{"id":592,"date":"2022-01-26T11:09:17","date_gmt":"2022-01-26T14:09:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=592"},"modified":"2023-03-23T21:04:22","modified_gmt":"2023-03-24T00:04:22","slug":"ilu-oba-de-min-afrobetizacao-e-a-experiencia-de-letramento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/26\/ilu-oba-de-min-afrobetizacao-e-a-experiencia-de-letramento\/","title":{"rendered":"Il\u00fa Ob\u00e1 de Min, afrobetiza\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia de letramento"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Il\u00fa Ob\u00e1 de Min, afrobetiza\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia de letramento<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Daniela Athuil<\/strong> <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sou mulher, brasileira, branca, cis, heterossexual, m\u00e3e, divorciada, psicanalista, nascida e crescida numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, formada em escolas particulares, onde tudo que aprendi sobre hist\u00f3ria, ci\u00eancia, arte, filosofia, me foi ensinado por brancos e brancas. Assim tamb\u00e9m se deu minha forma\u00e7\u00e3o no ensino superior, onde pouco se discutiu sobre rela\u00e7\u00f5es raciais.<\/p>\n<p>Se me apresento assim \u00e9 porque se faz necess\u00e1rio dizer de onde falo, de onde escrevo: de um lugar social e subjetivo de muitos privil\u00e9gios. E vinda deste lugar, sou, portanto, herdeira do racismo e potencialmente uma perpetuadora dele.<\/p>\n<p>Questionar privil\u00e9gios vai al\u00e9m de propor a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o, de desconstru\u00e7\u00e3o do racismo. \u00c9 essencialmente tocar na ferida: estamos dispostos a renunciar aos nossos privil\u00e9gios simb\u00f3licos e materiais? A nos deslocar do lugar de hegemonia, que tem como efeito a naturaliza\u00e7\u00e3o do corpo branco como \u201co corpo humano\u201d?<\/p>\n<p>Em 2018 fui ver no centro da cidade uma apresenta\u00e7\u00e3o do grupo Il\u00fa Ob\u00e1 De Min. As dan\u00e7as dos orix\u00e1s, entoadas pelos tambores tocados somente por mulheres foi uma convoca\u00e7\u00e3o ao sil\u00eancio (deixar de falar para escutar) e reflex\u00e3o. Homens e mulheres negras dan\u00e7ando e cantando, alguns em pernas de pau (colocar os orix\u00e1s acima das cabe\u00e7as) com tochas nas m\u00e3os, olhares anunciando resist\u00eancia, for\u00e7a, numa potente express\u00e3o de desejo de existir sem medo de ser posse ou objeto.<\/p>\n<p>O Il\u00fa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um trabalho art\u00edstico, mas tamb\u00e9m um trabalho pol\u00edtico de combate ao racismo, de pesquisa, fortalecimento e preserva\u00e7\u00e3o da cultura, saberes e religi\u00f5es de matriz africana. Os tambores tocados somente por mulheres \u00e9 um ato pol\u00edtico que se traduz nas diversas vozes negras que cantam e resistem \u00e0s reiteradas tentativas de silenciamento e apagamento da hist\u00f3ria africana e afro-brasileira. O Il\u00fa, que tem como madrinha Leci Brand\u00e3o, tem uma hist\u00f3ria de mais de 15 anos e conta com 450 mulheres. A hist\u00f3ria est\u00e1 lindamente contada por suas integrantes no <em>podcast <\/em>Negras Vozes <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>De l\u00e1 pra c\u00e1, esse chamado \u00e0 reflex\u00e3o, \u00e0 re-escuta da hist\u00f3ria, daquela que foi silenciada, negada, sequestrada, porque se manteve ancorada numa vis\u00e3o euroc\u00eantrica\/brancoc\u00eantrica, tornou-se um exerc\u00edcio cont\u00ednuo em mim, no cotidiano da casa, no trabalho, no meu fazer cl\u00ednico e na educa\u00e7\u00e3o dos meus filhos. Em 2020, com a pandemia e escolas fechadas para o ensino presencial, assistimos a um alargamento ainda mais brutal das desigualdades sociais. O impacto \u00e9 devastador para os alunos da rede p\u00fablica. \u00c9 preciso dizer ainda que os efeitos da pandemia no Brasil s\u00e3o enormemente agravados pelas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas negacionistas e genocidas do atual governo, que recaem sobre a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, mais especificamente sobre a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e negra.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio ent\u00e3o que algumas escolas particulares da cidade de SP decidiram se mobilizar frente \u00e0 problem\u00e1tica racial, questionando sua pr\u00f3pria estrutura. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de interdito silencioso quando um espa\u00e7o educacional \u00e9 formado majoritariamente por estudantes e professores brancos. Afirmar um compromisso com uma educa\u00e7\u00e3o antirracista \u00e9 desconstruir o racismo na base da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o, mexendo nas estruturas onde ele se expressa ou se esconde.<\/p>\n<p>Juntei-me ao grupo de pais da escola dos meus filhos que, com professores, coordenadores e funcion\u00e1rios, queriam dar in\u00edcio a a\u00e7\u00f5es concretas nessa dire\u00e7\u00e3o e ent\u00e3o nos subdividimos em frentes de trabalho (revis\u00e3o de curr\u00edculo, contrata\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de profissionais, letramento e sensibiliza\u00e7\u00e3o da comunidade). Como parte do nosso processo de letramento, formamos um clube de leitura mensal sobre autores negros e negras. Carolina Maria de Jesus, Sueli Carneiro, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Itamar Vieira J\u00fanior, Silvio Almeida, Eliane Leite Malteze, foram algumas das autoras e autores escolhidos pelos mediadores dos encontros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das conversas em torno das leituras, fazemos circular entre n\u00f3s not\u00edcias, artigos e pesquisas que nos ajudam nessa constru\u00e7\u00e3o. Nesse processo tamb\u00e9m buscamos conhecer experi\u00eancias j\u00e1 existentes, como o projeto <em>Afroativos &#8211; solte o cabelo, prenda o preconceito<\/em>, idealizado pela professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint\u2019Hilaire em Porto Alegre, Larisse Moraes. O projeto tem como uma de suas a\u00e7\u00f5es a constru\u00e7\u00e3o, junto com os alunos, de um calend\u00e1rio Afro que apresenta m\u00eas a m\u00eas os grandes marcos da cultura afro, destacando as personalidades negras e suas biografias. O calend\u00e1rio se junta a uma s\u00e9rie de eventos que ao longo do ano tem como prop\u00f3sito o fortalecimento das identidades negras, o resgate da ancestralidade invisibilizada, num processo que foi chamado pela professora de <em>afrobetiza\u00e7\u00e3o<\/em>. Um exemplo da pot\u00eancia das a\u00e7\u00f5es de combate ao racismo ou, como diz ela, de uma educa\u00e7\u00e3o <em>afroafirmativa<\/em> <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Esse primeiro ano de trabalho nos aproximou, pais, alunos, professores e funcion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m nos colocou diante de tens\u00f5es novas, debates intensos e afetos diversos. Neste momento a escola est\u00e1 dando in\u00edcio a uma nova etapa do trabalho que contar\u00e1 com a parceria e metodologia da ONG A\u00e7\u00e3o Educativa para que possamos todos nos preparar para a chegada de trinta fam\u00edlias bolsistas em 2022.<\/p>\n<p>\u00c9 condi\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel para esse compromisso com uma educa\u00e7\u00e3o antirracista poder sustentar a ang\u00fastia que ele provoca, seja por entender que sabemos e fizemos pouco ou quase nada, por perceber e reconhecer os atravessamentos do racismo incrustrado nas nossas estruturas familiares e sociais, assim como suas metamorfoses. \u00c9 nos colocar em quest\u00e3o. E \u00e9 preciso responder a isso escutando, desaprendendo e aprendendo, conhecendo as narrativas de resist\u00eancia e as diversas produ\u00e7\u00f5es e saberes de negros e negras de ontem, de hoje e das que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Sustentar e trabalhar os afetos. Romper com o pacto racista em todas as suas dimens\u00f5es, nos responsabilizando pelo seu enfrentamento. Afirmar nosso compromisso \u00e9tico com todas as vidas, combatendo o alheamento hist\u00f3rico nas institui\u00e7\u00f5es e em todos os espa\u00e7os da sociedade, reconhecendo e nos juntando a todas as lutas. Por todos, todas e todes.<\/p>\n<p>\u00c9 a reflex\u00e3o que me cabe trazer aqui.<\/p>\n<p>Escutar o tambor.<\/p>\n<p>Lembrar Clementina de Jesus:<\/p>\n<p>\u201cTava durumindo, Cangoma me chamou<br \/>\nTava durumindo, Cangoma me chamou<br \/>\nDisse: levanta povo, cativeiro j\u00e1 acabou<br \/>\nDisse: levanta povo, cativeiro j\u00e1 acabou\u201d<\/p>\n<p>(<em>Cangoma me chamou<\/em> \u2013 can\u00e7\u00e3o de Clementina de Jesus)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-595\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16a.png\" alt=\"\" width=\"401\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16a.png 420w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16a-300x214.png 300w\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_596\" aria-describedby=\"caption-attachment-596\" style=\"width: 401px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-596 size-full\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16b.png\" alt=\"Boletim 61 - Educa\u00e7\u00e3o - 3\" width=\"401\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16b.png 401w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/b61_16b-300x224.png 300w\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-596\" class=\"wp-caption-text\">Grupo Il\u00fa Oba De Min em apresenta\u00e7\u00e3o no Carnaval de 2019.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial deste <em>Boletim<\/em>, do grupo de trabalho e pesquisa <em>O feminino e o imagin\u00e1rio cultural contempor\u00e2neo<\/em> e do grupo de interven\u00e7\u00e3o e pesquisa cl\u00ednica <em>Da gesta\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira inf\u00e2ncia<\/em>.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5voUiXhofwRfVG58VVgy9O?si=TB9qt1hSRgKL6XW2Y4fpZA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/open.spotify.com\/show\/5voUiXhofwRfVG58VVgy9O?si=TB9qt1hSRgKL6XW2Y4fpZA<\/a>\r\n\r\n<a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/lunetas.com.br\/calendario-cultura-afro\/#menu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/lunetas.com.br\/calendario-cultura-afro\/#menu<\/a>\r\n\r\n<a href=\"https:\/\/lunetas.com.br\/calendario-afro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/lunetas.com.br\/calendario-afro\/<\/a><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para o antirracismo: escutar o tambor, deixar de falar para deixar-se afetar, abrir espa\u00e7o para ter cabimento. Por Daniela Athuil.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":593,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[56,40],"edicao":[13],"autor":[61],"class_list":["post-592","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","tag-educacao","tag-negritude","edicao-boletim-61","autor-daniela-athuil","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=592"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/592\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1194,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/592\/revisions\/1194"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media\/593"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=592"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=592"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}