O assombro: uma maneira de escutar o mundo
por Júlia Louzada[1]

Crônica escrita para o Boletim online do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, inspirada no Congresso da FLAPPSIP 2025, realizado em Lima, Peru. Encomendada por Sílvia Nogueira de Carvalho, num cochicho do auditório, animada pela frase de Silvia Alonso: “Vamos ao trabalho” e pelos muros de Barranco, que diziam: “Mucho a hacer, mucho a soñar.” Endereçada aos colegas que estiveram, ou tiveram notícias do congresso, foi rabiscada nos materiais impressos do evento, entre cafés e piscos, com o mesmo espírito de quem escreve para não deixar o assombro se dissipar.
Assombrar-se é verbo em movimento. Não se conjuga no passado nem se acomoda no presente. Assombrar-se é permanecer atento, exposto, ferido de mundo. Foi esse o gesto que a FLAPPSIP propôs em Lima, uma travessia coletiva sob o céu quase imóvel do Pacífico, onde o sol parece se esconder.
Nos reunimos nos arredores do Parque El Olivar, que guardava o silêncio das oliveiras antigas que viram impérios passarem, as democracias se construírem e cambalearem. Talvez tenha passado por lá José Carlos Mariátegui[2], aquele marxista peruano, um dos primeiros leitores de Freud na América Latina, que em sua revista Amauta, em 1928, publicou textos sobre psicanálise, entre eles “Freudismo e marxismo” e “Freudismo en la literatura contemporánea”. E que nos seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana já intuía que compreender um povo exigia escutar também o que nele sonha e delira, gesto que, de algum modo, antecipava a escuta psicanalítica de nosso continente.
O congresso foi antecedido e permeado por caminhadas: pelas ruas, pelos museus, pelas conversas que se prolongavam sem roteiro. Havia ceviches e sorrisos, ruínas em formato de bibliotecas, vozes misturadas em espanhol, português e a síntese do portunhol. No Museo Larco, o barro lembrava que toda forma nasce de um gesto inacabado. No antigo Museo del sexo, agora Galería erótica, o deslocamento do acervo à arte diz de um tempo em que o corpo está em disputa. No Museu da tecelagem, os fios e tecidos desenhavam, com paciência, a metáfora do que somos: tramas, encontros, intervalos.
Nossa mirada sobre essas tramas antecipava algo nosso que marcaria o congresso. Éramos cerca de cento e cinquenta brasileiros – intensos, entre quatrocentos participantes de tantos países do sul. E havia nos nossos trabalhos uma marca, um pulso novo. Uma psicanálise com cor, com corpo, com território. Uma psicanálise que se faz em clínicas públicas, em ocupações, em grupos, em cozinhas, e que se deixa atravessar pelas praças, pelas ruas e pelos gestos políticos e pela arte. Trabalhos nascidos de um país que há pouco recuperou a democracia e que ainda luta por sustentá-la. Nossas falas traziam essa mistura, rigor e ginga, teoria e urgência, o pensamento atravessado por vozes múltiplas. Havia algo ali sendo construído: uma psicanálise que não teme se aproximar do vivo, do que dói e pulsa. E que é ainda por vezes questionada. Mas entre os corredores, as mesas e os intervalos, era possível perceber: algo novo está se tecendo neste sul do mundo.
Nesse compasso estava Isildinha Baptista Nogueira toda de branco, numa sexta-feira de Oxalá, como acontecimento ético e estético. Falava sobre o efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro, e o auditório, em silêncio profundo, parecia respirar junto com ela. Uma conferência magistral, aplausos de pé: não homenagem, mas reconhecimento de uma psicanálise que se expande ao incluir o que foi excluído, que se faz mais verdadeira quando atravessada pelo mundo. Nesse mesmo dia, se somaram nesse movimento jovens analistas em formação, estudantes peruanos ergueram a própria voz, denunciando a política do país dentro e fora das mesas.
Ainda sobre as nossas marcas, no dia seguinte, somos brindados com o documentário de Miriam Chnaiderman, que se fez resposta visual, ritmada e política a um conferencista em retirada. O cinema veio ocupar o espaço com imagens e corpos, gesto poético de resistência e continuidade. Enquanto muitos permanecem, outros chegam; e, na intensidade do encontro, algo se reconfigura.
Essas cenas: o filme, o aplauso, a denúncia, o murmúrio das conversas, são o tecido invisível do congresso. Delas nasce o verdadeiro trabalho, aquele que não cabe nos anais, mas se prolonga em cada escuta, em cada transmissão, em cada corpo que volta transformado.
A psicanálise latino-americana, com sua vocação para o deslocamento, continua se inventando nesse assombro. O que parece recusa é, na verdade, a forma como o pensamento se protege da paralisia. O assombro é o modo latino de resistir: é movimento, é insistência, é o desejo de não ceder à domesticação do saber. Lima nos devolveu essa lição: que o pensamento também precisa respirar neblina. Que há beleza no cinza, vigor na ausência do sol, mas que precisamos aproveitar todo raio de sol. Que o barro, o fio e a palavra são feitos da mesma matéria, pois o assombro é uma forma delicada de compromisso.
Somamo-nos aos escritos que já narraram os assombros coletivos e individuais e trazemos para casa o trabalho. Silvia Alonso, ao encerrar o texto de abertura, disse o que agora ressoa como convocação e destino: “Vamos ao trabalho!”
E o assombro, companheiro estranhamente familiar, sorriu. Porque o trabalho da psicanálise começa sempre aí, onde o espanto se transforma em gesto, e a escuta encontra, no outro, a promessa de algo novo.
Agora, começamos a preparar o próximo congresso, em 2027, em casa.
E o trabalho, sabemos, já começou.
Entre papéis, cafés e travessias, seguimos tecendo.
Costurando com barro, fio e desejo.
O assombro, aqui, na nossa cozinha, é tempero.
Eros, alteridade e psicanalistas que dançam – o Brasil em Lima
por Elaine Souza[3]

No aeroporto de Guarulhos já era possível perceber a presença expressiva dos psicanalistas brasileiros rumo ao Congresso. A espera dos voos tornou-se encontro entre os conhecidos, admirados e transmissores das psicanálises com os novos psicanalistas em formação.
Se a tripulação soubesse do que se tratava naqueles diversos aglomerados que papeavam à espera do voo, talvez caberiam as boas-vindas específicas aos vôos lotados de psi.
Caberiam as boas-vindas também à presença acalorada do Sedes, e aos psicanalistas em formação, que faziam sua primeira viagem internacional, e/ou participando pela primeira vez de um congresso latino-americano de psicanálise para apresentar trabalho, não por acaso, todos cotistas do Departamento de Psicanálise do Sedes.
À chegada ao território peruano, na saída do aeroporto, já avistamos casas com tijolos baianos aparentes, colaborando com a sensação de estarmos pela primeira vez em um território conhecido, pelas semelhanças ao nosso, mas com uma especificidade gastronômica que inclui peixes e frutos do mar frescos e bebidas feita de ervas, como a emoliente, servida durante o café no congresso ou a refrescante curatudo servida no restaurante Barra Chacala.
A temática do XIII Congresso, Eros, alteridade e criatividade, nos convidava para um exercício de reflexões coletivas; nos esperavam três dias de uma programação intensiva de um pouco mais de 12 horas por dia, com mesas de trabalhos diversos, conferências magistrais e plenárias. Uma diversidade de trabalhos e temas apresentados em mesas de forma simultânea, nos fazendo lidar com a conhecida falta que uma escolha requer.
A programação das mesas juntava analistas conhecidos com analistas em formação, falantes nativos de língua portuguesa com hispanohablantes, países e diferentes institutos de formação, professores com analistas em formação. Como num xirê onde o velho se encontrava com o novo, numa dialética ancestral entre a sabedoria necessária para a continuidade da tradição (as bases teóricas) e a chegada do novo (o psicanalista em formação em contexto de constantes mudanças).
O Brasil, representado numa conferência magistral de uma manhã de sexta-feira pela Isildinha Baptista Nogueira, com o tema ‘’Efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro’’, trazendo reflexões sobre a constituição do sujeito negro que é atravessada pelo ideal de brancura, propondo uma metapsicologia do sujeito negro. Apresentação que encerrou com Isildinha agradecendo de pé, e sendo aplaudida de pé por todo o auditório, numa espécie de resposta corporal simbólica a um tema necessário para a clínica psicanalítica contemporânea na América Latina em torno da experiência da alteridade.
Se sabemos que Eros e pulsão destrutiva se entrecruzam, enquanto o Congresso mantinha aquecida a nossa capacidade de pensar e fazer clínica na contemporaneidade, Lima vivia um contexto político de intensas manifestações contra o presidente interino que havia assumido há poucos dias, após a destituição da antiga presidenta. Durante os protestos um jovem de 32 anos, Eduardo Ruiz Sanz, rapper conhecido como Trvkoó havia morrido baleado, gerando comoção nacional e críticas ao novo governo. Ao final de uma das mesas, a última de sexta-feira à noite, composta por mulheres pertencentes ao Sedes, uma jovem peruana tomou a fala dizendo que procurou pelo Congresso mesas que pudesse falar da psicanálise em contextos como o que o Peru atualmente está vivendo; emocionada, chamou a atenção para o congresso acontecer sem nenhuma menção às 3 mortes que haviam ocorrido em decorrência dos protestos. Sabemos dos limites de um congresso, mas a psicanálise também não serve para pensarmos temas como a civilização?
A passagem do bastão para o Brasil como país que vai sediar o próximo congresso foi marcada pela fala da Silvia Alonso e de um vídeo da Miriam Chnaiderman, com trechos da campanha Levante, dando um tom de como é possível construir o XIV Congresso, e reafirmando a posição do Departamento comprometido com a democratização da psicanálise no Brasil. Não foi só o vídeo que deu o tom, ao final do congresso, noite de sábado na agitada vida noturna de barrancos, nos reunimos para celebrar no bar Ayahuasca. O bar está localizado em um antigo casarão, que data da era republicana de Lima, final do século XIX. Ao sabor do pisco sour e a pedidos de música brasileira para o DJ, quase colocamos o edifício abaixo, pelo menos era essa a sensação. Por sorte, segundo informações peruanas, o casarão foi construído com materiais que oferecem resistência a movimentos sísmicos, e agora já sabemos que ele resiste a corpos que acima de tudo sabem a importância de festejar. Psicanalistas escutam, pensam, falam e também dançam! Talvez seja nossa forma de civilizar, numa contemporaneidade que tem reconfigurado a todo momento nosso campo pulsional, dançar como uma busca pela vida, por momentos de alegria, pela conexão com o outro, por Eros, e por saber da dualidade na presença constante da pulsão de morte.
Embebidos da alteridade, que nosso próximo congresso possa manter o diálogo com o diferente, com o diverso, mas sobretudo com o nosso próprio território, sendo o Brasil território preto e indígena, que psicanalistas indígenas também possam compor esse espaço.
O que andamos tomando no Brasil
a língua chega coça

tenemos la lengua dura los devoradores de dios
de ese dios que crece cada noche con nuestros pelos y uñas
de ese dios aplastable
perecible
digerible
iluminación o ceguera
Blanca Varela, “Ideas elevadas”
Peru, o país que, em dez anos, mudou de presidente oito vezes, está, mais uma vez, num momento de absoluta tensão – na ocasião, a presidenta havia sido deposta há menos de uma semana por um congresso composto por uma maioria de políticos de direita e extrema direita, protestos nas ruas, mortes e quebra-quebra no centro da capital, Lima.
Enquanto isso, a meia hora dali, num barrio nobre, no salão principal de baile da psicanálise, era como se tocasse Mozart e escutássemos o fagueiro tilintar de taças de champanhota importada.
No ‘salão principal’, com gratas exceções vindas de Terra Brasilis — como as falas de abertura e encerramento de Silvia Alonso[5] e o vídeo de apresentação do Brasil, próximo país a sediar o evento, produzido por Miriam Chnaiderman — pouco se disse sobre a situação política no país. Se não me falha a memória, uma guerreira da audiência até tentou, mas não resta claro seu sucesso em perturbar a ordem. O cenário é a FLAPPSIP 25.
Houve ainda o pipoco do trovão que foi a conferência magistral de Isildinha Baptista — que fez o auditório, mais do que fervilhar, irromper em lágrimas e braços levantados, ávidos por apresentar suas questões.
O momento mais trevoso, que tornou o ar denso — o som das vozes já parecia algo distante, fraco — se deu com a apresentação de um dude, membro da IPA, bien sûr, intitulada “Notas de um psicanalista em retirada”. Remetia a uma psicanálise que respira por aparelhos e huele a naftalina.
A apresentação desse señor em retirada foi uma das poucas a não ser acompanhada pelo texto em português projetado ao fundo — considerando que, no formato do evento, os palestrantes apresentavam seus textos em língua diversa daquela em que falavam: quem falava português apresentava em espanhol, e vice-versa. Tal exceção, de saída, já insinua una duda quanto ao desejo (ou não) da troca. A abertura não necessitava traduções de nenhuma espécie, assim começa: “Carmen[6] falou de História, Isildinha[7], de racismo, falarei de psicanálise”!
O distinto cavalheiro, que pretendia nos falar sobre psicanálise, também salientou que já bastava tratar tanto de política, que já era hora de voltarmos à psicanálise. Então, passou a falar de transição de gênero e hormonização de uma perspectiva eminentemente psiquiátrica; Miriam[8] protesta, pede a palavra, o tradutor (que, honestamente, pouco traduziu) se esquivoca na tradução, brados na plateia, um outro fala dos Assex e de que não se encaixam na sigla LGBTQIAP+, uma outra fala do genocídio na Palestina… Algumas pessoas começam a se levantar e a deixar o auditório. Rebuliço. O palestrante passa a falar de modo jocoso. Torta de climão servida com borbulhas.
Mas, junto ao vento forte trazido por Isildinha Baptista no dia anterior, uma brisa fresca soprava do Brasil. Havia as mesas paralelas.
Espalhadas por todo o edifício, foram justamente elas — as mesas que articulavam psicanálise e os conflitos políticos inscritos no corpo social, com desdobramentos decisivos na subjetividade, ou que cruzavam psicanálise, cultura e sociedade — que animaram as audiências e promoveram debates não apenas durante as apresentações, mas também nos corredores do Congresso.
Alguns psicanalistas de outros países vinham, tocados, agradecer e perguntar: “O que vocês andam tomando lá no Brasil? Aqui não se fala desses assuntos.”
Uma psicanalista peruana, por exemplo, comentou com uma colega sobre como o debate racial é pouco ou quase nunca contemplado na psicanálise peruana. Parece que, de modo semelhante ao que rolava no Brasil até pouquíssimo tempo atrás, há uma crença numa suposta democracia racial acompanhada por um racismo solapado e pouco discutido em âmbito formal.
As boas novas vêm do povo, das ruas, da arte e das produções daí suscitadas.
Visitas a sítios arqueológicos, museus, restaurantes e bares pitorescos revelam muito além do que está à superfície: a riqueza pré-colombiana de uma cultura considerada um dos berços da civilização. Também as conversas com moradores locais — fora do circuito mais fancy da cidade — ajudam a entrever o que já foi superado e o que ainda pulsa nas frestas: gestos de resistência, formas de re-existir que sobrevivem à margem do olhar turístico e acadêmico.
Nos corredores, era disso que se falava: da ausência dessas histórias, desses corpos, dessas feridas — e de como o racismo, enquanto neurose cultural,[9] está calcado nas entranhas das mais diversas sociedades, ao contrário do que pensam e professam algumas almas penadas, que nesse movimento não fazem mais do reproduzir o mesmo gesto colonial de recusa e esquecimento.
O congresso fez pensar em quantas cartas para uma nova psicanálise ainda podem e precisam ser escritas. A depender da produção apresentada pelo Brasil, com especial ênfase nos mais de cinquenta trabalhos advindos do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, reafirmamos nosso desejo, a partir do que herdamos, de seguir pensando, questionando e reinventando a psicanálise.
No olvidaremos! Da política do esquecimento à memória que resiste: notas de uma psicanalista no Peru
por Daniela Athuil[10]

A psicanálise nos ensina que esquecer nunca é apenas deixar de lembrar. É antes uma operação delicada entre o que não se pode suportar e o que o Eu precisa sustentar. Se, para o indivíduo, o esquecimento costuma vestir a máscara de certa normalidade, para uma sociedade, ganha o nome de política. Assim, a chamada “política do esquecimento” nada mais é do que a ampliação desse mecanismo psíquico para a cena coletiva: um recalque em dimensão social (às vezes, desmentido social), no qual o poder decide o que deve ser silenciado e o que pode ser lembrado. Não se apaga o passado impunemente, apenas o enterramos mais fundo, onde continua a pulsar.
Cheguei a Lima com o coração dividido entre o entusiasmo pelas trocas com os latino-americanos, e uma certa inquietação que se fazia sentir nos corredores. As notícias sobre a crise política que atravessava o país naquele momento chegavam de forma difusa, mas os jornais na banca ao lado do congresso estampavam com todas as letras a tensão na cidade. Davam notícia dos embates violentos nos protestos populares. Na véspera, um rapper, Eduardo Ruiz Sanz, havia sido morto a bala, além de dezenas de outros feridos. O corpo político, como sempre, é o primeiro a cair.
Muitos psicanalistas vindos do Brasil levavam trabalhos, ideias, sonhos. Falávamos das lutas antirracistas, antissexistas, de coletivos de trabalho em espaços públicos, do devir criativo, do sonho de pessoas em situação de rua, da ética da hospitalidade, de traumas e silenciamentos. Falávamos, sem saber, de Lima também.
Porque enquanto o congresso acontecia em salas climatizadas, do lado de fora a população vivia um clima de indignação e medo. Mas foram dois jovens estudantes peruanos, a quem pude escutar em uma das mesas, Álvaro e Maraya, que abriram diálogo conosco. Sensibilizados pelos trabalhos apresentados, reconheciam vários dos temas como próximos de suas próprias inquietações. Fomos todos tocados por seus testemunhos e pela delicadeza com que compartilharam conosco as dificuldades cotidianas de sustentar o desejo e os sonhos foras das camadas privilegiadas (diga-se camada de pessoas brancas, heteronormativas, eurocentradas), onde o Estado faz calar à bala.
Lembrado pela colega Camila Flaborea, uma fala de Hanna Limulja do livro O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos Yanomami veio em associação: ”o branco só sonha com ele mesmo”.
Porque no Brasil, também conhecemos bem essa operação: o massacre travestido de normalidade, o trauma encoberto pela pressa, a violência que se repete porque nunca foi devidamente nomeada.
Enquanto escrevia este texto, duas comunidades do Rio de Janeiro, o Complexo da Penha e o Complexo do Alemão, sofriam um massacre a céu aberto. Mais uma vez, sob o nome de política de segurança pública e sob a falsa e perversa justificativa de “guerra às drogas”, o que se exerce é um dispositivo de extermínio, uma forma de gestão da vida que decide quem merece existir e quem deve ser eliminado.
Nesse mesmo momento, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), determinou a interdição da área onde funcionava o estacionamento da Pupileira, em Salvador, após a descoberta de um cemitério que abriga os restos de mais de 100 mil pessoas escravizadas, muitas delas em valas comuns, sem nome e sem memória. O paralelo é inevitável: o Brasil continua a soterrar corpos negros, sob o silêncio cúmplice que normaliza execuções em massa em favelas. Da Salvador colonial, ao Rio de Janeiro e à Lima contemporâneos, o que vemos é a perpetuação de uma violência fundante que atravessa séculos.
Essa tripla dobra trágica, entre Lima, Rio e Salvador, revela na prática o conceito de necropolítica desenvolvido pelo filósofo e intelectual camaronês Achille Mbembe, que atravessa nosso continente: o apagamento de corpos que desafiam o poder e a desigualdade. Diante disso, é necessário que denunciemos a administração da morte sobre a população pobre, negra e periférica, a impunidade e a violência estrutural.
A psicanálise, sabemos desde seu fundador, não é apenas uma teoria. Antes de tudo ela deve estar a serviço de sua vocação maior: a de ser gesto, de ser diálogo e cuidado, a de abrir fendas para que o esquecido volte a falar. Mas também de não se calar diante da barbárie e do horror das violências naturalizadas. E não por acaso muitos trabalhos ali nos convocavam a pensar sobre o racismo, sobre o luto de pessoas desaparecidas, sobre os dispositivos clínicos nas periferias, sobre a fome como produção política e tantos outros.
Alguns dias antes de chegar a Lima, caminhando por Cusco, era possível ver a história que resiste à herança da exploração colonial espanhola, que construiu grande parte da cidade diretamente sobre as fundações e muros de pedras das antigas construções incas. O Convento de São Domingo, erguido sobre estas fundações, é um exemplo marcante do impacto da imposição cultural e religiosa da lógica colonial, marcada pela violência da exploração e da apropriação cultural e simbólica. Mas suas raízes seguem visíveis, e sustentam a força de uma civilização que soube dialogar com a terra; uma engenharia humana em impressionante harmonia com a natureza, que ainda hoje assombra o mundo.
Uma memória que não se deixa soterrar. Entre as cores vivas dos tecidos quéchuas e as construções de Machu Picchu e outros sítios arqueológicos, é evidente que o passado no Peru não é só uma lembrança, um destino turístico, é um corpo que pulsa, um tempo que ainda fala ao presente.
A vocês, jovens peruanos que partilharam conosco de forma tocante suas inquietações e urgências, aos que lutam pela preservação da história e da memória de todos os povos Quéchuas, Aimarás, Asháninkas e de todos os outros povos ancestrais: no olvidaremos!
Em 2027 nos encontraremos novamente no congresso FLAPPSIP, desta vez no Brasil. E a potência desse encontro futuro se anunciou pela força pungente dos trabalhos apresentados, e pela força poética e política expressa no vídeo realizado pela delegação brasileira da FLAPPSIP do Departamento de Psicanálise, sob a direção e produção sensível da nossa querida Miriam Chnaiderman.
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[1] Júlia Louzada é brasileira, psicóloga e psicanalista. Foi aluna do curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma e aprimoranda na Clínica do Insituto Sedes. É mestranda no programa de Psicologia Clínica da USP, e pesquisadora vinculada ao PSOPOL – Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política, no eixo de pesquisa: Psicanálise, Política e Crise Climática. E compõe o Grupo de Trabalho de Práticas Psicanáliticas Situadas na RedIPPol – Rede Interamericana de Pesquisadores em Psicanálise e Política.
[2] MARIÁTEGUI, José Carlos. Freudismo y marxismo. Amauta, Lima, n. 17, 1928. Publicado posteriormente em: MARIÁTEGUI, José Carlos. Obras completas. Lima: Biblioteca Amauta, 1959. v. 13. MARIÁTEGUI, José Carlos. Freudismo en la literatura contemporánea. Amauta, Lima, n. 16, 1928. Publicado posteriormente em: MARIÁTEGUI, José Carlos. Obras completas. Lima: Biblioteca Amauta, 1959. v. 13.
[3] Assistente social e psicanalista em formação no 2° ano de Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae, aprimoranda da Clínica do Sedes e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise.
[4] Psicanalista, aspirante a membro e estudante do terceiro ano do curso de Psicanálise no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial deste boletim online.
[5] Silvia Leonor Alonso, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, professora no Curso de Psicanálise, coordenadora do grupo O Feminino e o imaginário cultural contemporâneo e secretária científica FLAPPSIP 2023-2025. Presidente da Comissão Diretiva FLAPPSIP 2025-2027.
[6] Carmen Mc Evoy, historiadora e escritora peruana, que, aliás, tem como tema central de estudos a história política e intelectual daquele país.
[7] Isildinha Baptista Nogueira, psicanalista, escritora e professora do Curso de Psicanálise no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[8] Miriam Chnaiderman, psicanalista, cineasta, escritora e professora do Curso de Psicanálise no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[9] GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
[10] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, articuladora da Área de Publicações e Comunicação no Conselho de Direção (2024-2025), integrante da equipe editorial deste boletim online e da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise.