{"id":4256,"date":"2026-09-21T12:20:12","date_gmt":"2026-09-21T15:20:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=4256"},"modified":"2026-09-21T12:36:49","modified_gmt":"2026-09-21T15:36:49","slug":"a-cronica-do-bosque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2026\/09\/21\/a-cronica-do-bosque\/","title":{"rendered":"A cr\u00f4nica do bosque"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A cr\u00f4nica do bosque<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>\u201c<\/strong><em>(&#8230;) Seja t\u00e3<\/em><em>o verde e incans<\/em><em>\u00e1vel como estas folhas.<br \/>\n<\/em><em>Uma vida inteira n\u00e3o \u00e9 suficiente para a beleza deste mundo<br \/>\n<\/em><em>e para as responsabilidades de estar vivo<\/em><em>\u201d <\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0por D\u00e9<\/strong><strong>borah de Paula Souza<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mataram o bosque perto da minha casa no dia 4 de novembro de 2025. Quem executou o crime foram homens contratados pela construtora Tegra e a prefeitura de S\u00e3o Paulo, que deu o aval para a obra. Tudo aconteceu sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os da igreja cat\u00f3lica, que vendeu o Bosque dos Salesianos por 95 milh\u00f5es de reais. Cito esses nomes porque eles j\u00e1 foram revelados em muitas reportagens e documentos. N\u00e3o tenho receio, embora saiba que alguns vizinhos foram acionados judicialmente pela Tegra, ap\u00f3s darem entrevistas sobre o assunto. Eu tive medo que destru\u00edssem o bosque, agora o mal j\u00e1 est\u00e1 feito, n\u00e3o tenho medo de mais nada. Reluto em cham\u00e1-lo Bosque dos Salesianos, como ele \u00e9 conhecido e registrado, no Alto da Lapa, em S\u00e3o Paulo. Com esse nome, o bosque permanece ligado a uma institui\u00e7\u00e3o religiosa que se revelou insens\u00edvel \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o (at\u00e9 uma carta ao Papa foi enviada para tentar evitar o desastre que afinal aconteceu). Ocorre que o sagrado de um bosque est\u00e1 nele mesmo, em sua exuber\u00e2ncia, em suas ra\u00edzes fundas, \u00e1rvores antigas e vidas esvoa\u00e7antes, cantantes, secretas, que fazem dele morada.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos queria escrever sobre o que aconteceu. N\u00e3o consegui enquanto achei que eu deveria contar tudo, falar do absurdo tim-tim por tim-tim, bem louca mesmo, mas nem sempre foi assim. Em rela\u00e7\u00e3o aos bosques sempre fui calma e agradecida. Este era meu vizinho de quarto: eu abria as persianas pela manh\u00e3 e l\u00e1 estava ele, do outro lado da rua. Um amigo, uma janela de contempla\u00e7\u00e3o. Todos os amores que tenho na vida j\u00e1 senti algum medo de perder, nada muito grave, s\u00f3 aquela sensa\u00e7\u00e3o de que o que \u00e9 importante precisa ser protegido. Com o bosque n\u00e3o senti posse nem medo da perda, ele era frondoso, perfumado e musical. Uma caixa de resson\u00e2ncia de p\u00e1ssaros e insetos. Parecia eterno. Era fechado ao p\u00fablico e, que eu saiba, ningu\u00e9m reclamava disso. Para aqueles que o amaram, sua exist\u00eancia bastava. \u00c0s vezes, seus port\u00f5es eram abertos para uma escola pr\u00f3xima. Depois da pandemia, enternecia ver a fila das crian\u00e7as pequenas, organizada pelas professoras, passando pela cal\u00e7ada, cada uma com sua mochilinha e lancheira, para passear no bosque.<\/p>\n<p>Quando foi amea\u00e7ado de morte pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, favorecida por prefeitura e, neste caso, pela igreja, a vizinhan\u00e7a se mobilizou e me juntei ao levante. Passamos juntos por v\u00e1rios momentos intensos, inclusive algumas desconfian\u00e7as, pois criamos um grupo de zap e logo surgiu o boato de que havia \u201colheiros\u201d ali. Estava conflagrada a guerra. Participo desde ent\u00e3o do movimento Salve o Bosque. De in\u00edcio, na urg\u00eancia, algu\u00e9m contratou uma advogada para entrar na Justi\u00e7a, mas nas reuni\u00f5es que se seguiram, entendemos (com discuss\u00f5es e conflitos) que o caminho teria que ser diferente, coletivo, sem dinheiro pra ningu\u00e9m, cada um doando seu tempo e seu trabalho. Assim foi criado um mural no Instagram para divulgar um abaixo-assinado e os nossos atos. Artistas gr\u00e1ficos da regi\u00e3o criaram matrizes para produ\u00e7\u00e3o de folhetos, adesivos e cartazes, a miss\u00e3o era espalhar a not\u00edcia. Tivemos mais de 25 mil assinaturas apoiando o bosque; muitos de n\u00f3s conseguiram o aval dos s\u00edndicos para fixar cartazes e subgrupos foram criados nos pr\u00e9dios, ao redor da nossa mini-floresta.<\/p>\n<p><strong>A lei e as brechas da lei<\/strong><\/p>\n<p>Diferentemente de muitas trag\u00e9dias que a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria encena na cidade, e que p\u00f5e em discuss\u00e3o a lei das \u201ccompensa\u00e7\u00f5es\u201d (mata-se \u00e1rvores antigas e planta-se mudas em locais distantes, mudas que n\u00e3o s\u00e3o cuidadas, \u00e9 s\u00f3 pra dizer que est\u00e1 tudo legalizado), e o Plano Diretor, que estabelece regras para a ocupa\u00e7\u00e3o urbana, no caso do Bosque temos lei ambiental a nosso favor. Tanto a legisla\u00e7\u00e3o municipal quanto um decreto estadual de 1989 consideram o territ\u00f3rio zona de prote\u00e7\u00e3o ambiental, imune a corte. Por isso, e tamb\u00e9m com o respaldo da opini\u00e3o p\u00fablica, conseguimos embargar o projeto das obras, duas torres, sei l\u00e1 quantas su\u00edtes e vagas de estacionamento. Um detalhe arruinou minha alma: a Tegra construiu na frente do bosque, num velho galp\u00e3o onde antes funcionava a escola infantil, um estande para alavancar as vendas dos apartamentos de luxo. O nome do estande era <em>O\u00e1sis<\/em>, a fachada enfeitada com vasos de folhagens tropicais. Essas pessoas da Tegra, conhecida na Lapa como Desintegra, recorreram na justi\u00e7a contra o embargo e, antes que a Justi\u00e7a se pronunciasse, naquela fat\u00eddica manh\u00e3 de novembro passado, derrubaram mais de 120 \u00e1rvores, cerca de 90% do bosque. S\u00f3 restaram algumas para funcionar de paisagismo. Os advers\u00e1rios derrubam \u00e1rvores e se denominam O\u00e1sis. A degrada\u00e7\u00e3o das palavras e discursos acompanha a degrada\u00e7\u00e3o da cidade. Esse nome \u2013 o\u00e1sis \u2013 me remeteu \u00e0 \u00e9poca em que atuei como jornalista. Fiz uma viagem de trabalho para a Tun\u00edsia, visitei o deserto e l\u00e1 conheci o verdadeiro o\u00e1sis. Foi uma emo\u00e7\u00e3o muito grande, aquele ber\u00e7o de vida f\u00e9rtil em meio ao areal no norte do Saara, com regato, pedrinhas, \u00e1rvores, sombra. Um \u00fanico homem trabalhava ali: era o guardi\u00e3o das nascentes, contratado para isso, e sentia-se orgulhoso de seu of\u00edcio. Foi nessa viagem linda, minha primeira vez no mundo \u00e1rabe, que encontrei, em banheiros de hot\u00e9is, placas com alerta para a economia de \u00e1gua e a resolu\u00e7\u00e3o da ECO-92, quem se lembrar\u00e1 dela, a confer\u00eancia internacional coordenada pela ONU e realizada no Rio de Janeiro, que reuniu representantes de mais de 179 pa\u00edses, ativistas e cientistas. Era o in\u00edcio dos pactos para cuidar dos problemas ambientais. Os pactos se renovam mas n\u00e3o s\u00e3o cumpridos. Estamos vendo os efeitos do descaso em n\u00edvel local e planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estava em casa no dia da devasta\u00e7\u00e3o, estava numa fila do plano de sa\u00fade da Prevent Senior, quando o grupo do Zap explodiu de mensagens. Todo mundo correndo para o bosque, gritando, chorando, eu via nos v\u00eddeos uma jovem fot\u00f3grafa chutando os tapumes para tentar parar as m\u00e1quinas, eu queria abra\u00e7\u00e1-la, as pessoas tiveram que cont\u00ea-la para que n\u00e3o se machucasse, eu marcando exame de sangue pro meu pai, sentia meu cora\u00e7\u00e3o quebrar e a press\u00e3o cair. O bosque estava morto.<\/p>\n<p><strong>Os enlutados da cidade<\/strong><\/p>\n<p>Estas palavras est\u00e3o fora da ordem dos acontecimentos, eu sei, mas pe\u00e7o paci\u00eancia aos leitores, aquela paci\u00eancia que se tem com os que est\u00e3o de luto e recontam muitas vezes sua hist\u00f3ria, que n\u00e3o \u00e9 minha, passa por mim, mas \u00e9 da cidade. Quem mora em S\u00e3o Paulo sabe do que estou falando, haver\u00e1 de reconhecer estas palavras porque elas podem servir para o Butant\u00e3, Vila Mariana, o caso da Sena Madureira, Vila S\u00e3o Francisco, Mooca, Pinheiros. Estamos sob ataque. Mas antes do bosque cair, fizemos encontros na pracinha Virgem da Lapa, bem na frente dele, reunindo de in\u00edcio poucas pessoas, depois foi aumentando: mulheres, homens, casais jovens com carrinho de beb\u00ea, gente passeando com cachorro. Um bairro.\u00a0 Limpamos a pra\u00e7a, divulgamos a luta, marcamos abra\u00e7os em torno do parque, convidamos ativistas e vereadores, vieram pessoalmente Nabil Bonduki, Marina Bragante, Renata Falzoni, Eliseu Gabriel (criador de um projeto de parque para a \u00e1rea do bosque que ainda est\u00e1 pra ser votado na C\u00e2mara de Vereadores), o Eduardo Suplicy cantou <em>Blowin<\/em><em>&#8216;<\/em><em> In The Wind<\/em>. As \u00e1rvores ainda estavam l\u00e1. S\u00e3o as leg\u00edtimas representantes do povo Yanomami na cidade grande, segurando as pontas, o oxig\u00eanio, o ciclo das chuvas, segurando o c\u00e9u. Naquele ano de 2024, quando as amea\u00e7as come\u00e7aram, um pico de calor colocara a capital paulistana no topo do ranking mundial de pior qualidade de ar. O ranking \u00e9 realizado pelo site su\u00ed\u00e7o IQAir. Na revista da Fapesp, a manchete foi a seguinte: \u201cS\u00e3o Paulo teve o pior ar do mundo por cinco dias\u201d. O c\u00e9u ficou amarelo, empalideceu. Ningu\u00e9m podia dizer que estava desavisado do desastre (resultado de fuma\u00e7a proveniente de queimadas na Amaz\u00f4nia, Pantanal e no interior do estado), mas a dissocia\u00e7\u00e3o cognitiva produzida pelos interesses neoliberais impede as associa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Aquela l\u00f3gica bolsonarista de \u201cvamos passar a boiada\u201d continua vigorando em S\u00e3o Paulo. Onde passa boi, passa betoneira.<\/p>\n<p>Certa vez, numa manifesta\u00e7\u00e3o em torno do bosque, uma arquiteta urbanista pegou o megafone e resumiu: \u201cCada cent\u00edmetro desta cidade est\u00e1 em disputa\u201d. Revelou tamb\u00e9m que, se o bosque ca\u00edsse, o baixo Lapa sofreria inunda\u00e7\u00f5es porque na conhecida rua Pio XI, uma das esquinas do bosque, sob o asfalto, vive um c\u00f3rrego, suas nascentes est\u00e3o nas imedia\u00e7\u00f5es da Av. Cerro Cor\u00e1. O bosque trabalhava como uma imensa esponja e, com outras pra\u00e7as ao redor, absorvia o excesso de \u00e1gua. Sem a absor\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 inunda\u00e7\u00e3o. Muita gente nem imagina quantos rios (cerca de 800) est\u00e3o asfixiados sob nossas ruas. Qualquer desaten\u00e7\u00e3o pode ser a gota d\u2019\u00e1gua. Pode ser a avalanche do El Ni\u00f1o, os hospitais lotados com idosos e crian\u00e7as, as primeiras v\u00edtimas da falta de ar. A morte da cidad\u00e3 e do cidad\u00e3o vem com a morte da cidadania. Mesmo quem permanece vivo sente o amortecimento urbano, feito de barulho, poeira, escavadeiras e tapumes, pr\u00e9dios com mais de 30 andares, onde antes havia casinhas, sapateiro e padaria. Estamos ali (estamos aqui), mas a vida diminui de gra\u00e7a e intensidade.<\/p>\n<p><strong>Rota de ventos e p\u00e1<\/strong><strong>ssaros<\/strong><\/p>\n<p>Uma mulher bonita, que muito fez pelo movimento, nos contou das correntes de vento e da intensa comunica\u00e7\u00e3o entre os p\u00e1ssaros do Alto da Lapa e do maci\u00e7o do Jaragu\u00e1, a noroeste da cidade. Eu amava o bosque sem saber de seus segredos e quando soube de tanta conex\u00e3o com vento, c\u00f3rrego, chuva, animais, ele se tornou meu av\u00f4 e minha av\u00f3. O bosque est\u00e1 para n\u00f3s como o cajueiro estava para a inf\u00e2ncia do escritor Rubem Braga<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. O velho cajueiro atr\u00e1s de sua casa era apresentado aos amigos visitantes como um parente. At\u00e9 que o escritor, j\u00e1 idoso e morando no Rio, recebeu uma carta de sua irm\u00e3, dizendo que o cajueiro caiu numa tarde de ventania, rolou pela lateral da ribanceira, como se quisesse proteger o telhado da casa da fam\u00edlia. \u201cEstava carregado de flores\u201d.<\/p>\n<p>Moramos dentro de f\u00e1bulas, a percep\u00e7\u00e3o do maravilhoso \u00e9 algo que costuma acontecer quando viajamos, mas se o maravilhoso est\u00e1 na sua janela, na sua cidade, e testemunha-se um ataque, isso afeta a vida de modo direto. N\u00e3o consta das estat\u00edsticas, mas, al\u00e9m da criminalidade e inseguran\u00e7a p\u00fablica, o barulho de britadeiras e caminh\u00f5es, a sujeira, os detritos na cal\u00e7ada roubam nosso esp\u00edrito. Com a fuga dos esp\u00edritos, resta a casca vazia do cidad\u00e3o aviltado.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 em que o bosque caiu e eu estava na fila do exame, \u00e0 tarde fui encontrar a mulher bonita, essa que falou das correntes de vento em acordo com passarinhos, ela me disse que eu fui protegida por estar longe de casa na hora da morte, pois a dor dos que assistiram o massacre foi muito grande. Durante esse breve encontro na cal\u00e7ada, estacionou um carro no meio-fio e a motorista quis entender o que tinha acontecido ali. Era uma veterin\u00e1ria que, ao ser informada, come\u00e7ou a telefonar para a Pol\u00edcia Ambiental (coisa que fizemos mil vezes e foi in\u00fatil). Mesmo que a derrubada fosse permitida por lei (nunca foi!), o correto seria\u00a0 fazer o manejo dos animais residentes. Segundo a veterin\u00e1ria, naquela \u00e9poca, os ninhos dos p\u00e1ssaros estavam cheios de ovos. E nas noites seguintes, os saru\u00eas e seus filhotes come\u00e7aram a aparecer nos jardins dos pr\u00e9dios, um gamb\u00e1 foi atropelado, um macaco pequeno foi fotografado andando pelos fios. Os bichos perderam sua casa. Alguns foram recolhidos por moradores que chamaram entidades de prote\u00e7\u00e3o aos animais silvestres, outros morreram, outros se dispersaram. Quem morava l\u00e1? O Minist\u00e9rio P\u00fablico, acionado pelo nosso Movimento, j\u00e1 tinha produzido um relat\u00f3rio oficial: \u201cum grande n\u00famero de exuberantes exemplares arb\u00f3reos de grande porte, vegeta\u00e7\u00e3o considerada imune a corte (&#8230;), sabi\u00e1s-laranjeira, maritacas, papagaios, gavi\u00f5es-carcar\u00e1s, sanha\u00e7os, pica-pau e entre outras esp\u00e9cies\u201d. Numa visita de fiscaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham visto os saru\u00eas e o macaco, eles apareceram depois, desnorteados.<\/p>\n<p>Algum tempo depois que mataram o bosque, saiu o despacho de uma ju\u00edza, dizendo que ali n\u00e3o se podia cortar \u00e1rvore alguma. Mas cortaram, o crime ambiental foi feito debaixo do nosso nariz, apesar da longa e trabalhosa resist\u00eancia que contou tamb\u00e9m com depoimentos de muitos artistas. A cantora paulista N\u00e1 Ozzetti e sua irm\u00e3 flautista Marta Ozzetti apoiaram a luta desde o in\u00edcio, quando a amea\u00e7a aumentou, at\u00e9 a atriz Luc\u00e9lia Santos enviou do Rio de Janeiro um v\u00eddeo intercedendo pelo bosque. E o craque Ra\u00ed, antigo morador do bairro, apareceu em outro v\u00eddeo, com milhares de visualiza\u00e7\u00f5es, que potencializava a simpatia da popula\u00e7\u00e3o pela causa. Saiu uma leva de reportagens de novo, pois n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que derrubam \u00e1reas verdes que n\u00e3o poderiam ser derrubadas e depois tudo \u00e9 embargado, pois o que foi feito n\u00e3o poderia ter sido feito. Kafka na veia. O processo que n\u00e3o consigo processar. No meio disso tudo, o secret\u00e1rio municipal do meio ambiente tinha sido procurado em seu gabinete pelo pessoal do movimento, mas n\u00e3o disse nada relevante, pelo contr\u00e1rio, suas palavras eram escorregadias. E o prefeito, com s\u00e9quito e o tal secret\u00e1rio, resolveu marcar um ato de marketing bem na pra\u00e7a John Lennon na Lapa. A autoridade municipal estava l\u00e1 para divulgar suas incr\u00edveis a\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, tais como caminh\u00f5es de lixo movidos a biometano. E tinha meia d\u00fazia de engravatados batendo palmas frente ao palanque, quando pessoas do Movimento surgiram com uma faixa do \u201cSalve o Bosque\u201d e o questionaram sobre a situa\u00e7\u00e3o. Ele come\u00e7ou a vociferar em p\u00fablico, chamou todo mundo de baderneiro, disse que n\u00e3o \u00e9ramos civilizados, algu\u00e9m filmou, sua cara autorit\u00e1ria e cheia de \u00f3dio, pois tinha sido desmascarado, foi parar na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Com o aval da ju\u00edza, que reafirmava a lei de prote\u00e7\u00e3o ambiental, t\u00ednhamos dois documentos importantes a favor do bosque. A obra foi embargada novamente e assim permanece. Em setembro\/26 foi marcada a primeira audi\u00eancia no Tribunal de Justi\u00e7a, um relator deu voto a favor do bosque, o outro pediu vistas. Nova audi\u00eancia foi marcada e depois cancelada. A pr\u00f3xima est\u00e1 prevista para outubro.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o que era um bosque virou uma grande cratera ap\u00f3s o desmatamento. Qual ser\u00e1 o destino desse terreno? N\u00e3o se sabe ainda. O movimento Salve o Bosque deu sinal de desalento no dia da matan\u00e7a e no dia seguinte, para surpresa de muitos, decidiu continuar a luta, pede repara\u00e7\u00e3o e replantio. Nesse plano B est\u00e1 o projeto de um parque correndo na C\u00e2mara. Moradores do bairro trabalham de gra\u00e7a h\u00e1 dois anos em prol da causa verde, incluindo advogados que se sensibilizaram. Temos mais de 25 mil pessoas apoiando essa causa que pode contribuir, ao lado de outras lutas urbanas, para dar visibilidade \u00e0 ang\u00fastia da popula\u00e7\u00e3o, aos anseios por uma cidade mais arborizada, mais respeitosa com pessoas, \u00e1rvores, ninhos e nascentes, animais. Uma composi\u00e7\u00e3o com outras vidas para, literalmente, amenizar o clima.<\/p>\n<p>Do seu lado, a construtora, por ora propriet\u00e1ria de um cemit\u00e9rio de \u00e1rvores e uma grande cratera, contratou um famoso escrit\u00f3rio de advocacia para defender os interesses da empresa. Ainda no in\u00edcio da briga, e diante das v\u00e1rias reportagens que anunciaram a revolta da vizinhan\u00e7a contra a destrui\u00e7\u00e3o do verde, esse pessoal publicou um artigo na Folha de S\u00e3o Paulo, dizendo que os moradores estavam reclamando apenas porque n\u00e3o queriam perder a vista. Muitos moradores ficaram indignados, um ou outro escreveu para o jornal dando a real complexidade da situa\u00e7\u00e3o. Por mim, luto tamb\u00e9m pela \u201cvista\u201d sim, pela contempla\u00e7\u00e3o. Por que uma cidad\u00e3 n\u00e3o poderia reivindicar a beleza? Para a popula\u00e7\u00e3o, qualquer bosque \u00e9 um bem comum. Para seus destruidores, uma fonte de lucro. Para mim e a vizinhan\u00e7a o bosque \u00e9 fam\u00edlia e n\u00e3o somos os \u00fanicos. \u00c9 bom lembrar da luta demorada pelo Parque Augusta. Somos \u00f3rf\u00e3os brigando pra recuperar a casa com quintal.<\/p>\n<p><strong>Devaneios e deslocamentos<\/strong><\/p>\n<p>Nos dias que antecederam a produ\u00e7\u00e3o deste texto, me lembrei dos meus deslocamentos na cidade de S\u00e3o Paulo. Me mudei para a Lapa com minha filha h\u00e1 24 anos, ainda era um bairro sossegado. Eu vinha exilada da Pompeia, onde morei numa rua de um quarteir\u00e3o. Uma incorporadora tentou comprar minha casa, eu e meu ex-marido nos reunimos com os vizinhos, que viviam l\u00e1 h\u00e1 muito mais tempo que n\u00f3s, quando uma senhora idosa nos contou que estava sendo amea\u00e7ada diariamente. Telefonavam para ela dizendo que todo mundo j\u00e1 estava fazendo neg\u00f3cio e que a casa dela ia virar quintal do pr\u00e9dio. Depois de algumas reuni\u00f5es, regadas a caf\u00e9 com bolo, a decis\u00e3o foi que ningu\u00e9m venderia. E do nosso lado ningu\u00e9m vendeu. Mas, do outro lado da rua, a resist\u00eancia caiu e foram constru\u00eddas duas torres. Vendi minha casa (n\u00e3o para a incorporadora) a fim de fugir do caos e da minha pr\u00f3pria raiva. Sa\u00ed da rua Icoarana para a rua Acopiara. Antes, j\u00e1 tinha morado na Cotox\u00f3 e na Tucambira. Eu moro nos nomes das aldeias e hoje meu consult\u00f3rio fica na rua Cayowa\u00e1, em Perdizes. J\u00e1 tive que fugir da rua Harmonia porque a cl\u00ednica que eu dividia com amigas analistas, e que tinha pitanga e lagartixa no jardim, foi derrubada para construir pr\u00e9dios que copiam a paisagem de Nova York, um caf\u00e9 com p\u00e3o de queijo por ali custa cada vez mais caro. Sei l\u00e1, eu votei no Boulos e na Erundina, mas os paulistanos preferem Nunes e Tarc\u00edsio. O mais louco \u00e9 que quando se fala de pol\u00edtica no zap do bosque, tanta gente reclama, afirmando que n\u00e3o \u00e9 \u201cnem de direita nem de esquerda\u201d, que alguns de n\u00f3s resolvemos criar um grupo \u00e0 parte de pol\u00edtica, para reunir informa\u00e7\u00f5es sobre candidatos que tenham algum espa\u00e7o para as quest\u00f5es ambientais em suas plataformas. Recentemente saiu uma pesquisa mostrando que muitos dos candidatos ao congresso (a maioria de partidos de direita e extrema-direita) j\u00e1 foram multados por graves danos ambientais.<\/p>\n<p>Na minha perspectiva, os danos causados \u00e0 Terra s\u00e3o outra esp\u00e9cie de feminic\u00eddio, a quest\u00e3o da terra est\u00e1 no eixo do feminino, da fertilidade e das curas (e isso sem entrar no tema da reforma agr\u00e1ria e das demarca\u00e7\u00f5es de territ\u00f3rios ind\u00edgenas e quilombolas, que tamb\u00e9m referem-se \u00e0s curas e repara\u00e7\u00f5es). Quem pisa no ch\u00e3o, quem come, respira, toma \u00e1gua e entra na \u00e1gua, se estiver presente em cada um desses gestos, algo acontece. Algo que est\u00e1 na ordem do maravilhoso e tamb\u00e9m do sofrimento, ao testemunhar o ferimento no tecido. Assim como no romance intitulado <em>Bruxas<\/em>, da escritora mexicana Brenda Lozano, que diz: \u201cEmbora voc\u00ea veja uma \u00e1rvore e eu veja outra, isso est\u00e1 ligado \u00e0s suas \u00e1guas profundas, e isso \u00e9 A linguagem.\u201d Nas palavras da protagonista Feliciana, que utiliza cogumelos, ervas, cantigas e enuncia\u00e7\u00f5es para curar, n\u00e3o h\u00e1 maior poder do que o poder da Linguagem (sempre grafada em mai\u00fascula no livro) e ele est\u00e1 costurado \u00e0 capacidade de contempla\u00e7\u00e3o. Espero, com minhas palavras, ter honrado o bosque. Ele me faz falta.<\/p>\n<p><strong>Acervo do Movimento Salve o Bosque (registros do grupo)<\/strong><\/p>\n<table border=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4216 size-medium\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03a-169x300.jpg\" alt=\"Sedes Boletim 80\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03a-169x300.jpg 169w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03a-576x1024.jpg 576w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03a.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><\/td>\n<td><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4217 size-medium\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03b-225x300.jpg\" alt=\"Sedes Boletim 80\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03b-225x300.jpg 225w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03b.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/td>\n<td><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4218 size-medium\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03c-300x169.jpg\" alt=\"Sedes Boletim 80\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03c-300x169.jpg 300w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03c-768x432.jpg 768w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/b80_03c.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ep\u00edgrafe: Mary Oliver, no livro <em>Pequenas Gl<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rias, ed. C<\/em><em>\u00ed<\/em><em>rculo de Poemas.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> D\u00e9borah de Paula Souza \u00e9 poeta e psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste Boletim online.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Rubem Braga:em <em>O lavrador de Ipanema, <\/em>ed. Record.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e9borah de Paula Souza narra o desatino da voracidade construtiva que assola nossa cidade, em louvor \u00e0 morada em f\u00e1bulas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[104,325,287],"edicao":[397],"autor":[139],"class_list":["post-4256","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-cronicas","tag-feminismos","tag-meio-ambiente","edicao-boletim-80","autor-deborah-de-paula-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4256"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4274,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256\/revisions\/4274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4256"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4256"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=4256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}