“A sexualidade é a experiência na qual o ser escapa de si mesmo.”
Bataille, G. O Erotismo (1957).
O Congresso da FEBRAPSI 2025, realizado em Gramado sob o tema “Sexualidade: o tumulto das diferenças”, configurou-se como uma travessia ética e conceitual no coração do pensamento psicanalítico contemporâneo. Quinze membros do Departamento de Formação em Psicanálise estiveram presentes, atravessando o congresso com seus corpos, suas escutas e perspectivas, não apenas como participantes, mas como operadores de linguagem. Entre eles, as apresentações de Aline Choueke Turnowski, Olivia Lucchini, Alessandra Ruivo e a minha compuseram um conjunto de reflexões que se inscrevem no campo das formações do inconsciente e das reformulações do desejo em tempos de mutação simbólica. A sexualidade, que desde Freud nunca foi um domínio do corpo, mas da palavra e do desejo, reaparece hoje como o ponto mais crítico da cultura e da clínica: ela é o lugar em que o sujeito se constitui, se dispersa e se reinventa. Nesse ponto, torna-se incontornável lembrar que a sexualidade sempre opera como uma gramática do sofrimento — o modo como o sujeito escreve no corpo e na linguagem, aquilo que não encontra inscrição.
O tema do congresso — “o tumulto das diferenças”, não se apresentou como mero slogan, mas como enunciado de uma urgência. Somos sujeitos e sujeitas de um tempo em que as diferenças não são mais o “outro” da norma, mas o próprio campo de estruturação do sujeito. Na clínica, já não é possível sustentar a sexualidade sob as balizas de uma heteronormatividade implícita; tampouco se pode reduzi-la à plasticidade dos discursos identitários. O tumulto nomeia o real da sexualidade, aquilo que, em Lacan, escapa à representação e faz furo no simbólico. A diferença, por sua vez, é o que insiste: não como oposição entre polos, mas como descentramento, como aquilo que impede o fechamento do sentido. Pensar a sexualidade hoje é pensar a própria psicanálise em sua capacidade de sustentar o indizível. Este é o ponto em que a lei ortopédica — aquela que tenta endireitar, normativizar, alinhar o sujeito a um ideal do bem-gozar — se mostra insuficiente, revelando seu caráter de defesa contra o real do desejo.
Lacan foi, dentro da tradição analítica, quem mais radicalmente se aventurou nos modos de sexuação na clínica ética-psicanalítica, observando que a sexualidade não é uma essência, mas uma posição frente ao gozo e à castração. Ao propor suas fórmulas da sexuação no Seminário 20, ele mostrou que o masculino e o feminino não são gêneros, mas lógicas de inscrição no discurso, modos de lidar com o impossível do gozo. A sexuação, portanto, não é binária, mas atravessada por uma não-relação — aquilo que torna cada sujeito irredutivelmente singular. Dizer que “não há relação sexual” é afirmar que a diferença não se totaliza, que há um resto, um furo, uma hiância que nenhuma normatividade pode suturar. No campo da contemporaneidade, essa leitura torna-se uma ética: a psicanálise não é chamada a explicar a diversidade sexual, mas a escutá-la, a acolher o real que nela se manifesta. É aqui que Freud, Lacan, Foucault e Butler encontram seu ponto de convergência: todos, a seu modo, desmontam as falsas ortopedias que tentam reduzir o desejo a um regime de coerência.
É nesse ponto que o pensamento de Michel Foucault torna-se aliado: em A História da Sexualidade I, o filósofo desvela como a modernidade inventou o sexo como regime de saber e de poder. A sexualidade, longe de ser reprimida, foi fabricada — uma tecnologia de confissão e vigilância. Ao trazer essa genealogia, Foucault nos permite perceber que os discursos psicanalíticos também participam dessa trama, e que cabe à psicanálise resistir a tornar-se um dispositivo de normalização. O analista não deve ser o guardião da norma, mas o intérprete da diferença. A escuta analítica, nesse sentido, é um ato de subversão do poder que define, diagnostica e captura o desejo. Há uma afinidade aqui entre a crítica foucaultiana da norma e o que, na clínica, chamamos de gramática do sofrimento: cada sujeito organiza sua dor como sintaxe singular, que a psicanálise deve escutar sem submetê-la à lei ortopédica dos comportamentos esperados.
Judith Butler, em Gender Trouble e Undoing Gender, radicaliza esse ponto ao mostrar que gênero é um ato performativo — uma repetição que institui o que parece ser natural. Ao deslocar o gênero da ordem da identidade para a do ato, Butler aproxima-se da ética psicanalítica: o sujeito é efeito de discurso, e o corpo é campo de inscrição de gozos, não de verdades biológicas. Essa leitura nos obriga a pensar a clínica para além de categorias estáveis: não há “cura” possível para o gênero, porque ele não é sintoma a eliminar, mas forma de enunciação do desejo. O tumulto das diferenças, portanto, é também o tumulto do simbólico, da linguagem, do corpo em trânsito. Assim, Butler, Lacan e Foucault compõem um campo de pensamento onde a diferença não é um desvio, mas uma força produtiva — aquilo que impede a alienação completa do sujeito às ortopedias da cultura.
No contexto brasileiro, Jurandir Freire Costa recoloca o debate em termos éticos e históricos. Ao reconstituir a etimologia do termo homossexualismo, evidencia que o sufixo -ismo carrega o lastro patologizante produzido pela medicina e pelo direito do século XIX. Ao propor sua substituição por homoerotismo, desloca a discussão para o campo do laço e da alteridade: o erotismo é sempre relação, nunca categoria. Essa distinção, que à primeira vista parece apenas linguística, é na verdade política e clínica: trata-se de reinscrever o desejo onde o discurso moral tentou instalar a doença. Não se trata de uma discussão epistemológica, mas de uma disputa etimológica — porque os nomes e as terminologias precisam tumultuar e se rever para que a clínica psicanalítica possa atravessar o século XXII. O gesto de Jurandir ressoa aquilo que Lacan nomeia como ética da psicanálise: a ética que não cede sobre o desejo, sustentando-o como eixo do sujeito, sua liberdade trágica. Assim, Jurandir realiza uma verdadeira desortopedia do desejo, rompendo com a gramática patologizante que, historicamente, capturou e silenciou corpos divergentes.
Nesse cenário, a presença de Eliane Michelini Marraccini e o lançamento do livro Superego: das tramas do conceito às sutilezas da clínica adicionaram uma camada de rigor conceitual ao congresso. Embora o livro não trate diretamente da sexualidade, sua discussão sobre o superego como instância de gozo e mandato nos convoca a pensar como o superego contemporâneo reconfigura as experiências de corpo e prazer. A moral, o ideal e o gozo, elementos que atravessam o campo sexual, aparecem ali como forças invisíveis que estruturam a subjetividade. Ao ecoar a problemática do supereu, Marraccini nos lembra que o superego é o lugar em que o gozo se liga à lei, e que toda clínica da sexualidade passa, inevitavelmente, por esse ponto de injunção: “goza!” e “renuncia ao gozo!” — mandatos que se contradizem e se repetem na experiência analítica. É neste intervalo, onde a lei ortopédica tenta moralizar o corpo e a gramática do sofrimento tenta expressar o indizível, que a psicanálise opera: não para corrigir o sujeito, mas para permitir que ele encontre uma forma singular de habitar seu desejo.
Ao final, o que se desenhou em Gramado não foi apenas um congresso, mas a confirmação de que a psicanálise vive de seus laços — sobretudo daqueles que se tecem no interior das instituições. O laço transferencial institucional, quando não rigidificado por idealizações ou ortopedias disciplinares, torna-se força de transmissão: é ele que permite que o desejo circule, que o saber se desloca, que a própria comunidade analítica se deixe afetar pelo que emerge. Estar em grupo, estar com este grupo específico, foi decisivo para que pudéssemos pensar a psicanálise não como doutrina, mas como vibração, como contágio, como travessia de uma rebeldia de Eros — Eros que perturba, que expande, que faz respirar onde antes havia constrição.
Por isso, agradeço profundamente a Nina Taboada, Jeane Reis, Lilian Azevedo, Paula Diniz, Maria Isabel, Juliana Ferroldi, Vanessa Araújo, Luciana Carrer, Sabrina Lima e Simone Gonçalves. Cada uma, com sua presença, seu estilo, seu modo singular de ocupar o espaço e de formular perguntas, compôs essa experiência de pensamento compartilhado. Foi com elas — nas conversas, nas caminhadas, nos silêncios, nos risos, nas anotações, nos debates — que se tornou possível sustentar algo que não se ensina em textos: a psicanálise como prática de mundo, como corpo pulsante, como ética do encontro.
E é justamente nesse encontro que se anuncia uma subversão fundamental: a subversão da posição hierárquica que se dá pelo conhecimento. Não se trata de negar a autoridade simbólica, mas de deslocá-la: o saber, quando circula, desestabiliza as posições fixas, redistribui os lugares de fala, descoloniza a clínica. O Congresso da FEBRAPSI 2025 testemunhou essa virada: a importância não está apenas em quem fala, mas no que pode ser dito — e, sobretudo, no que pode ser inventado coletivamente. É o conhecimento que dissolveu as hierarquias imaginárias entre “analistas” e “em formação”, permitindo que nossos corpos não apenas transitassem pelo congresso, mas produzissem pensamento, interrogassem conceitos, criassem novas formas de nomear a experiência.
Porque é isso que renova o mundo: corpos que se movem, corpos que pensam, corpos que criam. Corpos que fazem da psicanálise uma travessia viva — sempre à altura de seu tempo, sempre habitada pelo tumulto das diferenças, sempre fiel ao gesto inaugural de Eros: fazer surgir vida onde antes havia apenas repetição.
Hélvio Benício
Membro acadêmico do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
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