compromisso regrediriam espetacularmente.<\/p>\n<p>A abertura e a globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados de 1990 e 2000, que nos tornou a todos sujeitos da ordem de consumo mundial, ao realizarmos o fluxo mundial das mercadorias e suas imagens como cultura comum, liberal ou neoliberal, se torna agora, com o avan\u00e7o da integra\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o multiplicada nas redes, a globaliza\u00e7\u00e3o do fascismo. N\u00facleos intensos de interven\u00e7\u00e3o internos e externos aos pa\u00edses s\u00e3o produzidos, como modo limite de manter a gest\u00e3o, pela libera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, do capitalismo em estado de crise generalizada.<\/p>\n<p>Aquela marca perif\u00e9rica brasileira do descompasso e do desvio da norma que era outra, os transes e as vertigens do subdesenvolvimento simult\u00e2neo da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, se tornou agora mundial. Literalmente a Terra est\u00e1 em transe.<\/p>\n<p><strong>4. Propaganda fascista e tecnologia das redes<\/strong><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a t\u00e9cnica do tempo \u2013 rede de computadores mundiais (World Wide Web), celulares como computadores pessoais conectados \u00e0 rede, facilita\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico de massas \u2013permitiu de fato a reorganiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do fascismo, em escalas nacionais e em articula\u00e7\u00f5es mundiais. O fascismo, xen\u00f3fobo, racista, sexista, violento e tradicionalista, se tornou cosmopolita de modo novo, tendo em cada c\u00e9lula individual, cada m\u00f4nada da fragmenta\u00e7\u00e3o mundial neoliberal da pol\u00edtica \u2013 liquida\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe do trabalho \u2013 um propagandista, um produtor e um propagador. Tudo isso s\u00f3 pode ocorrer a partir dos anos 2010 \u2013 o primeiro rob\u00f4 bolsonarista nas redes \u00e9 de 2011\u2026 \u2013 uma vez que o celular inteligente, ligado permanentemente \u00e0 internet, surgiu no ano de 2007.<\/p>\n<p>No Brasil, organizaram-se redes de propaganda fascista atrav\u00e9s de n\u00facleos militares, e seus interesses, atrav\u00e9s de <em>influencers <\/em>vendedores\u00a0 \u2013\u00a0 de batons a v\u00eddeo games, curso de autoajuda e psican\u00e1lise de YouTube etc. \u2013 junto com verdadeiras redes nacionais de \u201cjornalismo\u201d de extrema direta, multiplicadas nas redes, baseados em mentiras e palavras de ordem que circulam atrav\u00e9s de cortes de Tiktok, mais redes de i<em>nfluencers <\/em>religiosos e conservadores, evang\u00e9licos e cat\u00f3licos, mais <em>influencers<\/em> olavistas, mais i<em>nfluencers <\/em>do elogio da escala mundial do consumo e da ostenta\u00e7\u00e3o, e assim por diante. Toda a base de milh\u00f5es de textos, inven\u00e7\u00f5es e imagens que pressionam a vida dos adeptos, cotidianamente e a todo tempo, que sustenta a corros\u00e3o do car\u00e1ter em massa pr\u00f3pria do nosso bolsonarismo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrarmos que o espa\u00e7o p\u00fablico das comunica\u00e7\u00f5es massivas do tempo n\u00e3o \u00e9 livre e regulado pela democracia. N\u00e3o \u00e9 definido pelas estruturas dos direitos civis, com respeito aos direitos humanos universais e mesmo \u00e0 ci\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, o espa\u00e7o p\u00fablico das comunica\u00e7\u00f5es de todos n\u00f3s \u00e9 privado, controlado por c\u00e1lculos n\u00e3o abertos. O programa dos algoritmos de entrega de not\u00edcias e postagens n\u00e3o \u00e9 garantido publicamente, nem discutido democraticamente. \u00c9 feito de forma privada e blindada, com bases nos interesses pol\u00edticos e comerciais das empresas <em>globais<\/em>, mas americanas, que t\u00eam a propriedade dos sistemas de redes e comunica\u00e7\u00e3o social mundial. Poucos donos, com alt\u00edssimo poder financeiro, lucros maiores do que PIBs de pa\u00edses, e poder pol\u00edtico ocupando cadeiras nos <em>boards<\/em> decisivos do Imp\u00e9rio, regulam e possuem o continente de toda a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica e social circulando pelo mundo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a sua natural aproxima\u00e7\u00e3o do poder de Estado, neofascista, que deve garantir seus interesses globais com a manuten\u00e7\u00e3o da posse de tamanho controle social.\u00a0 Ao mesmo tempo, essas redes devem servir \u00e0 modula\u00e7\u00e3o mundial da ideologia da nova direita. A modula\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias que, diga-se de passagem, \u00e9 imanente \u00e0 pr\u00f3pria vida ideol\u00f3gica da expans\u00e3o da mercadoria mundial, sua conquista biopol\u00edtica das classes m\u00e9dias e o imp\u00e9rio da imagem de seu gozo.<\/p>\n<p>Neste n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica que nos importa, mais real em sua efic\u00e1cia de massas do que tanto de nossas pr\u00e1ticas de micropol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o e igualdade, j\u00e1 temos escancarado o programa do neofascismo real contempor\u00e2neo. O que \u00e9 mais que um programa, \u00e9 a pr\u00e1tica material real da posse de meios de produ\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O dono da empresa de plataformas de securitiza\u00e7\u00e3o e gerenciamento de dados civis e militares, Palantir, se manifestou recentemente revelando a pol\u00edtica e o horizonte de tomada de posse da vida pela gest\u00e3o neofascista, que funde a produ\u00e7\u00e3o das plataformas de dados e redes e o interesse de Estado. Em convoca\u00e7\u00e3o final ao movimento do chamado <em>Iluminismo sombrio, <\/em>de novos ide\u00f3logos de extrema direita como Nick Land, o bilion\u00e1rio do vale do sil\u00edcio Peter Thiel escreveu o manifesto de 22 teses da sua companhia, publicado em uma rede social mundial, onde podemos ler explicitamente que <em>a era da democracia liberal est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>encerrada<\/em>, <em>n<\/em><em>\u00e3o se deve admitir cr<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica aos ricos e aos poderes imperiais de Estado, povos superiores tecnologicamente s\u00e3o superiores morais e n\u00e3o devem responder <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s falsifica\u00e7\u00f5es do multiculturalismo, as empresas de tecnologia e gerenciamento de dados em massa devem servir <\/em><em>\u00e0 pol\u00ed<\/em><em>tica de interven\u00e7\u00e3o e policiamento estabelecidas pelos Estado, a era at<\/em><em>\u00f4<\/em><em>mica, que congelava os conflitos geopol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>ticos e as guerras por supremacia, foi substitu<\/em><em>\u00ed<\/em><em>da por um novo tipo de guerra liberada: a do controle informacional de popula\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00e3o generalizada por drones. <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a explicita\u00e7\u00e3o de tudo que move o neofascismo de guerra global, o que vai na cabe\u00e7a do senhorio da guerra e da ideologia, desde o seu n\u00facleo imperial norte-americano. E s\u00e3o esses ideais e novo sistema de poderes, em sociedades em novo estado de controle permanente, que est\u00e3o informando e negociando com o n\u00facleo neofascista brasileiro de Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos EUA para assessorar o assalto \u00e0s elei\u00e7\u00f5es e \u00e0 democracia brasileira.<\/p>\n<p><strong>5. Falta de combate ao fascismo, crise imanente da esquerda<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente averiguou-se (pesquisa Meio\/Ideia) que 12,5% dos eleitores acreditam que Lula morreu e o presidente em exerc\u00edcio \u00e9 um clone. Este \u00e9 o resultado do polo demencial do bolsonarismo, que tanto corr\u00f3i a percep\u00e7\u00e3o geral da vida a favor da estupidez quanto libera a atua\u00e7\u00e3o do absurdo em massa, nesse tipo de fic\u00e7\u00e3o de propaganda que unifica o grupo pol\u00edtico em redes. Nessa massa de delirantes estrat\u00e9gicos, tanto existem aqueles que acreditam na falsifica\u00e7\u00e3o industrial, em seu conte\u00fado de farsa, atestando a perda de qualquer conte\u00fado de continuidade hist\u00f3rica, quanto h\u00e1 aqueles que sabem bem que ela \u00e9 falsa, por\u00e9m gozam do direito de produzir choques simb\u00f3licos que fazem avan\u00e7ar a guerra cultural, base subjetivante da pol\u00edtica da extrema direita. Tudo isso aconteceu, e continua acontecendo, no Brasil nos \u00faltimos 15 anos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, 80 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o endividados, economicamente paralisados. A libera\u00e7\u00e3o total do cassino eletr\u00f4nico das <em>bets <\/em>pelo governo de assalto de Michel Temer gerou uma verdadeira epidemia, crise de saude p\u00fablica e financeira entre os pobres. Milh\u00f5es de jovens brasileiros s\u00f3 tem os aplicativos de entrega como meio de sobreviv\u00eancia, a nova escravid\u00e3o de ganho normal da democracia liberal, arriscando a vida todos os dias em cima de uma moto, muitas vezes alugada, sem nenhum tipo de direito. Outras centenas de milhares de brasileiros desempregados passam de dez a doze horas por dia, seis ou sete dias por semana, em um carro, calculando o pre\u00e7o do combust\u00edvel do quil\u00f4metro rodado, a taxa do aplicativo e o pre\u00e7o pago pelo passageiro, em uma tensa rela\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil e quantitativamente abstrata com a vida. Nesse trabalho infernal de S\u00edsifos p\u00f3s-modernos, eles costumam ser embalados por m\u00fasica sertaneja do agroneg\u00f3cio, programas policiais que orientam o \u00f3dio contra os mais pobres e r\u00e1dios de jornalismo de extrema direita. Acreditam que o governo s\u00f3 existe para lhes cobrar impostos, sobretaxar a sua renda limite. As escolas p\u00fablicas v\u00e3o sendo sucateadas pela pol\u00edtica de hiper explora\u00e7\u00e3o dos professores, e costumam ser desprezadas por jovens que se alfabetizam pelas redes sociais. Uma popula\u00e7\u00e3o de jovens pobres sem trabalho nem futuro na democracia t\u00e9cnica liberal \u00e9 arregimentada pelo tr\u00e1fico de drogas e seus ex\u00e9rcitos de fac\u00e7\u00f5es em guerra por sobreviv\u00eancia e mercados. Outra popula\u00e7\u00e3o vive de garimpo, grilagem e desmatamento. Nesse cen\u00e1rio, igrejas evang\u00e9licas congregam 26,9% da popula\u00e7\u00e3o, em sua maioria mulheres trabalhadoras, muitas vezes chefes de fam\u00edlia. Os pastores, reais l\u00edderes pol\u00edticos da direita brasileira, orientam o voto de 70% deles para o bolsonarismo. Tudo acontecendo na nossa cara, mas sem que vejamos bem, nas ruas, nas quebradas e em todo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Evidentemente a pol\u00edtica simb\u00f3lica, ideol\u00f3gica, da esquerda democr\u00e1tica e progressista brasileira diante deste cen\u00e1rio, at\u00e9 recentemente desconhecido ou denegado, beira o fracasso. Os ganhos materiais dos pobres brasileiros e a onda de aprova\u00e7\u00e3o lulista dos anos 2000 parecem esgotados, at\u00e9 segunda ordem, e muito pouco, do ponto de vista material e de horizonte pol\u00edtico renovador, foi oferecido ao povo brasileiro nos \u00faltimos anos. O apelo pela manuten\u00e7\u00e3o da democracia, nestas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 ret\u00f3rico e abstrato. Esse apelo n\u00e3o combateu efetivamente, politicamente, simbolicamente, psicanaliticamente, a presen\u00e7a generalizada das pr\u00e1ticas fascistas entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Apenas os salvos e beneficiados, com renda garantida e forma\u00e7\u00e3o cultural hist\u00f3rica, sabem o que significa a manuten\u00e7\u00e3o da democracia incompleta brasileira e se preocupam com ela. A vida dura e degradada, movida \u00e0 exaust\u00e3o, desespero e bala, de 100 milh\u00f5es de brasileiros que ganham at\u00e9 2.500 reais n\u00e3o reconhece a democracia dos <em>conhecedores <\/em>como algo a ser valorizado. A extrema direita explora, com raz\u00e3o de fundo, os impasses da vida ruim e da renda concentrada brasileira, orientando todo o imenso mal-estar material para a degrada\u00e7\u00e3o do entendimento do que s\u00e3o os governos de esquerda e contra a democracia t\u00e3o limitada brasileira. O fundo de seu poder \u00e9 a experi\u00eancia de sofrimento social dos pobres brasileiros, para quem, passado o tempo das bolsas sociais e da expans\u00e3o da economia brasileira no mundo, temos muito pouco a oferecer. A esquerda institucional h\u00e1 muito suspendeu toda cr\u00edtica social ao terror da desigualdade brasileira e n\u00e3o sabe como retomar uma energia hist\u00f3rica real, como teve de fato nos anos 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Diante da avalanche de mal-estar e manipula\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do impasse, oferecemos um velho princ\u00edpio do passado: o carisma de Lula, uma pol\u00edtica fr\u00e1gil e algo regressiva, como v\u00e1lvula de escape para a democracia brasileira, que todos devem ser obrigados a aceitar.<\/p>\n<p>Mas, metade do pa\u00eds que vota h\u00e1 muito tempo construiu instrumentos, discursos, pr\u00e1ticas e lideran\u00e7as para recusar esse nosso velho ideal pela raiz.<\/p>\n<p>Para saber mais:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/politica-fixada-e-cultura-global-da-imagem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/aterraeredonda.com.br\/politica-fixada-e-cultura-global-da-imagem\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/subjetivacoes-e-lugares-sociais-neofascistas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/aterraeredonda.com.br\/subjetivacoes-e-lugares-sociais-neofascistas\/<\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Ver a respeito meus trabalhos <em>Dilma Rousseff e o \u00f3dio pol\u00edtico <\/em>(Hedra, 2015) e <em>Michel Temer o fascismo comum<\/em> (Hedra, 2017) e o filme <em>Interven\u00e7\u00e3o, amor n\u00e3o quer dizer grande coisa <\/em>(2016, <a href=\"https:\/\/embaubaplay.com\/catalogo\/intervencao-amor-nao-quer-dizer-grande-coisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/embaubaplay.com\/catalogo\/intervencao-amor-nao-quer-dizer-grande-coisa\/<\/a>). Ver tamb\u00e9m <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do pudor<\/em> (Zagodoni, 2024), de Jurandir Freire Costa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tales Ab\u2019S\u00e1ber retrata a g\u00eanese do fascismo que enfrentamos e os riscos que corremos neste momento de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[348],"tags":[361,126],"edicao":[397],"autor":[200],"class_list":["post-4254","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-que-resta","tag-o-que-resta","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-80","autor-tales-absaber","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4254"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4254\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4282,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4254\/revisions\/4282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4254"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4254"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}