Em Casa Grande (2014), dirigido por Fellipe Barbosa, o cotidiano de uma família de classe média alta do Rio de Janeiro é atravessado por uma crise financeira que desestabiliza as relações e expõe tensões até então encobertas. Acompanhando Jean, adolescente em processo de amadurecimento, e a sua família, o filme torna visível uma organização já em funcionamento, sustentada pelo patriarcado, pela moral de classe e por uma distância persistente entre os afetos.
A casa – que dá título ao filme – deixa então de operar como abrigo para se revelar como estrutura. É nela que se sustenta um mal-estar que não é apenas familiar, mas social: uma forma de vida que depende da desigualdade e da repressão para se manter.
O pai insiste que sua autoridade permaneça em cena, mesmo quando já esvaziada, como se a queda não pudesse ser nomeada, apenas contornada. Há algo de rígido nessa tentativa de preservação: um esforço contínuo de manter a ordem enquanto ela já não se sustenta. A crise material, nesse sentido, não inaugura o colapso, apenas o expõe.
É nesse deslocamento que Jean se move. Sua aproximação com Severino, o motorista da família, e Rita, a empregada doméstica, não se reduz a um gesto de curiosidade ou transgressão. Há, ali, a busca por algo que não encontra lugar dentro da própria casa: uma forma de reconhecimento, de circulação do afeto, de inscrição no laço.
Esse movimento não se dá sem tensão. Ele é atravessado por culpa, desejo e ambivalência, como se o encontro com o outro colocasse em risco não apenas um lugar social, mas também as identificações que o sustentavam até então.
A casa, nesse ponto, deixa de ser apenas espaço físico e passa a operar como metáfora de uma organização histórica. A leitura, inevitavelmente, convoca Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, especialmente no que diz respeito à formulação da chamada “democracia racial”. Se ali se sustentava a ideia de uma convivência que tenderia à conciliação entre senhores e escravizados, o que o filme evidencia é a permanência de uma separação: atualizada, mas não superada.
Os vínculos entre quem serve e quem é servido não desaparecem – apenas se reorganizam sob novas formas de invisibilidade. A cordialidade, muitas vezes tomada como traço cultural, revela-se como modo de encobrimento de uma estrutura que se sustenta justamente na desigualdade que nega.
Nesse ponto, a leitura psicanalítica encontra o social não como campo externo, mas como aquilo que constitui o próprio sujeito. O inconsciente familiar não se separa do inconsciente histórico. Ele se forma nas mesmas tramas que organizam a cultura, os discursos e as hierarquias que atravessam os corpos.
Jean, ao se deslocar, tensiona esse campo. Sua aproximação com Severino rompe, ainda que parcialmente, com o ideal paterno, abrindo uma fissura nas identificações que o situavam. Mas essa ruptura não é completa: ela carrega os limites de quem ainda está inscrito na mesma estrutura que tenta atravessar.
O colapso da casa é também o colapso de um modo de sustentação psíquica. As defesas que mantinham a ilusão de estabilidade – econômica, afetiva e simbólica – começam a falhar, deixando aparecer aquilo que antes se mantinha recalcado: a dependência, a desigualdade, o desencontro.
Nesse cenário, os gestos de Nathalie, a filha caçula e irmã de Jean, surgem como índice de um limite. Há algo que não encontra lugar na linguagem familiar e que retorna como sintoma – não como algo a ser decifrado de forma isolada, mas como expressão de um campo mais amplo, que excede o indivíduo.
A estrutura social, aqui, não é apenas pano de fundo: ela se inscreve como estrutura psíquica. A repressão não opera apenas no interior do sujeito, mas também nas formas coletivas de organização, produzindo efeitos que retornam como culpa, projeção e deslocamento do desejo.
O que se evidencia, então, não é apenas a crise de uma família, mas a de um modelo que ainda se sustenta sobre exclusões históricas. A chamada “Casa Grande” não desaparece – ela se reconfigura, preservando, sob novas formas, as mesmas hierarquias que a fundaram.
A travessia de Jean não se apresenta como resolução, mas como abertura. Um movimento ainda incerto, atravessado por contradições, mas que indica a possibilidade de outras formas de inscrição, menos alinhadas ao ideal paterno e às estruturas que o sustentam.
Se há algo que o filme faz emergir, é justamente a dificuldade de sustentar essa passagem. Porque romper com uma estrutura não implica, necessariamente, sair dela.
Talvez seja nesse intervalo – entre a manutenção e a ruptura – que algo do sujeito possa, enfim, começar a se deslocar.
Vitória Viana
Membro acadêmico do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
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