Em 17 de maio de 2023, foi realizado o encontro teórico-clínico do Departamento de Psicossomática Psicanalítica, intitulado "Nem rua, nem escola e nem família: adolescer e adoecer na virtualidade". Com alegria e gratidão por termos composto a mesa de discussão e desejando levar adiante tantas reflexões fecundas circuladas naquele dia, este texto busca seguir assentando tais ideias, entrelaçando outras e trazendo à tona a atuação do Projeto Quixote.
O título do evento inicialmente espanta. Dentre tantos "lugar algum", haveria "algum lugar"?
Por onde percorrer, entre espaços inexistentes, buscando terra firme para acomodar algumas dessas inquietações que o título emana? Provocações justamente por presenciarmos, sim, uma adolescência mais adoecida. Faltariam, então, lugares? Ou sonhos?
O nome Projeto Quixote é inspirado na persistente missão do protagonista do romance de Cervantes: o desejo de ultrapassar os inúmeros obstáculos que a realidade interpõe no caminho de nossos sonhos. Pode ser até que se recuse a vê-los; o que importa é a potência vital da imaginação, muitas vezes, a única saída possível diante das injustiças e dos infortúnios da vida. Diferentemente da ideia objetivista que preconiza o "olhar para frente", a realidade, ensina-nos Dom Quixote, deve ser vista obliquamente; o caminho é indireto, faz-se pelo desvio. Como método heterodoxo, ele é "renúncia à intenção", renúncia a um trabalho que já saberia atingir seu fim em linha reta. Ao contrário:
Incansável, o pensamento começa sempre de novo, e volta sempre, minuciosamente, às próprias coisas. Esse fôlego infatigável é a mais perfeita forma de contemplação. Pois, ao considerar um mesmo objeto nos vários estratos de sua significação, ela recebe ao mesmo tempo um estímulo para o recomeço perpétuo e uma justificação para a intermitência de seu ritmo. Ela não teme, nessas interrupções, perder sua energia, assim como o mosaico, na fragmentação caprichosa de suas partículas, não perde sua majestade. (Benjamin, 1986, p. 50)
Considerando que não há uma explicação definitiva, única ou predominante para os fenômenos sociais e as muitas formas de adoecimento da adolescência na contemporaneidade, este artigo, feito mosaico, busca adentrar por trilhas de alguns questionamentos e percepções que temos levantado com o cuidado de jovens. O pensamento é incansável, e, como nos convoca Dom Quixote, seguiremos refletindo.
Sancho Pança ganharia uma ilha se aceitasse a convocação de Dom Quixote: investir-se da nobre responsabilidade como fiel escudeiro em missão de justiça-redenção-sonho-utopia-delírio. Mas como os jovens conseguem responder aos chamados de seus próprios sonhos?
O Projeto Quixote é um espaço outro, uma "heterotopia", espaço de suspensão da racionalidade de controle e de finalidades performantes; ou uma ilha, criada para dar voz e visibilidade e para potencializar o protagonismo de jovens refugiados urbanos em São Paulo e tantos outros tipos de exílios, privações de lugares para os quais temos emprestado abrigo. Logo no início de seu percurso, a instituição encontra a história de desenraizamento vivenciada por Esmeralda Ortiz - publicada no livro Por que não dancei (2001) e exposta no encontro acima citado -, que, precocemente, experimentou a condição de refugiada no centro da metrópole, em um cenário estranho às suas referências primeiras, e, não obstante todas as forças contrárias à sua constituição como sujeito de seu próprio destino, desde o primeiro contato com as instituições que a acolheram (arquipélago), conseguiu construir condições favoráveis à salvação do naufrágio iminente. Desde então, o projeto segue buscando oferecer e nutrir solo por onde raízes possam adentrar e fixar-se.
A instituição é vinculada à Universidade Federal de São Paulo e dedica-se ao atendimento psicossocial de jovens e famílias que vivem em complexas situações de vida.[1] Sistematizando e compartilhando o conhecimento adquirido, através de pesquisas e cursos de formação, o projeto vem interagindo com políticas públicas nesse setor desde 1996 e, atualmente, em uma trama transdisciplinar e intersetorial, entrelaça ações de atendimentos como CAPS (Centro de Assistência Psicossocial Infantojuvenil), SPVV (Serviço de Proteção Social a Vítimas de Violência) e CCInter (Centro de Convivência Intergeracional). Independentemente da forma de encaminhamento e a qual desses serviços estão vinculados, todos chegam pela mesma porta de entrada e participam inicialmente de grupos de acolhimento voltados, simultaneamente, para crianças ou adolescentes e suas famílias. Funciona como uma grande caixa-lúdica, utilizando-se da linguagem verbal e da arte atreladas a um suporte clínico, pedagógico e social, criando uma superfície ético-estética em que afetos, vínculos, demandas e desejos possam circular. Busca-se identificar um rosto antes de um sintoma, ou de qualquer estereótipo, enxergar a criança onde existe a criança, o adolescente onde existe o adolescente, movimento de resistência em tempos de patologização da vida. Uma instituição que persiste em se afirmar como "trincheira" de pertencimento para o enfrentamento de graves questões psicossociais contemporâneas, apesar da precarização, instabilidade e descontinuidade das políticas públicas desse terreno.
No Projeto Quixote, buscam-se apontar deslocamentos precisos para a afirmação de valores necessários para a constituição criativa da memória, do pertencimento e da atitude ético-política, que promovam um lugar de identidade, uma nova perspectiva de história pessoal, justamente de enraizamento. Um engendramento do passado no movimento do presente que incrementa a imaginação em relação ao futuro, percurso errático, tormentoso e inescapável na construção de um lugar de autonomia no mundo das relações humanas. Algo cada vez mais escasso. O enraizamento, escreve Simone Weil, é
[...] talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. Um ser humano possui uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. (Weil, 1996, p. 429)
Sabemos que, na virtualidade, raízes não fincam. Como semear outros solos para as próximas gerações?
A imagem utilizada na ilustração do convite do encontro foi um quadro de Salvador Dalí, Galatea das esferas, de 1952. Apesar de representar Gala Dalí, esposa do pintor, a imagem pode remeter a outras cadeias de significado se vista junto à nomeação do evento. Possivelmente, de um transbordamento, por carência de continente interno, ou desmantelamento.
Retomando o conceito winnicottiano de que o bebê vai se tecendo em uma unidade amarrada a partir da relação com o outro e o ambiente, um emaranhado complexo com o meio facilitador, que fios nós - famílias, escolas, instituições do cuidado - temos usado? Esferas esfacelam-se? Que lugares as sustentam?
Em 1992, o sociólogo Marc Augé publica o livro Não lugares, em que nos apresenta os conceitos de aceleração do tempo, escassez de lugares e excesso de espaço. Ele defende a visão de que um lugar se define a partir da presença de uma base identitária, relacional e histórica, características cada vez mais enfraquecidas na contemporaneidade desenraizada. Nossa época seria, por outro lado, farta produtora de não lugares. Desprovidos de memórias, sem um caráter antropológico, pontos apenas de trânsito e permanências provisórias, espaços do efêmero e da individualidade solitária.
Conecta-se a essa concepção o conceito de exílio. O exilado que perdeu casa e origem também vive no provisório, "instalando-se no desinstalado", na dolorosa provação de um não lugar que é lugar nenhum. Como na história de Esmeralda, falamos também dos milhares de crianças no Brasil que, ao romper com suas referências familiares e comunitárias, tornam-se exiladas dentro de sua própria cidade. Mas temos presenciado outros exílios para além das ruas.
Sabe-se que um marco em relação ao uso de telas no Brasil é 2007, com a introdução do 3G. Há uma geração de adolescentes que já nasceu nessa era. Paradoxalmente, uma geração hiperconectada, porém falha em atar outros laços; um mundo que oferece acesso quase irrestrito aos dados móveis - poder navegar em qualquer momento por qualquer lugar, um verdadeiro refúgio digital -, mas que nos vem tirando de muitos outros lugares.
Percebe-se ainda que tal desocupação de lugares, sejam concretos ou simbólicos, abrange também um esvaziamento da historicidade. Linhas do tempo vazias, onde só cabe o presente. Tomando a noção de distopia como uma antítese à utopia, percebemos um momento de compressão do futuro: anteriormente interpretado como uma promessa, passando a ser visto como uma ameaça ou um sonho tão distante que não mais é sonhado. Por onde andariam as convocações de Dom Quixote? Vivemos tempos de enfraquecimento da esperança, e não havendo, portanto, uma ânsia por nasceres, pouco importa o que já passou. O hiperfoco passa a ser no instante. Tais ideias são delineadas em A crise da narração, de Byung-Chul Han (2023). Retomando alguns conceitos que já nos haviam sido apresentados por Walter Benjamin (2020), na primeira metade do século XX, acerca do declínio da narrativa, Han os entrelaça com a atualidade, na era de vídeos curtos e informações tiktokeadas. Para ele, "o tempo fica reduzido a uma faixa estreita de coisas atuais. Faltam amplitude e profundidade temporais" (Han, 2023, p. 40).
Estamos imersos no meio de uma vazão intensa de vídeos que pouco enlaçam, funcionando como monólogos que transbordam informações vazias, puramente ejetadas, sem que haja um remetente singular nem um destinatário específico. Palavras escoam soltas por longas distâncias em cartas anônimas, não tendo uma origem própria, por qualquer um poderiam ter sido emitidas, podendo alcançar, potencialmente, qualquer pessoa em qualquer lugar. Discursos e imagens reproduzíveis, faltando, pois, lugar para a identidade e abertura para a alteridade. Diametralmente oposto a isso, evocamos a câmera, as imagens únicas e efêmeras - sagradas e poéticas - do belo filme Dias perfeitos, de Wim Wenders (2023), em que o instante é enaltecido, sacralizado, em um profundo acolhimento da experiência e do Outro. Falta lugar para esses outros enquadramentos, que pressupõem um necessário recolhimento contemplativo, que atenue os ruídos de tanta tagarelice (vídeos, informações, perfis no TikTok, no Instagram), um instante que é único, que não se repetirá e que, por isso, também se torna eterno, na exata medida em que temos a disponibilidade da nossa atenção para capturá-lo e registrá-lo na memória.
Nota-se ainda uma descontinuidade cronológica - e, consequentemente, do próprio ser -, um tempo deslocado e descolado de uma linha do tempo singular, em uma alienação da própria história e de si, em que causas e consequências são desconsideradas; fatiamos o tempo, em sua linearidade, assim como fazemos com a clínica.
No campo da saúde mental, isso fica bem evidente ao depararmos com a transformação do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que, desde 1952, é publicado pela Associação Psiquiátrica Americana) ao longo do tempo. A publicação do DSM-III, em 1980, é um ponto de inflexão; de uma abordagem etiológica mais reacional, com forte influência psicodinâmica, passa a ser, a cada nova edição, mais objetiva e descritiva, aproximando-se mais de check-lists de sintomas atuais. E mais: principalmente, a partir do DSM-V (2013), a infância e a adolescência passam a ser apagadas - mais um sem-lugar -, buscando-se, muitas vezes, encaixar sofrimentos do início da vida em transtornos "adultos", desconsiderando o possível impacto de um "diagnóstico distópico", aludindo ao significado médico de distopia como um órgão em localização anômala, mas também como ação opressiva e assimétrica. Desconsiderando, portanto, a complexidade do neurodesenvolvimento e da constituição do sujeito - e como se daria tal estruturação em torno de um diagnóstico -, um emaranhado relacional entre o somático e o psíquico e entre o indivíduo e o ambiente, como é tão claramente teorizado pela epigenética atualmente. De modo leviano, muitos diagnósticos parecem ter sido feitos recentemente, ignorando a escassez de encontros estruturantes durante a pandemia e o uso excessivo de tela e suas devastadoras consequências, entre elas, um retraimento de algumas habilidades sociais e até cognitivas, como ocorre, por exemplo, com a atenção. Sem contar as mais variadas vicissitudes influenciando as formas de caminhar no mundo e seus possíveis tropeços e toda uma enormidade de sintomas sociais há tempos negligenciados e, inclusive, intensificados nos últimos anos. Anula-se, assim, outro lugar: o cosmos que o rodeia.
Além disso, do DSM-IV ao DSM-V, houve alargamentos de alguns critérios diagnósticos e, consequentemente, aumento de suas prevalências. Alteramos a gramática e, em vez de lermos algumas manifestações como sinal de vida - ainda que com suas desorganizações e sofrimentos inerentes a elas -, passamos a dar mais lugar para a patologia. Diagnósticos podem ser precisos e organizadores, assim como o uso criterioso de medicações. Mas que ponderemos a forma precipitada com que muitos são feitos. Além de achatarmos a análise da situação com uma explicação puramente biológica, achatamos mais o tempo. Medicamentalizando dores da alma, corremos o risco de eliminar o lugar da simbolização, potente motor de transformações. Para tanto, há que se abrir lugar para o tempo, pois tais trabalhos reflexivos requerem percepções lentas e profundas. Têm-se estigmatizado jovens em corpos doentes e anulado o lugar do devir transformativo. Deparamos atualmente com muitos jovens expressando seu sofrimento psíquico no corpo ou descarregando excitação no comportamento, mas não atuamos de modo semelhante quando restringimos ao corpo ou a técnicas unicamente centradas no comportamento a única forma de tratamento?
Expandindo ainda mais o olhar para tais nuances contingenciais, sintonizam aqui as ideias do filósofo alemão Christoph Turcke (2016), apresentadas em seu interessante livro Hiperativos! Abaixo a cultura do déficit de atenção. Para ele, nem se precisaria de excesso de tela, alteração cerebral, relações familiares abaladas, vulnerabilidade social ou ainda educação destituída de princípios; todos nós, estaríamos em uma "cultura de déficit de atenção". Ele aponta - e é o que temos presenciado - para a
dramaticamente crescente quantidade de jovens que nunca se tornaram capazes de se concentrar, em nada persistem, nada conseguem suportar, imediatamente tornam a interromper qualquer jogo, qualquer diálogo, qualquer contato amistoso, sem que para tal haja uma circunstância causal evidente. (Turcke, 2016, p. 13)
Ele atribui como um importante fator para esse modo mais desatento e inquieto de estar no mundo o excesso de informação somado ao enfraquecimento dos rituais, tema também teorizado por Byung-Chul Han (2021). Rituais seriam ações simbólicas de encasamento, retomando a ideia original de Hegel, e transformariam o estar-no-mundo em um estar-em-casa, uma vez que "geram uma comunidade sem comunicação, enquanto hoje predomina uma comunicação sem comunidade" (Han, 2021, p. 9). Hábitos e rituais protegem nossa integridade como as paredes de uma casa, que não representam apenas conforto interior, mas também, diante do pavor que suscita a imensidão do espaço, o vazio ameaçador.
Rituais, nesse sentido protetor e de "encasar", assemelham-se ao sonho. Contudo, estaríamos vivendo uma redução desses rituais em toda a sua teia polissêmica. Para Turcke, os jovens estariam passando por um retraimento de sonhos, e o processo onírico ficaria abalado por tais características de pensamentos fugazes da atualidade. Faltaria lugar para processos, para tempos estendidos, para pensamentos que unam "em figuras interiores persistentes, em vez de meramente vagabundear pelo sistema nervoso a promover intranquilidade" (Turcke, 2016, p. 77); ele aponta que jovens com TDAH teriam uma significativa redução de sequências oníricas bem delineadas. Paradoxalmente, vivemos rodeados por imagens e vídeos atualmente, mas teríamos um estúdio cinematográfico interno falho, com todas as consequências negativas para a nossa economia psicossomática. Ferenczi (2011 [1934]) nos apontou a ação "traumatolítica" do sonho, e Pontalis (1991) o valoriza por caracterizá-lo como uma espécie de laboratório em que a gente ensaia e experimenta a vida.
Muitos desses aspectos são claramente apontados no livro Luto e Trauma - testemunhar a perda, sonhar a morte, de Bregalanti (2023). E, para além dos sonhos, Bregalanti também reafirma a importância dos rituais, neste caso, os de despedidas - os ritos fúnebres -, na construção de um tempo e um espaço que permitiriam aos enlutados buscar um destino subjetivo para as suas perdas. Para tanto, é essencial que haja algum tipo de reconhecimento no coletivo, uma inscrição no laço social. Contudo, sabemos quantas perdas não puderam ser testemunhadas na pandemia. Muitos jovens passaram por lutos isolados, silenciosos e não reconhecidos no ambiente familiar, recorrendo ao virtual para tentar assentá-los. Recentemente, um jovem de 14 anos disse em atendimento: "eu não conseguia achar lugar para a minha raiva em casa, não conversava com meus pais, me trancava no quarto e procurava lugar para ela na deep web. Lá, a raiva só amplificava".
A realidade impõe-se sobre a virtualidade, e aprendemos com o trabalho efetuado na rua (Refugiados Urbanos) pelo Projeto Quixote haver múltiplas telas e experiências, muito além dos buracos e fragmentos do digital. Contudo, parece que os abandonos atingiram diferentes recortes da sociedade, e não há como nos silenciarmos diante dessa preocupante inserção da tela precoce, excessiva, desassistida - desmedida e desmediada - sem uma paraexcitação de conteúdos e estímulos sensoriais. Coloca-se o bebê na tela, quando o que ele precisa é desse outro que enlace esse fio que conduz à subjetivação. Um outro que se afete e, com isso, ofereça uma ação específica que o tire do seu estado de desamparo, feito impossível com uma tela que apenas oferta algo indiscriminadamente, sem que haja uma decodificação. Sabemos que o nascimento do sujeito e o surgimento da mente ocorrem a partir de erros, diferenças, ausências ambientais em dosagens possíveis de serem toleradas. Em O brincar e a realidade (1975), ao retomar seu conceito de "suficientemente bom", Winnicott explicita a importância de tais assimetrias e imperfeições como essenciais no meio ambiente. O ChatGPT ainda não desempenha as funções constituintes da subjetividade. É sobre outros diálogos.
Mas como fica isso na superoferta vazia das telas? Ou na abundância de escassez das ruas? Além disso, como se daria esse estado intermediário e flutuante, entre o ser adulto e o ser criança, na digitalidade? E nas ruas, com uma infância roubada e encurtada? Que leis há nas ruas? E quais regulamentações regem as telas? Reflexões necessárias para pensarmos acerca dessas graves situações em que há perda de referências simbólicas e estruturantes. Faltas para além de pequenas ausências toleráveis. Sem o amparo da lei e do simbólico que ela constitui, instala-se a angústia do descaminho, pois múltiplas direções e direção alguma se confundem.
Acrescenta-se a essa trama da distopia e desamparo[2] um outro apagamento de lugar. Tem-se presenciado uma parentalidade precária em autoridade, o que reforça a ideia de lugares confusos e limites incertos. Adultos com muito medo de frustrar, mas, exacerbada em tonalidade paranoica, com grande preocupação com o próprio desempenho. Em uma tentativa de supercontrolar, buscando uma assepsia de riscos e erros - levando a uma retração da espontaneidade das relações -, há uma procura desenfreada por manuais prontos e retidão do comportamento da infância. Acrescenta-se ao caldo a percepção de que talvez se sustente uma espécie de delírio que acompanha a parentalidade de hoje, em que a criança e o jovem poderiam ser poupados dos nãos, limites inexoráveis da realidade. Na prática pediátrica, frequentemente, é possível esbarrar com a seguinte pergunta: "Mas, afinal, eu posso falar não para o meu filho?". O raciocínio, muito bem exposto no livro O infamiliar na contemporaneidade: o que faz família hoje? (Mena, 2021), vai nesta linha: se eu não posso frustrar você porque isso me frustra, eu recuso a diferença que há entre nós; ninguém ocupa nesta estrutura lugar algum, nem lugar de filho, nem lugar de pai. Seria, pois, tudo distópico, em um esvaecimento da autoridade e uma grande confusão de lugares, gerada por um excesso de horizontalidade nas relações. Ou seja, configuram-se paradoxos. Em uma busca tão intensa por normatizar corpos e comportamentos, procura-se excessivamente ver, mas há uma cegueira da singularidade. Dentro de uma mesma casa, cada um em sua tela, ninguém se enxerga ou se escuta. Há uma busca por respostas em manuais superficiais do Instagram, abstendo-se daquelas que surgem da reciprocidade despretensiosa das relações do dia a dia.
E o que chama a atenção nessa horizontalidade do cuidado e da invisibilidade do jovem é que apresenta semelhanças - ainda que com etiologias distintas - com a que é presenciada há anos no trabalho na rua. Onde está quem cuida? Onde está quem vê e se implica? Pais anônimos e sem corpo? Sociedade e políticas públicas que se abstêm? Guardadas as devidas proporções, há abandonos. Por medo (ou falta estrutural da rua) de realizar interditos no presente, há uma interdição de futuro.
Sabemos, ainda, que os pais desses jovens refugiados urbanos, muitas vezes, sobrevivem com trabalhos informais e em condições precárias de renda e de moradia, fora do alcance das políticas públicas, sem nenhum acesso a qualquer mecanismo de proteção social. Esses jovens partem desse legado e tendem a perpetuar essa invisibilidade no terreno político (de pertencimento), identificando-se com a condição de estranho e estrangeiro em sua própria pátria. Em termos mais subjetivos, podemos dizer que o que descrevemos seria uma espécie de ausência de mundo ("acosmismo"), uma figura inédita da alienação, que é a perda dos laços sociais, políticos, afetivos e simbólicos, e de uma experiência do passado que não mais é traduzível no presente, tanto na vida pessoal como na coletiva.
Hannah Arendt (1964), ao referir-se às populações de apátridas que vagaram pela Europa depois do fim da Segunda Guerra Mundial, considerou-as em situação de acosmismo, perda de um cosmos comum, tempo de desolação, de perda de solo, de um chão. "Expatriamento transcendental" e desenraizamento são experiências de despersonalização e de desrealização, pontos que podemos entrecruzar com o adoecimento dos jovens, na atualidade e na virtualidade, e também na realidade nua e crua das ruas.
Jovens há tempos nas ruas; outros, recentemente privados delas. Por dois anos, muitos não contaram com os espaços intermediários da cidade - uma transicionalidade entre a casa e a escola. E, mesmo antes disso, o enaltecimento do individual em relação ao coletivo transformou espaços, ainda que inicialmente criados para promover encontros sociais, em um mero agrupamento de indivíduos, isoladamente usufruindo deles. Vivemos uma fragmentação da experiência comunitária. E a escola teve um embate recente com a covid, porém as ameaças agora são outras, e há um clima de medo, dúvida e fragilidade em relação à instituição escolar. Há um esvaziamento das escolas que contrasta com a robustez de muitos movimentos estudantis de nossa história, relembrando os mais recentes, da ocupação pungente das escolas em protestos de 2015. E tantos jovens, nas ruas, fora delas. Muitas incoerências.
O adolescer é uma transicionalidade; destitui lugares, papéis, identidades nesta missão de se apropriar da vida adulta, sendo, pois, um tempo de reacomodações. E se os cômodos já estão vazios? Será que, esvaziados na família, confrontos ganhariam lugar de outra natureza nas escolas? Ou seriam palco desses confrontos o próprio corpo, com as autolesões, por exemplo?
Telas, muros, distintas realidades sociais e de vida sempre houve, levando-nos a crer que talvez essa distopia venha de longe e hoje seja amplificada por uma epidemia de novas telas, que acomete as mais variadas situações e, mais intensamente, os mais desprivilegiados socialmente. Sobrepondo-se, assim, a essa outra doença endêmica, dos refugiados urbanos e da vulnerabilidade social.
Há um entorpecimento pelo digital e pelas drogas nas ruas, e pelo uso imponderado e banalizado das medicações. O exílio químico ou eletrônico passa a ser uma fórmula eficaz para tornar suportável o insuportável e acalmar a dor de viver. Tratamentos farmacológicos assustadoramente iniciados para crianças cada vez menores, em uma busca por corpos dóceis e obedientes. Como subverter corpos e uma infância e adolescência colonizadas? Lembrando do que já nos avisou Freud, de que o "eu é sobretudo corporal" (2011 [1923], p. 77), como estaria a corporeidade - fundação da subjetividade - desses jovens, desde cedo, imersos na virtualidade? Como convocamos corpos tão anestesiados pela virtualidade ou demasiadamente excitados, saturados de estímulos?
No Projeto Quixote, uma cena capta. Em uma oficina de grafite, jovens e educadores alongando o braço. O corpo é convocado. Afetado. Para usar essa outra tela, muros grandes, diferentes da tela virtual, ou mesmo a do vidro do carro, aquela que segrega o jovem de dentro e o de fora, precisamos da amplitude do braço; precisa de treino, ritmo, coordenação e força. Componentes agregados. E grupo. Conflitos, dúvidas, inseguranças, estranhezas, curiosidade, inseparáveis condições de gente estando no meio de gente. Apertar e mover os braços sincronicamente. "Sai muito, sai pouca tinta, derrama, entope o pino da saída do spray, sobra ou falta cor, opa... saiu diferente do que previ, o que desenhei não era assim, deformou, dá para arrumar, dá para tentar de novo, como você fez o seu, será que eu também consigo, aqui meu espaço, ali o seu, sujou a roupa e meu corpo?" Outras manchas, marcas e inscrições. Justamente esse hiato entre o que se imaginou, o que se planejou e o que saiu na parede é um espaço valiosíssimo, raridade nas redes sociais. Mundo achatado onde já vem tudo pronto, em que se fala sob escudos de avatares ou, ainda, em que instantaneamente se apaga um vídeo, muda a tela ou se deixa de seguir alguém. Carência de corpos pensantes, pulsantes e falantes, reciprocidades imperfeitas, mas tão completas em tom, cor, movimento e afeto. A vida criativa e expressiva, importante para fortalecer o sentimento de sentir-se real. Utopia frente à distopia do desmantelamento - e onipotência - na virtualidade.
Apostamos nas possibilidades de construções coletivas, que nesses equipamentos funcionam como rituais e valorizam o poder do semelhante. Acreditar no amor como conexão e uma possibilidade ponderada de encontro com diferenças - feito raro em tempos polarizados entre idealizações cegas e cancelamentos impulsivos do outro -, e não indiferença, própria do individualismo e do neoliberalismo. O estar na comunidade abre brecha para a comunicação, sendo o grupo um agente potentemente transformador, auxiliando o indivíduo a situar-se na sua história como tal e dentro de sua própria condição, com as mais diversas peculiaridades que ele apresente. A presença em uma oficina semanal (ou mais frequente) cria uma forma de cuidado previsível e contínuo, quesitos muitas vezes insuficientes nas variadas formas de provisões ambientais. O jovem vai, assim, reavendo a experiência simbólica da filiação e do valor estruturante das instituições dedicadas ao seu acolhimento, elaborando a sua própria história por meio de sua rememoração compartilhada e habitando novos espaços, aqueles que constroem, e de tanto construí-los é que vão construindo a si próprios e se enraizando. Em tempos de espaços esvaziados de memórias e atrofia das narrações, locais que possibilitam escrever "uma outra história" passam a ser valiosos instrumentos de cuidado, dispositivos fomentadores de sonhos acordados, teias de encontros vivificantes, promovendo deslocamentos intrapsíquicos, intersubjetivos e novas conexões neuronais, afetivas e de desenhos de vida.
Os gigantes adoeceres biopsicossociais atuais - tais transtornos de déficits de lugares - precisam de intervenções longitudinais, transdisciplinares e intersetoriais. Se as etiologias desses adoecimentos se delineiam em cadeias associativas de séries causais complementares - do social, econômico, biológico, familiar, político -, não há como excluir do tratamento a mesma trama de complexidade e complementaridade. Só assim, com uma rede firmemente tecida, haveria sustentação para que esferas não sucumbam, como aludimos na representação de Dalí.
Como quem vive na rua situações de vulnerabilidade das mais diversas, precisamos todos de habitações, no sentido de delimitar um espaço interior e privado, com a criação de um território de proteção, como a casa e a infância. Algumas fases da vida, como a adolescência, em que o somático passa pela metamorfose da puberdade e o psíquico, por novos conflitos, demandam (re)habitar o próprio corpo. E se há raptos, desocupações, privações excessivas, como "encasar", morar e criar raízes?
Abrindo a porta e deixando entrar algumas palavras do livro Mundo dentro, poesia de sobrevivência, da médica Ana Claudia de Quintana Arantes (2022):
Numa noite dessas, um sonho bem pequeno
Começa a crescer silencioso dentro da gente. E cresce, cresce.
E quando se vê
O sonho é quem realiza a gente.
Dar lugar para sonhos. Talvez seja esse o antídoto para tantos não lugares. Que possamos ser mais convocados por Dom Quixote.
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ano - Nº 6 - 2024publicação: 12-12-2024 |
[1] Mais informações em www.projetoquixote.org.br e em BEDOIAN, G.; LESCHER, A.; FERRÉ, Z. Quixote: uma outra história. São Paulo: Peirópolis, 2017.
[2] A articulação desses dois conceitos é muito bem apresentada em BERNADINO, L. M. F. (Org.). Infância em tempos distópicos: o que pode a psicanálise? Salvador: Ágalma Psicanálise, 2022.
ARANTES, A. C. Q. Mundo dentro, poesia de sobrevivência. São Paulo: Sextante, 2022.
ARENDT, H. Entrevista à televisão alemã ZDF, em 1964. Disponível em: https://youtu.be/PG8BYwv9IBQ. Acesso em: 8 jun. 2024.
AUGÉ, M. (1992). Não lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade. 9. ed. Campinas, SP: Papirus, 2012.
BENJAMIN, W. Origem do drama barroco alemão. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1986.
BENJAMIN, W. O contador de histórias e outros textos. São Paulo: Hedra, 2020.
BREGALANTI, L. Luto e Trauma - testemunhar a perda, sonhar a morte. São Paulo: Blucher, 2023.
DIAS perfeitos. Direção de Wim Wenders. Produção: Takuma Takasaki. Alemanha, Japão: O2 Play, 2023. 1 DCP.
FERENCZI, S. (1934). Reflexões sobre o trauma. In: FERENCZI, S. Obras completas. v. IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FREUD, S. (1923). O Eu e o Id. In: FREUD, S. (1923-1925). O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos. Obras completas, volume 16. Tradução e notas Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, B.-C. A crise da narração. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.
HAN, B.-C. O desaparecimento dos rituais, uma topologia do presente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021.
MENA, L. (Org.). O infamiliar na contemporaneidade: o que faz família hoje? Salvador: Ágalma Psicanálise, 2021.
ORTIZ, E. C. Por que não dancei. Coordenação do projeto Gilberto Dimenstein. São Paulo: Senac, 2001.
PONTALIS, J. B. A força de atração. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
TURCKE, C. Hiperativos! Abaixo a cultura do déficit de atenção. São Paulo: Paz e Terra, 2016.
WEIL, S. A condição operária e outros estudos sobre a opressão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.