{"id":589,"date":"2022-01-26T11:01:03","date_gmt":"2022-01-26T14:01:03","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=589"},"modified":"2022-02-18T15:22:30","modified_gmt":"2022-02-18T18:22:30","slug":"virilismo-um-fragmento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/virilismo-um-fragmento\/","title":{"rendered":"Virilismo, um fragmento"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Virilismo (fragmento) <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Achille Mbembe<\/strong> <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel examinar a forma como o poder e a economia trabalham profundamente os corpos e p\u00f5em \u00e0 prova os nervos do sujeito sem ao mesmo tempo operar uma cr\u00edtica do falo, entendido aqui como o emblema por excel\u00eancia do patriarcado. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de reduzir um ao outro. Trata-se de mostrar que o falo n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar abstrato, um mero significante ou um signo distintivo \u2013 o objeto destac\u00e1vel, divis\u00edvel e dispon\u00edvel para a retranscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Obviamente, o falo n\u00e3o se reduz ao p\u00eanis como tal, mas tampouco \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o sem corpo, t\u00e3o caro a certa tradi\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica ocidental.<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo, falaremos dele, portanto, como <em>aquilo<\/em> cujo sentido inerente \u00e9 se manifestar, em sua express\u00e3o mais pura, como turgidez, impulso e intrus\u00e3o. N\u00e3o se pode falar de impulso, turgidez e intrus\u00e3o sem restituir ao falo, se n\u00e3o a fisicalidade, pelo menos a carne viva, a capacidade de testemunhar os dom\u00ednios do sens\u00edvel, de experimentar todo tipo de sensa\u00e7\u00f5es, vibra\u00e7\u00f5es e estremecimentos (uma cor, um aroma, um toque, um peso, um cheiro e assim por diante).<\/p>\n<p>O falo e o patriarcado representam, ali\u00e1s, os dois lados de um mesmo espelho, o de um poder que devemos chamar de org\u00e1stico. Trata-se de um poder habitado por um esp\u00edrito-c\u00e3o, um esp\u00edrito-porco e um esp\u00edrito-pulha. Nisso, ele procura constantemente instituir, entre corporeidade (o fato intensivo do corpo e dos nervos), sexualidade e mat\u00e9ria, v\u00ednculos particularmente saturados de tens\u00f5es de todo tipo. E a domina\u00e7\u00e3o escravagista e a servid\u00e3o colonial foram ambas express\u00f5es hist\u00f3ricas disso. Elas foram, do come\u00e7o ao fim, uma domina\u00e7\u00e3o genital. Eram animadas pelo desejo de uma frui\u00e7\u00e3o absoluta na qual o sujeito dominado, qualquer que fosse seu g\u00eanero, devia ser transformado em objeto sexual. No exerc\u00edcio de tal poder, a quest\u00e3o era experimentar um certo tipo de orgasmo que n\u00e3o s\u00f3 afetava o corpo e seus diversos \u00f3rg\u00e3os, mas que era o equivalente a um abalo dos sentidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Abalo dos sentidos<\/h2>\n<p>Tanto sob o regime da planta\u00e7\u00e3o quanto na col\u00f4nia, de fato, imagin\u00e1rios e pr\u00e1ticas sexuais derivados principalmente do Ocidente contribu\u00edram para forjar uma domina\u00e7\u00e3o de natureza libidinal da qual os corpos humanos racializados eram o alvo privilegiado. Essa forma de exercer um poder sem controle aparente envolvia um dispositivo, o sexo racializado, que ocasionalmente tinha que ser reduzido \u00e0 sua express\u00e3o mais simples, a rela\u00e7\u00e3o genital. Tanto em princ\u00edpio quanto na pr\u00e1tica, o poder org\u00e1stico era uma t\u00e9cnica de gest\u00e3o heterossexual de corpos subalternos, considerados ora objetos, ora patol\u00f3gicos. Para isso, o poder precisava de um aparelho semiot\u00e9cnico capaz de produzir representa\u00e7\u00f5es e conhecimentos relativos a seus alvos. <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para fins de legitima\u00e7\u00e3o, ele tamb\u00e9m se dedicou a fabricar, em escala ampliada, os mais variados tipos de imagens e silhuetas, cuja circula\u00e7\u00e3o generalizada permitiu padronizar o modo como eram tratados esses corpos e, consequentemente, essas pessoas.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> O que essas imagens nos dizem a respeito do ato de escravizar ou de colonizar, de maneira geral, e a respeito dos la\u00e7os entre a domina\u00e7\u00e3o colonial e a domina\u00e7\u00e3o masculina e genital, de maneira espec\u00edfica? Que lugar ocupa a ra\u00e7a na ordem do sexo entendido como um instrumento a um s\u00f3 tempo de frui\u00e7\u00e3o e de viola\u00e7\u00e3o dos corpos e daquilo que eles simbolizam? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que este cap\u00edtulo procura responder.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>De fato, no decorrer de sua longa hist\u00f3ria e por sua pr\u00f3pria admiss\u00e3o, o Ocidente manteve com o sexo e a sexualidade uma rela\u00e7\u00e3o excepcionalmente complicada, caracterizada por uma ansiedade origin\u00e1ria e que tem sido objeto de incont\u00e1veis estudos e coment\u00e1rios eruditos. Por um lado, talvez mais do que qualquer outra regi\u00e3o do mundo, o Ocidente se viu assombrado pela quest\u00e3o da origem do prazer sexual, da sua natureza e da sua rela\u00e7\u00e3o com a virilidade, a vol\u00fapia e a brutalidade e at\u00e9 mesmo com o del\u00edrio e a morte. Por outro lado, a an\u00e1lise de muitos de seus costumes e express\u00f5es sexuais \u2013 incluindo a pornografia \u2013 mostra que ele deu um lugar preeminente ao enlace genital, que de resto se acreditava ser a manifesta\u00e7\u00e3o de uma gigantesca energia, ao mesmo tempo biol\u00f3gica e c\u00f3smica, al\u00e9m de ser a fronteira primordial entre natureza e cultura.<\/p>\n<p>Particularmente devido ao orgasmo, o ser humano seria incapaz de se desligar completamente da natureza e do mundo dos instintos. Momento catacl\u00edsmico e \u00e1pice do prazer, o orgasmo na realidade sinalizaria a derrota do homem, subjugado no intervalo de um instante a um poder singular de aniquila\u00e7\u00e3o, no ponto de colis\u00e3o das for\u00e7as contradit\u00f3rias da energia e da entropia.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Em suma, mistura de prazer e ang\u00fastia, a vida sexual esconderia em suas entranhas algo potencialmente imundo e relacionado, concomitantemente, com o lodo e o lixo. Deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, as puls\u00f5es sexuais trariam \u00e0 superf\u00edcie o que o sexo teria de abjeto e pantanoso. Da\u00ed a necessidade de reprimir os instintos civilizando-os, de cercar os usos do sexo com muitas proibi\u00e7\u00f5es e preceitos morais. Ou seja, sem a repress\u00e3o das puls\u00f5es sexuais e sua sublima\u00e7\u00e3o, a humanidade cega por suas paix\u00f5es estaria condenada a viver sob o jugo de seus desejos e impedida de nascer para a raz\u00e3o e a maturidade.<\/p>\n<p>Foi contra esse relato relativamente pessimista da vida sexual e do devir-livre da humanidade que se ergueu a maioria dos movimentos libert\u00e1rios desde pelo menos o s\u00e9culo xix.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Quaisquer que tenham sido suas formas, seu objetivo final foi mais ou menos o mesmo, a saber, romper o v\u00ednculo entre a sexualidade e o imagin\u00e1rio da falta e da culpa, t\u00e3o profundamente inscrito no inconsciente das sociedades ocidentais. \u00c9 por isso que a revolu\u00e7\u00e3o sexual consistiu basicamente em sair do c\u00edrculo que faz da sexualidade uma esp\u00e9cie de cloaca, enquanto o prazer sexual somente se apresenta \u00e0 consci\u00eancia sob a forma do \u00eaxtase ou da pr\u00f3pria morte, uma morte ext\u00e1tica.<\/p>\n<p>Armado com essa narrativa, o \u201chomem branco\u201d \u2013 pelo qual se deve compreender a fic\u00e7\u00e3o do poder ilimitado em terra conquistada e ocupada \u2013 haveria de se deparar com corpos estrangeiros. Habituado a vencer sem raz\u00e3o e gra\u00e7as ao dom\u00ednio que teria sobre os espa\u00e7os, os territ\u00f3rios e os objetos, viria a descobrir que \u00e9 efetivamente poss\u00edvel gozar sem remorso, satisfazer o capricho de exa\u00e7\u00f5es e depreda\u00e7\u00f5es de todo tipo, inclusive em corpos transformados em objetos, sem sentir remorso ou qualquer sentimento de culpa.<\/p>\n<p>Ele perceberia que pode literalmente esvaziar o Outro de seu conte\u00fado e inscrever, nesse lugar vacante, sua pr\u00f3pria verdade, sob a forma da imagem ou da silhueta. Ele se daria conta de que pode efetivamente deslocar a humanidade conquistada do status de algo imaginado para o de algo realizado, tornando-se o colonizar, pelo mero fato em si, uma quest\u00e3o de submiss\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e corpos estrangeiros \u00e0 vontade de um conquistador. Desse ponto de vista, a plantocracia e depois a col\u00f4nia foram laborat\u00f3rios privilegiados n\u00e3o s\u00f3 da vida sexual, mas tamb\u00e9m do car\u00e1ter libidinal de todo poder. Neles foram experimentadas diversas formas de prazer, jogos s\u00e1dicos, v\u00e1rias modalidades de \u201cliberta\u00e7\u00e3o ao contr\u00e1rio\u201d, ou seja, \u00e0s custas dos mais fracos. Aqui, a liberdade sexual consistia acima de tudo no direito de dispor do Outro como se fosse um objeto.<\/p>\n<p>Na col\u00f4nia, de fato, era poss\u00edvel romper com a ideia de que recalcar as puls\u00f5es sexuais no inconsciente era uma das condi\u00e7\u00f5es para obter satisfa\u00e7\u00f5es substitutivas. A evid\u00eancia tendia a mostrar que o sujeito n\u00e3o se estruturava necessariamente no ponto de encontro entre o desejo e a lei vivida como uma modalidade entre outras de repress\u00e3o. Era poss\u00edvel viver na aus\u00eancia de proibi\u00e7\u00f5es e outras restri\u00e7\u00f5es, ou mesmo satisfazer as puls\u00f5es com pouca considera\u00e7\u00e3o pelos tabus. Em um n\u00edvel puramente fenomenol\u00f3gico, as formas coloniais de brutaliza\u00e7\u00e3o (tanto durante a fase de conquista quanto na de pacifica\u00e7\u00e3o e na de possess\u00e3o propriamente dita) tinham algo de libido desenfreada, uma combina\u00e7\u00e3o de puls\u00f5es (sexuais, s\u00e1dicas) cujo tra\u00e7o inerente era se voltarem constantemente para si mesmas.<\/p>\n<p>As col\u00f4nias serviram, assim, como um terreno inesperado para todos aqueles para quem a experi\u00eancia do prazer pertencia a um grande sonho, o da satisfa\u00e7\u00e3o genital plena. Muitos deles estavam em busca de um poder de natureza org\u00e1stica, o tipo de poder que n\u00e3o tinha necessidade alguma de uma base simb\u00f3lica e que, em raz\u00e3o disso, era capaz de sobreviver a qualquer curto-circuito, j\u00e1 que exclu\u00eda <em>a priori<\/em> qualquer possibilidade de d\u00edvida ou culpa. \u00c9 nessas \u00e1reas que \u00e9 importante buscar as nascentes decisivas das formas contempor\u00e2neas de <em>poder org\u00e1stico<\/em>, aquelas que, bebendo nas fontes do neovitalismo, constituem a mat\u00e9ria prima do neoliberalismo.<\/p>\n<p>No entanto pode ser que, sob a planta\u00e7\u00e3o assim como na col\u00f4nia, a fun\u00e7\u00e3o copulat\u00f3ria, atividade f\u00edsica e fantasiosa, se \u00e9 que algo assim \u00e9 poss\u00edvel, s\u00f3 poderia desembocar afinal na mesma coisa \u2013 a impossibilidade da frui\u00e7\u00e3o absoluta, ardente e fusional. Devemos deduzir da\u00ed que o espet\u00e1culo sexual \u00e9 por natureza irrepresent\u00e1vel, um mero nome na ponta da l\u00edngua ou ent\u00e3o na ponta do l\u00e1bio? Ou que nunca se pode realmente voltar \u00e0 fonte e \u00e0 origem, uma vez que, no final das contas, ir ao encontro <em>daquilo<\/em> que t\u00e3o estreitamente nos cinge e que nos concebeu n\u00e3o passa de um mito?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es surgem por v\u00e1rias raz\u00f5es, a primeira das quais relacionada \u00e0 pr\u00f3pria natureza da col\u00f4nia. O que \u00e9 de fato a col\u00f4nia sen\u00e3o um fosso bizarro, um complexo paradoxal, que tem como uma de suas caracter\u00edsticas proporcionar, \u00e0queles e \u00e0quelas que desejarem, um canal absolutamente direto para o sexo, esse grande imagin\u00e1rio de objetos destinado a despertar o desejo? De fato, penetra-se o desejo como se cai em uma armadilha, de um corpo ao outro \u2013 a irrup\u00e7\u00e3o brutal, a tomada de controle ora perversa e ora s\u00e1dica, a transfer\u00eancia for\u00e7ada, todo tipo de dejetos associados \u00e0 agressividade, ao racismo e ao \u00f3dio, incluindo o \u00f3dio a si mesmo.<\/p>\n<p>Isso porque colonizar \u00e9 brutalizar. Brutalizar na col\u00f4nia significa introduzir sistematicamente a diferen\u00e7a tanto no ornamento quanto na cosm\u00e9tica dos corpos, na carne, nos nervos, nos \u00f3rg\u00e3os e, por extens\u00e3o, na pr\u00f3pria estrutura da fantasia. Significa tudo cindir, inclusive o olhar. Significa, enfim, instaurar um hiato entre aquilo que se v\u00ea em si e para si e aquilo que s\u00f3 deve aparecer no campo da vis\u00e3o como a figura do Outro, isto \u00e9, um corpo chamado a suprir um prazer que o ultrapassa e que n\u00e3o \u00e9 necessariamente seu. Porque, como fosso profundo em torno do qual tudo parece ter sido constru\u00eddo, a col\u00f4nia \u00e9, al\u00e9m disso, perpassada pela obsess\u00e3o com um saber espec\u00edfico \u2013 saber a todo momento a quem pertence tal sexo na inesgot\u00e1vel variedade dos sexos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista sexual, a col\u00f4nia difere, portanto, de outros cen\u00e1rios em v\u00e1rios aspectos. Por um lado, \u00e9 um lugar em que o sexo n\u00e3o se encontra apenas no ato sexual. Ele est\u00e1, por assim dizer, na atmosfera, como uma mat\u00e9ria inflam\u00e1vel e uma f\u00e1brica de possibilidades. Sexo masculino? Sexo feminino? Ou sexo al\u00e9m de ambos, como entre os antigos Dogons, ora suspenso na indetermina\u00e7\u00e3o e ora bebendo nas fontes da gemelaridade? Na realidade, sexo-salm\u00e3o, sexo-nu, sexo-marisqueiro, esquizoparan\u00f3ico, anal e s\u00e1dico se necess\u00e1rio, polivalente, sem pertencer a ningu\u00e9m em particular. Em sua vertente genital, assim como em sua vertente simb\u00f3lica, ele n\u00e3o apenas \u00e9 transformado, ele \u00e9 fundamentalmente dividido no pr\u00f3prio ato que o constitui, no desejo, inclusive de amor, que o opera.<\/p>\n<p>Por outro lado, se na col\u00f4nia o sexo n\u00e3o se encontra apenas no ato sexual e, por conseguinte, se, para citar Jacques Lacan, n\u00e3o existe ato sexual propriamente dito, tudo, em contrapartida, \u00e9 sexual. De fato, a col\u00f4nia est\u00e1 longe de ser um deserto de prazer.<\/p>\n<p>De resto, n\u00e3o era raro que, tanto na col\u00f4nia quanto sob o regime da planta\u00e7\u00e3o, a sedu\u00e7\u00e3o se misturasse \u00e0 pervers\u00e3o. Como for\u00e7a traum\u00e1tica, o colonizador \u00e9 capaz de levar suas presas \u00e0 sua cama, de sentir seus corpos e seus cheiros e depois, com o falo inexaur\u00edvel, de desfrutar delas num relance, de fazer uso delas e de aspergi-las com suas polu\u00e7\u00f5es. Na tentativa de retornar ao corpo das primeiras demandas de prazer, entre a fralda rendada, os sapatinhos de pompons e a pel\u00facia, ele pode muito bem afogar a \u201cnegrinha\u201d ou o \u201cnegrinho\u201d debaixo dos mais diversos apelidos \u2013 meu bichinho, meu pudinzinho, meu camar\u00e3ozinho rosa, minha r\u00e3zinha, meu boizinho ou meu sapinho \u2013, tantos encontros s\u00e3o frustrados, escamoteados, e n\u00e3o \u00e9 necessariamente porque o Outro usaria uma m\u00e1scara ou participaria, em ess\u00eancia, de um vazio indecifr\u00e1vel. \u00c9 tamb\u00e9m porque, na col\u00f4nia, assim como sob o regime da planta\u00e7\u00e3o, o risco nunca est\u00e1 longe, o risco de \u201cbebefilia\u201d, o risco da presen\u00e7a da \u201ccrian\u00e7a\u201d na fantasia colonial.<\/p>\n<p>Frantz Fanon talvez n\u00e3o estivesse de todo errado quando sugeriu que o colonizador s\u00f3 pode gozar como um porco, uma raposa, um lobo, um c\u00e3o feroz, um rato, se necess\u00e1rio, e quando quis crer que, por causa da estrutura perversa e racista da col\u00f4nia, o negro \u00e9 apenas a verga de um garanh\u00e3o que vage da mesma forma como viveu, ou seja, como um homem castrado. Pois a col\u00f4nia tamb\u00e9m \u00e9 a terra da incontin\u00eancia. N\u00e3o mais se conter, perder o controle, inundar-se, conspurcar-se sem evasivas \u2013 tudo isso, sem d\u00favida, faz parte da vontade de puro prazer que autoriza \u201csadizar\u201d o colonizado. Para superar sua divis\u00e3o, suprimir o ponto de ang\u00fastia na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e ou o pai e para vencer a inf\u00e2ncia alienada, o colonizador-fedelho-em-tamanho-adulto n\u00e3o precisar\u00e1 afinal mamar, arrotar, ser limpo, ser repreendido, quer dizer, encontrar no corpo da crian\u00e7a que ele foi, que ele deseja voltar a ser e que o negro t\u00e3o profundamente representa, sua pr\u00f3pria imagem no espelho?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, abandonar certos mitos. Em mat\u00e9ria de sexualidade, a col\u00f4nia \u00e9 a terra das separa\u00e7\u00f5es recusadas e das alian\u00e7as disjuntivas, da confus\u00e3o das l\u00ednguas e dos l\u00e1bios. Aqui, n\u00e3o h\u00e1 lugar para o autoerotismo. O Outro \u00e9 um sexo cuja vis\u00e3o produz inevitavelmente efeitos de excita\u00e7\u00e3o. \u00c9 ali que se vai em busca do pr\u00f3prio prazer. Al\u00e9m disso, fruir \u00e9 <em>fruir-se<\/em>. E fruir-se passa necessariamente pelo Outro. Pouco importa se os \u00f3rg\u00e3os genitais s\u00e3o remanescentes ou n\u00e3o do aspecto animal, todos os investimentos feitos no corpo do Outro costumam n\u00e3o ter outra finalidade sen\u00e3o voltar a se tocar indefinidamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Fragmento do cap\u00edtulo \u201cVirilismo\u201d, extra\u00eddo do rec\u00e9m-publicado <em>Brutalismo,<\/em> de Achille Mbembe. Cortesia da n-1 edi\u00e7\u00f5es. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.n-1edicoes.org\/shop\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.n-1edicoes.org\/shop<\/a>\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Pensador camaron\u00eas.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ler a respeito disso Heather Vermeulen, \u201cThomas Thistlewood\u2019s Libidinal Linnaean Project: Slavery, Ecology, and Knowledge Production\u201d, <em>Small Axe<\/em>, 2018, p. 38.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Pascal Blanchard et al. (edg.), <em>Sexe, race et colonies<\/em>. Paris: La D\u00e9couverte, 2019. Retomamos, nas linhas a seguir, elementos do nosso pref\u00e1cio a essa obra, de um artigo publicado sob o t\u00edtulo \u201cSi l\u2019Autre n\u2019est qu\u2019un sexe\u2026\u201d em <em>AOC<\/em>, 24 de 2018, e de um cap\u00edtulo publicado em Gilles Bo\u00ebtsch et al. (edg.), <em>Sexualit\u00e9s, identit\u00e9s et corps colonis\u00e9s<\/em>. Paris: CNRS \u00c9d019.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Sobre esse tipo de questionamento, ler Elsa Dorlin, <em>La Matrice de la race. G\u00e9n\u00e9alogie sexuelle et coloniale de la nation fran\u00e7aise<\/em>. Paris: La D\u00e9couverte, 2009.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Wilhelm Reich, <em>A fun\u00e7\u00e3o do orgasmo. <\/em>Trad. Maria da Gl\u00f3ria Novak. S\u00e3o Paulo: Brasiliense: 1975.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Ler Ga\u00ebtan Brulotte, <em>\u0152uvres de chair. <\/em><em>Figures du discours \u00e9rotique<\/em>. Qu\u00e9bec: Presses de l\u2019universit\u00e9 Laval, 1998.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mbembe tensiona as rela\u00e7\u00f5es entre falo, patriarcado e coloniza\u00e7\u00e3o, convocando-nos a encarar o espelho violento no qual fomos forjados. 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