{"id":18,"date":"2015-11-03T10:21:11","date_gmt":"2015-11-03T12:21:11","guid":{"rendered":"http:\/\/sedes.org.br\/site\/\/?p=18"},"modified":"2016-03-09T13:17:58","modified_gmt":"2016-03-09T16:17:58","slug":"noticias-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/site\/noticias-4\/","title":{"rendered":"TEXTO: Meu amigo Hassan"},"content":{"rendered":"<!DOCTYPE html PUBLIC \"-\/\/W3C\/\/DTD HTML 4.0 Transitional\/\/EN\" \"http:\/\/www.w3.org\/TR\/REC-html40\/loose.dtd\">\n<html><body><p class=\"rtejustify\">Essa imagem sem foco &eacute; a lembran&ccedil;a de um encontro com Hassan, que me marcou &agrave; flor da pele, como um acidente, deixando uma cicatriz carregada de algo que nos dias de hoje mais parece fic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Eu estava em Edirne, uma cidade a duas horas e meia de Istambul, na Turquia. Era um s&aacute;bado, por volta das quatro da tarde, e retornava de um festival na cidade. Ao chegar &agrave; rodovi&aacute;ria, troquei o meu bilhete, para antecipar o regresso, e aguardei o &ocirc;nibus das cinco.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Sou estrangeiro na cidade, n&atilde;o pela aus&ecirc;ncia de outras nacionalidades, ali presentes, mas por n&atilde;o serem muitos os latinos nessa parte do pa&iacute;s. O carimbo de estrangeiro j&aacute; nos coloca num lugar diferente &ndash; &agrave;s vezes bom, e ruim na maioria das vezes. Mas isso n&atilde;o me incomoda mais: viajar &eacute; se por em outra posi&ccedil;&atilde;o no mundo, e fa&ccedil;o isso com certa frequ&ecirc;ncia. Moro numa metr&oacute;pole, o que, suponho, confere uma coura&ccedil;a para lidar com as desventuras.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Na espera rodovi&aacute;ria, como os locais, pedi um &Ccedil;ai e aguardei. Na sequ&ecirc;ncia fui ao banheiro, o qual era pago e exigia o ped&aacute;gio de uma lira turca, cerca de um real e trinta centavos. Barato para os padr&otilde;es turcos. Ao lado dos banheiros h&aacute; uma instala&ccedil;&atilde;o muito pr&oacute;pria da cultura isl&acirc;mica, vista com muita frequ&ecirc;ncia nas mesquitas. S&atilde;o torneiras, cada qual com uma pia, com bancos em frente, onde as pessoas podem se lavar, principalmente os bra&ccedil;os, as pernas e a cabe&ccedil;a. A religi&atilde;o prega a limpeza do corpo para em seguida cuidar da limpeza da alma. N&atilde;o se entra numa mesquita se estiver sujo.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Nos banheiros, principalmente os de uma rodovi&aacute;ria, a limpeza n&atilde;o &eacute; das mais adequadas. Destoava um pouco do restante do edif&iacute;cio, pois, mesmo sendo uma cidade pequena, tudo era bem cuidado, como em geral acontece na Turquia.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">De relance me deparei com a imagem de um rapaz que havia feito ali sua higiene, mas que naquele momento bebia &aacute;gua com as m&atilde;os em concha, diretamente na torneira. Nada muito diferente, mas o conjunto da obra mexeu comigo a ponto de notar o fato. Ao sair do banheiro, me deparei com o Hassan, este era seu nome, parado na porta dos guich&ecirc;s. Parecia-me um pedinte; ainda assim achei-o um pouco destoado do conjunto. Talvez por intui&ccedil;&atilde;o, ou proje&ccedil;&atilde;o, havia algo a mais em comum entre n&oacute;s, mas n&atilde;o sei o que me levou a retirar uma nota de vinte liras da carteira e colocar na m&atilde;o de Hassan.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Hassan se surpreendeu com o gesto, mas aceitou o dinheiro. Fiz isso e sa&iacute; rapidamente. Mas Hassan n&atilde;o estava pedindo nada, o gesto e a demanda eram meus. Na carteira eu tinha mais 50 liras turcas, um cart&atilde;o de transporte p&uacute;blico e alguns trocados que me serviram perfeitamente para tomar mais um &Ccedil;ai que custava duas liras.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">N&atilde;o vi mais Hassan nos 40 minutos seguintes. O &ocirc;nibus chegou e os passageiros come&ccedil;aram a embarcar. J&aacute; bem pr&oacute;ximo do hor&aacute;rio de partida, o &ocirc;nibus estava quase completo, mas o lugar ao meu lado continuava vazio, quando de repente Hassan entra com sua passagem na m&atilde;o e se senta ao meu lado.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A primeira rea&ccedil;&atilde;o foi de certo embara&ccedil;o de ambas as partes, mas eu, como o mais velho da dupla, me levantei e o cumprimentei, dando-lhe a m&atilde;o e um sorriso, quebrando o gelo.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Como n&atilde;o falo turco e Hassan n&atilde;o fala ingl&ecirc;s, tudo o que poderia ocorrer ali tamb&eacute;m estava impedido pela linguagem. Nessas horas, os pensamentos come&ccedil;am a elaborar os fatos e, como em todo neur&oacute;tico de cidade grande, o gesto realizado passou a ser ponderado &ndash; numa s&iacute;ntese, se esse constrangimento poderia ter sido evitado, restituindo a assepsia da viagem, sem proximidade com o humano, sem surpresas e tens&otilde;es, em tudo igual ao roteiro de ida.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Meu esp&iacute;rito estava tomado por uma certa melancolia, como sempre fico ao me despedir de amigos de que gosto muito, a exemplo dos que deixei em Edirne.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Por um bom tempo, creio que uma hora, a viagem preservou a temperatura de companheiros de viagem, at&eacute; o servi&ccedil;o de bordo ser servido. Ap&oacute;s o lanche, numa calma aparentemente natural, Hassan abriu sua pequena mochila e retirou de l&aacute; seu passaporte, muito surrado, guardando nele a passagem. Abriu um sorriso e disse algo que n&atilde;o compreendi. Afirmei em turco: sou brasileiro, n&atilde;o falo turco, falo ingl&ecirc;s e portugu&ecirc;s. Outro sorriso, com outra express&atilde;o de espanto, o acr&eacute;scimo de algumas frases, e entendi uma palavra pr&oacute;xima de <em>vocation<\/em>. Confirmei com a cabe&ccedil;a e um aceno de positivo.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Tentei nos apresentar, dizer meu nome e saber o dele, mas sem chance. Tirei meu passaporte e mostrei meu nome a ele. Sim! Ele conseguiu entender e fez o mesmo. Demorei para entender sua proced&ecirc;ncia, pois a capa do passaporte estava sem as identifica&ccedil;&otilde;es de praxe, esmaecidas como os documentos que s&atilde;o utilizados muitas e muitas vezes. Logo identifiquei os dados do meu companheiro de viagem pelo fato de seu passaporte ser bil&iacute;ngue, s&iacute;rio e franc&ecirc;s. A S&iacute;ria, como protetorado da Fran&ccedil;a, possu&iacute;a o franc&ecirc;s como segunda l&iacute;ngua &ndash; apesar disso, Hassan n&atilde;o falava franc&ecirc;s, idioma que eu arranho.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Depois de conhecer seu nome e sua nacionalidade, descobri que Hassan estava com dezoito anos completos e que em janeiro far&aacute; dezenove. Apesar de possuir uma estatura grande, Hassan tem um semblante muito jovem, por&eacute;m marcado. Achei que ainda n&atilde;o havia sa&iacute;do da adolesc&ecirc;ncia, pois guardava uma inoc&ecirc;ncia indefin&iacute;vel.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Tentei saber mais um pouco, pois ficara claro que Hassan era mais um dos milhares de refugiados s&iacute;rios que fugiram do Estado Isl&acirc;mico e est&atilde;o sob a prote&ccedil;&atilde;o da Turquia. Perguntei por sua fam&iacute;lia, visto que no passaporte s&iacute;rio consta o nome dos pais. Hassan me explicou que eles ficaram na S&iacute;ria com os irm&atilde;os pequenos. Consegui entender que ele fugiu e nadou para chegar &agrave; Turquia, e por isso o passaporte estava bem surrado, marcado pelas &aacute;guas.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Hassan estava sozinho na Turquia, atravessou o pa&iacute;s, que &eacute; enorme, e chegou a Istambul. H&aacute; pouco havia tentado se aproximar da fronteira com a Bulg&aacute;ria, pernoitando alguns dias num campo de refugiados ali perto de Edirne, para saber se era poss&iacute;vel seguir viagem para um pa&iacute;s da Comunidade Europeia, &agrave; procura de um futuro melhor como tantos outros que est&atilde;o na mesma situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">O campo estava muito cheio, a comida era racionada. A incerteza de seguir viagem sozinho, sem fam&iacute;lia, sem amigos, tanto na travessia quanto em um poss&iacute;vel destino, o fez retornar para Istambul.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Nesse momento, tudo vai tomando outra propor&ccedil;&atilde;o, outros sentimentos afloram em mim, uma vibra&ccedil;&atilde;o pela coragem e uma profunda compaix&atilde;o por Hassan. Com essa idade, certamente poderia ser meu filho, e essas rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o poderiam&nbsp; se estabelecer se n&atilde;o houvesse um espa&ccedil;o apropriado, como um setting anal&iacute;tico, e a transfer&ecirc;ncia foi imediata.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">At&eacute; onde entendi, Hassan estudou o ensino m&eacute;dio, mas n&atilde;o consegui saber em que trabalhava. Ele tinha um iPhone, um tablet e uma vida boa na S&iacute;ria. Seus equipamentos foram roubados, ele foi espancado e s&oacute; conseguiu manter consigo o seu bem mais precioso &ndash; seu passaporte. Era essa sua identidade, seu legado. Hassan, estrangeiro como eu, tamb&eacute;m trazia outro carimbo, o de refugiado, ap&aacute;trida, exilado. Como se todos n&atilde;o f&ocirc;ssemos humanos, vivendo num mundo &uacute;nico. Sabemos que n&atilde;o &eacute; nada assim, as barreiras s&atilde;o in&uacute;meras e v&atilde;o nos destituindo de todo signo de humanidade, marcando os seres humanos com outros r&oacute;tulos, com os quais n&atilde;o queremos contato.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Confesso que pensamentos ambivalentes me passavam pela cabe&ccedil;a. Ainda que Hassan at&eacute; aquele momento tenha se mostrado muito inofensivo, trazemos sempre aquela desconfian&ccedil;a de que os desvalidos v&atilde;o tentar tirar at&eacute; o que n&atilde;o temos. Vivo numa cidade de pedintes profissionais, num pa&iacute;s onde a viol&ecirc;ncia &eacute; end&ecirc;mica e atinge n&iacute;veis de barb&aacute;rie tanto quanto muitas das guerras existentes nesses pa&iacute;ses.&nbsp; Velada, pulverizada e banal, essa viol&ecirc;ncia nos deixa imperme&aacute;veis ao humano. Nossos pedintes, nossos refugiados haitianos e bolivianos, nossos massacres ind&iacute;genas, nossos jovens negros assassinados, nossas crian&ccedil;as exploradas e abandonadas nos far&oacute;is, tudo isso nos deu essa casca espessa para lidar com o &oacute;dio vermelho, a f&eacute; cega e a faca amolada.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Eu me perguntava se Hassan n&atilde;o queria algo mais de mim. Mas, o qu&ecirc;? Mesmo que quisesse, a &uacute;nica coisa verdadeira que ele poderia me tirar era a vida. Eu n&atilde;o tinha muito a oferecer. Istambul &eacute; uma cidade segura, quase europeia, daquelas em que voc&ecirc; pode andar tranquilo a qualquer hora, inclusive &agrave; noite.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">No Brasil, o mal se faz presente, o mal se personifica como uma vingan&ccedil;a. N&atilde;o basta ser lesado num roubo ou ter a carteira batida. &Eacute; preciso mostrar a sua face nos assaltos a m&atilde;o armada, nos estupros, nos sequestros rel&acirc;mpagos, nas saidinhas de banco, no pr&oacute;ximo como ref&eacute;m, no achaque policial, nas favelas sitiadas pelo tr&aacute;fico ou pelas mil&iacute;cias, o territ&oacute;rio aqui &eacute; tamb&eacute;m de guerra. N&atilde;o sejamos hip&oacute;critas, o mal aqui tamb&eacute;m est&aacute; no outro.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Afora isso, sempre que me encontro no exterior, sinto falta de uma l&iacute;ngua universal. Poderia ser por sinais, como foi a nossa conversa, que se n&atilde;o tivesse essa barreira, muita coisa poderia ter sido compartilhada.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Chegamos a Istambul. Eram sete e meia da noite, e nos dirigimos ao metr&ocirc;. Hassan me explicou que desceria duas esta&ccedil;&otilde;es antes da minha. Paguei nossos bilhetes com meu cart&atilde;o de transporte. Hassan agradeceu. Nossa pr&oacute;xima viagem se daria no tempo de quatro esta&ccedil;&otilde;es de metr&ocirc;. Fui tomado por um banzo e n&atilde;o sabia mais o que fazer, pois nada deu de errado e me despediria em breve de Hassan. Decidido, dei-lhe a nota de 50 liras que estava na carteira. Ele recusou, terminantemente! Fiquei sem ch&atilde;o. Qualquer um de n&oacute;s, mesmo um simples turista viajante, aceitaria de bom grado essa pequena ajuda. Ele n&atilde;o. Me deu um tipo de abra&ccedil;o e agradeceu. Me disse que as vinte liras que eu dera j&aacute; o havia ajudado a chegar a Istambul e que ali ele estaria seguro e com amigos. O metr&ocirc; chegou na esta&ccedil;&atilde;o e Hassan se preparou para desembarcar. Eu, tr&ecirc;mulo, num &aacute;timo, tirei uma &uacute;nica foto de Hassan com o celular. Na sa&iacute;da do vag&atilde;o, j&aacute; na plataforma, ele elevou seu dedo indicador, esticando o bra&ccedil;o, e depois bateu o punho fechado por tr&ecirc;s vezes sobre o cora&ccedil;&atilde;o. Um sorriso, e ele partiu.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Um arrebatamento me tomou e me deixou sem a&ccedil;&atilde;o por algumas horas. N&atilde;o me lembro como cheguei ao hotel. Sei que em seguida tomei um banho, aproveitei para chorar um pouco e n&atilde;o consegui sair mais naquela noite. Meu encontro com Hassan modificou minha humanidade, ele me deu o mais lindo presente que eu poderia ter recebido ali: um reencontro com a insignific&acirc;ncia, com a humildade, com a vida e seus valores mais perenes, me restaurou a porosidade das rela&ccedil;&otilde;es humanas com toda sua m&aacute;gica beleza.<\/p>\n<hr>\n<p><em><strong>Luiz Nogueira<\/strong><\/em> &ndash; Curso de Forma&ccedil;&atilde;o em Psican&aacute;lise &ndash; 1&ordm; ano<\/p>\n<\/body><\/html>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa imagem sem foco &eacute; a lembran&ccedil;a de um encontro com Hassan, que me marcou &agrave; flor da pele, como um acidente, deixando uma cicatriz carregada de algo que nos dias de hoje mais parece fic&ccedil;&atilde;o. Eu estava em Edirne, uma cidade a duas horas e meia de Istambul, na Turquia. 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