terça-feira, 03 de novembro de 2015 - 10h21

TEXTO: Meu amigo Hassan
03 nov 2015

TEXTO: Meu amigo Hassan

Essa imagem sem foco é a lembrança de um encontro com Hassan, que me marcou à flor da pele, como um acidente, deixando uma cicatriz carregada de algo que nos dias de hoje mais parece ficção.

Eu estava em Edirne, uma cidade a duas horas e meia de Istambul, na Turquia. Era um sábado, por volta das quatro da tarde, e retornava de um festival na cidade. Ao chegar à rodoviária, troquei o meu bilhete, para antecipar o regresso, e aguardei o ônibus das cinco.

Sou estrangeiro na cidade, não pela ausência de outras nacionalidades, ali presentes, mas por não serem muitos os latinos nessa parte do país. O carimbo de estrangeiro já nos coloca num lugar diferente – às vezes bom, e ruim na maioria das vezes. Mas isso não me incomoda mais: viajar é se por em outra posição no mundo, e faço isso com certa frequência. Moro numa metrópole, o que, suponho, confere uma couraça para lidar com as desventuras.

Na espera rodoviária, como os locais, pedi um Çai e aguardei. Na sequência fui ao banheiro, o qual era pago e exigia o pedágio de uma lira turca, cerca de um real e trinta centavos. Barato para os padrões turcos. Ao lado dos banheiros há uma instalação muito própria da cultura islâmica, vista com muita frequência nas mesquitas. São torneiras, cada qual com uma pia, com bancos em frente, onde as pessoas podem se lavar, principalmente os braços, as pernas e a cabeça. A religião prega a limpeza do corpo para em seguida cuidar da limpeza da alma. Não se entra numa mesquita se estiver sujo.

Nos banheiros, principalmente os de uma rodoviária, a limpeza não é das mais adequadas. Destoava um pouco do restante do edifício, pois, mesmo sendo uma cidade pequena, tudo era bem cuidado, como em geral acontece na Turquia.

De relance me deparei com a imagem de um rapaz que havia feito ali sua higiene, mas que naquele momento bebia água com as mãos em concha, diretamente na torneira. Nada muito diferente, mas o conjunto da obra mexeu comigo a ponto de notar o fato. Ao sair do banheiro, me deparei com o Hassan, este era seu nome, parado na porta dos guichês. Parecia-me um pedinte; ainda assim achei-o um pouco destoado do conjunto. Talvez por intuição, ou projeção, havia algo a mais em comum entre nós, mas não sei o que me levou a retirar uma nota de vinte liras da carteira e colocar na mão de Hassan.

Hassan se surpreendeu com o gesto, mas aceitou o dinheiro. Fiz isso e saí rapidamente. Mas Hassan não estava pedindo nada, o gesto e a demanda eram meus. Na carteira eu tinha mais 50 liras turcas, um cartão de transporte público e alguns trocados que me serviram perfeitamente para tomar mais um Çai que custava duas liras.

Não vi mais Hassan nos 40 minutos seguintes. O ônibus chegou e os passageiros começaram a embarcar. Já bem próximo do horário de partida, o ônibus estava quase completo, mas o lugar ao meu lado continuava vazio, quando de repente Hassan entra com sua passagem na mão e se senta ao meu lado.

A primeira reação foi de certo embaraço de ambas as partes, mas eu, como o mais velho da dupla, me levantei e o cumprimentei, dando-lhe a mão e um sorriso, quebrando o gelo.

Como não falo turco e Hassan não fala inglês, tudo o que poderia ocorrer ali também estava impedido pela linguagem. Nessas horas, os pensamentos começam a elaborar os fatos e, como em todo neurótico de cidade grande, o gesto realizado passou a ser ponderado – numa síntese, se esse constrangimento poderia ter sido evitado, restituindo a assepsia da viagem, sem proximidade com o humano, sem surpresas e tensões, em tudo igual ao roteiro de ida.

Meu espírito estava tomado por uma certa melancolia, como sempre fico ao me despedir de amigos de que gosto muito, a exemplo dos que deixei em Edirne.

Por um bom tempo, creio que uma hora, a viagem preservou a temperatura de companheiros de viagem, até o serviço de bordo ser servido. Após o lanche, numa calma aparentemente natural, Hassan abriu sua pequena mochila e retirou de lá seu passaporte, muito surrado, guardando nele a passagem. Abriu um sorriso e disse algo que não compreendi. Afirmei em turco: sou brasileiro, não falo turco, falo inglês e português. Outro sorriso, com outra expressão de espanto, o acréscimo de algumas frases, e entendi uma palavra próxima de vocation. Confirmei com a cabeça e um aceno de positivo.

Tentei nos apresentar, dizer meu nome e saber o dele, mas sem chance. Tirei meu passaporte e mostrei meu nome a ele. Sim! Ele conseguiu entender e fez o mesmo. Demorei para entender sua procedência, pois a capa do passaporte estava sem as identificações de praxe, esmaecidas como os documentos que são utilizados muitas e muitas vezes. Logo identifiquei os dados do meu companheiro de viagem pelo fato de seu passaporte ser bilíngue, sírio e francês. A Síria, como protetorado da França, possuía o francês como segunda língua – apesar disso, Hassan não falava francês, idioma que eu arranho.

Depois de conhecer seu nome e sua nacionalidade, descobri que Hassan estava com dezoito anos completos e que em janeiro fará dezenove. Apesar de possuir uma estatura grande, Hassan tem um semblante muito jovem, porém marcado. Achei que ainda não havia saído da adolescência, pois guardava uma inocência indefinível.

Tentei saber mais um pouco, pois ficara claro que Hassan era mais um dos milhares de refugiados sírios que fugiram do Estado Islâmico e estão sob a proteção da Turquia. Perguntei por sua família, visto que no passaporte sírio consta o nome dos pais. Hassan me explicou que eles ficaram na Síria com os irmãos pequenos. Consegui entender que ele fugiu e nadou para chegar à Turquia, e por isso o passaporte estava bem surrado, marcado pelas águas.

Hassan estava sozinho na Turquia, atravessou o país, que é enorme, e chegou a Istambul. Há pouco havia tentado se aproximar da fronteira com a Bulgária, pernoitando alguns dias num campo de refugiados ali perto de Edirne, para saber se era possível seguir viagem para um país da Comunidade Europeia, à procura de um futuro melhor como tantos outros que estão na mesma situação.

O campo estava muito cheio, a comida era racionada. A incerteza de seguir viagem sozinho, sem família, sem amigos, tanto na travessia quanto em um possível destino, o fez retornar para Istambul.

Nesse momento, tudo vai tomando outra proporção, outros sentimentos afloram em mim, uma vibração pela coragem e uma profunda compaixão por Hassan. Com essa idade, certamente poderia ser meu filho, e essas relações não poderiam  se estabelecer se não houvesse um espaço apropriado, como um setting analítico, e a transferência foi imediata.

Até onde entendi, Hassan estudou o ensino médio, mas não consegui saber em que trabalhava. Ele tinha um iPhone, um tablet e uma vida boa na Síria. Seus equipamentos foram roubados, ele foi espancado e só conseguiu manter consigo o seu bem mais precioso – seu passaporte. Era essa sua identidade, seu legado. Hassan, estrangeiro como eu, também trazia outro carimbo, o de refugiado, apátrida, exilado. Como se todos não fôssemos humanos, vivendo num mundo único. Sabemos que não é nada assim, as barreiras são inúmeras e vão nos destituindo de todo signo de humanidade, marcando os seres humanos com outros rótulos, com os quais não queremos contato.

Confesso que pensamentos ambivalentes me passavam pela cabeça. Ainda que Hassan até aquele momento tenha se mostrado muito inofensivo, trazemos sempre aquela desconfiança de que os desvalidos vão tentar tirar até o que não temos. Vivo numa cidade de pedintes profissionais, num país onde a violência é endêmica e atinge níveis de barbárie tanto quanto muitas das guerras existentes nesses países.  Velada, pulverizada e banal, essa violência nos deixa impermeáveis ao humano. Nossos pedintes, nossos refugiados haitianos e bolivianos, nossos massacres indígenas, nossos jovens negros assassinados, nossas crianças exploradas e abandonadas nos faróis, tudo isso nos deu essa casca espessa para lidar com o ódio vermelho, a fé cega e a faca amolada.

Eu me perguntava se Hassan não queria algo mais de mim. Mas, o quê? Mesmo que quisesse, a única coisa verdadeira que ele poderia me tirar era a vida. Eu não tinha muito a oferecer. Istambul é uma cidade segura, quase europeia, daquelas em que você pode andar tranquilo a qualquer hora, inclusive à noite.

No Brasil, o mal se faz presente, o mal se personifica como uma vingança. Não basta ser lesado num roubo ou ter a carteira batida. É preciso mostrar a sua face nos assaltos a mão armada, nos estupros, nos sequestros relâmpagos, nas saidinhas de banco, no próximo como refém, no achaque policial, nas favelas sitiadas pelo tráfico ou pelas milícias, o território aqui é também de guerra. Não sejamos hipócritas, o mal aqui também está no outro.

Afora isso, sempre que me encontro no exterior, sinto falta de uma língua universal. Poderia ser por sinais, como foi a nossa conversa, que se não tivesse essa barreira, muita coisa poderia ter sido compartilhada.

Chegamos a Istambul. Eram sete e meia da noite, e nos dirigimos ao metrô. Hassan me explicou que desceria duas estações antes da minha. Paguei nossos bilhetes com meu cartão de transporte. Hassan agradeceu. Nossa próxima viagem se daria no tempo de quatro estações de metrô. Fui tomado por um banzo e não sabia mais o que fazer, pois nada deu de errado e me despediria em breve de Hassan. Decidido, dei-lhe a nota de 50 liras que estava na carteira. Ele recusou, terminantemente! Fiquei sem chão. Qualquer um de nós, mesmo um simples turista viajante, aceitaria de bom grado essa pequena ajuda. Ele não. Me deu um tipo de abraço e agradeceu. Me disse que as vinte liras que eu dera já o havia ajudado a chegar a Istambul e que ali ele estaria seguro e com amigos. O metrô chegou na estação e Hassan se preparou para desembarcar. Eu, trêmulo, num átimo, tirei uma única foto de Hassan com o celular. Na saída do vagão, já na plataforma, ele elevou seu dedo indicador, esticando o braço, e depois bateu o punho fechado por três vezes sobre o coração. Um sorriso, e ele partiu.

Um arrebatamento me tomou e me deixou sem ação por algumas horas. Não me lembro como cheguei ao hotel. Sei que em seguida tomei um banho, aproveitei para chorar um pouco e não consegui sair mais naquela noite. Meu encontro com Hassan modificou minha humanidade, ele me deu o mais lindo presente que eu poderia ter recebido ali: um reencontro com a insignificância, com a humildade, com a vida e seus valores mais perenes, me restaurou a porosidade das relações humanas com toda sua mágica beleza.


Luiz Nogueira – Curso de Formação em Psicanálise – 1º ano