Evento: Existe uma psicanálise brasileira?[1]
por Maria Cristina Petry Barros Martinha[2]
Na noite de 15/05/2026 tive a imensa satisfação de fazer a abertura do evento Existe uma psicanálise brasileira?, realizado no auditório do Instituto Sedes Sapientiae. Após os devidos agradecimentos institucionais, com destaque à cada pessoa que nos auxiliou para o bom andamento do mesmo, demos as boas-vindas ao público e recebemos com prazer os convidados Miriam Chnaiderman, Mara Caffé e Rafael Alves Lima.
Nesse rol de agradecimentos iniciais, destacam-se: Marcelo Vial, um dos coordenadores do grupo, que apresentou o GT detalhando sua motivação, contexto inaugural e fundamentos; e Juliana Farah, que conduziu a mesa com habilidade e bom humor. Com muita agilidade, ela sugeriu que o público fizesse um PIX instantes antes das perguntas – e foi lindo ver a mobilização imediata dos presentes! O agradecimento estendeu-se também, às colegas Marcia Eugenia Cerdeira, Maristela Vendramel Ferreira e Susana Carrillo Le Roux, da Comissão de Eventos, que cuidaram do acolhimento, da venda de livros dos palestrantes[3] e do incentivo à Campanha Levante! Por uma psicanálise antirracista[4]. A propósito, a campanha, a partir deste evento, aceita doações via PIX avulso, além do tradicional apoio recorrente.
Como parte dessa abertura, cuidei de fazer uma contextualização do tema da noite, que girou em torno de uma pergunta que nos convoca e nos atravessa: Existe uma psicanálise brasileira?, conforme segue:
Contextualização
Este evento nasce como proposta de reflexão de um novo GT, que leva como nome esta pergunta e que deseja ampliar o diálogo com a comunidade em torno deste tema. Um tema que aponta para a história e política deste Departamento, comprometido com a democratização da psicanálise, em consonância com as diretrizes deste Instituto – que nos acolhe desde os anos da Ditadura.
Não se trata de uma questão de mera localização geográfica. Trata-se de uma marca identitária e clínica que dialoga com nossas singularidades históricas, sociais e políticas.
De Juliano Moreira – médico negro baiano que, em 1899, foi o primeiro a citar Freud em solo nacional –, passando por pioneiros como Durval Marcondes, tido como fundador do movimento psicanalítico brasileiro, até Virgínia Bicudo — primeira analista negra, não médica, que enfrentou o preconceito racial e de gênero para se firmar no campo –, construímos um percurso marcado por tensões e resistências. Um percurso que retira a psicanálise brasileira de um lugar puramente elitista e médico e nos faz reconhecer o pioneirismo negro nesta área.
Falar em uma psicanálise brasileira é perguntar: como o nosso inconsciente colonial, as marcas da escravidão e o nosso mal-estar periférico moldam a escuta clínica que praticamos? É preciso um trabalho constante para que a Europa deixe de ser a nossa grande referência, para que possamos, enfim, escutar o que o sujeito brasileiro tem a dizer.
Se o Brasil é hoje um dos principais expoentes da psicanálise mundial, é porque soubemos fazer da teoria uma ferramenta viva para ler as nossas próprias feridas sociais e subjetivas.
Neste evento não se busca uma resposta definitiva, mas sim sustentar o debate: qual é a nossa marca? Como nossa prática e nossas construções teórico-clínicas respondem ao racismo, às desigualdades e à nossa cultura tão singular? Daí a importância de questionar o universalismo dos conceitos europeus tradicionais e de discutir a necessidade de elaborarmos teorias à altura da nossa realidade.
Comentários
A partir dessa fala de abertura, Marcelo Vial nos conta, de maneira sensível e implicada, a respeito de como veio pensando e articulando a existência desse grupo, desde que foi tomado pela questão inicial. Aponta como o atravessamento da cultura incide nos costumes e na maneira como escutamos e como intervimos na clínica. Termina sugerindo que devemos pensar a psicanálise no Brasil não como substituição de uma tradição por outra, mas como coexistência entre o que inventamos e o que herdamos, entre a aceitação e a subversão.
Na sequência, cada convidado teve uma fala de aproximadamente 20 minutos, desenvolvida a partir da proposta.
Miriam Chnaiderman iniciou dizendo que, revisitando o seu texto de 1998, sobre essa mesma questão, tema do evento, publicado na Revista Percurso nº 20, conclui que hoje já não partiria dessa pergunta Existe uma psicanálise brasileira? e sim, se manifestaria a favor de Existe uma psicanálise decolonial – como sendo a psicanálise exercida no Brasil; um mergulho numa psicanálise voltada ao que a gente é, ao que é nosso, ao que é da nossa história. Penso que essa ideia já estava colocada, de certa maneira, no final do artigo referido, quando escreve: “A psicanálise brasileira trabalha com o inconsciente – como todas as psicanálises – mas dispõe-se a descobri-lo a cada momento e em cada contexto; como toda a psicanálise de qualquer lugar. Daí a geografia necessária da psicanálise. A busca sempre de um lugar próprio. Dentro e fora da psicanálise. É da singularização absoluta que surge o universal mutante.”[5]
Com uma fala bastante interessante, a partir de sua pesquisa de doutorado sobre a história da psicanálise durante a ditadura (1964-1985), Rafael Alves Lima problematizou os atravessamentos históricos, políticos, clínicos e institucionais implicados desde a descaracterização do que chama de psicanálise brasileira, paradoxalmente durante sua fase de disseminação nesses anos que foram tão silenciados e que agora começam a se abrir para discussões profícuas.
Bastante emocionada pelo convite, Mara Caffé partiu de suas associações livres para discorrer sobre o tema de maneira brilhante, contagiando-nos com sua emoção, criatividade e capacidade de transmissão, atravessada por uma consistência lógica admirável. Mara resgatou pontos da sua infância e adolescência que também são os de muitos de nós, especialmente quando disse: “Talvez … tenhamos sido formados nessa tensão entre identificação e recusa, entre pertencimento e exílio interno, entre amor e rechaço pelos muitos e distintos brasis que habitamos”. Nesse sentido, destacou que nossas produções são “tão diversas quanto os brasis que construímos”.
Ao término das comunicações, o debate foi aberto ao público, cuja participação engajada e mobilizada trouxe questões relevantes para a psicanálise contemporânea. Com isso, ficamos com um desejo de continuidade nessa conversa, pois é notória a ampliação das clínicas extensivas, de territórios voltados ao manejo de traumas estruturais – como o racismo, o colonialismo e as desigualdades – e de práticas públicas como a psicanálise no SUS e em coletivos periféricos. Trata-se da cultura brasileira atravessando os modos de agir.
Existe uma psicanálise brasileira?
por Marcelo Vial[6]
Quero começar agradecendo, com muito carinho, às nossas convidadas Mara Caffé, Miriam Chnaiderman e ao Rafael Alves Lima por terem aceitado este convite e por estarem aqui conosco hoje. É uma grande alegria receber vocês.
Agradeço também à Cristina Petry, Claudia Dametta e à Comissão de Eventos do nosso Grupo de Trabalho, composta por Márcia Eugenia Cerdeira, Maristela Vendramel Ferreira e Susana Carrillo Le Roux, pela coordenação e realização deste encontro.
Quero agradecer ainda aos colegas Anne Egídio e Marcelo Lábaki, que ao meu lado coordenam este Grupo de Trabalho. Marcelo é meu parceiro nesta empreitada desde o primeiro momento, ainda dentro do GT Matrizes clínicas. Anne, com uma escuta atenta e generosa, acolheu de imediato a questão que lhe apresentamos na Incubadora de ideias e fez, da nossa, também a sua inquietação. Não posso deixar de agradecer também à Cris Barczinski que nos recebeu na primeira reunião da Incubadora de 2025, uma quinta-feira de Cinzas – e ficamos lá, ela, Marcelo e eu, conversando sobre esta ideia por um bom tempo.
Agradeço também a todos os participantes deste GT que se constituiu tão rapidamente e já vem produzindo reflexões tão instigantes. Por fim, agradeço à Juliana Farah, integrante do GT, por ter se voluntariado a mediar este encontro.
Logo na primeira reunião do GT, em dezembro último, pensamos que seria interessante contar como esse grupo se constituiu.
Preciso então avisá-las que chego aqui com uma sensação ambivalente: a satisfação de ver algo tomar forma e a responsabilidade de tentar nomear o que essa forma significa. Essa tensão, longe de me parecer um obstáculo, parece-me o próprio lugar a partir do qual devemos falar.
É preciso também pontuar que o que tenho para apresentar não é uma conclusão. É um percurso. Um percurso de dez anos de prática psicanalítica, durante os quais uma questão foi se impondo com insistência, até se tornar impossível de ser ignorada. Não uma tese já encerrada, mas uma representação persistente, no sentido freudiano: algo que retorna, insiste e exige palavra.
1. A origem da questão
Esse movimento começou a ganhar contorno em um contexto preciso: os trabalhos no GT Matrizes clínicas, coordenado por Décio Gurfinkel e Walesca Silva – a quem também sou grato pelas ótimas conversas e incentivos à formação deste grupo. As conversas nesse GT sempre foram especiais.
Estávamos nos debruçando sobre o percurso psicanalítico e os textos de Renato Mezan, entre os quais a obra O tronco e os ramos (2014), que oferece uma proposta valiosa para a compreensão das matrizes da psicanálise, assim como para as reflexões que deram origem ao próprio GT Matrizes clínicas.
Como parte desse trabalho, fomos convidados a ler um artigo publicado na revista Percurso n. 20, de 1998, intitulado “Figura e fundo: notas sobre o campo psicanalítico no Brasil” (MEZAN, 1998). Ao concluir a leitura, deparei-me com um texto logo na sequência, escrito por Miriam Chnaiderman, cujo título continha uma pergunta que me capturou por completo: “Existe uma psicanálise brasileira?” (CHNAIDERMAN, 1998).
Essa pergunta não me pareceu apenas teórica. Ela me pareceu vital. Como se, ao ser formulada, tocasse em um ponto de tensão já presente, porém ainda sem nome em nossa experiência clínica, institucional e cultural.
Ao longo dos anos, fui reunindo relatos que, em um primeiro olhar, poderiam parecer apenas circunstanciais. Mas, quando tomados em conjunto, revelavam um mesmo desenho: repetidamente, colegas brasileiros levavam seus trabalhos para congressos na Europa e retornavam marcados por críticas que não incidiam tanto sobre o conteúdo teórico, mas sobre a maneira de conduzir, manejar e sustentar a cena analítica. Em muitos desses casos, o que se insinuava era a ideia de que aquilo não seria reconhecível como psicanálise. E esse dado, para mim, é significativo.
Essa situação reapareceu em 2024, durante um evento realizado no Sedes, organizado pelo GT Comunidade de destino. E sem dúvida, discutir os textos de Sándor Ferenczi, em especial “Elasticidade da técnica psicanalítica” (FERENCZI, 1928) com esse grupo, tem lá o seu quinhão de influência nesta história toda. Nesse evento, um dos convidados relatou sua experiência em um congresso internacional, narrando uma crítica muito dura recebida de um importante psicanalista local. A força daquele relato não estava apenas no conteúdo, mas no fato de que ele condensava algo que vinha aparecendo repetidamente, em diferentes contextos e ao longo dos anos.
2. O setting como construção histórica e cultural
Houve, no entanto, um outro momento que foi, para mim, tão impactante quanto a leitura do artigo escrito por Miriam. E eles acabam se entrelaçando.
Algumas semanas antes do evento mencionado, em um encontro realizado também no Sedes sobre “Psicanálise de casal e família nas instituições”, a psicanalista Rosana Onocko (Unicamp) enunciou uma frase que pareceu gerar um impacto quase físico na plateia. Disse ela: “Seria desumano atendermos os nossos pacientes, nas instituições, em silêncio.”
Essa frase é contundente porque não oferece uma simples adaptação técnica. Ela afirma algo mais profundo: que o setting psicanalítico não é uma forma abstrata e universal, mas uma construção histórica, cultural e clínica. Uma resposta possível a uma determinada realidade.
Marcelo Lábaki nos contou que, em uma viagem por Viena, ao visitar o Museu de Freud, deu-se conta de que o divã, símbolo tão central da psicanálise, não era uma ideia pura. “Todas as casas daquela época tinham um divã”, constatou, após visitar outros museus na mesma cidade. O divã trata-se, portanto, de uma solução concreta, nascida de um contexto específico, de uma cultura material específica, de um tempo específico. Freud fez o que pôde com o mundo que tinha diante de si. E isso nos obriga a perguntar: por que deveríamos supor que a repetição literal desse gesto seja sempre a forma mais justa de sustentar a clínica em outros tempos e em outros lugares?
3. O campo de tensão
A partir daí, comecei a perceber com mais nitidez o campo de tensão que estrutura o debate sobre a psicanálise no Brasil.
De um lado, há a posição segundo a qual não existe uma psicanálise brasileira, mas apenas uma psicanálise praticada no Brasil, cuja legitimidade dependeria da fidelidade à tradição europeia, especialmente à herança freudiana e lacaniana. Nessa perspectiva, qualquer desvio tende a ser interpretado como insuficiência técnica ou fragilidade ética.
De outro lado, há a posição de que já existe, sim, uma psicanálise brasileira, marcada pela história, pelo território e pelos atravessamentos culturais que constituem a nossa prática. Essa posição não rompe com a tradição; ela reconhece que a tradição, quando atravessa um outro solo, não permanece intacta.
O que nos interessa investigar, contudo, é o espaço entre essas duas posições.
Porque nesse intervalo talvez resida algo mais profundo do que uma divergência teórica. Talvez resida ali uma espécie de vergonha. Uma hesitação. Uma dificuldade de dizer, sem recuo, que há modos brasileiros de fazer psicanálise, modos que não dependem de validação externa para existirem.
Isso não me parece apenas uma questão identitária, mas uma questão clínica, institucional e política. Porque a vergonha, como sabemos desde Freud, não é um afeto neutro. Ela organiza o que se pode e o que não se pode dizer. Ela estrutura o que se apresenta e o que se esconde.
Anne Egídio formulou uma hipótese interessante quando observou que “em meio a tantos desmentidos desde a fundação do Brasil, pode ser que tenhamos produzido uma descredibilização na psicanálise e nos psicanalistas brasileiros, que nos impede de perceber e reconhecer o nosso campo e os nossos atravessamentos peculiares”. Eu mesmo já me peguei pensando várias vezes sobre o culto ao estrangeiro, fruto da nossa colonização e ainda tão presente no nosso país, haja vista o valor que damos a autores, estudos e formações que buscamos no exterior. Não existiria um conflito em nos assumirmos psicanalistas brasileiros fazendo uma psicanálise brasileira? Não haveria uma perda, um rebaixamento de classe ao nos afastarmos do ideal do branco-europeu-dominante? São hipóteses, mas, a meu ver, iluminam o centro da questão.
Porque o Brasil atravessa o divã. A cultura atravessa a escuta. A forma como lidamos com o tempo, com o corpo, com o silêncio, com a autoridade, com a palavra e com a presença do outro entra, inevitavelmente, na cena analítica.
Ao longo dos anos, tenho participado de projetos ligados à psicanálise com colegas de diversas regiões do Brasil. E o que observo é que, embora compartilhemos referências comuns, nossas escutas não são idênticas (e nem poderiam ser). Mas é também evidente que os nossos manejos clínicos carregam marcas regionais. Nossas formas de sustentar a transferência e a contratransferência são atravessadas por modos diversos de viver e de se relacionar.
Uma colega do Recife, por exemplo, anunciou, com absoluta naturalidade, que fecharia o consultório porque iria “pular a Festa de São João”. Para ela, isso não representava uma ruptura com a ética do trabalho ou da psicanálise. Representava a vida em seu próprio ritmo. E esse dado, aparentemente simples, é profundamente revelador.
Porque o atravessamento cultural não se manifesta apenas nos costumes ou nas festas. Ele se inscreve na maneira como escutamos, como intervimos, como silenciosamente carregamos o mundo para dentro da clínica.
4. A proposta do grupo de trabalho
É nesse horizonte que o Grupo de Trabalho Existe uma psicanálise brasileira? se constitui. Não como quem busca uma resposta apressada, nem porque pretende se opor de modo simplista ao pensamento europeu. Não como um gesto identitário defensivo. Mas como uma aposta de investigação e pesquisa rigorosa. Uma tentativa de nomear algo que talvez já exista na prática, embora ainda careça de elaboração teórica. Neste exercício, parece relevante olharmos para a nossa sociedade, para a nossa cultura como parte da psicanálise por nós praticada.
A pergunta que nos orienta é simples apenas na forma: existe uma psicanálise brasileira? E, se existe, o que a compõe? Trata-se apenas de uma adaptação técnica? De uma sensibilidade cultural? De uma variação do setting? Ou haveria também, nesse modo de fazer, uma contribuição conceitual a ser reconhecida e elaborada?
Para avançar nessa direção, precisamos de interlocutores que pensem com rigor, honestidade e generosidade. E é exatamente por isso que estamos aqui hoje.
5. Considerações finais
Quero encerrar com uma imagem proposta por Freud em O mal-estar na civilização (1930). Ao pensar a cidade de Roma, ele nos oferece a ideia de uma cidade em que tempos distintos coexistem simultaneamente. O passado não desaparece. Ele permanece inscrito no presente.
Talvez seja assim que devamos pensar a psicanálise no Brasil: não como substituição de uma tradição por outra, mas como coexistência. Coexistência tensa, por vezes. Criativa, em outros momentos. Entre o que herdamos e o que inventamos. Entre o divã vienense e a escuta situada. Entre a teoria recebida e a prática que se arrisca. Entre a aceitação e a subversão.
Talvez estejamos aqui, justamente, para começar a dar nome a isso.
E se isso for do seu interesse, junte-se a nós! Nos reunimos na primeira sexta-feira de cada mês, das 16h às 18h, no formato online.
Referências
CHNAIDERMAN, Miriam (1998). “Existe uma psicanálise brasileira?”. Percurso: Revista de Psicanálise, Instituto Sedes Sapientiae, v. 20, 1998, 1º semestre.
FERENCZI, Sándor (1928). “Elasticidade da técnica psicanalítica”. Obras Completas; v. IV. Ed. WMF Martins Fontes, 2.ª edição, 2011. 5ª tiragem 2023.
FREUD, Sigmund (1930). “O mal-estar na civilização”. Obras Completas; v. 18. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Ed. Cia das Letras, 2013.
MEZAN, Renato (1998). “Figura e fundo: notas sobre a psicanálise no Brasil”. Percurso: Revista de Psicanálise, Instituto Sedes Sapientiae, v. 20, 1998. 1.º semestre.
MEZAN, Renato (2014). O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise, Ed. Blucher. 2ª edição, 2019.
15 de maio de 2026
Decolonialidade e psicanálise[7]
por Miriam Chnaiderman[8]
Sobre a proposta de uma psicanálise brasileira
Ao ver meu ensaio “Existe uma psicanálise brasileira?”, publicado em 1998 na Percurso número 20, sendo retomado e dando nome a um grupo de trabalho no Departamento, tive sentimentos contraditórios. Claro que fiquei orgulhosa e feliz, é sempre muito bom ver o que um escrito suscita no mundo. Ao mesmo tempo, vivi uma estranheza, como se as questões que estão lá colocadas já não fizessem mais sentido…
Toni Negri e Michael Hardt no livro Assembly (Hardt, M. e Negri, T., 2018), no capítulo “Restaurar a unidade do povo”, mostram como os movimentos de direita sempre exaltaram a liderança e a ideia de que o povo está sitiado e precisa ser defendido. A identidade continuaria aqui desempenhando papel central. Os autores citam Obama, que resolveu a situação afirmando que “o único líder legítimo é aquele que partilha da identidade e soberania de um povo, e que portanto pode defendê-las. “ (p. 72). Assim é que demonizam aqueles que ameaçam a unidade do povo — como pobres, migrantes, beneficiários da previdência social e muçulmanos.
Defender a existência de uma psicanálise brasileira hoje me parece anacrônico. Penso que as forças decoloniais, presentes no universo, reconfiguram tudo isso. A ancestralidade percorre oceanos e céus em cosmogonias múltiplas e compartilhadas.
O transnacionalismo negro
O transnacionalismo negro hoje me parece um lindo exemplo de uma batalha que vai muito além das fronteiras. Transnacionalismo negro é uma abordagem que entende as populações negras — especialmente as da diáspora africana — como sujeitos políticos cujas experiências, lutas e identidades ultrapassam as fronteiras dos Estados-nação. A ideia central é que o racismo, o colonialismo e as formas de resistência negra sempre foram fenômenos globais, e não apenas nacionais.
A luta contra o colonialismo não é uma questão nacional.
Achille Mbembe (2018) mostra como a Europa se considerava o centro do mundo civilizado, e se contrapunha ao Resto, cujo símbolo maior foi a África e o Negro. O conceito de raça surge do capitalismo e assim ganha força. Passou a servir para diagnosticar as populações longínquas, sua “degradação” e um déficit ontológico – são “menos” ser.
Com o surgimento do capitalismo, o Atlântico se tornou o lugar de onde emergiu uma “nova concatenação de mundos, o lugar de onde emergiu uma nova consciência planetária”. (Mbembe, 2018, p. 22).
A transnacionalização da condição negra é um momento constitutivo da modernidade.
Tudo isso faz com que hoje eu questione a existência de uma psicanálise brasileira.
Hoje denominaria meu ensaio: “No Brasil, existe uma psicanálise decolonial?”. Esse deslocamento do “psicanálise brasileira” para ”psicanálise decolonial” não é ingênuo. É uma alteração que não é apenas uma troca de termos, é mudança, que é política[9].
Contextualizando a defesa de uma psicanálise brasileira
Meu ensaio foi publicado em 1989. É a elaboração de experiências e leituras que hoje penso fazerem parte de nossa história como psicanalistas. A questão já era pensar a questão da existência ou não de um pensamento próprio e não-colonizado.
Para refletir sobre isso tudo eu tomava dois momentos parisienses onde psicanalistas dispunham-se a pensar sobre os “colonizados”.
Começava pelo relato do encontro de 1981, um Encontro franco-latino-americano, organizado pelo grupo Confrontation. Esse encontro acontecia sob o impacto do caso Amílcar Lobo, psicanalista carioca que participara das sessões de tortura. O que nos marcava, naquele momento, eram as terríveis ditaduras cruentas. Éramos olhados como heróis sobreviventes. A fala de abertura de René Major colocava a urgência de refletir sobre “a relação e a não-relação de uma escuta analítica e de uma escuta política, as relações de um Estado freudiano com o poder de Estado…” Terminava sua fala afirmando: “Hoje, a causa da América Latina se designa também como a causa psicanalítica”. (Major, 1981, p. 9).
A primeira exposição foi de Jacques Derrida. Denominou sua fala “Geopsicanálise”. No texto que J. Derrida leu, está posta a necessidade de nomear a América Latina de modo “diferente do que fez a International Psychoanalitical Association”. Propõe então uma “geopsicanálise”, era preciso pensar o que é a Terra hoje para a psicanálise.
Derrida quer nomear a América Latina. Seria anacrônica a pergunta sobre se haveria uma terra da psicanálise una e única? Não me parece. Essas questões permanecem sendo atuais. A psicanálise é universal? O inconsciente é universal? O Édipo é universal? O inconsciente não teria ancoragem em terra alguma? Então, haveria uma terra da psicanálise que não seria geográfica? O corpo psicanalítico, ao buscar entender o corpo estrangeiro que não pertence a nenhum corpo, seja esse corpo europeu, africano ou latino-americano, incorpora-o. A psicanálise coloniza o corpo estrangeiro, neutralizando qualquer alteridade.
Esse encontro aconteceu em Paris, em 1981. O caso Amílcar Lobo sufocava psicanalistas que acreditavam na psicanálise libertária. As denúncias vinham da Argentina e, posteriormente, do Brasil, ou seja, da América Latina. Naquele momento a IPA se pronunciou contra a violação dos direitos do homem. Mas, aponta Derrida, a América Latina ficou no lugar do inominável.
Derrida afirma a necessidade de uma nova ética: não apenas uma ética da psicanálise, que para ele não existe, mas de um outro discurso ético sobre a ética em geral, de um outro discurso político, sobre o político em geral, um discurso que leve em conta o que se interpreta como a verdade da psicanálise — e que difere conforme os lugares da psicanálise hoje sobre a Terra.
Há uma geografia da psicanálise. É preciso não deixar que se apaguem os traços do mapa. Não há simples interioridade do meio psicanalítico.
Penso que hoje repensaríamos essa fala de Derrida. Tomaria o pensamento de Peter Pelbart (2019) na Percurso 69 como norteador de um pensamento contemporâneo em relação a uma geografia da psicanálise: “Então o que é um sujeito, nesse contexto, senão aquele que se forma no entrelugares, nas fronteiras da itinerância? Daí os vários estudos mostrando que, nos trânsitos e fluxos de população contemporâneos, nos deslocamentos de massa a que assistimos com a derrocada dos Estados-nação, criam-se novas comunidades sensíveis, novos sentidos de mundo, novas terras imaginadas.” (p. 55). Trata-se agora de territórios sensíveis e afetivos.
Hoje talvez Derrida se aproximasse muito da proposta de Peter, pois defendeu que haveria, sim, continentes para a psicanálise; continentes, ilhas, penínsulas virgens, continentes brancos e negros, vários inexplorados. Debruça-se sobre a psicanálise à la carte — brincadeira com “mapa”.
1986/1989 – Encontros franco-latino americanos
Em 1986 Heitor O’Dwyer de Macedo, analista brasileiro radicado em Paris, organizou um colóquio que nomeou “O psicanalista sob o terror”. Isildinha fala desse momento, em que fazia um estágio com Maud Mannoni e acompanhava Guattari nas suas idas a La Borde. Importantes psicanalistas franceses e brasileiros se reuniram e produziram trabalhos em um encontro para pensar o lugar da psicanálise em um estado violento. Importantes analistas brasileiros e franceses participaram: Alain Didier-Weill, Nathalie Zaltzman, Françoise Dolto, François Roustang etc. Do Brasil, além da Isildinha, Helio Pellegrino, Jurandir Freire Costa, Celio Garcia. Estavam também Marcelo e Mauren Vignar, uruguaios exilados em Paris. Marilena Chauí. Mariinha e Samuel Werebe, que não eram psicanalistas, também participaram.
Em 1989, a Association Freudienne de Paris realizou um encontro franco-brasileiro entre analistas, para pensar “Os efeitos da psicanálise — adaptação, mudança ou pior ainda”. Seu ponto de partida era o “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade, citado várias vezes no “Argumento”, espécie de introdução à discussão proposta.
Citando o primeiro parágrafo do folheto do encontro: ”Não seria preciso tentar pensar um vínculo social e amoroso suficientemente original, capaz de prescindir de uma tal civilização? “(a civilização “erótica capenga”, a civilização do mal-estar incompatível com a “faculdade de amar e de trabalhar”).
Fica posta a questão da utopia. Mas é estranha tal utopia, anulação da cultura, da civilização.
De que civilização trata o “Argumento” que introduz a temática do encontro? A proposta é de um tema a ser debatido por psicanalistas. Mas, naquele momento ainda entre analistas, continua presente a visão “edênica” de um paraíso perdido. Que foi a visão de nossos descobridores, e que retorna na visão de nossos pretensos re-descobridores. Afinal, temos algo a oferecer à psicanálise européia! Algum Éden…
Afirma-se no “Argumento” do encontro franco-brasileiro: “Nossos valores, quer sejam de ordem narcísica, quer sejam de ordem objetal, se acham assim confrontados com uma relatividade que talvez traga alívio a nossos colegas brasileiros. Isto porque estes valores, quando importados e absorvidos, podem parecer ainda mais esmagadores: no caso da psicanálise e da antropofagia, cara a Oswald de Andrade, correm o risco de se tornar definitivamente um peso no estômago”.
Parece que nós, pobres psicanalistas brasileiros, engoliríamos o estranho que jamais seria metabolizado. Morreríamos de azia.
O que ficava muito claro na proposta do encontro franco-brasileiro de 1989 é que se esperava de nós, analistas brasileiros, termos algo a contribuir, exatamente porque passamos pelo terror. A utopia resgatada a partir da violência de Estado: porque vivemos tudo isso, encarnamos de forma ainda mais contundente o lugar da utopia. É alto o risco que corremos quando tomamos uma história sangrenta como identidade nacional – só nos resta então a melancolia e a petrificação da história.
No parágrafo final do “Argumento” do encontro franco-brasileiro: “…os analistas brasileiros ocupam um lugar privilegiado para virem discutir conosco, se desejarem, de sua experiência”.
Além do homem primitivo das Américas, agora o exotismo existe também em relação à ditadura militar. Parece até que a nova utopia européia é desvendar as formas de sobrevivência sob condições de violência policial, repressão e tortura. Como se isso nos tornasse mais puros em uma suposta sabedoria ou capacidade miraculosa de nomeação do indizível do terror.
Uma psicanálise colonizadora e as consequências na clínica
No ensaio de Charles Melman que abre a coletânea organizada pela Association Freudienne Internationale, D’un inconscient post-colonial, s’il existe (e depois traduzida aqui no Brasil) denominado “Complexo de Colombo” (Melman, 1995), coloca-se que a questão do colonialismo será pensada a partir de um ponto de vista exclusivamente psicanalítico. Pois, em termos éticos ou políticos, quem não seria contra o colonialismo? Melman não quer aplicar conceitos psicanalíticos para pensar essa questão. Baseia-se no que pôde apreender com os pacientes que conheceu e que pertencem a regiões habitadas pelo colonialismo. E, para ele, o originário do colonialismo, o encontro de dois mundos que ocupam lugares em permanente conflito, é algo que se mantém, mesmo quando as formas políticas mais óbvias desapareceram: “Essa colocação inicial de um conflito entre esses dois lugares que só podem ser regidos pela violência e pela força, por uma espécie de guerra, de forma de guerra permanente, e onde o encontro não se fará com um semelhante, mas sempre com um outro, isto é, alguém sobre quem sempre se deve repetir o ato de violência inaugural, me parece a situação, a herança ao mesmo tempo política e espiritual, a catástrofe espiritual e política deixada pelo colonialismo, mesmo quando essa forma, digo claramente — política — não existe mais.” (Melman, 1995, p.22). Há o que denomina uma heterotopia radical, heterotopia com incidências subjetivas importantes. Haveria então um destino de posições eternizadas de um colonizador e um colonizado. Essa seria nossa herança!
Octavio Souza (1994) mostra como foi a utopia europeia de um paraíso terrestre que presidiu “nosso ato de batismo”, o que leva a uma procura de fruição imediata, uma busca de gozo imediato. Daí uma colonização essencialmente extrativista, restrita por longo período apenas ao litoral, o que fazia pensar em uma concepção de colônia como lugar de passagem. Segundo Octavio Souza, “foi particularmente aqui no Brasil que o fator erótico alcançou predomínio maior”. Como aqui não havia, como na região andina, a possibilidade do maravilhoso sob a forma de ouro, prata e pedras preciosas, foi necessário encontrar outras “representações mitificantes”. “A nudez e a exuberância da vida sexual do índio…”(p. 110). O que Octavio Souza propõe é “adotar a visão do paraíso do descobridor europeu para nos olharmos a nós mesmos”. A partir desse princípio, Octavio Souza faz uso dos textos de Freud para mostrar a proximidade entre exotismo e racismo. Afirma “o exotismo como uma maneira de neutralizar, através da estetização, a eficácia política de um povo”.
Contardo Calligaris, no Hello Brasil (1991), desenvolve tese semelhante, afirmando ainda mais gravemente, um destino de não lei para o Brasil.
Parece que a busca de uma identidade nacional, que caracteriza os pensadores do Brasil a partir de 1930, contaminou os psicanalistas. Lembro aqui que Roberto Schwarz conclui o primeiro capítulo do importante livro Ao vencedor as batatas (1977), que tem como título “As ideias fora do lugar” com a seguinte afirmação: ”Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente, o Brasil põe e repõe idéias européias, sempre em sentido impróprio.”(p. 24). O Brasil parece então condenado a estar sempre fora de centro em relação à Europa, destinado a cumprir o vaticínio de Charles Melman: uma impossibilidade de sair do lugar de colonizado.
E hoje?
Poderíamos pensar que tudo isso é anacrônico, já passou… Afinal, estamos em 2026! Não somos mais os exóticos que viveram o terror de Estado. Temos publicado muito, analistas brasileiros vão à França, dão cursos e conferências. Deixamos de ser exóticos?
Em episódio recente, em julho do ano passado, em evento organizado por Antonio Quinet e que reuniu vários psicanalistas brasileiros (Isildinha Nogueira, Joel Birman, entre muitos outros) com propostas de troca com analistas francesas, Colette Soler fez uma fala desastrosa. Afirmou que não estava escutando nada de psicanálise, que é uma branca muito branca e ainda vestida de branco, e que a questão colonial não era uma questão que caberia na França. Parece que o capitalismo não passou por Paris… E o colonialismo seria uma consequência do capitalismo. E não a condição para instalação do capitalismo! E que o colonialismo não seria uma questão da França.
Essa fala levou à elaboração de importante manifesto, “Por uma psicanálise decolonial”, elaborado pelo coletivo Cinema e Psicanálise, Brechas da Psicanálise[10] que teve um lançamento comovente no Cine Bijou em 21 de julho do ano passado[11]. Nesse evento ocorreram falas importantes e tomo aqui a fala de Thamy Ayouch como guia para refletir sobre tudo isso.
Thamy inicia sua fala ligando a fala de Colette Soler a um artigo, assinado por 80 psicanalistas, publicado no Le Monde na França em 2019. Importantes psicanalistas, como por exemplo Jean Laplanche, assinaram esse manifesto.
Transcrevo aqui o primeiro parágrafo desse artigo de 2019:
“O pensamento decolonial está se infiltrando na universidade. Ameaça as ciências humanas e sociais sem poupar a psicanálise. Este fenômeno está se alastrando de forma preocupante. Não hesitamos em falar de um fenômeno de controle que sub-repticiamente destila uma ideologia como conotações totalitárias usando técnicas de propaganda.” Falam em identidades assassinas, que pretendem se construir sobre o assassinato simbólico do outro. E contribuiriam para o narcisismo das pequenas diferenças. E assim vai…
Thamy Ayouch, na sua fala no evento no Cine Bijou, mostra que o colonialismo caracterizou a França durante séculos. Conta de como se tentou tirar a palavra “raça” do vocabulário francês, porque o simples fato de falar em raça já seria racista. E há um desprezo terrível por pessoas racizadas.[12]
Thamy respondeu a esse manifesto no jornal Libération, falando em como esse manifesto expressa o narcisismo das grandes indiferenças. Da branquitude.
Thamy define a branquitude como uma postura enunciativa, discursiva. Postura que pretende sempre falar do lugar do universal. O racizado escapa do universal, escapa do familiar. Branquitude é a tolice que elimina qualquer diferença. O manifesto de 2019 é violentíssimo e mostra como os psicanalistas não querem ouvir o diferente. São operações de subalternidade. Elimina a singularidade de vozes singulares. Lembro aqui Césaire, que viveu na França na década de 40 — em um contexto histórico bastante diferente do nosso — ao apelar à indefensibilidade do modelo europeu, tendo em vista a brutalidade da violência colonial, mas, igualmente, a ilusão prepotente dessa construção identitária da Europa como valor prioritário da civilidade.
Thamy busca no Brasil essa psicanálise decolonial que seria vanguarda de pensamento no mundo. Colette Soler apresenta-se como branca parisiense e se indaga sobre o que fazia num colóquio como esse. Essa senhora, relata Thamy, termina sua fala dizendo que iria refletir sobre a existência ou não de um inconsciente decolonial… Assim, demonstrou em ato o que é um inconsciente colonial. Desmente os analistas que, em Paris, discutiam a decolonialidade.
Transcrevo aqui agora trechos do importante manifesto decolonial que ainda capta assinaturas:
A colonialidade não é apenas um capítulo da história. É sobretudo sintoma, ferida aberta, trauma vivo, que insiste em retornar na linguagem, no corpo, na teoria. O racismo não é um “acidente brasileiro”, mas a espinha dorsal do capitalismo global. A psicanálise não pode mais fingir que não vê, sem trair a si mesma. Como nos ensinou Frantz Fanon, cuja memória celebramos neste ano em que completaria 100 anos: “O colonizado que descobre sua condição começa já a mudá-la.”
Nós descobrimos a nossa.A colonialidade não termina com as bandeiras. Ela marca a pele, o corpo, a língua e os silêncios. Ela estrutura o desejo e as violências que atravessam o sujeito.
A psicanálise nasceu para escutar aquilo que ninguém queria ouvir. E hoje precisa ter a coragem de escutar também as feridas abertas pela colonialidade e pelo racismo estrutural, tornando-se, enfim, o que promete: um campo de escuta para o humano. Todo ele.
Nossa fala é um direito. Uma urgência. Uma exigência ética.
Por uma psicanálise descolonizada, viva, plural e comprometida com sua vocação original: escutar o que dói, o que divide, o que foi recalcado – e abrir caminhos para novas gramáticas.
Somos marcados por nossa história, assim como qualquer país é marcado pela sua.
Temos uma história que dá especificidades à psicanálise no Brasil. O inconsciente não é a-histórico. Cada vez mais pesquisamos os efeitos transgeracionais em todas as histórias de cada subjetividade. Buscamos a apropriação da história, produção permanente, e não congelamento seja lá em que lugar for.
Como mostra Fanon (2020[1952])[13], enquanto o discurso psicanalítico não estabelecer uma interrogação frontal, coerente e sistemática da incidência racial na montagem das subjetividades, seguirá reproduzindo a lógica colonial em seu pilar estruturante.
Desse modo, podemos compreender por que, para Fanon, o problema fundamental colocado pelo racismo não é tanto o da diferença fenotípica entre os povos, mas sim o da colocação da interrogação, de por que motivo fizemos da branquitude europeia — e dos valores de pensamento que a acompanham — o referencial de superioridade, o marcador de valor para diferenciar as raças.
Valendo-se do discurso psicanalítico, Fanon dá um passo além daquele possível a Freud, interligando em sua crítica a subjetividade e as estruturas fundamentais do poder que sustentam a colonização. Coube a ele o trabalho de indicar a psicanálise como um saber que poderia se voltar à consideração da incidência do poder colonial e da diferença racial nas subjetividades.
Para concluir
É no mergulho na nossa singularidade que nos conectaremos com as forças de vida globais e cósmicas. Que sejamos capazes de instaurar territórios flutuantes que nos ancoram no Negro Oceano Atlântico. E Índico e Pacífico e Vermelho. Que possamos resgatar nossas histórias de singularização e apropriação da história.
Referências Bibliográficas
Calligaris (1991) Hello Brasil, Ed. Escuta, S.P.
Chnaiderman (1998) “Existe uma psicanálise brasileira?” Percurso , n. 20, 1998.
Derrida (1981) “Géopsychanalyse” in Géopsychanalyse, les souterrains de l’institution, Rencontre Franco-latino-américaine, Paris, Confrontation, fev. 1981.
Fanon (2020/1952) Pele negra, máscaras brancas, Ed. N-1, SP.
Mbembe, (2018) Crítica da razão negra, N-1, SP.
Major (1981) “Ouverture” in Géopsychanalyse, les souterrains de l’institution, Rencontre Franco-latino-américaine, Paris, Confrontation, fev. 1981.
Melman. “Le Complexe de Colombe” in D’un inconscient post-colonial, s’il existe, Paris, Association Freudienne International, Maison de l’Amérique Latine, 1995.
Negri, M. Hardt (2018) Assembly, A organização multitudinária do comum, Ed. Filosófica Politéia, SP.
Pelbart (2019) “Negros, judeus, palestinos: do monopólio do sofrimento”. Percurso 69, 2019, p. 54.
Souza (1994) Fantasia de Brasil: as identificações na busca de uma identidade nacional, Ed. Escuta, S. P.
Schwartz (1992) Ao vencedor as batatas, Livraria Duas Cidades, S.P.
Existe uma psicanálise brasileira?
por Mara Caffé[14]
Quando recebi, por meio da Anne Egídio, o convite para participar deste evento ligado ao grupo de trabalho Existe uma psicanálise brasileira?, emocionei-me a ponto de marejar os olhos (será que a Anne percebeu?). Naquele instante, e desde então, não consegui compreender o transbordamento do meu afeto. Fui atravessada por algo forte e enigmático. Não identifico ao certo o que me aconteceu. Talvez parte daquilo tenha a ver com a Anne, com a história dela no Departamento e com a nossa história pessoal. E outra parte, talvez, tenha a ver com a temática desse novo grupo, que me toca especialmente: a brasilidade, com tudo o que ela mobiliza em nós.
Tento, agora, entender melhor o que se passou em mim. O termo brasileira no título do grupo me produz um sentimento peculiar. Uma interpelação, quase uma convocação, mas não sei para quê. Sigo em associação livre: por que a emoção com a brasilidade? Lembrei-me do tempo de criança na escola estadual de Santo André, cidade onde nasci e fiz os estudos primários, iniciando o dia com todos os alunos em fila, no pátio da escola, cantando o hino nacional enquanto a bandeira do Brasil era hasteada lentamente. Nos idos de 1968 havia uma forte onda nacionalista no ambiente social. Estávamos sob um regime autoritário de direita, no culto aos símbolos patrióticos e em meio a violências inomináveis — algo que revisitamos recentemente no governo do ex-presidente, hoje presidiário, Jair Bolsonaro.
Meu pai, militante de esquerda que atuava junto ao movimento dos trabalhadores em Santo André, contava didaticamente às filhas suas impressões e análises políticas, alertando-nos para que não pronunciássemos nada disso na escola. Tempos duros, de muita perseguição. Em casa, éramos contra os ianques, o imperialismo norte-americano, o pão e circo da televisão brasileira e até mesmo das copas mundiais de futebol, ainda que abríssemos uma exceção, assistindo às finais em família, junto com tios(as) e primos(as)! Também acompanhávamos “religiosamente”, e com grande emoção, o balé russo Beryozka, exibido na TV durante suas turnês internacionais, cultivando símbolos patrióticos de outras terras voltadas ao comunismo.
Apesar das lições paternas, cantar o hino do Brasil em uníssono com as crianças da escola, e vibrar nas finais da Copa do Mundo com o Brasil finalista (vai, Brasil!), eram momentos de intensa emoção e alegria. Assim, a bandeira verde e amarela que me causava horror, quando estampava o Brasil do “ame-o ou deixe-o” e da ditadura militar sangrenta, era a mesma bandeira que, erguida no mastro e tremulando ao vento, me arrebatava no momento de cantar com os(as) colegas “camaradas” da escola e de torcer pelo Brasil na Copa.
A comoção ambígua em torno dos símbolos da pátria atravessou minha infância e adolescência e, de algum modo, reapareceu com o convite da Anne. Mas é possível que essa experiência não seja apenas minha. Talvez muitos de nós, por caminhos diferentes, tenhamos sido formados nessa tensão entre identificação e recusa, entre pertencimento e exílio interno, entre amor e rechaço pelos muitos e distintos brasis que habitamos.
Hoje, envolvida em uma pesquisa sobre diferentes modelos de psicanálise, selecionando autoras(es) e coletivos do Norte e do Sul Global, me vejo com um olho no Brasil e em nossas produções. Produções tão diversas quanto os brasis que construímos. Por vezes – talvez seja mais correto dizer: por muitas vezes – são produções retrógradas, racistas e homofóbicas, como aquelas referidas ao tempo da ditadura militar brasileira, tal como o célebre caso de Amílcar Lobo, médico ligado à violência de Estado e posteriormente associado ao campo psicanalítico. Podemos acrescentar, ainda, as formas silenciosas, porém persistentes, de exclusão e preconceito racial que marcaram trajetórias como as de Virgínia Bicudo e Neusa Santos Souza. Já por outras vezes – mais facilmente contáveis – observamos produções psicanalíticas inventivas, insurgentes, plurais e abertas às diferenças. Todas elas, em suas violências e invenções, parecem compor esse mosaico contraditório, desigual e múltiplo que talvez possamos chamar de psicanálises brasileiras.
Volto ao nome do grupo – Existe uma psicanálise brasileira?, destacando agora a forma da indagação, que remete o enunciado a um campo de abertura e incerteza. Introduz uma pergunta no lugar de afirmar um campo de pesquisa bem delimitado. Além disso, põe em jogo, no corpo mesmo da psicanálise, uma questão identitária, tema bastante polêmico nos dias de hoje. Como reação automática e irrefletida, dessas que nos tomam antes mesmo de pensarmos, me vi testando um sim e depois um não à pergunta: “Existe uma psicanálise brasileira?”. Sim, existe. Ou então: não, não existe. E depois para resolver o impasse: Sim e não, ao mesmo tempo. Mas por que a pressa em me posicionar? Dizer sim ou não, isso ou aquilo, como se fosse preciso escolher um lado e deixar o outro de fora? Teria algo a ver com o meu conflito patriótico da infância?
Associo livremente, mais uma vez. As crianças pequenas costumam reagir aos enigmas a partir do pensamento binário, procurando rapidamente uma posição. Geralmente, não recorrem ao “depende” ou “isso é relativo” diante das interpelações que lhes fazemos. Angustiam-se, por exemplo, frente à pergunta maliciosa: de quem você gosta mais, da mamãe ou do papai? Como se fosse preciso escolher um e perder o outro.
Mas o “sim ou não”, o “esse ou aquele” também podem ser posições adultas, refletidas e politicamente assumidas. Nesse caso, porém, exigem tempo de elaboração e a suspensão provisória do juízo, para que o pensamento possa se desenvolver. Nada parecido com a minha reação apressada e irrefletida do início, quando fui convidada a escrever para esse evento. Nesse sentido, penso que a interrogação no título do grupo é justamente o que o torna provocativo e desafiador, na medida em que se queira sustentar a indagação, a forma de pergunta, abrindo um campo de incertezas e suspendendo provisoriamente os julgamentos apressados e as posições inteiramente convictas. Assim, o grupo parece ter um desafio: manter a indagação como método. Talvez, então, a pergunta “existe uma psicanálise brasileira?” não deva ser respondida com uma definição, mas sustentada como um problema. Um problema que nos obriga a pensar o lugar da psicanálise no Brasil hoje, suas alianças, seus impasses e suas possibilidades de transformação.
De todo modo, e voltando outra vez ao título do grupo, decidi refletir sobre o que poderia estar contido na expressão “psicanálise brasileira”, assim declinada no singular. Seria possível unificarmos em “uma” psicanálise tudo aquilo que produzimos em diferentes épocas, territórios e perspectivas no vasto campo nacional? Seria possível – ou mesmo desejável – encontrarmos uma essência de Brasil nas diversas psicanálises que praticamos? A que isto responderia? O que está em jogo aqui: um desejo de identidade? ou a sua própria colocação em questão?
Sabemos que um dos cernes da prática psicanalítica está mais na desterritorialização e na desidentificação do que na fixação em identidades estáveis ou essências culturais. Ao mesmo tempo — e isto também é fundamental para a psicanálise — o sujeito se constitui a partir de referências simbólicas e de pertencimentos, ainda que nunca se reduza a eles. O grupo de trabalho Existe uma psicanálise brasileira? parece se situar nesse entroncamento, tendo como desafio sustentar a tensão entre desidentificação e pertencimento.
No fluxo dessas reflexões, me vi, por fim, entretida em identificar ou imaginar psicanálises brasileiras. Primeiramente, considerei psicanálises que não se pensam como essência nacional, nem como variantes folclóricas da psicanálise europeia, mas como práticas situadas; que reconheçam as marcas coloniais, raciais e de classe que atravessam nossa história; que não reproduzam teorias importadas como dogmas, mas as retrabalhem a partir das urgências e desafios que se colocam em nossas clínicas.
Psicanálises que sustentem o que lhes é específico, que dialoguem com os estudos sociológicos, queer e decoloniais sem se diluírem neles; que não percam o compromisso ético com a escuta da singularidade de cada sujeito ou de cada grupo de sujeitos, seja nos atendimentos individuais, seja nos grupais, reconhecendo que as singularidades nunca reproduzem nem se reduzem completamente às normas sociais ou aos discursos prontos. Isso porque o inconsciente, ainda que tecido nesse caldo histórico e simbólico, introduz deslocamentos, fissuras e reconfigurações. Essas psicanálises mobilizam imaginários, significantes, mitos, narrativas, representações ou traços referentes à nossa condição social, conforme cada território e repertório local considerado. Escutam esses elementos no dizer e no estar das(os) analisantes, em seus sonhos, lapsos, sintomas e expressões corporais. Isso, para mim, poderia significar um conjunto diverso de psicanálises brasileiras atentas ao que se passa nos contextos simbólicos de um Brasil diverso, plural, desigual, injusto, criativo, um Brasil híbrido no sentido de Glória Anzaldua.
No ápice desse jogo de imaginação, me vi distanciada do que se apresenta frequentemente como realidade observável. Considerei que, na prática, essas psicanálises sonhadas não se mostram imunes às mesmas forças que buscam questionar. Em maior ou menor grau, todes nós, de algum modo, corremos o risco de reproduzir ditames racistas, patriarcais, classistas, misóginos, homofóbicos e transfóbicos, sustentados por transmissões ainda marcadas por valores e teorias de base colonial, como aquelas historicamente consolidadas nos centros hegemônicos de formação, constituídos majoritariamente – ou até exclusivamente – por pessoas cis brancas. Nesse sentido, psicanálises conservadoras e violentas não são um problema externo ou localizado, mas algo que nos atravessa e nos implica, exigindo uma vigilância ética e política permanente.
Ao mesmo tempo, essa realidade vem se transformando, ainda que de modo lento e desigual, com a ampliação do acesso aos institutos — por exemplo, por meio das políticas de cotas para pessoas negras, pardas e indígenas e, de forma ainda mais incipiente, para pessoas trans —trazendo novas cores, presenças e perspectivas para a psicanálise.
Do que foi se tecendo até aqui, podemos pensar que se há algo como psicanálises brasileiras, elas talvez não se deixem capturar por uma definição estável, mas se desenhem justamente nesse movimento: entre pertencimentos e deslocamentos, entre heranças e invenções, entre a repetição de formas instituídas e a abertura ao que nelas pode vacilar, se transformar ou mesmo se desfazer.
Por último, ainda no fluxo associativo, imaginei o nome/pergunta: Existe uma psicanálise brasileira? como uma interpelação às(aos) psicanalistas contemporâneas(os), de dentro e de fora do nosso país, que afirmam a existência de uma psicanálise brasileira de vanguarda, antirracista, que se colocaria hoje como expressão de uma prática revolucionária. Mas o que estaria em jogo nessa ideia de vanguarda? Ela efetivamente desloca os centros tradicionais de legitimação da psicanálise ou mantém nossa produção ainda referida ao olhar europeu, mesmo quando valorizada positivamente? Afinal, o que significa ocupar o lugar da novidade ou da renovação no imaginário psicanalítico contemporâneo? Ou, para retomar o nome/pergunta: Quem existe uma psicanálise brasileira? Quem – ou o quê – faz existir uma psicanálise brasileira?
Maio de 2026
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[1] A gravação oficial do evento pode ser assistida na íntegra na Eventoteca e também no YouTube do Departamento de Psicanálise: https://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/index.php?mpg=07.08.04&acao=ver&id=155&pg=0
[2] Psicóloga clínica e psicanalista, membra do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e articuladora da área de Eventos do Conselho de Direção – gestão 2026-2027.
[3] Mara Caffé, Psicanálise e Direito: a escuta analítica e a função normativa jurídica. Quartier Latin, 2010, 2003; Miriam Chnaiderman, Uma psicanálise errante, Blucher, 2024; Rafael Alves Lima, Psicanálise na ditadura (1964-1985): História, clínica e política, Perspectiva, 2024.
[4] Para conhecer a Campanha Levante! Por uma psicanálise antirracista – e para quem quiser fazer uma doação extra ainda hoje, ou se tornar um contribuinte recorrente, clique no link de acesso: https://benfeitoria.com/psicanaliseantirracista.
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[5] CHNAIDERMAN, Miriam (1998). “Existe uma psicanálise brasileira?”. Percurso: Revista de Psicanálise, Instituto Sedes Sapientiae, v. 20, 1998, 1º semestre.
[6] Pelo Grupo de Trabalho Existe uma psicanálise brasileira?, composto por Adriana Novais, Ana Carolina Vasarhelyi, Andre Bizzi, Anne Egidio, Cristina Lopergolo, Daniel Rodrigues Lírio, Eva Wongtschowski, Francisco Alves, Juliana Farah, Lucila de Jesus, Luisa Godoy, Marcelo Lábaki, Marcelo Vial, Marcia Eugenia Cerdeira, Maria Aparecida Pinto, Mariana Melaré, Marina Bialer, Maristela Vendramel Ferreira, Patricia Ferreira de Andrade, Renata Arouca de Oliveira Morais, Susana Carrillo Le Roux, Valdira Penedo, Vanessa Tonon Calderelli.
[7] Texto produzido para o evento “Existe uma psicanálise brasileira?” (15 de maio, 2026).
[8] Psicanalista e documentarista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psicanálise.
[9] Durante o debate que ocorreu no dia 15 de maio de 2026 a convite do grupo de trabalho “Existe uma psicanálise brasileira?”, Mara Caffé sugeriu, para evitar manter a identidade colonial, a utilização do termo “contracolonial”, proposto por Antônio Bispo dos Santos.
[10] Fazem parte desse grupo: Ana Lúcia Bastos, Bruna Elage, Isildinha Baptista Nogueira, Lilian Carbone, Patrícia Villas-Boas, Roberta Kehdy, Luciana Chauí. Ivan Cabral também assinou e participou da elaboração do Manifesto.
[11] É possível assistir o evento no Canal do YouTube “Coletivo Cinema e Psicanálise nas Brechas – Por uma psicanálise decolonial”.
[12] Thammy Ayouch faz uma diferença entre racialização e racização. Racização seria a desumanização, o massacre e a exploração de corpos escravizados e explorados. A racização é o lado negativo da racialidade.
[13] Aqui, para falar de Fanon, baseei-me na fala de Deivison Faustino no evento de lançamento do Manifesto Por uma psicanálise decolonial.
[14] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psicanálise.