Gláucia Faria da Silva
Eu e Eduardo brincávamos no consultório. No meio da gargalhada, ele fica sério e me sai com essa: Gláucia, Você é estranha?
Eduardo, de 5 anos, era meu paciente há 3 anos! Ele ria muito enquanto eu tirava cocós de sua cabecinha para então preenchê-la com pipis, operação ao fim da qual ele cantava orgulhosamente o hino nacional: pipi piripipi piripipi pipi…
Eduardo certamente ouviu a frase que todos já dissemos um dia: Não deixe ninguém estranho colocar a mão em você!
A vinheta clínica introduz o tema que interessa a todos: o abuso e a violência sexual contra crianças e adolescentes. E foi ela quem me levou para uma entrevista com esse dado:
“(…) quando você vê os pais dizendo: “Olha, não fale com estranhos”, e você sabe que mais de 80% da violência sexual contra crianças é praticada por pessoas conhecidas, 63% por familiares, que são seis registros de estupro de menores de 13 anos por hora no país. esta frase não faz o menor sentido. Luciana Temer, advogada e prof. Direito Constitucional na PUC, em entrevista ao podcast Fio da Meada, de Branca Vianna, em 20/10/25[1].
A cada estatística, um calafrio, mas é possível aprender a se proteger! Todos precisamos aprender e, se você não sabe como falar, há muita gente que sabe!
Tratando, portanto, de segurança e violência, abordaremos:
- Uma abordagem sobre Violência sexual
- Proteção e Segurança: contra a Violência sexual com crianças de até 6 anos (mundo “real”)
- Proteção e segurança: contra monetarização da vulnerabilidade de crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos (mundo “real” e virtual)
Para tanto, vamos compilar instituições e canais de informação fidedignos que possam ajudar a encontrar referências balizadas sobre o abuso sexual e a violência contra crianças e adolescentes, seja na realidade, bem como na realidade virtual.
Primeira informação importante: PARA DENUNCIAR disque 100.
Se conhecimento é a melhor forma de prevenção, estamos em perigo. Dessa nova imensa fonte de violência, a maioria de nós não conhece NADA: a INTERNET e, atualmente, o uso de algoritmos para engolfar massivamente qualquer usuário para esse universo infinito. Se somos todos usuários, não importa a idade, não importa nem mesmo qual o objeto consumimos: importa o consumo, o chamado engajamento.
Informação não é conhecimento!
“as pessoas leem menos e se informam cada vez mais por vídeos nas redes sociais. Hoje o YouTube é a principal fonte de informação da maioria das pessoas (…) o que vai criando um ciclo de desinformação e de bolhas de desinformação. Em um seminário do YouTube em Nova York, aprendi que as pessoas não querem mais ter a informação. (…) Elas não querem mais a informação! Elas querem ver alguém assistindo aquilo para ter uma companhia, para entender o que está acontecendo, para rir junto. É quase que uma curadoria emocional. O que é para você sentir sobre aquilo: “Ah, entendi, é para pensar assim”. [2]
Essa constatação é séria! Nós e nossos filhos procuramos, então, alguém que lhes diga o que sentir!?? O que pensar!?? Será por isso que as crianças gostam tanto de ver jovens jogando o jogo que eles gostam? Gritando, se assustando, rindo, falando bobagens?
Este texto tem por objetivo abrir a palavra violência para suas novas formas na atualidade e apontar fontes de informação e conhecimento sérios sobre proteção das crianças. Vamos apresentar inúmeras organizações sem fins lucrativos que lutam por segurança e regulamentação.
Antes, porém, essa abordagem sobre violência sexual amplia nosso olhar e nos faz refletir sobre as inúmeras violências que sofremos quando o que está em jogo é uma relação desigual de poder!
- Violência sexual e vulnerabilidade (seja física ou psíquica – ligada ao nível de desenvolvimento da criança e do jovem):
“(…) homens que abusam de crianças não são necessariamente pedófilos. A criança é o alvo mais fácil, o alvo mais vulnerável, é a vítima que não vai reclamar, é a vítima que está lá disponível dentro da sua casa e que você pode manipular. É uma relação de poder e uma relação de poder fácil. É muito fácil abusar de uma criança. Não é sobre sexo, é sobre poder. Tanto é que você olha as relações de abuso, é sempre intrafamiliar, é o pai, é o tio, é o irmão mais velho.”[3]
“Não é sobre sexo, é sobre poder”, não é sobre pedofilia ou sobre doença, mas sobre a conduta predominante entre homens e mulheres imersos em uma estrutura desigual. A ideia de machismo, de racismo ou violência estruturais é esclarecedora. Significa que nosso pensamento naturaliza ideias das quais não nos tornamos facilmente conscientes.
- Proteção e Segurança: contra a Violência sexual com crianças de até 6 anos (mundo “real”)
Tratar da violência sexual nessa fase nos obriga a pensar na violência doméstica.
Vimos que com crianças da primeira infância (0 a 6 anos), a frase: não deixe estranhos colocarem mãos em você, ajuda, mas não é suficiente.
Como essa frase será entendida por uma criança de 4, 5, 6, 8, 10 anos? Como falar sobre riscos de abuso sexual para crianças que ainda falam a língua do amor, sem malicia genital? Crianças que confiam nos adultos e parceiros de brincadeira, nos familiares e amigos dos pais? Quem é o estranho? Como ajudar uma criança de 3 anos a se proteger da violência sexual?
Há muitos pesquisadores e organizações sérias buscando nos orientar na luta pela proteção das crianças e adolescentes e contra os mecanismos de abusos de poder de sua vulnerabilidade. Vamos a algumas delas:
Instituto ALANA. “Uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos e com a missão de “honrar a criança”. Há mais de 27 anos busca garantir que crianças e adolescentes sejam prioridade absoluta em todas as esferas de decisões da sociedade. https://alana.org.br/ .
Através do Instituto LIBERTA, https://liberta.org.br/, se pode atualizar a definição de violência e abuso sexual. Aqui você encontra cartilhas, aulas, textos, reportagens, números e gráficos do Brasil. https://liberta.org.br/entenda-2/
GUIA por faixa etária: “Como ajudar uma criança a se proteger da violência sexual? Esse guia foi pensado e escrito para te ajudar nessa missão. Como você verá, são diálogos simples e atividades lúdicas que ajudarão as crianças a compreenderem sobre o próprio corpo, sentimentos e a desenvolverem um senso de autoproteção. Os guias estão divididos por faixa etária e contém também um material específico para as escolas, para crianças de 0 a 10 anos”. Instituto Liberta. https://liberta.org.br/guia/
VIDEO. Saber liberta. https://www.youtube.com/watch?v=-quqEb7V6B0&t=7s
VIDEOAULAS no youtube do Instituto LIBERTA: https://www.youtube.com/playlist?list=PLLPphxeFKaSw1emOo4tVZlXzmlEJ0Xji8
Para proteger as crianças do mundo virtual e da monetarização de sua vulnerabilidade, temos:
SaferNet Brasil. Na página da associação, há muita informação, frentes de discussão e espaço de denúncia. “ela é uma associação civil de direito privado, com atuação nacional, sem fins lucrativos, sem vinculação político partidária, religiosa ou racial, com foco na promoção e defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil.” https://new.safernet.org.br/
Cartilha SAFERNET. TikTok e SaferNet lançam a 2ª edição de guia brasileiro para apoiar famílias na segurança online: https://new.safernet.org.br/content/tiktok-e-safernet-lancam-2a-edicao-de-guia-brasileiro-para-apoiar-familias-na-seguranca
CHILDHOOD Brasil. Sobre a navegação segura das crianças pela internet. Cinco episódios com Carlinhos Brown! https://www.childhood.org.br/navegacao-segura/#:~:text=Use%20dados%20estat%C3%ADsticos%2C%20hist%C3%B3rias%20reais,sua%20exposi%C3%A7%C3%A3o%20a%20conte%C3%BAdos%20inapropriados.&text=Observe%20o%20comportamento%20dos%20alunos,sobre%20os%20riscos%20da%20internet
- Proteção e segurança: contra monetarização da vulnerabilidade de crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos (mundo “real” e virtual)
Tratar de violência sexual em sua relação com o universo virtual aflige famílias de crianças a partir de 7 – 8anos.
Como analista de crianças, vejo que uma queixa comum dos pais é a “incapacidade” dos filhos de regular o tempo de telas, as crianças se mostram teimosas, insistentes, agressivas, chatas, desinteressadas e os conflitos entre pais e filhos aumentam exponencialmente por conta da nova prioridade das crianças, do desconhecimento e exaustão dos pais.
Os pais percebem que seus filhos temem “ficar de fora” de seus grupos de amigos e isso tem nome e é fomentado pelos criadores de jogos: chama-se FOMO (fear of missing out, literalmente, “medo de ficar de fora”, conhece? “O valor de jogar no Roblox não está na experiência, mas em não ficar de fora”.[4]
Daniel Mariani, um pai e especialista na área, escreve:
“Meu filho tem 10 anos. Nas brigas sobre a hora de parar de jogar, eu via uma criança que não obedecia e ele via um pai injusto. Nós dois não sabíamos, mas existia algo entre nós, sem nome e sem poder ser culpabilizado, projetado para seguir assim.”
Depois de uma briga séria, em que proibiu que o filho acessasse o Roblox, escreve:
“… (percebi que) insistir na responsabilidade individual de seu filho ignora as assimetrias de poder. Cada criança tenta resistir a um exército dos melhores programadores, armados de teorias psicológicas sólidas e dados infinitos, além de equipes jurídicas que fazem com que os seus clientes não sejam regulados a contento.”[5]
Os conflitos cotidianos obscurecem outras duas questões que desestabilizam pais e crianças: a ética de “não invadir” a “privacidade”, seguida da questão de ao “não invadir”, não saber por onde “andam” as crianças e adolescentes, aumentando risco de violências realizadas ou sofridas.
Quando a privacidade passa por conhecer conversas e trilhas dos filhos dentro do mundo virtual, ela se encontra com outra questão, assim pensada neste texto: quando privacidade e segurança parecem excludentes, opte pela segurança. De seu filho e dos outros.
Tratando, portanto, da tríade complexa entre liberdade, segurança e violência de crianças maiores e adolescentes, começaremos pelo novo perfil de infração na adolescência:
“Os novos infratores são adolescentes de classes média/alta que cometem infrações digitais graves”[6]
Fio da Meada. Episódio 21. Vanessa Cavalieri não quer prender seu filho. Entrevista com Vanessa Cavalieri, juíza titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro. Desde 2005, ela notou uma mudança no perfil dos infratores: adolescentes de classes média e alta que cometem infrações digitais graves. “Não é invasão de privacidade os pais olharem o celular dos filhos. O ambiente digital não é seguro.” https://radionovelo.com.br/originais/fiodameada/vanessa-cavalieri-nao-quer-prender-o-teu-filho/
Temos um “novo mundo” e com ele novos riscos que – não é mero detalhe – os pais desconhecem!
Assim, a imensa brecha chamada “liberdade” representada por essa configuração, obriga os jovens e a todos nós uma busca ativa de conhecimento e informação e a aprendizagem cotidiana de diálogo com nossas crianças.
Vejam essa informação:
“o público-alvo de criadores de conteúdo pornográfico hoje são meninos de 11 anos! Meninos nessa idade serão tomados por sensações poderosas, capazes de viciá-los em um tipo de satisfação que não cria laço social.”[7]
No PODCAST:
Fio da Meada. Episódio 53. Educação sexual pra ontem: Luciana Temer conhece o caminho, Luciana Temer, do Instituto Liberta que defende a educação contra a violência para pais e crianças urgentemente, afirma: “O seu filho está assistindo pornografia e você vai ter que explicar para ele que aquilo que ele está vendo não é o desenvolvimento de uma sexualidade saudável.” https://open.spotify.com/episode/1yX3pLqQmT4PuZ68EklrYq?si=956ca575ce3f424f
Agora mais detalhes.
Você sabe o que é Sextorsão, Sexting, cyberbullying e grooming?
NOTÍCIA. Violência sexual na internet. Sabe quantas categorias temos? https://www.saopaulo.sp.leg.br/mulheres/violencia-de-genero-na-internet-o-que-e-e-como-se-defender/
NOTICIA. Sexting, cyberbullying e grooming. Melhor saber, não acha? https://www.childhood.org.br/navegacao-segura/#:~:text=Use%20dados%20estat%C3%ADsticos%2C%20hist%C3%B3rias%20reais,sua%20exposi%C3%A7%C3%A3o%20a%20conte%C3%BAdos%20inapropriados.&text=Observe%20o%20comportamento%20dos%20alunos,sobre%20os%20riscos%20da%20internet
Sextorsão: A SaferNet tem registros de sextorsão desde 2012. São casos de jovens de todo o país que envolvem desde a ameaça de compartilhar imagens íntimas tiradas no contexto de uma relação a casos de falsas agências de emprego. https://new.safernet.org.br/content/o-que-%C3%A9-sextors%C3%A3o#
Se a informação incomoda, o que objetivamos nesse texto foi apresentar um elenco de modos de conhecer e proteger quem precisa ser protegido! Sem culpa ou excessos:
“(…) no caso (da violência virtual), não tem família boa o suficiente, não tem escola boa o suficiente, porque o meio virtual está entrando numa relação tão direta com as crianças e adolescentes, tão sem mediação, e fazendo uma conexão com a qual é difícil concorrer.[8]
Todos temos nossa cota de responsabilidade e pensemos quais nossas armas nessa luta:
- É preciso “desindividualizar” o problema e não culpabilizar as crianças e jovens: os desafios das famílias não é apenas seu filho. Esse texto aponta para várias questões complexas em que todos devem se engajar.
- Buscar e fomentar a Cidadania digital: https://new.safernet.org.br/
- Entender o caráter multifatorial e a repetição em espiral da violência e atentar também para outras violências: Mulheres brasileiras e gênero: https://fpabramo.org.br/pesquisa/mulheres-brasileiras-e-genero-nos-espacos-publico-e-privado-3a-edicao/
- Conhecer e estar atento ao desenvolvimento e implementação da Lei que cria o ECA DIGITAL. “Você já ouviu falar no ECA Digital? Em agosto de 2025, um vídeo do influenciador Felca (https://www.youtube.com/watch?v=FpsCzFGL1LE) viralizou nas redes sociais ao denunciar a crescente adultização de crianças e adolescentes em plataformas digitais. Ele expôs a quantidade de conteúdos em que meninas e meninos eram retratados com comportamentos, roupas e linguagens tipicamente adultos, muitas vezes com incentivo de algoritmos e monetização. A repercussão foi imediata e acendeu um alerta sobre os limites entre a liberdade de expressão e a exploração infantil nas redes.
Entre discussões sobre responsabilidade das plataformas, papel das famílias e necessidade de políticas públicas, cresceu o consenso de que o Estatuto da Criança e do Adolescente, criado em 1990, precisava oferecer respostas aos desafios do mundo digital. O ECA Digital entrou em vigor no dia 17 de março de 2026.” https://www.fadc.org.br/noticias/eca-digital-entenda-nova-lei
- Trabalhar para um aumento de informação dos pais
- Estar atento à implementação do ECA digital.
- Trabalhar por uma educação maciça de prevenção às violências sexuais junto às crianças e adolescentes.
- Pensando na violência estrutural a que os vulneráveis na estrutura machista de poder estão submetidos, é necessária a atuação em inúmeras frentes e em rede:
“(…) a formulação de novos imaginários sociais é o antídoto estrutural que está faltando no enfrentamento à epidemia de feminicídios. Não basta proteger mulheres da violência: é preciso desmontar a arquitetura simbólica que a autoriza. Isso exige investimento deliberado em movimentos culturais, narrativas públicas e produção simbólica que ampliem os horizontes sobre o papel das mulheres e desnaturalizem a associação entre feminilidade, submissão e espaço doméstico.”[9],[10]
[1] Na última edição do Anuário de Segurança Pública, o número registrado de estupros de vulnerável ocorridos em casa é de 67,9%, quase 68%. Além disso, de acordo com a edição de 2024, a mais recente com esse dado, o Brasil registra 7 estupros de crianças e adolescentes por hora.
[2] Episódio 61 Carol Pires e Marina Dias sabem por que tá difícil entender o noticiário. https://radionovelo.com.br/originais/fiodameada/carol-pires-e-marina-dias-sabem-por-que-ta-dificil-entender-o-noticiario/
[3] PODCAST. Fio da Meada. Episódio 53. Educação sexual pra ontem: Luciana Temer conhece o caminho. https://open.spotify.com/episode/1yX3pLqQmT4PuZ68EklrYq?si=956ca575ce3f424f
[4] Daniel Mariani Folha de São Paulo, 8/2/26. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/02/feito-para-viciar-roblox-tem-logica-de-cassino-e-vira-caca-niquel-para-criancas.shtml
[5] Daniel Mariani Folha de São Paulo, 8/2/26. IDEM
[6] Fio da Meada. Episódio 21. Vanessa Cavalieri não quer prender seu filho. https://radionovelo.com.br/originais/fiodameada/vanessa-cavalieri-nao-quer-prender-o-teu-filho/
[7] Fio da Meada. Episódio 53. Educação sexual pra ontem: Luciana Temer conhece o caminho. https://open.spotify.com/episode/1yX3pLqQmT4PuZ68EklrYq?si=956ca575ce3f424f
[8] PODCAST. Fio da Meada. Episódio 53. Educação sexual pra ontem: Luciana Temer conhece o caminho.
[9] A violência contra mulheres é uma batalha por imaginários, publicada na Folha de São Paulo em 28/12/2025, Maria Alice Setúbal, Beatriz Della Costa e Mariana Ribeiro.
[10] Texto escrito pela psicanalista Gláucia Faria da Silva, doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, paliativista pediátrica pelo Hosp. Sírio Libanês e professora e supervisora clínica do Curso Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae – SP.

