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Entre o sonho distópico e a distopia sonhada

Acesse aqui a versão completa desta edição!

(Contém spoilers.)

A série “Ruptura” (“Severance”), criada por Dan Erickson, apresenta um universo distópico em que funcionários da megacorporação Lumon são submetidos a um procedimento cirúrgico que, por meio da ativação de chips, separa radicalmente suas memórias profissionais e pessoais. Essa cisão cria duas versões de cada indivíduo: o externo (outie), que vive a vida fora da empresa sem se lembrar do que ocorre no ambiente de trabalho, e o interno (innie), que existe apenas dentro da Lumon, sem acesso a qualquer lembrança da vida privada.

Logo de início, a trama propõe a ideia de que a ruptura implique algum ganho para quem se submeter a ela. Nesse sentido, Mark Scout, o protagonista, se submete ao experimento para anestesiar a dor avassaladora que passa a sentir após a morte repentina da companheira, Gemma. A ruptura, dessa perspectiva, pode ser considerada um mecanismo de defesa; e os personagens da série, sujeitos fendidos, levando ao limite a proposição de Freud de que “o eu não é senhor em sua própria casa”.

Nessa dinâmica estabelecida pela série, os internos, em um primeiro momento, parecem mais alienados do que os externos: eles não têm autonomia, não conhecem o mundo, nem sequer sabem seus próprios nomes. Entretanto, essa hierarquia vai se invertendo, e é justamente a partir das inquietações dos internos que passam a ocorrer mudanças.

Assim, o ambiente da Lumon pode ser interpretado como uma representação do inconsciente estruturado como um labirinto repleto de enigmas e regras ocultas. As atividades dos funcionários, aparentemente absurdas e sem propósito – reorganizar números desconexos em uma tela, por exemplo — evocam o trabalho do sonho, tal qual formulado por Freud, em que elementos deslocados e condensados correspondem à transposição dos pensamentos oníricos latentes em conteúdo manifesto.

A analogia entre o aparelho psíquico freudiano e o universo da série se potencializa na segunda da temporada, quando há a revelação de que a Lumon é não apenas uma empresa, mas um sistema de controle totalitário que exerce uma vigilância opressiva por meio de câmeras, códigos de conduta e punições. Essa vigilância constante evoca o supereu como instância tirânica, que não apenas proíbe, mas exige submissão e sacrifício.

Com efeito, os internos, como crianças, dependem inteiramente de uma autoridade externa, carecem de referências e buscam compreender o mundo, mas é justamente nesse estado de aparente ingenuidade que emerge o desejo de saber. Assim, enquanto os externos, abafados pela rotina, se submetem ao procedimento de ruptura, os internos, privados de liberdade, são aqueles que ousam questionar, o que promove efeitos sobre seus externos. Nesse trânsito, vemos os personagens enfrentarem suas histórias pessoais e se aperceberem de que a clivagem innie-outie não amortece a dor, mas a potencializa.

Tome-se, a propósito, a obstinação de Mark em salvar Gemma, sua esposa dada como morta, mas que, no final da primeira temporada, foi constatada viva. Gemma vinha sendo usada em experimentos da Lumon, nos quais, Mark, sem saber, tinha participação direta. Até que, no último episódio, cria-se um meio para que seu externo se comunique com o interno: usando uma filmadora, num chalé com tecnologia semelhante à da Lumon, suas duas versões conversam.

A missão é clara: o Mark externo precisa da colaboração do seu interno para salvar Gemma. No entanto, o interno reluta. A ajuda significaria, na prática, sua não-existência — e ele está envolvido amorosamente com Helly R., uma colega interna por quem se apaixonou. Uma vez mais, evidencia-se a dependência do externo em relação ao interno. O embate entre os dois Marks, mediado pelo aparato audiovisual, é marcado por muita tensão.

No dia seguinte, Mark retorna à Lumon. Já na versão interno, ele tem uma conversa decisiva com Helly, e opta por seguir o plano indicado pelo externo. Consegue encontrar Gemma, em uma sequência de cenas permeadas por violência, fruto da descarga da tensão represada, que alternam entre ambientes em que Mark e Gemma se reconhecem na versão externa e outros que reativam o condicionamento do chip de trabalho. A cena do reencontro do casal na versão externa, a propósito, é tocante.

Mas eles não têm tempo a perder, e após entradas e saídas pelos labirintos da Lumon, chegam a um ponto em que Gemma fica de um lado e Mark, do outro. De fora, em sua versão externa, Gemma grita desesperadamente pelo marido, agora em sua versão interna – mas o Mark interno deseja viver o amor com Helly, não com Gemma. Mark hesita, e ao ouvir o chamado de Helly, corre em sua direção, deixando Gemma para trás.

O último episódio da segunda temporada termina em aberto. Com efeito, enquanto houver vida, o caminho continua, alimentado pela esperança e pelo desejo, permeado por dores e lutos, diante da irremediável certeza (compartilhada entre os internos Helly e Mark) de que o fim chegará, seja no mesmo segundo, em dias ou anos. Assim, se “Ruptura” constrói um sonho distópico, a série sugere, também, que se pode sonhar a distopia, de modo a metabolizá-la e transformá-la em outros elementos para quem sabe, poder sonhar com a utopia, como em um quadro, congelado no instante, de um casal que dispara rumo a um amor impossível.

Renato Tardivo

Psicanalista e escritor. Foi Professor Colaborador do Instituto de Psicologia da USP e é coordenador da Pós-Graduação em Clínica Psicanalítica da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Mestre e doutor em Psicologia Social, com Pós-Doc em Psicologia Clínica pela mesma Universidade e em Psicologia da Saúde (UMESP/CAPES). É autor, entre outros livros, de Cenas em jogo – literatura, cinema, psicanálise (Ateliê/Fapesp).


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