{"id":584,"date":"2022-01-26T10:52:51","date_gmt":"2022-01-26T13:52:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=584"},"modified":"2022-02-18T15:23:09","modified_gmt":"2022-02-18T18:23:09","slug":"passado-colonial-presente-traumatico-o-racismo-sob-o-olhar-da-psicanalise-freudiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/passado-colonial-presente-traumatico-o-racismo-sob-o-olhar-da-psicanalise-freudiana\/","title":{"rendered":"Passado colonial, presente traum\u00e1tico: o racismo sob o olhar da psican\u00e1lise freudiana"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Passado colonial, presente traum\u00e1tico: o racismo sob o olhar da psican\u00e1lise freudiana <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Roberta Veloso de Matos <\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cO tempo passa<br \/>\n<\/em><em>sem n\u00famero e calend\u00e1rio,<br \/>\n<\/em><em>o opressor volta<br \/>\n<\/em><em>com outros inconscientes<br \/>\n<\/em><em>com armas<br \/>\n<\/em><em>e dinheiro,<br \/>\n<\/em><em>mas eu os fa\u00e7o correr<\/em><em>\u2026\u201d<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Solano Trindade,<em> Canto dos Palmares<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em 2020 um sintoma social brasileiro ficou ainda mais escancarado e, puxado pelas manifesta\u00e7\u00f5es decorrentes do assassinato de George Floyd por policiais nos Estados Unidos, o racismo negado pela sociedade brasileira foi colocado no div\u00e3. Tendo como espinha dorsal os conceitos de tempo, mem\u00f3ria e trauma freudianos, a partir das discuss\u00f5es levantadas por Grada Kilomba em seu livro <em>Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o<\/em>, acerca da ferida traum\u00e1tica do sujeito negro, pretendo discorrer, neste trabalho de finaliza\u00e7\u00e3o do primeiro ano do curso Conflito e Sintoma, sobre como tais feridas vivenciadas pela popula\u00e7\u00e3o negra na hist\u00f3ria colonial se atualizam no presente: \u201c<em>\u00e9 como se esses doentes jamais tivessem superado a situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, ou seja, como se essa tarefa ainda se apresentasse diante deles, atual e intacta\u2026\u201d <\/em>(Freud, 1917, p. 367).<\/p>\n<p>Pensar o racismo como um sintoma social brasileiro parte da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de Freud de como o sintoma se forma, qual \u00e9 o caminho\u00a0 percorrido para sua forma\u00e7\u00e3o: <em>\u201cse configuraria como uma forma\u00e7\u00e3o de compromisso, resultante de um conflito, uma luta entre o recalque do saber n\u00e3o sabido do INCONSCIENTE versus a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional\u201d<\/em>, escreveu Luc\u00eda Barbero Fuks, uma das coordenadoras do curso em quest\u00e3o, em seu texto \u201cO sintoma\u201d por ocasi\u00e3o da aula inaugural.<\/p>\n<p>Poderia estabelecer aqui uma articula\u00e7\u00e3o do sintoma social do racismo com os mecanismos de nega\u00e7\u00e3o e a manifesta\u00e7\u00e3o perversa, como Grada faz, por\u00e9m n\u00e3o teria ainda os recursos te\u00f3ricos necess\u00e1rios para tal explana\u00e7\u00e3o. Entretanto, considero importante, mesmo que brevemente, evocar como esta potente constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica faz uso de conceitos da psican\u00e1lise para pensar o racismo e como ele opera na subjetividade do sujeito branco e na estrutura social:<\/p>\n<p><em>No racismo, a nega\u00e7\u00e3o \u00e9 usada para manter e legitimar estruturas violentas de exclus\u00e3o racial: \u201cElas\/es querem tomar o que \u00e9 Nosso, por isso Elas\/es t\u00eam de ser controladas\/os\u201d. A informa\u00e7\u00e3o original e elementar &#8211; \u201cEstamos tomando o que \u00e9 Delas\/es\u201d &#8211; \u00e9 negada e projetada sobre a\/o \u201cOutra\/o\u201d &#8211; \u201celas\/eles est\u00e3o tomando o que \u00e9 Nosso\u201d &#8211; , o sujeito negro torna-se ent\u00e3o aquilo a que o sujeito branco n\u00e3o quer ser relacionado. Enquanto o sujeito negro se transforma em inimigo intrusivo, o branco torna-se v\u00edtima compassiva, ou seja, o opressor torna-se o oprimido e o oprimido, o tirano. Esse fato \u00e9 baseado em processos nos quais partes cindidas da psique s\u00e3o projetadas para fora, criando o chamado \u201cOutro\u201d, sempre como antagonista do \u201ceu\u201d (self). Essa cis\u00e3o evoca o fato de que o sujeito branco de alguma forma est\u00e1 dividido dentro de si pr\u00f3prio, pois desenvolve duas atitudes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade externa: somente uma parte do ego &#8211; a parte \u201cboa\u201d, acolhedora e benevolente &#8211; \u00e9 vista e vivenciada como \u201ceu\u201d e o resto &#8211; a parte \u201cm\u00e1\u201d, rejeitada e mal\u00e9vola &#8211; \u00e9 projetada sobre a\/o \u201cOutra\/o\u201d como algo externo. O sujeito negro torna-se ent\u00e3o tela de proje\u00e7\u00e3o daquilo que o sujeito branco teme reconhecer sobre si mesmo, neste caso: a ladra ou o ladr\u00e3o violenta\/o, a\/o bandida\/o indolente e maliciosa\/o. Tais aspectos desonrosos, cuja intensidade causa extrema ansiedade, culpa e vergonha, s\u00e3o projetados para o exterior como um meio de escapar dos mesmos.<\/em> (Kilomba, 2019, p. 34).<\/p>\n<p>Como sintoma social estruturado e estruturante das rela\u00e7\u00f5es sociorraciais na hist\u00f3ria brasileira, a fala de outra coordenadora do curso, Ana Maria Sigal, tamb\u00e9m na ocasi\u00e3o da aula inaugural, traz a dimens\u00e3o de como \u00e9 imposs\u00edvel pensar o sujeito sem levar em conta seu contexto hist\u00f3rico: <em>\u201ca psican\u00e1lise nos confronta com um sujeito que se estrutura na pr\u00f3pria hist\u00f3ria, hist\u00f3ria singular que o determina e que transcorre sujeita ao momento social e cultural que o determina\u201d.<\/em> Tal fala \u00e9 crucial para o tema deste projeto, j\u00e1 que o momento social presente que atravessamos \u00e9 carregado de um passado n\u00e3o elaborado que vem marcando negras e negros, assim como brancas e brancos no presente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, apesar da escritora n\u00e3o relatar especificamente o racismo em nosso pa\u00eds &#8211; o que n\u00e3o deixa de ser poss\u00edvel, afinal tamb\u00e9m somos um povo colonizado &#8211; na introdu\u00e7\u00e3o, ela evoca o valor dos acontecimentos em diferentes tempos: <em>\u201ccome\u00e7o este livro lembrando do passado a fim de entender o presente, e crio um di\u00e1logo constante entre ambos, j\u00e1 que o racismo cotidiano incorpora uma cronologia que \u00e9 atemporal\u201d <\/em>(Kilomba, 2019, p.29). Freud, no in\u00edcio dos estudos sobre o funcionamento hist\u00e9rico, descreve a din\u00e2mica do trauma que contempla a dimens\u00e3o atemporal que Grada traz: <em>\u201cdevemos antes afirmar que o trauma ps\u00edquico ou, mais precisamente, a lembran\u00e7a do mesmo age como um corpo estranho que ainda muito depois de sua penetra\u00e7\u00e3o deve ser considerado um agente atuante no presente, e vemos a prova disso num fen\u00f4meno extremamente curioso, que, ao mesmo tempo, confere um not\u00e1vel interesse pr\u00e1tico a nossas descobertas\u201d.<\/em> (Breuer e Freud, 1893, p. 23).<\/p>\n<p>A cronologia atemporal a que Grada relaciona o racismo cotidiano \u00e9 tamb\u00e9m a forma como a psican\u00e1lise entende a mem\u00f3ria: uma mistura de passados, presentes e futuros conferindo ao inconsciente, o grande deposit\u00e1rio das lembran\u00e7as, uma inst\u00e2ncia que \u00e9 de um outro tempo, o tempo do s\u00f3 depois, o tempo de diversos tempos. Nesta uni\u00e3o de tempos em que o racismo \u00e9 manifestado de diversas formas, emergindo como representante de um passado colonial no presente, ou seja, <em>a posteriori<\/em>, \u00e9 que o trauma se d\u00e1. <em>\u201cO tempo do<\/em> apr\u00e8s-coup <em>\u00e9 um conceito fundamental no arcabou\u00e7o te\u00f3rico freudiano. H\u00e1 acontecimentos da inf\u00e2ncia que se inscrevem difusamente, marcas ps\u00edquicas que ficam informes, indefinidas, \u00e0 espera de um acontecimento e que s\u00f3 depois adquirem sentido. Temos ent\u00e3o a ideia de um passado que n\u00e3o \u00e9 fixo, mas que se ressignifica no presente\u201d<\/em>, como afirma Silvia Leonor Alonso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os tempos do trauma<\/strong><\/p>\n<p>O document\u00e1rio <em>Menino 23 \u2013 Inf\u00e2ncias perdidas no Brasil <\/em>conta a hist\u00f3ria de meninos \u00f3rf\u00e3os do Rio de Janeiro que na d\u00e9cada de 30 foram levados para Campina do Monte Alegre, no interior de S\u00e3o Paulo, por empres\u00e1rios da regi\u00e3o ligados ao pensamento eugenista. Cerca de 40 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, 50 meninos filhos, netos e bisnetos de africanos e africanas escravizadas s\u00e3o novamente colocadas na cena colonial.\u00a0 Um dos meninos, Alo\u00edsio Silva, que tamb\u00e9m tem sua identidade sequestrada ao ser nomeado com um n\u00famero &#8211; 23 &#8211; perguntado do que ele se lembra da viagem do Rio para a Fazenda Santa Albertina de Osvaldo, \u00e9 novamente confrontado com a atemporalidade do trauma colonial:<em> \u201csabe que nem tem como responder, eu fico irritado quando volta as coisas na minha cabe\u00e7a. A minha inf\u00e2ncia foi roubada, nem sei o que \u00e9 isso\u201d, <\/em>responde Alo\u00edsio.<\/p>\n<p><em>O racismo se torna um fantasma, assombrando-nos noite e dia. Um fantasma branco. Viv\u00ea-lo \u00e9 t\u00e3o excessivo e intoler\u00e1vel para a organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, que a viol\u00eancia do racismo assombra o sujeito negro de maneiras que outros eventos n\u00e3o o fazem. \u00c9 uma estranha possess\u00e3o que retorna, de maneira intrusiva, como conhecimento fragmentado. Somos assombradas\/os por mem\u00f3rias e experi\u00eancias que causaram uma dor desumanizante, uma dor da qual se tem pressa de fugir. O racismo cotidiano revela esse primeiro elemento do trauma, quando algu\u00e9m \u00e9 inesperadamente agredido por um evento violento que \u00e9 experimentado como um choque e persiste em assombrar o eu<\/em><em>\u201d. <\/em>(Kilomba. 2019, pp. 219\/220).<\/p>\n<p>Luc\u00eda Fuks em <em>O traum\u00e1tico na cl\u00ednica<\/em> explica tamb\u00e9m como esse fantasma descrito por Grada se d\u00e1 no psiquismo teorizando algo do que aparece na fala de Alo\u00edsio diante da recorda\u00e7\u00e3o da cena em que \u00e9 escravizado: \u201c<em>a reativa\u00e7\u00e3o desta lembran\u00e7a provoca um fluxo de excita\u00e7\u00e3o que desborda as defesas do ego. O aparelho ps\u00edquico se v\u00ea invadido por um afeto demasiado intenso para suas possibilidades de dom\u00ednio; dizer algo se faz imposs\u00edvel, ao menos num primeiro momento; a fuga, presa de uma viv\u00eancia de terror, se apresenta como \u00fanica sa\u00edda no exemplo paradigm\u00e1tico, descrito no <\/em>Projeto de uma Psicologia Cient\u00edfica (1895)\u201d.<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m que essa fala de Alo\u00edsio vai ao encontro do car\u00e1ter do traum\u00e1tico, j\u00e1 que revela os efeitos da experi\u00eancia traum\u00e1tica do racismo em seu passado e como ele se d\u00e1 no presente. Uma tentativa de simboliza\u00e7\u00e3o do trauma pela palavra \u00e9 ensaiada, mas o que se d\u00e1 \u00e9 a insufici\u00eancia da linguagem para dar conta de representar tamanha viol\u00eancia: \u201cs<em>abe que nem tem como responder<\/em><em>\u201d. <\/em>Na confer\u00eancia 18, \u201cA fixa\u00e7\u00e3o no trauma, o inconsciente\u201d, Freud explica como as viv\u00eancias dos doentes de nervos fixadas podem se caracterizar como traum\u00e1ticas tamb\u00e9m:<em> \u201ca neurose equivaleria a um adoecimento traum\u00e1tico e nasceria da incapacidade de dar conta de uma viv\u00eancia carregada de um afeto muito intenso\u201d<\/em> (Freud, 1917, p. 367).<\/p>\n<p>Um afeto intenso fruto de uma hist\u00f3ria coletiva carregada de viol\u00eancias em todos os \u00e2mbitos que, em epis\u00f3dios do cotidiano contados pela autora em<em> Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o<\/em>, reavivam e n\u00e3o deixam esquecer a ferida aberta e profunda que \u00e9 o racismo: <em>\u201cA escravid\u00e3o, o colonialismo e o racismo cotidiano necessariamente cont\u00eam o trauma de um evento de vida intenso e violento, evento para o qual a cultura n\u00e3o fornece equivalentes simb\u00f3licos e aos quais o sujeito \u00e9 incapaz de responder adequadamente porque, como Claire Pajaczkowska e Lola Young (1992, p.200) argumentam, \u2018a realidade da desumaniza\u00e7\u00e3o do povo negro \u00e9 aquela que n\u00e3o h\u00e1 palavras adequadas para simbolizar\u2019\u201d. <\/em>\u00a0(Kilomba. 2019, p. 214).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O trauma no cotidiano<\/strong><\/p>\n<p>Para abordar os efeitos do trauma da discrimina\u00e7\u00e3o racial vivenciada no passado e atualizada no presente, penso que se faz necess\u00e1rio nomear no que consiste o termo <em>racismo cotidiano,<\/em> segundo a autora: <em>\u201ctodo vocabul\u00e1rio, discursos, imagens, gestos, a\u00e7\u00f5es e olhares que colocam o sujeito negro e as Pessoas de Cor n\u00e3o s\u00f3 como \u201cOutra\/o &#8211; a diferen\u00e7a contra a qual o sujeito branco \u00e9 medido &#8211; mas tamb\u00e9m como Outridade, isto \u00e9, como a personifica\u00e7\u00e3o dos aspectos reprimidos na sociedade branca&#8230;Eu me torno a\/o \u201cOutra\/o\u201d da branquitude, n\u00e3o o eu &#8211; e, portanto, a mim \u00e9 negado o direito de existir como igual\u201d<\/em>(Kilomba, 2019, p. 78).<\/p>\n<p>Neste sentido, partindo de viv\u00eancias como as descritas pela autora ao definir uma das formas do racismo operar, ou seja, cotidianamente na vida da pessoas negras em epis\u00f3dios corriqueiros como em um restaurante, em espa\u00e7os de ensino, no \u00f4nibus ou no mercado, a rememora\u00e7\u00e3o da lembran\u00e7a traum\u00e1tica revivida por um nova situa\u00e7\u00e3o de racismo transporta o sujeito para a cena colonial em que o branco nomeia o sujeito\/a negro\/a como o diferente, como o Outro subordinado e ex\u00f3tico, nas palavras de Grada. <em>\u201cDe repente, o passado vem a coincidir com o presente, e o presente \u00e9 vivenciado como se o sujeito negro estivesse naquele passado agonizante, como o t\u00edtulo do livro anuncia\u201d <\/em>(Kilomba, 2019, p. 30).<\/p>\n<p>Em um cotidiano bem pr\u00f3ximo \u00e9 poss\u00edvel identificar como uma situa\u00e7\u00e3o rotineira traz \u00e0 tona o passado e coloca o sujeito negro como o Outro diferente e, portanto, retirado e violentamente separado de qualquer identidade que possa realmente ter: uma aluna negra de uma universidade na cidade de S\u00e3o Paulo \u00e9 abordada pelo coordenador de seu curso, perante toda a sala de aula, com a seguinte fala: <em>\u201cgosto muito de voc\u00eas, negros, inclusive tenho amigos africanos com esse mesmo \u2018tipo\u2019 de cabelo\u201d<\/em>. Na mat\u00e9ria do jornal <em>online The Intercept<\/em><em>,<\/em> a estudante relata que \u201cse sentiu constrangida e congelou, sem conseguir reagir ou responder\u201d. Essa cena parece ilustrar bem como um evento torna o sujeito impotente de dar conta de uma viv\u00eancia carregada de afeto (Freud, 1917, p. 367), como a aluna descreve o choque violento que a fala do ent\u00e3o coordenador produziu em seu psiquismo.<\/p>\n<p>Na obra da escritora portuguesa, um dos cap\u00edtulos aborda especialmente o cabelo e sua pot\u00eancia de legitima\u00e7\u00e3o da identidade negra e tamb\u00e9m como recurso para designar o negro como o Outro ex\u00f3tico que est\u00e1 fora do padr\u00e3o branco, bem exemplificado no relato acima. Grada usa epis\u00f3dios relatados por uma das entrevistadas do livro em que o cabelo tamb\u00e9m foi alvo de racismo para mostrar como tais situa\u00e7\u00f5es carregam a atemporalidade do trauma da hist\u00f3ria colonial: <em>\u201ca viol\u00eancia e a intensidade do racismo s\u00e3o tamanhas que, apesar de esperadas, elas sempre recriam esse elemento de surpresa e choque. Em outras palavras, uma pessoa nunca est\u00e1 preparada para assimilar o racismo porque, como em qualquer outra experi\u00eancia traum\u00e1tica, \u00e9 muito assustador ser \u201cintegrada\u201d nas estruturas mentais j\u00e1 existentes. Al\u00e9m disso, o racismo cotidiano n\u00e3o \u00e9 um evento isolado, mas sim um acumulador de epis\u00f3dios que reproduzem o trauma de uma hist\u00f3ria colonial coletiva. O choque violento, portanto, resulta n\u00e3o somente da agress\u00e3o racista, mas tamb\u00e9m da agress\u00e3o de ser colocada (de volta) no cen\u00e1rio colonial\u201d<\/em> (Kilomba, 2019, p. 218).<\/p>\n<p>Ser colocada de volta na cena colonial, como a estudante interceptada pelo gestor universit\u00e1rio ou at\u00e9 mesmo Alo\u00edsio em outro contexto que n\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o, mas de resgate de uma lembran\u00e7a intensa que, como j\u00e1 dito, evoca no presente o passado, \u00e9 da ordem de tamanha desintegra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que o sujeito se encontra incapaz de reagir ao evento e, no mutismo de um afeto imposs\u00edvel de ser representado, a imobilidade ps\u00edquica reina.<\/p>\n<p>\u201c<em>O passado colonial \u201cmemorizado\u201d no sentido em que \u201cn\u00e3o foi esquecido\u201d. \u00c0s vezes, preferimos n\u00e3o lembrar, mas na verdade, n\u00e3o se pode esquecer. A teoria da mem\u00f3ria de Freud \u00e9, na realidade, uma teoria do esquecimento. Essa pressup\u00f5e que todas as experi\u00eancias, ou pelo menos todas as experi\u00eancias significativas, s\u00e3o registradas, mas que algumas ficam indispon\u00edveis para a consci\u00eancia como resultado da repress\u00e3o e para diminuir a ansiedade. J\u00e1 outras, no entanto, como resultado do trauma, permanece presente de forma espantosa. N\u00e3o se pode simplesmente esquecer e n\u00e3o se pode evitar lembrar.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A ideia de \u201cesquecer\u201d o passado torna-se, de fato, inating\u00edvel; pois cotidiana e abruptamente, como um choque alarmante, ficamos presas\/os a cenas que evocam o passado, mas que, na verdade, s\u00e3o parte de um presente irracional. Essa configura\u00e7\u00e3o entre passado e presente \u00e9 capaz de retratar a irracionalidade do racismo cotidiano como traum\u00e1tica<\/em><em>\u201d<\/em>. (Kilomba, 2019, p. 213).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>Alonso, Silvia Leonor. O tempo que passa e o tempo que n\u00e3o passa. <em>Revista Cult<\/em> (2006). <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-tempo-que-passa-e-o-tempo-que-nao-passa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-tempo-que-passa-e-o-tempo-que-nao-passa\/<\/a><\/p>\n<p>Franca, Beliz\u00e1rio. <em>MENINO 23: Inf\u00e2ncias perdidas no Brasil<\/em>. 2016. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rYSspBodYSQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rYSspBodYSQ<\/a><\/p>\n<p>Freud, Sigmund. <em>Obras completas<\/em>, volume 1: Estudos sobre a histeria (1983-1895) em coautoria com Josef Breuer, \u201cSobre o mecanismo ps\u00edquico dos fen\u00f4menos hist\u00e9ricos\u201d. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2014.<\/p>\n<p>Freud, Sigmund. <em>Obras completas<\/em>, volume 13: Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916-1917), Confer\u00eancia 18. A fixa\u00e7\u00e3o no trauma, 1917.<\/p>\n<p>Fuks, Luc\u00eda Barbero. O sintoma. Aula inaugural do curso Conflito e Sintoma, Instituto Sedes Sapientiae, mar\u00e7o 2020.<\/p>\n<p>Fuks Luc\u00eda. Barbero. O traum\u00e1tico na cl\u00ednica, Estados Gerais da Psican\u00e1lise. <a href=\"http:\/\/egp.dreamhosters.com\/EGP\/137-o_traumatico.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/egp.dreamhosters.com\/EGP\/137-o_traumatico.shtml<\/a><\/p>\n<p>Kilomba, Grada. <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o &#8211; Epis\u00f3dios de racismo cotidiano.<\/em> Rio de Janeiro, Cobog\u00f3, 2019.<\/p>\n<p>Sayuri, Juliana. Ap\u00f3s aluna relatar ter sido v\u00edtima de racismo, Unip demite testemunhas, <em>The Intercept Brasil<\/em>, 1\u00ba de outubro 2020. <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2020\/10\/01\/apos-aluna-relatar-ter-sido-vitima-de-racismo-unip-demite-testemunhas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/theintercept.com\/2020\/10\/01\/apos-aluna-relatar-ter-sido-vitima-de-racismo-unip-demite-testemunhas\/<\/a><\/p>\n<p>Sigal, Ana Maria. Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma. Aula inaugural do curso Conflito e Sintoma, Instituto Sedes Sapientiae, mar\u00e7o 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado como monografia para o primeiro ano do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma, em 2020.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Jornalista, acompanhante terap\u00eautica pelo Instituto A Casa, psicanalista. Aluna do 2\u00ba ano do curso Conflito e Sintoma do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae e membro do Grupo de Trabalho A Cor do Mal-Estar da mesma institui\u00e7\u00e3o.\r\n\r\n\r\n<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para pensar conflitos e sintomas e dar um corpo de palavras \u00e0 luta contra a viol\u00eancia colonial: registro dos percursos de Roberta Veloso em nosso Departamento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":585,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[53,40],"edicao":[13],"autor":[63],"class_list":["post-584","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-conflito-e-sintoma","tag-negritude","edicao-boletim-61","autor-roberta-veloso-de-matos","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=584"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1332,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/584\/revisions\/1332"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media\/585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=584"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=584"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}