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O Ego corporal, a consciência perceptiva e a dor como despersonalização: pensando Raça e Gênero como formas de Alterocídio

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“O homem é essencialmente necessitado de ajuda, por estar sempre em perigo de se perder, de não conseguir lidar consigo. Este perigo é ligado à liberdade do homem. Toda questão do poder-ser-doente está ligada à imperfeição de sua essência. Toda doença é uma perda de liberdade, uma limitação da possibilidade de viver”. (Martin Heidegger. Seminários de Zollicon)

Didier Anzieu (1989) nos mostrará o quanto a dor somática pode ser vista como sendo uma vivência que desorganiza o aparelho psíquico, ameaçando qualquer possibilidade de integração do psiquismo no corpo. Desse modo, a pessoa encontrar-se-á afetada em sua capacidade de desejar e em sua atividade de pensar e não haveria transformação dos estímulos de quantidade em qualidade. A dor provocaria um profundo empobrecimento nas capacidades e potencialidades do Ego Corporal (“O eu é sobretudo um eu-corpo” – Freud, 1923/1993, p. 29), de modo que as relações do Eu com a consciência possam ocasionar um colapso com os processos de pensamento. No escrito de Freud de 1895, Projeto de uma Psicologia, a dor será trabalhada como consistindo na invasão do aparelho psíquico por grandes quantidades de energia (Qs), colocando-o em movimento através desta intensa excitação sensorial e aumento de estímulo, resultando em uma quebra da regularidade e numa quebra na continuidade do funcionamento psíquico normal.

Haveria, no caso, uma regressão do sistema nervoso: a consciência dá-nos o que se chama de qualidades ou sensações conscientes, mas o equilíbrio ou a proteção antiestímulo contra o desprazer falharia. Contudo, poderíamos perguntar, em que aspecto se coloca aqui a regressão do sistema nervoso? Para responder, recorramos às reflexões de Bion (1962/2022) em Uma Teoria do pensar. Neste texto, Bion ressalta a restrição operada por Freud ao termo consciência ou à função do sistema consciente no Projeto. Observemos suas palavras: “o termo ‘consciência’ nesse sentido restrito [supõe] que essa consciência produz ‘dados sensoriais’ do self, mas pode não existir função alfa para converter esses dados sensoriais em elementos alfa, e, portanto, pode não haver permissão para exercer-se a capacidade de estar consciente ou inconsciente do self.” (Bion, 1962/2022, p. 165).

Com isso, e eis aí o problema, a dor do paciente ocupa todos os lugares e ele não existe como um Eu porque, simplesmente, a dor é (Anzieu, 1989, p 256). Esta não existência como um Eu poderia ser entendida ao fazermos uso de uma noção de Stefano Bolognini em Fluxos vitais entre o self e o não self, localizando aquele que padece de dores somáticas como alguém que ainda é pré-subjetivo, isto é, está invadido, ocupado e substituído pelas sensações corporais (invasão ou impregnação de elementos β) que o impede de entrar em contato com algo que seja autenticamente seu (no sentido de algo elaborado, simbolizado, metabolizado, pensado e sonhado) e incapacitado de superar seu distúrbio no pensar e evoluir com a análise e romper com a sua (des)organização defensiva. Como nos lembra Winnicott em Os Doentes Mentais nos Casos Clínicos dos Assistentes Sociais, “A doença psicossomática […] resulta em vários estados clínicos que recebem o nome de ‘despersonalização’.” (Winnicott, 1963/2022, p. 287).

Se por um lado, não podemos perder de vista, como já nos dizia Green, em O Trabalho do Negativo, que “Pensar é tomar nota da separação a respeito do objeto” via “exercício da liberdade” (Green, 2006, p. 204), já que “A dor mantem essa presença do objeto em si [vedando] o exercício subjetivo” (Green, 2006, p. 205), por outro lado, deparamo-nos com subjetividades constituídas por um Eu que se aliena no mundo de sua produção patológica, “tangível no próprio plano orgânico, nas linhas de fragilização que definem [essa] anatomia fantasística” (como nos faria pensar Lacan [1949/1998, p. 101], a partir da leitura de O estágio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelado na experiência psicanalítica). Em outros termos, trata-se de um corporar do corpo à luz de um drama pessoal apanhado no engodo das identificações, que ligam o Eu a uma inevitável tensão Innenwelt-Umwelt (Mundo interno-Mundo externo) que ora cai na ilusão de um eu de autonomia e ora na servidão imaginária. Diante de tal paradoxo, cabe à psicanálise “acompanhar o paciente até o limite extático do ‘Tu és isto’ em que se revela, para ele, a cifra de seu destino mortal” (Lacan, 1949/1998, p. 103). E é no campo da racialização e das normatizações de gênero que analistas costumam acolher sujeitos menos enriquecidos e agenciados por um engajamento mais passivo nessa tensão Innenwelt-Umwelt (lembremo-nos das três polaridades que governam a vida anímica do Freud de 1914: Sujeito-Objeto, Prazer-Desprazer e Ativo-Passivo).

            Neste contexto, a memória (biográfica, familiar, ancestral) se efetiva no jogo da economia das emoções, no corpo, no universo do sensível e da imaginação, em suma, no ponto de encontro do acontecimento, da palavra, do signo e da imagem – ou ainda, nas estruturas do inconsciente, mas enraizado na rotina da vida cotidiana (como nos mostra Achille Mbembe em Crítica da Razão Negra). A racialização da vida intercorpórea e a normatização via moral sexual cultural produzem diferenças nefastas e desigualdades materiais e simbólicas, de modo que, para o negro e para os não heterossexuais Cis, o sentimento de si (ou amor próprio –Selbstgefühl) se estrutura pela via negativa, produzindo efeitos traumáticos de uma experiência que se inscreve no próprio corpo: angústia, vergonha de si, despersonalização, desejo de desaparecer, juízo crítico voltado ao Eu.  Com isso, a identidade passa a ser o produto de um processo de diferenciação: identidade e essencialidade são dois caminhos que se conectam com facilidade, lançando o existente no jogo de forças entre um eu-de-autonomia e um eu-de-servidão-imaginária (a patologia, muitas vezes, entra como um movimento de diferenciação ou de negação à imposta moral sexual cultural – não é a neurose é o negativo da perversão?).

O paradoxo da questão se coloca a meio caminho entre um juízo de identidade (gesto de autodeterminação, modo de presença a si e sentimento de si) e o estranhamento de si (do sujeito tornado um estranho a si mesmo por uma identidade alienada e quase inerte): o Eu – eis aí o problema, segundo Mbembe – teria deixado de se reconhecer (desapropriação de si). Raça e Gênero dão-se como armação e como forma de alterocídio, isto é, da “constituição do outro não como semelhante a si mesmo, mas como objeto propriamente ameaçador, do qual é preciso se proteger, desfazer, ou ao qual caberia simplesmente destruir, na impossibilidade de assegurar seu controle total.”(Mbembe, 2018, p. 27). É, portanto, na realidade das relações inter-humanas, na in-dividualidade (sócio)biológica e na realidade social que o Eu age como função de adaptação e enriquecimento: “é uma dialética do trágico” que se opera sob o “fundamento da inexorabilidade da exigência humana de satisfação pulsional” frente aos “obstáculos que ela encontra para a sua realização” (Green, 2006, p. 311). Por consequência, o Eu pode ser pensado como sendo uma instância política, isto é, como uma instância mediatizadora entre as demandas pulsionais e as normas sociais.

Encerro com algumas provocações de Paul Preciado em Eu sou o monstro que vos fala. No entendimento de Preciado, as instituições psicanalíticas seguem uma epistemologia sexual e de gênero que se sustenta em um humanismo colonial europeu segundo uma espécie de jaula da subjetividade aprisionada ao circo do regime binário heteropatriarcal. Em suas palavras, “A psicanálise é um etnocentrismo que não reconhece sua posição politicamente situada.” (Preciado, 2022, p. 32). Com a noção de corpo vivo, o autor procura resgatar as constantes mutações e múltiplas evoluções que transbordam os aprisionamentos de um inconsciente colonial, resgatando a noção de corpo como sendo um arquivo político e um arquivo vivo em constantes mutações e enquanto um aparelho somático que sofre externalizações nas modalidades históricas, tecnológicas, farmacológicas e bioquímicas. Portanto, o corpo (sexuado e racializado) é uma epistemologia política: “já não podemos mais recorrer aos textos de Freud ou de Lacan como se eles tivessem um valor universal, não situado historicamente” e não “escritos no interior dessa epistemologia da diferença sexual.” (Preciado, 2022, p. 85). Debater estes temas suscita em nós uma reflexão sobre qual enraizamento ontológico nos encontramos e qual espaço de clareira podemos produzir e suportar! Afinal, de que modo ou modos poderíamos mobilizar a dinâmica Mente-Corpo-Mundo para pensarmos racismo e gênero a partir de nosso enraizamento epistemológico-ontológico?

Carlos Eduardo O. P. de Moura

Doutor em Filosofia – UFSCar/FAPESP

 Formação em Psicanálise – Instituto Sedes Sapientiae

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Bibliografia

Anzieu, Didier (1989). O Eu-pele. Trad. Zakie Yazigi Rizkallah, Roali Mahsuz. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Bion, Wilfred R. (2022). Uma teoria do pensar. In: Wilfred R. Bion, No entanto…pensando melhor(Paulo Cesar Sandler, Trad., pp. 157-170). São Paulo: Blucher (Trabalho original publicado em 1962).

Bolognini, Stefano (2022). Fluxos vitais entre o self e o não self: o interpsíquico. Trad. Diego Felipe Scalada. São Paulo: Blucher.

Freud, S. (1994). Proyecto de psicología. In: Publicaciones prepsicoanalíticas y manuscritos inéditos en vida de Freud (1886-1899). Vol. I. Trad. José Luis Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu editores (Trabalho originalmente escrito em 1895 e publicado em 1950).

Freud, S. (1993). El yo y el ello. In: Obras completas, v. XIX (1923). Traducción de José Luis Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu editores. (Trabalho originalmente escrito em 1895 e publicado em 1923).

Green, André (2006). El trabajo de lo negativo. Buenos Aires: Amorrortu.

Heidegger, Martin (2009). Seminários de Zollikon. Trad. Maria de Fátima de Almeida Prado. Petrópolis: Vozes e Editora Universitária São Francisco.

Lacan, Jacques (1998). O estágio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelado na experiência psicanalítica. In: Jacques Lacan. Escritos. Trad. Vera Ribeiro: Rio de Janeiro, Zahar (Trabalho originalmente publicado em 1949).

Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. Tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Preciado, Paul B. (2022). Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas. Tradução Carla Rodrigues. Rio de Janeira: Zahar.

Winnicott, D. W (2022). Os Doentes Mentais nos Casos Clínicos dos Assistentes Sociais. In: Processos de Amadurecimento e Ambiente Facilitador. Trad. Irineo Constantino Schuch Ortiz. São Paulo: Ubu Editora (Trabalho originalmente publicado em 1963).

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