Reflexões sobre o papel da psicanálise na luta antirracista
por Pedro Altomare[1]
I. Introdução
Ser um indivíduo racializado, sob o olhar de uma sociedade colonizada, é tornar-se, no imaginário colonizante, o “outro” — diferente do “indivíduo universal branco”, como bem explica Cida Bento em Pacto da branquitude: ser branco é viver sem se perceber racialmente, numa estranha neutralidade, sendo “o outro” quem carrega a cor (BENTO, 2022, p. 66). Tendo isso em vista, a psicanálise antirracista propõe-se a escutar o que a história do racismo inscreve no inconsciente, afinal, “falar é ser capaz de empregar determinada sintaxe, é se apossar da morfologia de uma ou outra língua, mas é, acima de tudo, assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (FANON, 2024, p. 31).
E quão pesado é esse fardo civilizatório para os indivíduos racializados, moldado justamente para suprimir a pluralidade das subjetividades culturais e negar as línguas, culturas e religiões que divergem da matriz eurocêntrica? Que marcas psíquicas se inscrevem quando se instaura, nesses sujeitos, a urgência impositiva de abandonar sua cultura de origem para se inscrever na cultura do colonizador? Se recordarmos que, para Freud, em O mal-estar na civilização (1930), o supereu carrega em si os elementos da cultura, torna-se possível compreender que a constituição da subjetividade passa necessariamente pela assimilação das normas sociais e dos símbolos que nos cercam. Mas, então, como se constitui a subjetividade de um indivíduo racializado que experimentou o apagamento de seus vínculos culturais e foi compelido a introjetar elementos que, além de distintos dos seus, atuam ativamente para anulá-lo, inferiorizá-lo e inscrevê-lo no mundo como “exótico”?
É nesse dilema que o indivíduo racializado é constantemente lançado. Se, por um lado, a linguagem é o instrumento que permite ao sujeito se inscrever no mundo, por outro, para o indivíduo racializado, essa inscrição é atravessada pela violência histórica que o arrancou de sua origem, de sua língua e de seus referenciais simbólicos. É a partir desse incômodo que se inscreve a presente reflexão.
Antes de prosseguir, é importante fazer um apontamento: embora as autoras e autores que fundamentam esta reflexão tratem majoritariamente da questão do racismo sob a ótica de indivíduos negros, propõe-se aqui uma ampliação desse olhar para a contemporaneidade, de modo a compreender o racismo como uma força que incide sobre todos os sujeitos racializados.
II. A experiência do indivíduo racializado: entre máscaras e feridas
Se é por meio da linguagem que o indivíduo se assume e se insere no mundo, o que dizer daqueles que, para isso, precisaram primeiramente abdicar de sua língua e cultura? Como pensar o processo de integração sociocultural sob essa ótica? Esses sujeitos inseriram-se no mundo da maneira que lhes foi possível: como um “não ser”, privados de suas subjetividades e forçados à introjeção de formatos identitários eurocêntricos que os oprimiam, criminalizavam e desprezavam.
Transpondo essa dinâmica para a atualidade: a colonização, em seu modelo clássico, findou-se, mas a colonialidade — pensamento derivado e perene que supõe a superioridade da branquitude eurocêntrica — permanece. A manutenção dos privilégios oriundos da expropriação, exploração e violência do período colonial e escravocrata é sustentada por um mecanismo que Cida Bento denomina Pacto da branquitude, o qual “possui um componente narcísico, de autopreservação, como se o ‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’, o ‘universal’” (BENTO, 2022, p. 18).
O resultado desse narcisismo branco, aliado à prevalência de valores eurocêntricos na cultura, é a perpetuação de um enorme contingente de pessoas que herdaram feridas narcísicas profundas, vivenciaram o apagamento de suas ancestralidades e nutrem o desejo de romper com o ciclo de destruição subjetiva que a colonialidade impôs — e ainda impõe — aos povos racializados.
É sob esse olhar opressor da branquitude que os sujeitos racializados vão se constituindo subjetivamente no processo diaspórico que marcou o mundo contemporâneo. Assim como uma criança se forma a partir do olhar de seus cuidadores, podemos pensar que a colonização forçou crianças racializadas a tomarem como referência identificatória aqueles que os oprimiam e subjugavam, já que sua cultura, língua e religião lhes foram negadas ou desmanteladas. São, então, lançadas em um eterno vir-a-ser, sem jamais tornar-se, de fato, brancas. Essa lógica colonial permanece, ainda que ressignificada, na atual colonialidade que estrutura nossa sociedade.
Diante disso, urge promover a reversão desse processo, garantindo aos povos racializados o direito à autodeterminação e ao resgate cultural e linguístico que os permita reconstruir seus referenciais identificatórios sem a necessidade de assimilação forçada. E é igualmente necessário que o indivíduo branco reconheça-se como racializado — e não mais como sujeito universal e referencial.
III. Psicanálise e sua dívida histórica: entre a branquitude e a resistência
Ao resgatar os elementos culturais dos povos racializados e racializar o branco — retirando-o de sua posição hegemônica de modelo de moralidade, cultura e beleza — abre-se um caminho para uma sociedade mais plural e inclusiva. Nesse sentido, Isildinha Baptista, em A cor do inconsciente, propõe que a psicanálise precisa desbranquear sua escuta, implicar-se historicamente e reconhecer o impacto do racismo na constituição subjetiva dos indivíduos. Afinal, os efeitos do processo colonizador e do apagamento identitário se apresentam na clínica sob diversas formas, exigindo da psicanálise a escuta dessas marcas e suas reverberações inconscientes.
Reconhecendo as marcas da racialização na constituição dos sujeitos, a psicanálise pode tornar-se uma aliada indispensável na luta antirracista, favorecendo a elaboração de conteúdos recalcados relacionados à violência racial. O desbranqueamento da psicanálise é, portanto, também um gesto de reparação histórica.
Como instrumento de investigação do eu e dos processos de identificação, repetição, recalcamento e deslocamento, a psicanálise se torna cada vez mais libertadora quando reconhece que a subjetividade se constitui a partir da relação singular entre o indivíduo e a cultura em que se insere.
Em O mal-estar na civilização (1930), Freud propõe que a cultura se funda, em grande medida, sobre a renúncia pulsional. No entanto, não estamos todos submetidos às mesmas renúncias e castrações: cada indivíduo é castrado conforme seu contexto sociocultural. As renúncias impostas a uma criança branca não são as mesmas que recaem sobre uma criança negra. Vivemos em uma sociedade racista que impõe, além das castrações universais, renúncias específicas aos sujeitos racializados — e o mesmo se aplica às questões de gênero e sexualidade.
Já em O Eu e o Id (1923), Freud demonstra que o supereu se constitui pela introjeção das proibições parentais, assumindo, posteriormente, o papel de juiz interior. Se o supereu é moldado pelas normas familiares, e estas são, por sua vez, derivadas da moralidade dominante, então, quando essa moralidade anula as existências racializadas, o supereu torna-se autofágico. A psicanálise antirracista, nesse ponto, pode contribuir para que o sujeito identifique as introjeções racistas que moldam seus traumas, permitindo uma elaboração mais precisa de seus sofrimentos.
Importante ressaltar que a psicanálise antirracista não deve se restringir aos sujeitos racializados: ela também deve alcançar o sujeito branco, que precisa, a partir de seus próprios incômodos, reconhecer-se como racializado. É somente por meio da crítica aos próprios privilégios e à branquitude universalizada que o sujeito branco poderá engajar-se de fato na luta antirracista.
IV. A luta antirracista como tarefa clínica
Por fim, é fundamental compreender que a neutralidade diante do racismo não torna sujeitos, instituições ou práticas — inclusive clínicas — antirracistas. Ao contrário, a neutralidade colabora para a manutenção do status quo e das hierarquias raciais. Somente o posicionamento antirracista pode sustentar uma prática clínica verdadeiramente comprometida com a justiça social. O silêncio e a suposta imparcialidade, nesse contexto, tornam-se instrumentos a serviço do pacto narcísico da branquitude.
Isso não significa, porém, que o analista deva romper com os fundamentos do método psicanalítico, mas sim que deve cultivar uma escuta sensível e letrada em relação às feridas provocadas pelo racismo. O letramento racial contribui para reconhecer, nos discursos dos analisandos, os efeitos da herança deixada tanto aos descendentes dos que foram escravizados quanto dos que escravizavam.
O analista precisa reconhecer o racismo como uma realidade que atravessa a constituição subjetiva — mesmo daqueles que ainda não se compreendem como racializados. Isso possibilita escutar o analisando e ajudá-lo a identificar e elaborar as marcas inconscientes do racismo. O inconsciente carrega as marcas da história; escutá-las é, antes de tudo, escolher a vida contra a repetição da violência.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923). Tradução de Paulo César Lima de Souza. Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César Lima de Souza. Companhia das Letras, 2010.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. Ubu, 2024.
BAPTISTA, Isildinha. A cor do inconsciente: Significações do corpo negro na psicanálise. Perspectiva, 2018.
BENTO, Maria Aparecida da Silva. Pacto da branquitude no Brasil. Companhia das Letras, 2022.
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[1] Estudante no 1o ano do curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma.