{"id":581,"date":"2022-01-26T10:15:40","date_gmt":"2022-01-26T13:15:40","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=581"},"modified":"2022-02-18T15:23:27","modified_gmt":"2022-02-18T18:23:27","slug":"uma-reflexao-psicanalitica-acerca-do-trauma-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/uma-reflexao-psicanalitica-acerca-do-trauma-colonial\/","title":{"rendered":"Uma reflex\u00e3o psicanal\u00edtica acerca do trauma colonial"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Uma reflex\u00e3o psicanal\u00edtica acerca do trauma colonial <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Camila Makhoul<\/strong> <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>E quando a dor vem encostar-se a n\u00f3s, enquanto um olho chora<br \/>\n<\/em><em>o outro espia o tempo procurando a solu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Concei\u00e7\u00e3o Evaristo\u00a0 <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do Brasil se pauta na viol\u00eancia. No verbo violentar. O Brasil nasce sob o ato e o signo da viol\u00eancia. Herdeiro da maior sociedade escravista moderna, o estado-na\u00e7\u00e3o brasileiro \u00e9 recheado de contradi\u00e7\u00f5es violentas, entendidas como est\u00e1gios necess\u00e1rios para o que veio a ser.<\/p>\n<p>No livro <em>Brasil: uma biografia<\/em> as autoras Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling narram a hist\u00f3ria do Brasil a partir de uma perspectiva biogr\u00e1fica que n\u00e3o exclui as ambiguidades, contradi\u00e7\u00f5es, avan\u00e7os e recuos de toda hist\u00f3ria. Elas apontam poss\u00edveis armadilhas no modo de narrar a hist\u00f3ria do Brasil por professores nas escolas, que demonstram uma maneira engessada e determinista de enxergar os acontecimentos.<\/p>\n<p>Ao relatar sobre o sistema escravocrata e a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, elas afirmam que a montagem do escravismo moderno \u00e9 articulada entre a cria\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias e seu funcionamento sob formas de grandes unidades produtoras voltadas para o mercado externo. A monocultura em larga escala exigia uma quantidade grande de trabalhadores que deveriam se submeter a uma rotina espinhosa, sem que houvesse qualquer tipo de troca entre quem dava as ordens e quem as recebia. Por esse motivo essa rela\u00e7\u00e3o, denominada como escravid\u00e3o, \u00e9 a m\u00e3o de obra compuls\u00f3ria caracterizada pela exig\u00eancia de trabalhadores alienados de sua origem, liberdade e produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideologia que se confrontava nessa \u00e9poca era o trabalho enquanto um fardo a ser cumprido, uma pena para ambos os lados: senhores e escravizados. Os discursos dominantes (da Igreja e dos propriet\u00e1rios de terra) entendiam o trabalho \u00e1rduo como uma atividade disciplinadora e civilizadora. Havia inclusive manuais que ensinavam didaticamente como transformar o escravizado em um trabalhador obediente, verdadeiros manuais de maus tratos pedag\u00f3gicos.<\/p>\n<p>\u201cA atividade produtiva, repetitiva, cansativa j\u00e1 em si violenta. Puni\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tronco exemplar, utiliza\u00e7\u00e3o de a\u00e7oite como forma de pena e humilha\u00e7\u00e3o, os ganchos e pegas no pesco\u00e7o para evitar as fugas nas matas, as m\u00e1scaras de flandres para inibir o h\u00e1bito de comer terra e assim provocar o suic\u00eddio lento e doloroso, as correntes prendendo ao ch\u00e3o; construiu-se, no Brasil, uma arqueologia da viol\u00eancia que tinha por fito constituir a figura do senhor como autoridade m\u00e1xima, cujas marcas, e a pr\u00f3pria lei, ficavam registradas no corpo escravo. Quanto ao cativo, logo depois da travessia tinha que aprender a negociar e agenciar a arte de sobreviver a submiss\u00e3o ao senhor\u201d (SCHWARCZ, STARLING, 2015, p. 92).<\/p>\n<p>O sistema do escravismo moderno se instalou com o exerc\u00edcio sofisticado da viol\u00eancia que permanece at\u00e9 hoje, tanto pelos costumes e palavras como pela pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Temos como exemplo simb\u00f3lico a nossa arquitetura dos pr\u00e9dios e casas. Se a casa-grande delimita a fronteira entre \u00e1rea social e a de servi\u00e7os, a mesma arquitetura simb\u00f3lica permanece presente nas casas e edif\u00edcios, onde o elevador de servi\u00e7o, usado n\u00e3o s\u00f3 para carga, mas tamb\u00e9m e principalmente para os empregados. Quanto a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uso como exemplo a pol\u00edcia e suas opera\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a como uma continuidade da viol\u00eancia institu\u00edda pelo escravismo.<\/p>\n<p>No estado do Rio de Janeiro, o Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica registrou 1249 mortes decorrentes de a\u00e7\u00e3o policial de janeiro a setembro de 2019, um aumento de 16% em rela\u00e7\u00e3o a 2018.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> De acordo com as pesquisas do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia, especialistas sugerem que, quando a propor\u00e7\u00e3o de mortos pela pol\u00edcia excede 10% do total de mortes, h\u00e1 fortes ind\u00edcios de execu\u00e7\u00f5es e uso abusivo de for\u00e7a.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia foi criada para cuidar de uma mercadoria de uma forma espec\u00edfica. Nos campos rurais havia muitas fugas de escravizados, as quais nem sempre geraram a forma\u00e7\u00e3o de quilombos. A fuga individual ou em grupos questionava os limites de domina\u00e7\u00e3o, pois o escravizado que fugia afrontava o princ\u00edpio da propriedade. E assim, logo cedo percebeu que as puni\u00e7\u00f5es aos fugitivos n\u00e3o bastavam, era preciso criar outros mecanismos de controle e manuten\u00e7\u00e3o da ordem escravista, a puni\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cEssa cren\u00e7a no castigo exemplar inclui diversas modalidades de pena: mutila\u00e7\u00e3o do corpo escravo infrator, para que toda a sociedade, em qualquer ocasi\u00e3o, ao ver a marca, ficasse ciente do crime por ele cometido; supl\u00edcio no pelourinho &#8211; coluna de pedra encimada com as armas e o bras\u00e3o real, s\u00edmbolo da fidelidade ao rei, erguida sempre na pra\u00e7a principal da vila, e em cujos lados pediam argolas onde costumavam ser acorrentados e a\u00e7oitados os escravos (&#8230;) \u201c(SCHWARCZ, STARLING, 2015, p.103).<\/p>\n<p>No entanto, tudo isso ainda n\u00e3o era o suficiente. As autoridades coloniais precisavam avan\u00e7ar nas buscas daqueles que continuavam fugindo. E assim desenvolveu-se uma for\u00e7a especializada na persegui\u00e7\u00e3o do escravizado fugido, uma esp\u00e9cie de tropa profissional autorizada para captura de negros fugidos nos matos e nos quilombos, com ordem para matar, incendiar e destruir os pontos de resist\u00eancia dos povos africanos. Nesse contexto, surge a figura do capit\u00e3o do mato, muitas vezes ex-escravizados que diziam conhecer melhor do que ningu\u00e9m o comportamento do fugitivo.<\/p>\n<p>Um capit\u00e3o do mato recebia sua remunera\u00e7\u00e3o diretamente do propriet\u00e1rio de escravizados que o contratara. O valor acordado era regulado pela dist\u00e2ncia entre o local da fuga e o da captura: quanto maior a dist\u00e2ncia, maior o valor. E o pagamento s\u00f3 acontecia depois da captura daquele que fugiu, vivo ou morto com a cabe\u00e7a degolada dentro do saco de couro que o capit\u00e3o carregava consigo.<\/p>\n<p>No livro <em>O medo na cidade do Rio de Janeiro<\/em>, a autora Vera Malaguti Batista escreve sobre o surgimento da pol\u00edcia no Brasil, relacionando-o com a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o que marca a configura\u00e7\u00e3o de toda sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Nessa pesquisa, Vera busca focar na difus\u00e3o do medo do caos e da desordem para aplicar estrat\u00e9gias de disciplina da popula\u00e7\u00e3o empobrecida atrav\u00e9s da hegemonia conservadora. A partir das investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, a autora analisa os discursos sobre seguran\u00e7a no Rio de Janeiro desde a \u00e9poca do Imp\u00e9rio at\u00e9 a d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo XX, comparando o medo do levante Mal\u00ea de 1835 com o medo branco dos arrast\u00f5es da d\u00e9cada de 90.<\/p>\n<p>Paralelamente, a autora nos apresenta, via discurso pol\u00edtico, jur\u00eddico-penal, m\u00e9dico e da imprensa, o\u00a0 medo generalizado no Imp\u00e9rio &#8211; de tudo o que estava acontecendo e do que estava por vir em termos de mudan\u00e7as no quadro da escravid\u00e3o no pa\u00eds. A pol\u00edcia exercia o controle nas cidades, no sentido de estancar as rebeli\u00f5es que se estabeleceram, como a Revolta dos Mal\u00eas, na Bahia, ou a Cabanagem, no Par\u00e1.\u00a0 Esses discursos abriram caminho para a pol\u00edtica de seguran\u00e7a em que os inimigos constru\u00eddos na fic\u00e7\u00e3o do medo eram desumanizados e assim criou-se uma viol\u00eancia naturalizada que se expande em diversos tipos de consequ\u00eancias como a brutaliza\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza e do povo brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cDigamos ent\u00e3o que esses discursos impressos na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo XIX proclamam por solu\u00e7\u00f5es para os medos tang\u00edveis; prop\u00f5em uma certa ordem que passa por classifica\u00e7\u00f5es e hierarquiza\u00e7\u00f5es, divide em ra\u00e7as e cores, exige ritmos e rituais nas movimenta\u00e7\u00f5es pela cidade, investe alguns de boas qualidades ao mesmo tempo em que bestializa outros. A seguran\u00e7a neste mundo s\u00f3 pode ser exercida por uma pol\u00edcia que inspire confian\u00e7a a uns e infunda terror a outros. A \u00eanfase neste conceito de pol\u00edcia e de seguran\u00e7a produziu pol\u00edticas concretas de controle social, surpreendentemente presentes e naturalizadas no Brasil contempor\u00e2neo\u201d (MALAGUTI BATISTA, 2003, p.193-194).<\/p>\n<p>A pol\u00edcia no Brasil foi criada para fazer esse controle, para tomar conta dessa popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 o capit\u00e3o do mato contempor\u00e2neo. Como dito anteriormente, o capit\u00e3o do mato tinha a fun\u00e7\u00e3o de perseguir e entregar os fugitivos aos seus donos. Essa \u00e9 a heran\u00e7a persecut\u00f3ria pautada nas quest\u00f5es raciais, de g\u00eanero e de territ\u00f3rio que a pol\u00edcia atua. A pol\u00edcia n\u00e3o toca o terror nos espa\u00e7os de elite. Ela n\u00e3o invade o territ\u00f3rio da elite branca. \u00c9 a humanidade do subalterno que invade e destr\u00f3i, no qual n\u00e3o \u00e9 evidente qual \u00e9 a norma e a lei. A pol\u00edcia vai ser sempre avaliada depois da a\u00e7\u00e3o. Primeiro mata e depois pergunta quem \u00e9. E assim se concretiza a chamada necropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Necropol\u00edtica \u00e9 um conceito desenvolvido pelo fil\u00f3sofo, historiador, te\u00f3rico pol\u00edtico e professor universit\u00e1rio camaron\u00eas Achille Mbembe que escreveu um ensaio questionando os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. Ou seja, \u00e9 o exerc\u00edcio de controle sobre mortalidade e defini\u00e7\u00e3o da vida como a implanta\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>A necropol\u00edtica portanto \u00e9 a pol\u00edtica da morte adaptada pelo Estado. Ela n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que foge a uma regra. Ela \u00e9 a regra. E Mbembe elabora esse conceito \u00e0 luz do estado de exce\u00e7\u00e3o e do estado de terror. Para explorar tal ideia o autor usa o conceito de biopol\u00edtica do Michel Foucault e para isso ele inicia suas ideias com o entendimento de que a modernidade esteve na origem de v\u00e1rios conceitos de soberania e, portanto, da biopol\u00edtica. A partir do conceito foucaultiano ele diz que a materializa\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica se d\u00e1 pela express\u00e3o da morte.<\/p>\n<p>E isso vai ter um desdobramento nas sociedades contempor\u00e2neas. A gente v\u00ea hoje um Estado que adota a pol\u00edtica da morte, o uso ileg\u00edtimo da for\u00e7a, o exterm\u00ednio e a pol\u00edtica de inimizade. Que se divide entre amigo e inimigo. N\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de servi\u00e7o de intelig\u00eancia, de combate \u00e0 criminalidade. O que se tem \u00e9 a persegui\u00e7\u00e3o daquele considerado perigoso. A necropol\u00edtica re\u00fane esses elementos, que s\u00e3o reflex\u00edveis e desdobrados no que a gente pode perceber no nosso cotidiano, na nossa chamada pol\u00edtica de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Para entender melhor esse desdobramento, Mbembe diz sobre uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o de conduzir as pessoas a morte e a elimina\u00e7\u00e3o dos inimigos do estado que vem desde os tempos do imperialismo colonial, do per\u00edodo da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQualquer relato hist\u00f3rico do surgimento do terror moderno precisar tratar da escravid\u00e3o, que pode ser considerada uma das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es da experimenta\u00e7\u00e3o biopol\u00edtica. Em muitos aspectos, a pr\u00f3pria estrutura do sistema de <em>plantation<\/em> e suas consequ\u00eancias manifesta a figura emblem\u00e1tica e paradoxal do estado de exce\u00e7\u00e3o\u201d (MBEMBE, 2003, p. 27)<\/p>\n<p>Essa figura emblem\u00e1tica e paradoxal do estado de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o que o sistema de planta\u00e7\u00e3o faz com a figura do escravizado, o transforma em uma \u201csombra personificada\u201d e o coloca sob uma condi\u00e7\u00e3o que implica em tr\u00eas perdas. Perda de um lar, perda de direitos sobre seu corpo e perda de estatuto pol\u00edtico. Isto equivale a uma domina\u00e7\u00e3o absoluta, uma aliena\u00e7\u00e3o de nascimento e uma expuls\u00e3o m\u00e1xima da humanidade. Enquanto instrumento de trabalho, o escravizado tem um pre\u00e7o, enquanto propriedade, ele tem um valor. O sujeito \u00e9 mantido vivo, mas em um estado mutilado, em um mundo fantasmag\u00f3rico de horrores e crueldade. Traz-se \u00e0 tona para a discuss\u00e3o o espet\u00e1culo dos sofrimentos infligidos ao corpo do escravizado. A viol\u00eancia praticada contra o escravizado, capricho ou ato destruidor, tem o objetivo de instigar o terror. A vida do escravizado em muitos aspectos \u00e9 uma forma de morte em vida. H\u00e1, portanto, uma desigualdade do poder sobre a vida: a condi\u00e7\u00e3o de escravo produz uma contradi\u00e7\u00e3o entre a liberdade de propriedade e a liberdade da pessoa; uma rela\u00e7\u00e3o desigual \u00e9 estabelecida ao mesmo tempo em que se afirma uma desigualdade do poder sobre a vida. Este assume a forma do com\u00e9rcio na qual a humanidade de uma pessoa \u00e9 destru\u00edda ao ponto em que se torna poss\u00edvel dizer que a vida do escravizado \u00e9 propriedade do senhor, o tornando como sombra personificada.<\/p>\n<p>O escravizado \u00e9 tratado como se n\u00e3o existisse, exceto como uma ferramenta e instrumento de produ\u00e7\u00e3o. No entanto, apesar disso, ele ou ela s\u00e3o capazes de extrair de quase qualquer objeto uma representa\u00e7\u00e3o e assim estiliz\u00e1-lo. Ou seja, o escravizado \u00e9 tido como um instrumento que fala e \u00e9 capaz de se comunicar via corpo e m\u00fasica.<\/p>\n<p>Em outros termos, o que se articula aqui \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a vida e a morte, a pol\u00edtica de crueldade e os s\u00edmbolos do abuso que tendem a se embaralhar no sistema de <em>plantation<\/em>. E o principal elemento dessa forma\u00e7\u00e3o de terror \u00e9 o entrela\u00e7amento entre biopoder, o estado de exce\u00e7\u00e3o e estado de s\u00edtio. E \u00e9 claro que a ra\u00e7a \u00e9 o ingrediente crucial para esse encadeamento.<\/p>\n<p>Por isso, Mbembe diz que o que acontece na Segunda Guerra Mundial \u00e9 a extens\u00e3o dos m\u00e9todos anteriormente usados na \u00e9poca colonial. Entretanto, o que importa para o autor \u00e9 que a col\u00f4nia representa um lugar em que a soberania consiste principalmente no exerc\u00edcio de um poder \u00e0 margem da lei e no qual a paz tende a assumir uma esp\u00e9cie de guerra sem fim. Desse modo, as col\u00f4nias eram governadas pela aus\u00eancia de lei originada da nega\u00e7\u00e3o racial de qualquer v\u00ednculo entre o colono e o colonizado. Aos olhos do colono a vida do outro selvagem \u00e9 apenas uma vida animal pass\u00edvel de ser destru\u00edda sem ser considerado um ato criminoso. Dessa forma, a guerra colonial tem suas especificidades pois n\u00e3o \u00e9 uma guerra com leis, \u00e9 uma guerra caracterizada na sua express\u00e3o m\u00e1xima de hostilidade que coloca o colono face um inimigo absoluto, o inumano.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico n\u00e3o somos mais col\u00f4nias, apesar de nunca termos deixado de ser no ponto de vista pol\u00edtico. A col\u00f4nia tinha uma expropria\u00e7\u00e3o do corpo, o corpo escravizado, um corpo moeda, objeto. O que permanece \u00e9 o corpo que \u00e9 mat\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 mais estatuto jur\u00eddico da escravid\u00e3o, mas digamos que essa escraviza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de outras formas. A partir de imagin\u00e1rios, de pol\u00edticas que definem o normal e o desviante, o bem e o mal, o belo e o feio. A gente vai vendo essas hierarquias se mantendo, o fantasma da escravid\u00e3o e da col\u00f4nia \u00e9 uma presen\u00e7a muito forte, inclusive orienta pol\u00edticas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Pensando no que aconteceu na favela da Mar\u00e9 no Rio de Janeiro em 2019: foram 16 crian\u00e7as baleadas e cinco morreram neste mesmo ano. No ano de 2020 a favela do Jacarezinho presenciou a a\u00e7\u00e3o mais letal da hist\u00f3ria carioca, foram 28 mortos em decorr\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o policial civil. O n\u00famero de policiais mortos no Rio de Janeiro \u00e9 uma coisa absurda. Eles tamb\u00e9m est\u00e3o morrendo. Quando pegamos os \u00edndices, por exemplo, de morte de jovens brancos de classe m\u00e9dia, em cidades como S\u00e3o Paulo, v\u00e3o aparecer acidentes de carros e fatalidades. Mas a incid\u00eancia de mortes por policiais se d\u00e1 com o jovem negro da periferia. Isso quer dizer que h\u00e1 uma incid\u00eancia de morte em que o Estado \u00e9 o agente, o sujeito.<\/p>\n<p>Em paralelo a isso, Mbembe recorre a Franz Fanon para explicar a l\u00f3gica do necropoder dizendo que h\u00e1 uma espacializa\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o colonial na qual condiz fundamentalmente na divis\u00e3o do espa\u00e7o em compartimentos (periferia &#8211; centro). Um espa\u00e7o que envolve a defini\u00e7\u00e3o de limites e fronteiras internas representadas por quarteis e delegacias de pol\u00edcia, pela linguagem da for\u00e7a e viol\u00eancia operando no poder de fazer morrer:<\/p>\n<p>\u201cA cidade do colonizado (&#8230;) \u00e9 um lugar de m\u00e1 fama, povoado por homens de m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o. L\u00e1 eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem l\u00e1, n\u00e3o importa onde ou como. \u00c9 um mundo sem espa\u00e7o; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizado \u00e9 uma cidade com fome, fome de p\u00e3o, de carne, de sapatos, de carv\u00e3o, de luz. A cidade do colonizado \u00e9 uma vila agachada, uma cidade ajoelhada\u201d (FANON, 1991 <em>apud<\/em> MBEMBE, 2003, p.41).<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos ir t\u00e3o longe para presenciar tal funcionamento. Os morros e o asfalto na zona sul do Rio de Janeiro, o centro e as periferias da metr\u00f3pole paulistana, o mangue e a orla na cidade \u00e0 beira-mar s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es territorialmente distintas da desigualdade de oportunidades urbanas que define nossas cidades. E \u00e9 nessa condi\u00e7\u00e3o da soberania vertical e ocupa\u00e7\u00e3o colonial que conduzem a prolifera\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de viol\u00eancia concretizados no processo de militariza\u00e7\u00e3o das favelas do Rio de Janeiro, especificamente.<\/p>\n<p>A disserta\u00e7\u00e3o de Marielle Franco, mais tarde publicada em forma de livro, mostra como a implementa\u00e7\u00e3o das UPPs (Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora) constitui-se como uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a pautada em um modelo de controle e ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio por armas oficiais.<\/p>\n<p>Segundo ela, a ocupa\u00e7\u00e3o das UPPs responde ao terror causado pelas incurs\u00f5es policiais e n\u00e3o responde ao poder das armas territoriais. Isto \u00e9, o projeto da diminui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a armada dos grupos criminosos \u00e9 arquitetado por uma pol\u00edtica que tira desses grupos o poder da circula\u00e7\u00e3o de armas e passa para as m\u00e3os dos policiais. E ent\u00e3o pode-se dizer que h\u00e1 um processo de militariza\u00e7\u00e3o que substitui a exibi\u00e7\u00e3o das armas, antes nas m\u00e3os dos grupos ditos criminosos e hoje nas m\u00e3os do bra\u00e7o armado e legal do Estado que possui o absoluto uso da for\u00e7a autorizado pela pol\u00edtica de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Para tanto, o que incorpora em tal pol\u00edtica \u00e9 o discurso de guerra contra as drogas como um projeto de iniciativa de levar \u201ca paz\u201d aos territ\u00f3rios, antes dominados pela \u201cguerra\u201d, sobretudo por meio de recursos ideol\u00f3gicos, usados como principal ferramenta para conquistar a opini\u00e3o p\u00fablica e o senso comum, a fim de sustentar as contradi\u00e7\u00f5es desta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Lembrando o que Mbembe diz sobre a ocupa\u00e7\u00e3o colonial como uma guerra sem leis, Marielle ainda acrescenta que nesse processo da ocupa\u00e7\u00e3o policial nas favelas n\u00e3o h\u00e1 uma \u201cguerra\u201d a se evidenciar. <em>\u201cO que de fato, existe, ou est\u00e1 indicado, \u00e9 uma pol\u00edtica de exclus\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o dos pobres, escondida por tr\u00e1s do projeto das UPPs\u201d.<\/em> (p. 20)<\/p>\n<p>Um dos pontos importantes que a autora traz s\u00e3o as constantes den\u00fancias de viola\u00e7\u00e3o e abusos nas UPPs: <em>\u201cs\u00e3o desacatos, xingamentos, utiliza\u00e7\u00e3o de chaves- mestras sem mandado de busca e apreens\u00e3o, agress\u00f5es, abuso de autoridade\u201d<\/em> (p.99).<\/p>\n<p>Marielle retoma que, em 2014, rememorou-se a ditadura imposta pelo golpe de 64. E aqui um exemplo vivo de que o passado se faz presente: na \u00e9poca da ditadura havia a \u201cMedalha de Bronze do Pacificador\u201d, entregue aos oficiais que se destacaram no combate aos guerrilheiros, enquanto que nas a\u00e7\u00f5es militarizadas nas favelas cariocas utiliza-se o ve\u00edculo da CORE chamado de \u201c<strong>pacificador<\/strong>\u201d. Ve\u00edculo conhecido pelos moradores como Caveir\u00e3o. E desse modo, manifesta-se a contradi\u00e7\u00e3o de um modelo chamado como pacificador mas que na sua ess\u00eancia \u00e9 militarizado, tanto em documentos oficiais como nas pr\u00e1ticas na sociedade, uma organiza\u00e7\u00e3o interna que nada se distanciou da ditadura militar e diria ainda do sistema colonial &#8211; o Duque de Caxias \u00e9, at\u00e9 hoje, o grande pacificador brasileiro.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio horroroso proponho a ideia de que o Brasil sofre de um trauma n\u00e3o elaborado: <strong>o trauma colonial. <\/strong><\/p>\n<p>Segundo o <em>Vocabul\u00e1rio de psican\u00e1lise<\/em> de Laplanche e Pontalis, o trauma \u00e9 definido como um \u201c<em>acontecimento na vida do sujeito que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patog\u00eanicos e duradouros que provoca na organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d <\/em>(LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p. 522).<\/p>\n<p>A viol\u00eancia da escraviza\u00e7\u00e3o e do colonialismo cont\u00e9m o trauma de v\u00e1rios eventos intensos para o qual a cultura -que recusa o passado escravocrata- n\u00e3o fornece aparato simb\u00f3lico e aos quais a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 incapaz de responder adequadamente pois a realidade da desumaniza\u00e7\u00e3o que o colonialismo imp\u00f4s ao povo negro (envolvendo o colono e o colonizado) \u00e9 algo que est\u00e1 aqu\u00e9m da simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u201cAl\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer\u201d, Freud fala de uma barreira protetora que permite quantidades toler\u00e1veis de excita\u00e7\u00e3o externa. Se essa barreira sofre uma esp\u00e9cie de ruptura, eis que resulta no trauma. Numa perspectiva econ\u00f4mica do psiquismo, o trauma \u00e9 caracterizado por fluxos de excita\u00e7\u00f5es que excedem o limite do sujeito devido \u00e0 imprevisibilidade da viol\u00eancia e assim o aparato ps\u00edquico \u00e9 incapaz de descarregar esse ac\u00famulo de excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia das opera\u00e7\u00f5es nas favelas cariocas n\u00e3o \u00e9 um evento isolado na hist\u00f3ria do Rio de Janeiro, mas sim um ac\u00famulo de opera\u00e7\u00f5es violentas que nos revela um padr\u00e3o hist\u00f3rico de abuso racial, que envolve n\u00e3o apenas as assombra\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia racista, mas tamb\u00e9m -como Grada Kilomba diz- as mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o.\u00a0 Embora a autora use epis\u00f3dios do racismo cotidiano como elemento principal para an\u00e1lise do trauma colonial, acredito que seja poss\u00edvel fazer tal articula\u00e7\u00e3o via epis\u00f3dios violentos da necropol\u00edtica aplicado nas favelas do Rio.<\/p>\n<p>\u201cA ideia da \u2018planta\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9, al\u00e9m disso, a lembran\u00e7a de uma hist\u00f3ria coletiva de opress\u00e3o racial, insultos, humilha\u00e7\u00e3o e dor, uma hist\u00f3ria que \u00e9 animada atrav\u00e9s do que chamo de epis\u00f3dios de racismo cotidiano. A ideia de \u2018esquecer\u2019 o passado torna-se de fato, inating\u00edvel; pois cotidiana e abruptamente, como um choque alarmante, ficamos presas\/os a cenas que evocam o passado, mas que, na verdade, s\u00e3o parte de um presente irracional. Essa configura\u00e7\u00e3o entre passado e presente \u00e9 capaz de retratar a irracionalidade do racismo cotidiano como traum\u00e1tica\u201d. (KILOMBA, p. 213).<\/p>\n<p>O Brasil vive um conjunto de efeitos p\u00f3s-traum\u00e1ticos, composto por dissocia\u00e7\u00f5es entre o bem e o mal, rupturas de mem\u00f3ria remetida ao passado violento do colonialismo, um passado que n\u00e3o cessa de n\u00e3o passar e se reatualiza nas incompreens\u00f5es da pol\u00edtica de seguran\u00e7a, no qual matamos uns aos outros.<\/p>\n<p>Muito se diz sobre um esquecimento da viol\u00eancia que vivemos, devido ao trato que esse fen\u00f4meno recebe das m\u00eddias. Como se houvesse uma desimport\u00e2ncia seletiva sobre as situa\u00e7\u00f5es de assassinatos e mortes provocados pelas inst\u00e2ncias pol\u00edticas de seguran\u00e7a ou as fac\u00e7\u00f5es criminosas. Isto \u00e9, a viol\u00eancia que acontece nas opera\u00e7\u00f5es policiais acaba por ser menos ruidosa quando tratada pela m\u00eddia, ao ponto de nos conduzir a um esquecimento, uma banaliza\u00e7\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de grande recalcado coletivo. Um recalcado no sentido de tal esquecimento ser fruto de um trabalho intenso de fazer esquecer. Por outro lado, acredito que esteja havendo outro tipo de trabalho sobre o trauma colonial, uma esp\u00e9cie de recusa da percep\u00e7\u00e3o do traum\u00e1tico &#8211; voltarei a esse ponto mais adiante. No terceiro ensaio de \u201cMois\u00e9s e o monote\u00edsmo\u201d, Freud postula dois tipos de consequ\u00eancias que o trauma provoca. S\u00e3o os efeitos positivos pelos quais repetimos o evento traum\u00e1tico, com fragmenta\u00e7\u00e3o das imagens e afetos de que decorrem os pesadelos, os esquecimentos e a invas\u00e3o de imagens violentas que, no seu conjunto, atualizam o ocorrido.<\/p>\n<p>\u201cOs efeitos do trauma s\u00e3o de dois tipos, positivos e negativos. Os primeiros s\u00e3o tentativas de fazer novamente agir o trauma, ou seja, de lembrar a viv\u00eancia esquecida ou, melhor ainda, de torn\u00e1-la real, de vivenciar de novo uma repeti\u00e7\u00e3o dela (&#8230;). Resumimos essas tentativas sob o nome de fixa\u00e7\u00f5es no trauma e de compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. (&#8230;) As rea\u00e7\u00f5es negativas perseguem a meta contr\u00e1ria: que nada dos traumas esquecidos deve ser lembrado nem repetido. Podemos resumi-los sob o nome de rea\u00e7\u00f5es de defesa. Sua express\u00e3o maior s\u00e3o as assim chamadas evita\u00e7\u00f5es, que podem se exacerbar tornando-se inibi\u00e7\u00f5es e fobias. Tamb\u00e9m essas rea\u00e7\u00f5es negativas contribuem enormemente na cria\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter; no fundo, s\u00e3o tanto fixa\u00e7\u00e3o no trauma como o oposto, mas fixa\u00e7\u00f5es com tend\u00eancia contr\u00e1ria\u201d (FREUD, p. 108).<\/p>\n<p>Esse outro efeito negativo s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es de explos\u00f5es inexplic\u00e1veis de \u00f3dio e viol\u00eancia, rea\u00e7\u00f5es de evita\u00e7\u00e3o e indiferen\u00e7a trazendo uma fraqueza e suspens\u00e3o no la\u00e7o com o outro. S\u00e3o efeitos mais dif\u00edceis de localizar pois se transmitem pelo sil\u00eancio reproduzido em ato. Isto \u00e9, diante da dor da qual se tem pressa de fugir, ao negar o trauma fazemos acontecer de novo aquilo que tentamos evitar ao m\u00e1ximo.\u00a0 As viol\u00eancias praticadas na escravid\u00e3o, aprimoradas no nazismo e nos por\u00f5es da ditadura continuam nas quebradas dos tempos atuais sem manifestar qualquer argumento ou sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 o que acontece quando vemos que no Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 morto, um menino de 14 anos \u00e9 baleado nas costas a caminho da escola, uma crian\u00e7a de 8 anos \u00e9 morta durante uma opera\u00e7\u00e3o policial ou quando a a\u00e7\u00e3o policial que termina com a morte do sequestrador de um \u00f4nibus \u00e9 considerada uma opera\u00e7\u00e3o exemplar. <em>Na hora de matar um criminoso \u2013 nesse instante est\u00e1 sendo morto um inocente<\/em>, diria Clarice.<\/p>\n<p>Partindo da l\u00f3gica ps\u00edquica proponho pensar a recusa da situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica para al\u00e9m da castra\u00e7\u00e3o. Uma recusa estrutural constitutiva da inf\u00e2ncia que passa a ser uma recusa no sentido patol\u00f3gico do narcisismo.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a da castra\u00e7\u00e3o opera ap\u00f3s um longo per\u00edodo de recusa da aus\u00eancia do p\u00eanis na mulher, vemos isso nas teorias sexuais infantis nas quais as crian\u00e7as elaboram verdades absolutas a respeito da aus\u00eancia do p\u00eanis. Essa elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo penoso mas que se faz necess\u00e1rio para condi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. No entanto, no texto \u201cEsbo\u00e7o para uma Psican\u00e1lise\u201d, Freud vai dizer que h\u00e1 proposi\u00e7\u00f5es opostas que ocorrem paralelamente. Por um lado, recusa-se o fato da percep\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia do p\u00eanis na mulher e por outro reconhece-se a aus\u00eancia do p\u00eanis na mulher. Esses dois aspectos existiam mutuamente na vida ps\u00edquica e \u00e9 o que denomina <em>cis\u00e3o do eu<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Freud nos conta que a recusa pode surgir como uma tentativa do Eu se desligar da realidade da situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, pois lan\u00e7a-se m\u00e3o da recusa como o \u00fanico recurso defensivo. Em outras palavras, o recalque n\u00e3o d\u00e1 conta da situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, h\u00e1 uma dimens\u00e3o de um transbordamento que escapa e quando isso ocorre, uma parte do Eu se submete a b\u00e1scula da presen\u00e7a e aus\u00eancia enquanto a outra segue a refer\u00eancia da c\u00e9lula narc\u00edsica n\u00e3o aceitando a dimens\u00e3o de um terceiro. E ent\u00e3o, se instala uma l\u00f3gica que n\u00e3o \u00e9 apenas um conflito, mas tamb\u00e9m contradi\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo; morte em vida da necropol\u00edtica &#8211; pois a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional n\u00e3o se perde, o que abala \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica do Eu.<\/p>\n<p>O portador da diferen\u00e7a \u00e9 a puls\u00e3o de vida mesmo que seja na articula\u00e7\u00e3o prazer- dor. O car\u00e1ter traum\u00e1tico da recusa \u00e9 um entrave para o princ\u00edpio do prazer, por isso se pensa na puls\u00e3o de morte como afirma\u00e7\u00e3o da n\u00e3o diferen\u00e7a. Na tentativa de economizar as liga\u00e7\u00f5es para sobreviv\u00eancia desse n\u00facleo interrompe-se as consequ\u00eancias do que foi percebido, e o que se mant\u00e9m \u00e9 o arranjo da cis\u00e3o do Eu, um narcisismo que n\u00e3o p\u00e1ra em p\u00e9.<\/p>\n<p>Diante da complexidade da recusa do trauma colonial proponho a ideia do funcionamento da passagem ao ato como um recurso que o Eu-Brasil se lan\u00e7a. Como se o Brasil estivesse no campo do traum\u00e1tico, um campo fragmentado.<\/p>\n<p>A passagem ao ato envolve um tipo de a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o produz uma mensagem em ato, como no caso do <em>acting out<\/em>. A passagem ao ato remete aos processos prim\u00e1rios em que h\u00e1 um predom\u00ednio da a\u00e7\u00e3o sobre o pensamento cuja tend\u00eancia dos est\u00edmulos produzidos pelos impulsos pulsionais parte para uma a\u00e7\u00e3o de descarga na qual a meta \u00e9 aliviar o aparelho ps\u00edquico da excita\u00e7\u00e3o crescente.\u00a0 Enquanto o processo secund\u00e1rio procura adiar essa descarga, dando lugar \u00e0s inst\u00e2ncias de ju\u00edzo e temporalidade, um tempo que promove adiamento e planejamento. Processo, este, que inclui o mecanismo do recalque onde o agir \u00e9 dizer, o sujeito age e resiste, e dentro disso h\u00e1 uma cena, um enredo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva D\u00e9cio Gurfinkel apresenta essa diferencia\u00e7\u00e3o dos dois modelos do agir colocando em termos como o <em>acting out &#8211; n\u00e3o estrutural <\/em>ou <em>agir estrutural<\/em>. Neste \u00faltimo, temos um funcionamento da descarga evacuativa em que o agir, torna-se uma a\u00e7\u00e3o sem sentido, j\u00e1 no <em>acting out<\/em> temos uma atividade representacional teatral que se atualiza na transfer\u00eancia. Isto \u00e9, o que se diferencia, fundamentalmente, \u00e9 a presen\u00e7a ou n\u00e3o do trabalho de simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob esse ponto D\u00e9cio diz:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Agir \u00e9 dizer, seja na teatraliza\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica, seja nos \u00ednfimos atos obsessivos, seja na cena anal\u00edtica. O <em>acting out n\u00e3o estrutural<\/em> e desencadeado pelo aumento de temperatura da transfer\u00eancia \u00e9, via de regra, uma dramatiza\u00e7\u00e3o que diz de outro modo o que quer \u201csair da linha\u201d associativa verbal, reagindo \u00e0 regra fundamental proposta pela\/o analista como um \u201cn\u00e3o\u201d oriundo da resist\u00eancia. (&#8230;) \u00c9 fundamental distinguir este falar por gestos do agir estrutural que \u00e9, no limite, pura a\u00e7\u00e3o sem sentido\u201d. (GURFINKEL, 2006, p.184).<\/p>\n<p>A viol\u00eancia do agir (da passagem ao ato), caso t\u00edpico de certas formas de suic\u00eddio ou de formas de viol\u00eancia nas quais n\u00e3o se trata da afirma\u00e7\u00e3o de um sujeito ou de uma produ\u00e7\u00e3o de mensagem em ato, produz uma viol\u00eancia que n\u00e3o s\u00f3 se direciona a personagens espec\u00edficos, mas tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de \u00f3dio contra o simb\u00f3lico. Ou seja, quando h\u00e1 um poder sobre matar a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre estou me referindo a viol\u00eancia tipicamente produzida para matar a hist\u00f3ria e avessa ao reconhecimento da alteridade, da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A temporalidade est\u00e1 comprometida pois me parece que estamos dando pulos sem considerar o enredo da hist\u00f3ria brasileira. Os eventos que aconteceram no passado s\u00e3o vivenciados como se estivesse ocorrendo no presente. O passado agride o presente. Um presente assombrado pelo passado invasivo da escravid\u00e3o, como se a escravid\u00e3o fosse uma hist\u00f3ria assombrada que foi enterrada indevidamente.<\/p>\n<p>Quando vemos uma taxa exponencial de homic\u00eddios causados pelos conflitos policiais, \u00e9 evidente que a a\u00e7\u00e3o vem antes do planejamento. Pondo em pr\u00e1tica o fazer morrer em vida mbembiano. \u00c9 como se fosse a imbrica\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte, na qual a simboliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em fal\u00eancia e o que nos resta \u00e9 a a\u00e7\u00e3o sem sentido.<\/p>\n<p>Diante dessa confus\u00e3o colonial a no\u00e7\u00e3o de temporalidade pode nos ajudar a pensar poss\u00edveis sa\u00eddas para esses atos de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, vimos que a temporalidade favorece ao sujeito se apropriar do que vive, colocando-o em rela\u00e7\u00e3o entre as capacidades elaborativas e os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o. Para tanto, pensar a no\u00e7\u00e3o de temporalidade envolve tamb\u00e9m pensar nas inst\u00e2ncias dos ideais, pois esse processo implica um adiamento da satisfa\u00e7\u00e3o para encontrar o objeto de desejo. E \u00e9 no \u00c9dipo que o sujeito se v\u00ea diante das interdi\u00e7\u00f5es, embora haja outros caminhos que s\u00e3o poss\u00edveis, uma ren\u00fancia pode ser feita com a promessa de uma satisfa\u00e7\u00e3o futura. E \u00e9 nos ideais da cultura que se oferecem pistas para esse rumo, pois \u00e9 na experi\u00eancia com o outro que se fornece mem\u00f3rias como tamb\u00e9m espa\u00e7os ps\u00edquicos para a constitui\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria. Um Eu que manuseia essas mem\u00f3rias tamb\u00e9m \u00e9 fruto dessa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise social brasileira (e mundial) em que estamos vivendo contrasta as percep\u00e7\u00f5es em torno dos imagin\u00e1rios de cordialidades do pa\u00eds tropical e retira, ciente do curto-circuito, o que resta da prote\u00e7\u00e3o da j\u00e1 desencapada viol\u00eancia institu\u00edda no territ\u00f3rio brasileiro. Somos lan\u00e7ados em um mundo dif\u00edcil de estar pois nos tira do conforto da ignor\u00e2ncia que cobre com hipocrisia os danos causados pela escravid\u00e3o, do colonialismo e que infelizmente tecem o nosso cotidiano, no qual insistimos em desviar o olhar.<\/p>\n<p>Disso, \u00e9 pela transmiss\u00e3o da hist\u00f3ria, dos ideais da cultura que podemos tecer uma rede de sentidos, deslocamentos e produ\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas para uma coletividade capaz de recorrer \u00e0 transmiss\u00e3o pelos antepassados. Coloca-se a possibilidade de um vivido se inserir na hist\u00f3ria e se acomodar como algo que aconteceu no passado, podendo construir uma mem\u00f3ria apta a passar por transforma\u00e7\u00f5es e enfrentamentos do que foi a brutalidade colonial e as consequ\u00eancias da ditadura. Pois quem pensa, age, sente em ang\u00fastia s\u00e3o todos, cada um na sua perspectiva, mas em um coletivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>MBEMBE, Achille. <em>Necropol\u00edtica: biopoder, soberania, estado de exce\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica de morte. <\/em>Trad.\u00a0 Renata Santini. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n<p>DUNKER, Christian. Somos todos v\u00e2ndalos? in <em>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade &#8211; pol\u00edticas do sofrimento cotidiano.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2017.<\/p>\n<p>FRANCO, Marielle. <em>UPP &#8211; A redu\u00e7\u00e3o da favela a tr\u00eas letras: uma an\u00e1lise da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica do estado do Rio de Janeiro.<\/em> S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. <em>Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo, Comp\u00eandio de psican\u00e1lise e outros textos. <\/em>Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/p>\n<p>GURFINKEL, Decio. A cl\u00ednica do agir. In VOLICH, Rubens M., FERRAZ, Fl\u00e1vio C. e RAN\u00d1A, Wagner (orgs.).\u00a0 <em>Psicossoma IV &#8211; Corpo, hist\u00f3ria e pensamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 2008.<\/p>\n<p>GURFINKEL, Decio. Teatro de Transfer\u00eancia e cl\u00ednica do agir. In FUKS, Lucia B., FERRAZ Fl\u00e1vio C. (orgs). <em>O sintoma e suas faces.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escuta\/ Fapesp, 2006.<\/p>\n<p>KEHL, Maria Rita. Temporalidade e experi\u00eancia. in <em>O tempo e o c\u00e3o: atualidade das depress\u00f5es.<\/em> S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p>KILOMBA, Grada. <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o &#8211; epis\u00f3dios de racismo cotidiano.<\/em> Trad.\u00a0 Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2019.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. <em>Vocabul\u00e1rio da psican\u00e1lise.<\/em> Trad.\u00a0 Pedro Tamen. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>MALAGUTI BATISTA, Vera. <em>O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma hist\u00f3ria. <\/em>Rio de Janeiro: Revan, 2003.<\/p>\n<p>REVISTA RADIS. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, n. 205, out 2019.<\/p>\n<p>SCHWARCZ, Lilia M., STARLING, Heloisa M. Toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1: o sistema escravocrata e a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. in <em>Brasil: uma biografia<\/em> &#8211; 1 ed. &#8211; S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> O texto a seguir, com pequenas modifica\u00e7\u00f5es, foi preparado e apresentado em 2019 como trabalho final do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista e Acompanhante terap\u00eautica. Graduada em Psicologia pela PUC-SP,\u00a0ex-aluna do Instituto Amma Psique e Negritude e do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Integrante da Equipe Andarilhas no Centro de Reabilita\u00e7\u00e3o\u00a0e Hospital Dia do IPQ do Hospital das Cl\u00ednicas\u00a0- SP e membro do Grupo Foz-\u00a0N\u00facleo de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o\u00a0em Pr\u00e1ticas do Cuidado.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Atualizando para o ano de 2020, o n\u00famero de homic\u00eddios cometidos pela for\u00e7a policial aumentou, batendo um novo recorde. Foram 741 v\u00edtimas nos cinco primeiros meses de 2020, o que equivale a quase cinco pessoas mortas diariamente no RJ por agentes do estado.\r\n\r\n\r\n<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um convite de Camila Makhoul aos deslocamentos: ao inv\u00e9s de apagamento, afirma\u00e7\u00e3o; ao inv\u00e9s de esquecimento, transmiss\u00e3o de uma hist\u00f3ria coletiva;<br \/>\nao inv\u00e9s de aliena\u00e7\u00e3o, enfrentamento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[40,52],"edicao":[13],"autor":[64],"class_list":["post-581","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-negritude","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-61","autor-camila-makhoul","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=581"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1186,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions\/1186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=581"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=581"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}