boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Rede contra assédio e misoginia[1]

por Laura Mazzini Ferreira[2]

 

Algo começa a ressoar. Tum tum tum. Tambores?[3]

Seria uma convocação?

No dia 07 de março, mais de 300 mulheres aguardaram por mais de uma hora a abertura de uma sala virtual, para uma reunião ampliada da Coletiva Psicanalista Trabalha. Havia urgência: falar sobre denúncias de assédio, abuso e misoginia no campo da psicanálise. Uma abertura que tarda, um enquadre que demora a se constituir, mas que vai, ainda assim, encontrando lugar para aquilo que insiste.

Quando a sala se abre, múltiplas janelas se acendem. Rostos, vozes, silêncios.

De cada janela, uma mulher, uma história, um choro, uma hesitação, uma denúncia, muitos silêncios. E também muitas escutas. Reconhecimentos e muitos graus de violências. Dúvidas, ambiguidades. E aquilo que também ainda não encontra palavras: restos não simbolizados, experiências que se apresentam como fragmentos, traços, imagens, cenas, sentimentos, memórias e histórias, que podem ir tomando forma.

Como em outras ondas feministas, uma pergunta se impõe: quais violências ainda não conseguimos escutar?

Atravessadas pelos efeitos dessa grande reunião Coletiva, algumas mulheres de nosso Departamento foram se organizando de forma autônoma e orgânica, com o desejo de ampliar esta discussão com outras colegas deste Departamento de Psicanálise.[4] Um início que aconteceu no reconhecimento entre pares, em mensagens de WhatsApp com função de reconhecimento do horror vivido por tantas mulheres e por cada uma de nós, em diversas instâncias e micro situações cotidianas. Mas uma questão preponderava: como isso nos afeta e como vem circulando e sendo cuidado em nosso espaço de pertencimento, em nosso Departamento de Psicanálise?

Uma rede começa a se entrelaçar, no trabalho fino que mulheres estão cansadas de sustentar, mas ao qual seguem, paradoxalmente, sempre sendo convocadas. Desta vez, algo se desloca: não apenas sustentar, mas também interrogar, acolher, fazer a palavra circular, denunciar, transformar. A tensão entre urgência e elaboração se faz presente. De um lado, a força dos relatos, a necessidade de respostas, encaminhamentos e a convocação política. De outro, o tempo da escuta, da elaboração, da construção de sentido. Sustentar essa tensão, sem reduzir um polo ao outro, talvez seja uma de nossas tarefas mais delicadas. Habitar esse espaço, sem apressar seu fechamento, mantendo a potência do movimento.

Nesse sentido, os diálogos entre gerações mostram-se fundamentais. Não apenas como transmissão de conhecimento, mas como possibilidade de estabelecer laços que permitam aproximações àquilo que nos escapa. Entre tempos distintos da psicanálise, em sua própria história, algo que não se fixa, pode circular.

Algo do campo do indizível começa a pressionar por inscrição, não apenas como repetição, mas como elaboração, reconhecimento e posicionamento.

Talvez a questão não seja apenas o que temos a dizer, mas também o que e como temos condições de escutar, como grupo, como instituição, como psicanalistas.

Como criar um espaço de acolhimento para aquilo que pode nos atravessar, em relações tão próximas de todas nós?

Produções de mulheres do Departamento, mas também de fora dele, começaram a circular entre nós. Criamos um grande acervo de escritas próprias e próximas a nós. Questões e ideias que são pensadas, trabalhadas e elaboradas há muito tempo, por tantas, mas que muitas vezes não ganham a devida visibilidade. As violências que hoje emergem não são apenas novas, são também aquelas que não puderam ser simbolizadas anteriormente e que retornam sob a forma de denúncia, buscando reconhecimento e destino.

A questão se desdobra: quais violências permanecem sem espaço de escuta? Como lidar com nossas próprias zonas de recusa, preconceito e desmentido? Que revisões críticas da metapsicologia e da história psicanalítica se tornam necessárias diante de silenciamentos, como de autoras apagadas ou que seguem sendo patologizadas? E se pensarmos no entrelaçamento por raça, classe, gênero? Quem fala, a partir de quais lugares? O que produz? Como são escutadas?

O que emerge, muitas vezes, não são narrativas lineares, mas diversas apresentações, que pedem tempo. Tempo de elaboração.

Esse movimento convoca a psicanálise a voltar seu olhar para seus próprios impasses epistemológicos, clínicos e políticos. Ao longo de sua história, manifestações psíquicas produzidas em contextos de violência e trauma foram, não raramente, interpretadas a partir da categoria da histeria, produzindo tensões persistentes entre acontecimento, fantasia e verdade psíquica. Se a descoberta freudiana da fantasia inconsciente foi decisiva para a constituição da psicanálise, ela também inaugurou um campo de delicada complexidade: o risco de que experiências efetivas de violência sejam deslocadas, minimizadas ou recobertas por leituras excessivamente centradas na dimensão fantasmática.

A questão que insiste é, em que medida, em determinados contextos históricos e institucionais, certos usos da teoria puderam operar como defesa frente ao insuportável, contribuindo para formas de desmentido, apagamento ou desautorização da experiência traumática. Retomar criticamente essa tensão implica sustentar, sem reducionismos, a articulação entre realidade psíquica e laço social, reconhecendo que o sofrimento subjetivo se constitui também em condições históricas, materiais e políticas. Trata-se, portanto, de interrogar continuamente quais dispositivos clínicos, éticos e teóricos são necessários para que a escuta analítica não reproduza mecanismos de silenciamento, invalidação ou retraumatização da violência vivida.

Hoje, o patriarcado é interrogado como estrutura histórica e operador ativo também no campo psicanalítico, incidindo na constituição dos sujeitos, na produção de saberes e nos modos de escuta. Não como exceção, mas como trama estrutural difusa que atravessa relações, instituições, discursos e formas de subjetivação.

O que fazemos quando não nos posicionamos?

De que modo sustentamos ainda que, involuntariamente, certos lugares de poder?

Como implicar os psicanalistas homens? Qual tarefa cabe a eles nesse processo?

Essas discrepâncias têm efeitos concretos na circulação de saber, no reconhecimento, mas também naquilo que pode ou não ser pensado. A rede se move e, ao se mover, desloca um campo por muito tempo silenciado.

Criar condições de possibilidade para que algo possa ser dito e escutado implica sustentar espaços em que dúvidas, ambiguidades e ambivalências possam existir, sem a pressa do julgamento ou do fechamento. Reconhecer que diferentes relatos envolvem diferentes graus de vulnerabilidade, diferentes temporalidades, diferentes destinos possíveis.

Essa rede tem se constituído como um trabalho psíquico coletivo: uma trama de diferenças, escutas e cuidados que busca tornar analisáveis os modos pelos quais a violência patriarcal se inscreve na vida psíquica, nos vínculos e nas instituições. Um posicionamento ético e político que procura deslocar aquilo que historicamente foi lançado às margens — ao silêncio, à desautorização e à abjeção — para o campo do possível: do que pode ser escutado, nomeado e elaborado, abrindo de pequenas janelas a brechas, nas formas, muitas vezes naturalizadas, de reprodução da misoginia e das hierarquias patriarcais.

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[1] Este texto foi elaborado em colaboração com um subgrupo reunido a parte desta Rede para publicação no boletim online, composto por organizadoras do movimento junto a Lia Serra e Maria Aparecida Kfouri Aidar.

[2] Laura Mazzini Ferreira, psicanalista, psicóloga pela USP, especialista em Psicossomática pelo Sedes, integrante do grupo de pesquisa do GT O feminino e o imaginário cultural contemporâneo e aspirante a membra do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Em coautoria com Débora Albiero e Fernanda Franceschi. Débora Gaino Albiero é psicóloga, psicanalista, mestre em psicologia clínica pela USP, aspirante a membra do Departamento de Psicanálise, participante dos GTs Matrizes clínicas, Comunidade de destino e Bollas: pensamento e clínica não-mecânicos e do Grupo de apoio à FLAPPSIP. Fernanda Franceschi é psicanalista, educadora, mestre em Psicologia clínica pela PUC/SP, co-fundadora do Coletivo Caju e aspirante a membra do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.

[3] Referência ao texto “O que eu faço com a agressividade do outro?”, publicado por Camila Flaborea na edição 78 do boletim online, abril 2026, em torno da peça de mesmo título, em cartaz no Teatro do Centro da Terra. Disponível em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2026/04/13/o-que-eu-faco-com-a-agressividade-do-outro/

[4] Estão na organização desta Rede contra Assédio e Misoginia: Ana Cristina Delgado Lopérgolo (membra), Débora Gaino Albiero (aspirante a membra), Fernanda Franceschi (aspirante a membra); Juliana Farah (membra); Laura Mazzini Ferreira (aspirante a membra); Renata Grecco (aspirante a membra).

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