{"id":576,"date":"2022-01-26T10:01:24","date_gmt":"2022-01-26T13:01:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=576"},"modified":"2022-02-18T15:24:35","modified_gmt":"2022-02-18T18:24:35","slug":"proposicao-de-aquilombamento-afetivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/proposicao-de-aquilombamento-afetivo\/","title":{"rendered":"Proposi\u00e7\u00e3o de Aquilombamento Afetivo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Proposi\u00e7\u00e3o de aquilombamento afetivo <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>GTACME<\/strong><\/p>\n<p>O Grupo de Trabalho A Cor do Mal-Estar \u00e9 um grupo de estudos e pesquisa que se prop\u00f5e tamb\u00e9m e principalmente a transformar estruturas e combater o racismo.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel que, por tanto tempo, n\u00f3s, psicanalistas, tenhamos ignorado o fosso racial e social que constitui nossa sociedade? O que impediu nossa identifica\u00e7\u00e3o com essa quest\u00e3o e o que nos levou a cliv\u00e1-la de nosso imagin\u00e1rio de pertencimento? O que produziu esse despaut\u00e9rio? O fato de nossa sociedade ter negado e ignorado a luta antirracista nos faz tomar essa quest\u00e3o como prioridade. Entendemos que essa clivagem s\u00f3\u0301 pode ser explicada pela viol\u00eancia dos privil\u00e9gios da branquitude na hist\u00f3ria da Psican\u00e1lise e das institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas, o que inclui, sem d\u00favida, esta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pretendemos apresentar uma metodologia experimental de letramento racial e convidar as(os) integrantes do CD a encampar essa luta conosco. N\u00e3o temos ainda uma metodologia academicamente estruturada. Estamos construindo uma metodologia experimental, um laborat\u00f3rio psicanal\u00edtico, que teve in\u00edcio como um \u201cbig bang\u201d. A partir de nossa hist\u00f3ria como grupo, que inclui a leitura de textos, a circula\u00e7\u00e3o da fala e da escuta e a sustenta\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es e mal-estares, foram desencadeadas quest\u00f5es que remexeram o nosso racismo introjetado, clivado, recalcado, negado. Esse processo tem nos virado do avesso, nos tensionado e nos desafiado a sustentar o mal-estar e a fazer, desse trabalho conjunto, conscientiza\u00e7\u00e3o, confronta\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o do racismo.<\/p>\n<p>No GTACME vivenciamos, desde o in\u00edcio e ainda hoje, nas rela\u00e7\u00f5es intra e intersubjetivas entre os componentes do grupo, situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o, que geram enormes desconfortos por explicitarem comportamentos racistas em n\u00f3s mesmos, internalizados por causa da secular rela\u00e7\u00e3o com a nossa estrutura vigente de domina\u00e7\u00e3o. A identifica\u00e7\u00e3o desses comportamentos confirma a necessidade de nos havermos com as nossas pr\u00f3prias posturas e atitudes, se quisermos construir qualquer a\u00e7\u00e3o antirracista que cumpra verdadeiramente seu objetivo.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de quase tr\u00eas anos de trabalho tem nos levado ao entendimento de que, se queremos a\u00e7\u00f5es eficazes, precisamos sustentar esse mal-estar, essa tens\u00e3o de confronta\u00e7\u00e3o, confiando que o que nos une \u00e9 o desejo comum de combater o racismo.<\/p>\n<p>No Brasil, a maioria das institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas historicamente se constituiu no contexto da branquitude. Numa perspectiva fanoniana, propomos uma luta pol\u00edtica, concreta e simb\u00f3lica de rompimento com o \u201cmundo branco e suas m\u00e1scaras\u201d. A luta por uma psican\u00e1lise mais diversa e arejada na sua pr\u00e1tica e transmiss\u00e3o contribui para um ato de transforma\u00e7\u00e3o social. \u00c9 neste desejo comum de rejunte dos afetos que nos aquilombamos como forma de ocupar um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o da negritude e conscientiza\u00e7\u00e3o da branquitude no campo psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>O letramento racial proposto n\u00e3o \u00e9 apenas uma alfabetiza\u00e7\u00e3o conceitual do conjunto de pr\u00e1ticas baseada em cinco fundamentos, conforme cunhou a soci\u00f3loga americana France Winddance Twine<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, mas a experimenta\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas em uma dimens\u00e3o psicanal\u00edtica de desaliena\u00e7\u00e3o que nos permita questionar e denunciar a viol\u00eancia do racismo.<\/p>\n<p>Em nosso grupo, essa no\u00e7\u00e3o de letramento ganha outro desenho, outras facetas. Para n\u00f3s, letramento \u00e9 lan\u00e7ar luz negra sobre a hegem\u00f4nica raz\u00e3o branca vigente, que est\u00e1 acostumada a se impor e a n\u00e3o ser questionada. Ao resgatar as banaliza\u00e7\u00f5es e naturaliza\u00e7\u00f5es correntes, destacam-se os elementos racistas que persistem atravessando centenas de anos de nossa hist\u00f3ria, de nossos h\u00e1bitos e de nossas culturas, at\u00e9 os dias atuais, em que ainda se encontram normatizados e em processo de atualiza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m, o letramento nos convida ao desafio de olharmos para o que \u00e9 sombra em n\u00f3s mesmos e a experimentarmos o mal-estar que vem \u00e0 tona ao nos confrontarmos com o racista que est\u00e1 ali, recalcado, alimentando defesas das quais devemos nos despir como parte do processo. Permanecer diante da nossa sombra sem desviar o olhar evoca em n\u00f3s uma tens\u00e3o &#8211; tal qual o calor \u00e9 para a fus\u00e3o o elemento necess\u00e1rio para a mudan\u00e7a de estado, ou seja, \u00e9 indispens\u00e1vel para a transforma\u00e7\u00e3o. Portanto, devemos suportar e sustentar esse olhar e essa tens\u00e3o, em um exerc\u00edcio n\u00e3o apenas de autoperscruta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de permitir que sejamos vistos, pensados, questionados e que possamos pensar, a partir deste lugar de hospedeiro de um racismo que se atualiza e ganha diferentes formas e express\u00f5es a partir de n\u00f3s. Como hospedeiros, n\u00e3o somos v\u00edtimas, e sim negligentes, se n\u00e3o tratamos de nos livrar do v\u00edrus por achar que ele n\u00e3o \u00e9 letal para n\u00f3s mesmos e para nossos iguais, mas apenas para os outros.<\/p>\n<p>Como afirmamos no documento \u201cDa den\u00fancia do trauma ao manifesto do letramento\u201d, apresentado no evento interdepartamental do Instituto Sedes Sapientiae em setembro de 2020, dever\u00edamos ser \u201cuma institui\u00e7\u00e3o comprometida em desenvolver \u2018pesquisas, cursos e servi\u00e7os vinculados \u00e0 realidade brasileira e voltados para as necessidades da popula\u00e7\u00e3o economicamente menos favorecida, facilitando-lhe instrumentos para assumir seu pr\u00f3prio projeto hist\u00f3rico de liberta\u00e7\u00e3o\u2019 (parte VI da Carta de Princ\u00edpios do Sedes Sapientiae). Se a express\u00e3o \u2018popula\u00e7\u00e3o economicamente menos favorecida\u2019, que aparece em destaque em nossa Carta de Princ\u00edpios, fala de uma pobreza abstrata a ser combatida, sem corpo e sem hist\u00f3ria, hoje somos capazes de determinar com mais precis\u00e3o que parcelas da popula\u00e7\u00e3o \u2014 as assim chamadas minorias \u2014 foram destinadas a ocupar o espa\u00e7o da vulnerabilidade e da necessidade. E certamente a popula\u00e7\u00e3o negra se destaca dentre elas.\u201d<\/p>\n<p>Para o letramento no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, o GTACME prop\u00f5e o aquilombamento afetivo, isto \u00e9, a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o da palavra e dos afetos que se prop\u00f5em \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do racismo (estrutural, institucional, cotidiano&#8230;), no contexto da transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Consideramos que essa desconstru\u00e7\u00e3o implica um processo extenso a ser apenas despertado, intensificado, no momento de tal experi\u00eancia grupal.<\/p>\n<p>Importante salientar que n\u00e3o se trata de um dispositivo de car\u00e1ter pedag\u00f3gico, mas de dimens\u00e3o cl\u00ednica, de recomposi\u00e7\u00e3o de narratividades e afetos, atrav\u00e9s da sustenta\u00e7\u00e3o do mal-estar e de um espa\u00e7o aberto. O aberto oferece m\u00faltiplas possibilidades de enuncia\u00e7\u00e3o, assim como de fazer saber, atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o da palavra e da escuta. Apenas com a problematiza\u00e7\u00e3o e a \u201cquebra\u201d de vocabul\u00e1rio, c\u00f3digos e normatividades hegem\u00f4nicas \u00e9 que poderemos inventar outra maneira de pensar, cooperar e estar juntos na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Pretendemos sensibilizar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do racismo atrav\u00e9s de disparadores textuais, f\u00edlmicos, po\u00e9ticos, vivenciais e outros. Propomos grupos de 2 a 3 coordenadores e mais 15 pessoas, formados por funcion\u00e1rios, alunos e professores; sem segmenta\u00e7\u00e3o, pois entendemos que quanto mais diferentes forem as pessoas, mais rica ser\u00e1\u0301 a troca e a conviv\u00eancia. Nossa proposi\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 de 6 encontros, podendo se estender at\u00e9 8, de acordo com o andamento grupal.<\/p>\n<p>Detalhamento dos encontros:<\/p>\n<p>1) Apresenta\u00e7\u00e3o de cada participante com breve hist\u00f3rico e motiva\u00e7\u00e3o para participar do aquilombamento.<\/p>\n<p>2) Hist\u00f3ria dos quilombos (trechos de filmes, imagens e textos). \u00c9 intencional falar da hist\u00f3ria da escraviza\u00e7\u00e3o no Brasil pelo vi\u00e9s dos quilombos. Ideia de ativa\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>3) Racismo estrutural e a mis\u00e9ria ps\u00edquica diante da aliena\u00e7\u00e3o e da animaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3\u0301 do outro negro, mas do n\u00f3s, incluindo tamb\u00e9m o branco. H\u00e1 um empobrecimento do branco frente a sua aliena\u00e7\u00e3o. Ocupar politicamente os espa\u00e7os buscando pensar as estruturas de poder no campo psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>4) Racismo institucional e transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Para uma psican\u00e1lise mais arejada, \u00e9 preciso encontrar com o que os brancos denominaram de \u201cruim\u201d e romper com o ideal de branquitude, encontrar nossa ancestralidade. Romper com o manique\u00edsmo e se abrir para a produ\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica de dispositivos de cuidado e escuta de outros lugares e de forma ampliada.<\/p>\n<p>5) Racismo cotidiano e as pr\u00e1ticas antirracistas<\/p>\n<p>6) Saberes afrobrasileiros e amer\u00edndios.<\/p>\n<p>7) Hist\u00f3ria da Psican\u00e1lise no Brasil e a sua aliena\u00e7\u00e3o frente \u00e0 viol\u00eancia do racismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado pelo GTACME na reuni\u00e3o com o CD em 07\/08\/2021.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> No\u00e7\u00e3o de \u201c<em>racial literacy<\/em>\u201d, cunhada por France Winddance Twine e traduzida por Schucman (2015): \"\u00c9 um conjunto de pr\u00e1ticas, baseado em cinco fundamentos. O primeiro \u00e9 o reconhecimento da branquitude. (...) O segundo \u00e9 o entendimento de que o racismo \u00e9 um problema atual e n\u00e3o apenas um legado hist\u00f3rico. (...) O terceiro \u00e9 o entendimento de que as identidades raciais s\u00e3o aprendidas. (...) O quarto \u00e9 tomar posse de uma gram\u00e1tica e de um vocabul\u00e1rio racial. (...) O quinto \u00e9 a capacidade de interpretar os c\u00f3digos e pr\u00e1ticas 'racializadas'. Isso significa perceber quando algo \u00e9 uma express\u00e3o de racismo e n\u00e3o tentar camuflar, dizendo que foi um mal-entendido\u201d.\r\n\r\n\r\n<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GTACME apresenta metodologia experimental de letramento racial em ciclo de oficinas a ser oferecido \u00e0 comunidade do Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":577,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[51,45,40],"edicao":[13],"autor":[59],"class_list":["post-576","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-aquilombamento","tag-letramento-racial","tag-negritude","edicao-boletim-61","autor-gtacme","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=576"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1200,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576\/revisions\/1200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media\/577"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=576"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=576"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}