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Aniversário de três anos da COPSIMO – Comunidade Psicanalítica de Moçambique

por Ana Lúcia Bastos[1]

 

Há encontros que não cabem na mala. Ficam inscritos no corpo, no ritmo da fala, na maneira como passamos a perceber o mundo. Os dias que vivemos em Moçambique, por ocasião da Primeira Jornada Científica de Psicanálise e do terceiro aniversário da Comunidade Psicanalítica de Moçambique, foram exatamente desse tipo.

Helena Lima sempre trouxe para os espaços de discussão sobre relações raciais e psicanálise, abertos no Instituto Sedes Sapientiae, o entusiasmo das trocas que vinha construindo em Moçambique com um grupo cada vez maior de interessados nas leituras psicanalíticas de mundo. Os parceiros brasileiros envolvidos nesse processo também se multiplicavam, e a riqueza da rede que se formava tornava-se imensurável.

Isildinha Nogueira já havia participado de transmissões online, e seu livro A cor do inconsciente já circulava por lá. Mas estar presente, de corpo inteiro, trocando não apenas palavras e olhares, mas abraços, risadas cúmplices e lágrimas emocionadas, aquilo que só a partilha do mesmo espaço e do mesmo tempo pode produzir, é de outra ordem.

Ao final da viagem, Isildinha declarou:

“Durante 40 anos lutei para trazer para a psicanálise as especificidades do sujeito negro. Construí uma metapsicologia do sujeito negro que nos permita ser compreendidos pelas lentes da psicanálise, sem que isso nos adoeça, e que nos possibilite sermos escutados. Estar em Moçambique foi um retorno aos meus ancestrais. Dividir com meus irmãos psicanalistas moçambicanos como ampliar esse conhecimento foi uma emoção profunda e um grande aprendizado.”

E que aprendizado foi para todos nós que a acompanhamos nessa travessia. Compartilhamos a emoção de pisar pela primeira vez em solo africano para falar de décadas de clínica e elaboração intelectual, agora atravessadas por um outro chão, outras histórias, outras marcas.

Que alegria ser recebida por Helena, junto a amigos brasileiros, em um território que ela já tornou seu — fazendo o que faz com rara habilidade: construir pontes. Seu sorriso aberto, tantas vezes transformado em gargalhada, dizia da felicidade de ver mundos se encontrando.

Éramos 14 na delegação brasileira[2], de diferentes filiações institucionais, momentos profissionais e campos de atuação na psicanálise. Fortalecemos redes, cuidamos uns dos outros e aprendemos com a delicadeza firme que encontramos ali.

Para além das mesas da Jornada, muitos outros espaços de troca se abriram entre brasileiros e moçambicanos, tão valiosos quanto os institucionais. Como repetia Helena, parafraseando Geraldino que, por sua vez, parafraseava Jurandir Freire Costa: a psicanálise se faz entre amigos e precisa ser divertida.

E foi nesse espírito que participamos de uma roda de conversa na casa de Paulina Chiziane, sentados em cadeiras sob a árvore ou debaixo do alpendre quando a chuva caía — chuva acolhida como parte da celebração. Foi nesse mesmo clima que experimentamos matapa com chima em Marracuene e nos encantamos com as lojas de capulanas.

A Jornada teve como tema Quem cuida da saúde mental, cuida da vida e mostrou o quanto os colegas moçambicanos já operam com os preceitos da psicanálise atentos à sua dimensão sociopolítica. Conscientes de que o inconsciente tem cor, gênero e territorialidade, algo que a psicanálise brasileira por tanto tempo recusou, atravessada por marcas coloniais que insistiam em não se deixar ver.

Agora, Brasil e Moçambique dão as mãos no enfrentamento dos horrores da colonialidade e do racismo que atravessam o laço social onde as subjetividades são forjadas.

Não, não há volta.

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da delegação brasileira na Primeira Jornada Científica de Psicanálise e Terceiro Aniversário da COPSIMO em Moçambique, fevereiro de 2026.

[2] A delegação brasileira: Armando Leonardo Silva, Ana Lúcia Bastos, Helena Lima, Isildinha Nogueira, Mário Eduardo Pereira, Marli Kellesli, Miriam Debieux, Mônica Fiorillo, Patrícia Santanna, Paula Ramos, Renato Mezan, Rosângela Valentim da Costa, Silvia de Vargas Olle, Yvoty Mancabira.

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