{"id":574,"date":"2022-01-26T09:59:46","date_gmt":"2022-01-26T12:59:46","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=574"},"modified":"2022-04-14T23:42:51","modified_gmt":"2022-04-15T02:42:51","slug":"racismo-um-trauma-coletivo-nao-considerado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/racismo-um-trauma-coletivo-nao-considerado\/","title":{"rendered":"Racismo: um trauma coletivo n\u00e3o considerado"},"content":{"rendered":"<p><em>O Departamento de Psican\u00e1lise integra a<\/em> FLAPPSIP &#8211; Federa\u00e7\u00e3o Latino-americana de Associa\u00e7\u00f5es de Psicoterapia Psicanal\u00edtica e Psican\u00e1lise<em> &#8211; juntamente com outras nove institui\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>Como tal, recebeu um convite, por parte da<\/em> CPPL \u2013 Centro de Psicoterapia Psicoanal\u00edtica de Lima<em>\/ Peru (tamb\u00e9m inclu\u00eddo na Federa\u00e7\u00e3o) para compor uma mesa virtual de apresenta\u00e7\u00e3o de trabalhos, no seu XIX Congresso Internacional, juntamente com representantes de outras tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es membros. O tema do congresso era <\/em>El futuro por-venir: psicoanalisis entre certezas, perplejidades e incertidumbres<em> e ocorreu nos dias 22, 23 e 24 de outubro passado.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 o tema da<\/em> Mesa FLAPPSIP<em> \u2013 como s\u00e3o chamadas essas mesas compostas por institui\u00e7\u00f5es federadas \u2013, e da qual o Departamento participou, era <\/em>El lugar de la realidad en los procesos de subjetivaci\u00f3n y en la cl\u00ednica.<\/p>\n<p><em>O Grupo de Apoio FLAPPSIP do Departamento convidou a colega Marisa Corr\u00eaa da Silva, interlocutora do\u00a0<\/em>Grupo de Trabalho A Cor do Mal-Estar: psican\u00e1lise e racismo \u2013 da invisibilidade do trauma ao letramento<em>, para nos representar nessa oportunidade. O leitor do <\/em>Boletim Online<em> tem acesso, nesta publica\u00e7\u00e3o, ao texto lido por Marisa Corr\u00eaa da Silva na manh\u00e3 de 23 de outubro. Boa leitura! <\/em><\/p>\n<p><em>Grupo de Apoio FLAPPSIP\/ Departamento de Psican\u00e1lise\/ Instituto Sedes Sapientiae\/ S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"applewebdata:\/\/B516F381-B50A-42EE-804D-CE5A59D4AF9F#_edn1\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/strong><\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\">Racismo: um trauma coletivo<br \/>\nn\u00e3o considerado <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<div style=\"text-align: center;\">por <b>Marisa Corr\u00eaa da Silva <\/b><strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pensando no t\u00edtulo desta mesa me propus a falar de racismo enquanto uma realidade presente em todo o mundo, por\u00e9m curiosamente pouco abordado por n\u00f3s psicanalistas.<\/p>\n<p>Igualmente curioso \u00e9 observar o grande mal-estar que se instala quando a quest\u00e3o \u00e9 abordada, inclusive no meio psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Como poder\u00edamos entender esse mal-estar diante de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o naturalizada?<\/p>\n<p>Que mal-estar \u00e9 esse?<\/p>\n<p>O racismo \u00e9 uma pr\u00e1tica de enorme viol\u00eancia, instalada h\u00e1 s\u00e9culos no nosso cotidiano, e que, compulsoriamente, se faz presente nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido como poder\u00edamos entender na cl\u00ednica psicanal\u00edtica a pouca aten\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 uma viv\u00eancia t\u00e3o determinante?<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo responder a essas perguntas ao longo da minha exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Elas visam muito mais um convite \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 troca de impress\u00f5es entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Vou me restringir a falar sobre o racismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra por ser uma realidade impositiva no Brasil, pa\u00eds onde houve o maior n\u00famero de pessoas negras escravizadas por mais de 300 anos, e que hoje tem a sua popula\u00e7\u00e3o negra numericamente majorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Proponho-me a abordar aqui especificamente o componente traum\u00e1tico introjetado do racismo como determinante de v\u00e1rios aspectos da nossa subjetividade.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds estrutural e institucionalmente racista, n\u00e3o podemos falar de uma situa\u00e7\u00e3o de trauma enquanto um epis\u00f3dio isolado e pontual, mas sim de um processo traum\u00e1tico secular, estrutural, cumulativo, transgeracional, coletivo e introjetado que acomete toda a popula\u00e7\u00e3o de um modo complexo e com frequ\u00eancia despercebido. Um processo que adoece o sujeito sem alcan\u00e7ar muitas vezes uma representa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro foi constru\u00eddo sob uma mentalidade racista que inclusive justificou a escravid\u00e3o e garantiu que o Estado n\u00e3o reconhecesse a escravid\u00e3o como um crime hediondo, pelo contr\u00e1rio, autorizasse uma viol\u00eancia continuada.<\/p>\n<p>Quando a escravid\u00e3o e o racismo s\u00e3o negados enquanto feitos violentos, n\u00e3o sendo criminalizados, marcas traum\u00e1ticas s\u00e3o reinscritas, transcendendo as viol\u00eancias cometidas. A nega\u00e7\u00e3o do ato traum\u00e1tico funciona como um segundo momento do trauma. No caso da escravid\u00e3o e do racismo ainda houve o agravante de terem sido justificados pela afirma\u00e7\u00e3o de que um sujeito negro n\u00e3o \u00e9 necessariamente um sujeito, \u00e9 praticamente uma coisa. Dessa forma o dominador intenciona se abster da responsabilidade pela execu\u00e7\u00e3o desta viol\u00eancia, garantir seus privil\u00e9gios e a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O comprometimento \u00f3bvio da sa\u00fade mental do sujeito abusado pode gerar transtornos de comportamentos, que resultem em a\u00e7\u00f5es danosas para si e para outros.<\/p>\n<p>O dominador, que nega o seu papel de algoz, tamb\u00e9m nega a correla\u00e7\u00e3o entre este comprometimento da sa\u00fade mental e a viol\u00eancia executada e sofrida, distorce os fatos e responsabiliza o sujeito violentado de modo absoluto pelas a\u00e7\u00f5es auto e heterodestrutivas. Inscreve dessa forma neste sujeito o estigma de um ser pernicioso para a sociedade, fechando o ciclo ao se eximir da responsabilidade e culpabilizar, de forma projetiva, o sujeito abusado de ser o algoz de si mesmo.<\/p>\n<p>Neste ciclo fechado e alimentado pelo dominador identificamos uma rela\u00e7\u00e3o complexa e perniciosa entre dominado e dominador, onde, entre outros mecanismos, acontece a internaliza\u00e7\u00e3o do racismo.<\/p>\n<p>\u201cOs conceitos atuais psicanal\u00edticos apontam para definir Introje\u00e7\u00e3o como uma forma de Internaliza\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias nas rela\u00e7\u00f5es objetais. Aspectos da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que seriam internalizados e n\u00e3o o objeto.\u201d (Rosenberg, Frank)<\/p>\n<p>Em viv\u00eancias n\u00e3o traum\u00e1ticas de rela\u00e7\u00e3o objetal a introje\u00e7\u00e3o evolui temporal e processualmente para uma Identifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria madura. Se a rela\u00e7\u00e3o objetal n\u00e3o tiver sido traum\u00e1tica, as introje\u00e7\u00f5es ter\u00e3o uma fun\u00e7\u00e3o de amadurecimento do aparelho ps\u00edquico, caso contr\u00e1rio ter\u00e3o uma fun\u00e7\u00e3o muito mais defensiva.<\/p>\n<p>\u201cEm viv\u00eancias traum\u00e1ticas avassaladoras \u00e9 como se o sujeito sa\u00edsse do seu corpo e se vivenciasse como um sujeito externo ao que acontece com o seu corpo, como se esse corpo n\u00e3o fosse o seu. A partir disso h\u00e1 o desenvolvimento de transtornos das fun\u00e7\u00f5es do Eu de apreender e perceber de modo integrado, temporalmente ordenado, organizado, coerente as fun\u00e7\u00f5es sensoriais, os afetos, o pragmatismo e as fun\u00e7\u00f5es cognitivas. A consequ\u00eancia s\u00e3o os processos dissociativos destrutivos que levam a processos de regress\u00e3o, que comprometem a capacidade de simboliza\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia de identidade consigo mesmo, assim como a capacidade de perceber que a apreens\u00e3o de si mesmo e a apreens\u00e3o do objeto est\u00e3o relacionadas.<\/p>\n<p>Nesses casos de introje\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas, o fen\u00f4meno dissociativo se daria como se o peda\u00e7o do Eu que \u201csaiu do corpo\u201d ficasse como observador do outro peda\u00e7o do Eu que sofreu o trauma e vivenciasse esse peda\u00e7o do Eu, traumatizado, totalmente estranho e nocivo, como o objeto que exerceu o traumatismo.<\/p>\n<p>A gravidade das consequ\u00eancias se d\u00e1 a partir do quanto essa viv\u00eancia permanece estranha ou coerente. Com ou sem entendimento e simboliza\u00e7\u00e3o do acontecimento traum\u00e1tico. O quanto o Eu, ou parte dele, \u00e9 vivenciado como um estranho, n\u00e3o pertencente e como a outra parte do Eu lida com essa parte estranha.\u201d (Rosenberg, Frank)<\/p>\n<p>Em viv\u00eancias traum\u00e1ticas, onde as rela\u00e7\u00f5es objetais n\u00e3o podem ser integradas psiquicamente, h\u00e1 uma tentativa de defesa contra os efeitos lesivos dessa rela\u00e7\u00e3o objetal traum\u00e1tica atrav\u00e9s da clivagem e da nega\u00e7\u00e3o. Com isso as introje\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o integradas num Super Eu ou num Ideal de Eu maduros. Permanecem clivadas e depositadas na introje\u00e7\u00e3o. Em processos posteriores de elabora\u00e7\u00e3o ao longo do desenvolvimento acontece uma Identifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria imatura, global e r\u00edgida do Eu com esse introjetado devido \u00e0 n\u00e3o possibilidade de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O introjetado traum\u00e1tico seria um lugar apartado no aparelho ps\u00edquico, do qual o Eu pensante, a parte funcional do Eu, tenta simbolizar usando mecanismos de clivagem e nega\u00e7\u00e3o para se manter separado, distanciado desse introjetado traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>O introjetado traum\u00e1tico seria o resultado de uma introje\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o pode ser transformada numa representa\u00e7\u00e3o com funcionalidade simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A agress\u00e3o imposta pelo agressor \u00e0 v\u00edtima \u00e9 introjetada junto com um sentimento de culpa, que a sobrecarrega e tortura de modo intrusivo, e com o qual a v\u00edtima se identifica, libertando assim o agressor deste sentimento real de culpa. Com essa identifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e libera\u00e7\u00e3o do agressor da sua culpa, a v\u00edtima pode ter esse agressor como um objeto parcial positivo e amado, al\u00e9m de manter algo em comum, um pertencimento ao necess\u00e1rio objeto de liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o objetal traum\u00e1tica introjetada gera um ciclo vicioso: uma parte do Super Eu rejeita essa identifica\u00e7\u00e3o e a outra parte aceita. A parte que rejeita, condena o Eu pela cumplicidade com o agressor, gerando igualmente culpa e desvalia no Self, confirmando dessa forma a culpa e a desvalia introjetada. Um problema, que por si s\u00f3 pode ser insol\u00favel.<\/p>\n<p>O sujeito se fixa paradoxalmente nesta introje\u00e7\u00e3o: por um lado a vivencia como torturante, amea\u00e7adora e invasiva, por outro lado como objeto interno forte, onipotente e inating\u00edvel, possuidor de um poder que passa a desejar para si mesmo. Este fen\u00f4meno aparece no trabalho anal\u00edtico como uma resist\u00eancia narc\u00edsica dentro do processo transferencial.<\/p>\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o agressor deve ser entendida como uma tentativa de preservar a necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o parcial com o objeto. O agressor ocupa o espa\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o com o objeto interno.<\/p>\n<p>Seria um processo de identifica\u00e7\u00e3o projetiva, onde a viol\u00eancia \u00e9 tanta que a v\u00edtima se v\u00ea \u00e0 merc\u00ea do agressor, absolutamente sobrecarregada com a agress\u00e3o, regredindo para um estado onde n\u00e3o consegue mais diferenciar quem \u00e9 ela e quem \u00e9 o agressor.<\/p>\n<p>Rosenberg prop\u00f5e que o Ideal de Eu tenha tamb\u00e9m um papel importante, principalmente para a identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica com introje\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas e que o Super Eu e Ideal de Eu possam entrar em conflitos graves entre si. No caso do racismo, o Ideal de Eu imposto pelo dominador se mostra inalcan\u00e7\u00e1vel para o dominado.<\/p>\n<p>Do ponto de vista psicodin\u00e2mico, poder\u00edamos definir o trauma em quest\u00e3o como um processo de traumatiza\u00e7\u00e3o, um trauma de relacionamento, onde recorrentes e cr\u00f4nicas investidas traum\u00e1ticas s\u00e3o realizadas por pessoas; muitas vezes por pessoas com as quais se tem uma rela\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo ou de depend\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;O trauma ps\u00edquico \u00e9 um acontecimento que arrebata abruptamente a capacidade do Eu de proporcionar uma sensa\u00e7\u00e3o m\u00ednima de seguran\u00e7a e plenitude integradora, resultando que o Eu vivencie medo ou impot\u00eancia avassaladores o suficiente para se sentir amea\u00e7ado, provocando modifica\u00e7\u00f5es permanentes na organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica&#8221; (Cooper,1986, p. 44 em Bohleber).<\/p>\n<p>Um fator essencial nessa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a caracter\u00edstica repentina, disruptiva e incontrol\u00e1vel do evento traum\u00e1tico e a experi\u00eancia de tornar o Eu indefeso. A experi\u00eancia traum\u00e1tica confronta o Eu com um &#8220;fato consumado&#8221; (Furst, 1977, p. 349 em Bohleber). As rea\u00e7\u00f5es do Eu chegam tarde demais. Elas n\u00e3o acontecem como resposta a um perigo iminente, mas somente depois que ele se tornou realidade e o Eu foi passivamente rendido a esse perigo. Se o perigo \u00e9 visto como inevit\u00e1vel, o desamparo se transforma em um desistir de si mesmo. Para Krystal, esse ataque ao psiquismo do sujeito pelo agente traum\u00e1tico, que lesiona a fun\u00e7\u00e3o de defesa e a fun\u00e7\u00e3o expressiva do medo, levando \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o de ambas as fun\u00e7\u00f5es, seria o verdadeiro evento traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>O est\u00edmulo violento externo n\u00e3o se orienta nem aos interesses e est\u00e1gios de desenvolvimento do sujeito, nem \u00e0s suas necessidades narc\u00edsicas, sendo introduzido \u00e0 for\u00e7a nele, de tal forma que esse sujeito n\u00e3o tem chance de se defender do ataque. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 for\u00e7ado a assimilar a intera\u00e7\u00e3o com esse ataque dentro de si, ao mesmo tempo, que \u00e9 confrontado com um stress interno reativo e uma sobrecarga de afeto.<\/p>\n<p>Em caso de uma concomitante sub estimula\u00e7\u00e3o deste sujeito, como se v\u00ea frequentemente na popula\u00e7\u00e3o racializada que vivencia humilha\u00e7\u00e3o, abandono, priva\u00e7\u00e3o, a vulnerabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o perturbadora da experi\u00eancia traum\u00e1tica propicia a modifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do sujeito consigo mesmo e com o seu entorno, n\u00e3o s\u00f3 no momento traum\u00e1tico atual como ao longo dos processos sucessivos da sua vida.<\/p>\n<p>Os acometidos pelo trauma encontram-se num estado de choque e horror, de tal modo que as fun\u00e7\u00f5es eg\u00f3icas e supereg\u00f3icas desabam, regredindo o sujeito \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ver mais sa\u00edda para nada, havendo uma disfun\u00e7\u00e3o global de vida.<\/p>\n<p>Essa regress\u00e3o varia na depend\u00eancia dos seguintes fatores:<\/p>\n<ul>\n<li>Da frequ\u00eancia e a intensidade da experi\u00eancia traum\u00e1tica;<\/li>\n<li>Da fragilidade da estrutura eg\u00f3ica;<\/li>\n<li>Do grau de liga\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia ao agressor;<\/li>\n<li>Do tamanho da amea\u00e7a vital da viol\u00eancia traum\u00e1tica;<\/li>\n<li>Da imprevisibilidade do epis\u00f3dio traum\u00e1tico;<\/li>\n<li>Da qualidade e quantidade da prote\u00e7\u00e3o, do acolhimento e da sustenta\u00e7\u00e3o recebida.<\/li>\n<li>Da \u00e9poca de vida em que o trauma ocorre.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Nem todas as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas t\u00eam o mesmo efeito em todas as pessoas, os fatores predisponentes tamb\u00e9m devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A complexidade no caso do racismo, no meu entender, \u00e9 que h\u00e1 muitas nuances entre o estado de aprisionamento traum\u00e1tico, onde h\u00e1 quase uma paralisia e um desistir de si mesmo, e o estado de um funcionamento mental saud\u00e1vel e favor\u00e1vel a si mesmo. A const\u00e2ncia, a cronifica\u00e7\u00e3o e o efeito cumulativo das viv\u00eancias traum\u00e1ticas interferem nos mecanismos de defesa e nas express\u00f5es reativas aos est\u00edmulos externos. Rea\u00e7\u00f5es que deveriam agir a nosso favor, podem j\u00e1 n\u00e3o funcionar como de fato deveriam no cuidado da autopreserva\u00e7\u00e3o e como geradores de bem-estar e plenitude. Como se o Eu reconhecesse determinados ataques nocivos como normatizados e toler\u00e1veis, n\u00e3o resultando necessariamente numa paralisia, sem deixar, no entanto, de causar inibi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es ao seu funcionamento. Essas inibi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es, por passarem despercebidas, podem resultar em sofrimentos, sintomas e transtornos de comportamento que passam igualmente despercebidos. Como se estiv\u00e9ssemos tolerando chibatadas, nos movimentando com grilh\u00f5es no corpo e nos expressando com uma morda\u00e7a na boca, sem se dar conta disso.<\/p>\n<p>O racismo est\u00e1 internalizado em todos os que vivem em uma sociedade estruturalmente racista. Refiro-me a um processo muitas vezes inconsciente, naturalizado e aceito dentro de uma \u201cnormalidade\u201d social constitu\u00edda de estere\u00f3tipos. Esse aspecto \u00e9 de extrema import\u00e2ncia na pr\u00e1tica cl\u00ednica anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Para que a rela\u00e7\u00e3o analisando(a)-analista facilite o acesso, a representa\u00e7\u00e3o e a elabora\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias traum\u00e1ticas do racismo, essa rela\u00e7\u00e3o precisa permitir que processos intra e interps\u00edquicos de elabora\u00e7\u00e3o e simboliza\u00e7\u00e3o aconte\u00e7am tanto com o (a) analisando (a) como com o (a) analista.<\/p>\n<p>Ou seja, ambos v\u00e3o precisar se confrontar com o seu racismo internalizado. Levando-se em considera\u00e7\u00e3o que a maioria dos profissionais psicanalistas n\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por negros, como consequ\u00eancia da pr\u00f3pria discrimina\u00e7\u00e3o racial, que dificulta a ascens\u00e3o sociocultural da popula\u00e7\u00e3o negra e pobre, \u00e9 muito importante que o (a) analista n\u00e3o negro atente para que a rela\u00e7\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o reencene comportamentos racistas. O mesmo se aplica a um (a) analista negro, que passe a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o praticamente exclusiva da privilegiada popula\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n<p>Fica aqui o convite para a constru\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica transformadora, que considere esta viv\u00eancia de racismo num trabalho psicanal\u00edtico a ser realizado com muita delicadeza, com sustenta\u00e7\u00e3o do mal-estar, com sustenta\u00e7\u00e3o das transfer\u00eancias e contratransfer\u00eancias agressivas, al\u00e9m de aten\u00e7\u00e3o e respeito aos limites e \u00e0s possibilidades individuais de simboliza\u00e7\u00e3o, mentaliza\u00e7\u00e3o e confronta\u00e7\u00e3o com as experi\u00eancias traum\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Considerar o traum\u00e1tico do racismo na subjetividade e na cl\u00ednica, implica num comprometimento antirracista da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Apresenta\u00e7\u00e3o realizada em 23\/10\/2021 no XIX Congresso CPPL- Centro de Psicoterapia Psicanal\u00edtica de Lima\/Peru: \u201cEl futuro por-venir. Psicoan\u00e1lisis: entre certezas, perplejidades e incertidumbres\u201d na mesa FLAPPSIP de t\u00edtulo \u201cO lugar da realidade nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e na cl\u00ednica\u201d.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> M\u00e9dica psiquiatra e psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae; articuladora do Grupo de Trabalho, Interven\u00e7\u00e3o e Pesquisa \u201c<em>A Cor do Mal-Estar: Psican\u00e1lise e Racismo: da Invisibilidade do Trauma ao Letramento\u201d <\/em>no mesmo Departamento<em>. <\/em>Membro do Instituto Psicanal\u00edtico de Berlim \u2013 PaIB.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a o trabalho que representou o Departamento de Psican\u00e1lise no XIX Congresso Internacional do Centro de Psicoterapia Psicanal\u00edtica de Lima. 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