Os laços de sangue de Renoir
Sérgio Telles [1]
Recentemente estava num congresso de psicanalistas e um colega iniciou sua apresentação mostrando a reprodução do quadro A banhista e o cão griffon (ou Lise Tréhot à beira do Sena), 1870, de Renoir, que faz parte do acervo do MASP[2] e que eu não conhecia.
No quadro se vê uma mulher despida no meio de arbustos e folhagens, as roupas das quais se desfez estão a seus pés e ela ainda mantém em sua mão direita uma última peça, uma camisa, que ela segura por uma de suas extremidades. Na camisa há dois grandes laços vermelhos. Deitado sobre as roupas que estão no chão, o cãozinho da raça griffon. A mulher aparenta segurança e tranquilidade, se exibe sem inibições ou constrangimentos e não parece notar a presença de uma outra mulher vestida mais distante, que a observa do meio das árvores.
O colega, que usava o quadro de Renoir para fins de sua exposição, pediu à plateia (umas 120 pessoas), constituída quase que exclusivamente por mulheres, que produzisse associações em torno da imagem.
Foram feitas algumas observações e eu mesmo contribui, dizendo que a imagem me fazia pensar em menstruação. Eu mal havia terminado de pronunciar a palavra “menstruação” quando ouvi uma inesperada e rumorosa gargalhada da plateia, gerando um certo burburinho.
Eu nem tivera tempo de explicar por que a imagem me provocara tal associação: os dois laços vermelhos da peça branca, que a modelo segurava antes de deixá-la cair no chão, lembravam manchas de sangue que, para mim, remetiam à menstruação por sua localização em relação ao corpo feminino desnudo.
Para não interferir na apresentação do colega, que tratava de assunto completamente diferente, nada mais disse, mas continuei pensando.
Surpreso com a forte reação da plateia, me dei conta de quão revelador dos mecanismos inconscientes era o que tinha acabado de acontecer. Era uma manifestação de psicologia das massas, em que minha fala provocou uma reação imediata e inconsciente do grupo, confirmando, de forma surpreendente, a pertinência e veracidade do que eu dissera.
A primeira coisa chamativa é que a evocação da menstruação partira de mim, um homem, e não das mulheres ali presentes. Entretanto, a reação que tiveram, a gargalhada compartilhada por todas, era bastante sintomática, confirmava a correção de minha observação. Em seu trabalho “O chiste e sua relação com o inconsciente” (1905), Freud mostra como os witze, os ditos de espírito, as piadas, são recursos do discurso que driblam os impedimentos da censura e expressam o reprimido ou negado, liberando uma energia que é descarregada através do riso.
Entendendo que minha interpretação fora validada pela reação da plateia, pensei que o quadro de Renoir poderia ser visto como um curioso exemplo de representação quase explicita da menstruação, algo impensável no momento de sua execução, tendo o artista usado inconscientemente dos mecanismos do processo primário (deslocamento, condensação, simbolização) para fazê-lo.
Os ensinamentos de Freud ao analisar o “Moisés” de Michelangelo autorizam tal hipótese. Diz ele que nenhum detalhe daquela escultura é irrelevante, que todos e cada um deles corresponde a um desejo consciente e/ou inconsciente do artista. Por exemplo, há uma motivação específica para Michelangelo ter representado Moisés na posição sentada e não de pé, cofiando sua barba de uma tal maneira, segurando as tábuas da lei de determinada forma, dispondo as pernas e os pés visando sugerir determinados movimentos etc.
É então lícito pensar que, ao criar seu quadro, Renoir também deliberou cuidadosamente todos os detalhes, a posição da modelo (Lise Tréhot, então sua amante), suas vestimentas, seus gestos etc. É verdade que há muitos outros elementos do quadro, como a existência de uma outra mulher vestida que, dissimulada entre a folhagens, observa Lise com um olhar eventualmente homoerótico, o próprio cachorrinho, o rio Sena, a vegetação etc. Mas aqui nos detemos nos laços vermelhos que lembram manchas de sangue menstrual na roupa branca que Lise segura no ar, como que para deixá-las bem evidentes. A deliberação de Renoir de assim representar a cena não é fruto do acaso, ela é sobredeterminada, e uma das determinações poderia ser justamente o desejo de expor a realidade menstrual da mulher. É de se pensar até que ponto essa inconsciente representação da menstruação no quadro não teria sido captada da mesma forma por todos que o viram desde então e que também calaram, dado que a menstruação era um assunto tabu.
O evento que aqui relato não será uma evidência de que a menstruação permanece sendo um tabu? Será relevante o fato de ter sido um homem e não uma mulher quem percebeu sua dissimulada representação na pintura? A gargalhada que acolheu a menção à menstruação não seria uma confissão de que havia uma percepção inconsciente reprimida que não pudera se manifestar até então e que fora liberada naquele momento? O fato não fica ainda mais intrigante por serem psicanalistas todas as mulheres ali presentes?
Como mostrou Freud em “O tabu da virgindade” (1917-18), o pavor que o homem sente frente ao sangue se origina do medo da menstruação, que remete à vagina dentada, à castração. O desprezo que o homem mostra contra a mulher e a menstruação na verdade oculta o pânico pelo ameaçador genital feminino que pode castrá-lo. A cultura machista impõe às mulheres tal visão equivocada e preconceituosa, impedindo-as de ver a menstruação como expressão de sua fisiologia saudável, motivo de orgulho da sua condição de mulher, marca própria de sua sexualidade, ligada à fertilidade e à gestação.
Diz o ChatGPT que a pintura europeia do século XIX, da qual Renoir faz parte, nunca representou explicitamente a menstruação. Nela, o corpo da mulher aparece sempre idealizado e aspectos mais realísticos são suprimidos, o que ocorre também na arte clássica. Ela aparece apenas nas artes muito arcaicas, ligada aos ritos de fertilidade e referências ao culto à lua, que remete à periodicidades dos ciclos da mulher.
A representação direta da menstruação nas artes visuais só se concretiza na contemporaneidade, a partir de meados do século XX, fruto do movimento feminista e empoderamento da mulher. Dois exemplos fundadores são a obra Red Flag (1971), da norte-americana Judy Chicago[3] e o conjunto Menstrala (2000), de Vanessa Tiegs[4]. No primeiro caso, trata-se da foto de uma mulher retirando um absorvente íntimo da vagina; no segundo, o uso que a artista faz de sangue menstrual para pintar e desenhar. Mais recentemente, artistas mulheres de várias partes do mundo têm a menstruação como tema de inspiração estética e militância política.
O nível de repressão e negação da menstruação pode também ser aferido no fato de que somente muito recentemente os absorventes íntimos passaram a ser vistos como itens de higiene indispensáveis aos quais todas as mulheres devem ter direito. No Brasil, a distribuição gratuita de absorventes higiênicos data de janeiro de 2024, por meio do programa Farmácia Popular, como parte do Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual.
Concluo propondo a ideia de que o quadro de Renoir seja visto como uma das representações inconscientes da menstruação na pintura europeia do século XIX, vencendo a barreira que ocultava essa que é uma característica essencial da sexualidade feminina, uma evidência da realidade incontornável da diferença dos sexos.
ADENDO – Pouco tempo depois do evento e tendo já escrito esse texto, encontrei uma colega que estivera ali presente e lhe perguntei como tinha entendido a gargalhada que se seguiu à minha intervenção sobre menstruação. Mais uma vez, para minha surpresa, ela inicialmente disse não recordar esse acontecimento, mas logo recuperou a lembrança, sem saber explicar por que riram, nem porque havia esquecido.
Dias depois voltamos a nos falar e ela disse ter refletido sobre seu esquecimento. Achou que talvez se devesse ao fato de estar naquele momento cercada por mulheres na menopausa. Em sua fantasia, para elas a menção à menstruação não gerava apenas o constrangimento próprio à exposição não censurada de um tema tabu, remeteria também a uma dimensão melancólica ligada à perda da menstruação, da fertilidade, o advento da idade, a velhice. De fato, somente quando ela mencionou essa interpretação de seu próprio esquecimento é que me dei conta que naquela plateia de mulheres, grande parte dela não mais menstruava[5].
Bibliografia
Freud – Moises de Michelangelo
Freud – O tabu da virgindade
Ortiz, Natalia Delatim – Luto e desejo na menopausa: contribuições psicanalíticas –- Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental – 26 – 2023
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[1] Psicanalista e escritor, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenador do grupo Psicanálise e Cultura, e parte do corpo editorial da revista Percurso. Responsável pela Seção Psicanálise no Mundo. Autor, entre outros livros, de O psicanalista vai ao cinema, volumes 1, 2, 3 e 4.
[2] https://masp.org.br/acervo/obra/a-banhista-e-o-cao-griffon-lise-a-beira-do-sena
[3] https://www.tate.org.uk/art/artworks/chicago-red-flag-artist-proof-4-p15227
[4] https://www.menstrala.org/
[5]A menopausa é um território pouco visitado pela psicanálise. Freud, Helena Deutsch abordaram as importantes mudanças libidinais e narcísicas ocorridas então. Mais recentemente Marie-Christine Laznik fez desdobramentos, falando do mito de Medusa e do complexo de Jocasta como manifestações típicas desse momento. Cf Ortiz.