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Seminário Territórios Clínicos: Cuidar da saúde mental é escutar também a diversidade dos corpos

por Adriana Elisabeth Dias[1]

 

“uma pessoa é uma pessoa
uma pessoa amada é um lugar”.
Aliedson Lima

 

Fazer psicanálise requer também escutar os sujeitos em seus territórios, sendo crucial atentar para o que é transmitido desses lugares. Foi a partir disso que nos preparamos para a segunda edição do Seminário Territórios Clínicos, promovida pela Fundação Tide Setubal em parceria com o Instituto Infinis.

Marcada pela diversidade de coletivos atentos a essa escuta, nos mais variados territórios da cidade de São Paulo, essa edição nos presenteou com falas e corpos potentes que guiaram o acompanhamento do importante trabalho realizado nos últimos dois anos em que, por meio de uma captação financeira advinda de um edital, dez organizações/coletivas tiveram a potencialidade de seu trabalho reconhecida e, assim, também reconhecida a dignidade de todas as pessoas envolvidas.

O encontro foi uma oportunidade também de divulgar essas organizações. É importante, portanto, nomear cada uma delas:
1) Associação Paulista de Saúde Pública (APSP) e Grupo de Investigação Territórios e Subjetividades (GITS-USP): escuta e cuidado em saúde mental junto aos trabalhadores e trabalhadoras da rede pública.
2) Clínicuz: atendimento clínico à população trans, transmissão da psicanálise, mapeamento das redes e serviços de cuidado por meio de uma coletiva de psicanalistas trans e LGBTQIAP+ que criou também um podcast.
3) Coletivo Capim: espaços de fala, escuta, trocas e aprofundamentos, por meio de atendimentos individuais, rodas de conversa, grupos de estudo para profissionais da saúde e especialistas indígenas.
4) Coletivo Psicanálise Periférica: ampliação do acesso à escuta e à formação psicanalítica em bairros periféricos por meio da interseccionalidade de raça, classe, gênero e território como recurso diagnóstico e do trabalho coletivo como terapêutica.
5) Associação Flor de Cacto: cuidado de mulheres da periferia que atravessam processos de luto e trauma.
6) GIPA – Grupo de Iniciativa Psi Antirracista: espaços de pausa, escuta e elaboração para pessoas negras e/ou indígenas envolvidas no ciclo eleitoral de 2026.
7) Instituto Fazendo História (Projeto Bordando): psicoterapia gratuita e em territórios periféricos para crianças e adolescentes em acolhimento.
8) Neide/Ladrilhar: pesquisa sobre o atendimento psicológico de crianças e adolescentes em acolhimento institucional para realizar um diagnóstico sobre a qualificação das políticas públicas de saúde mental e proteção à infância.
9) Píer – Psicologia em Emergência e Desastre: ações em prol do desenvolvimento da resiliência de crianças e rede de cuidado vulneráveis a desastres socioambientais.
10) Psi Cultural Vozes de Carolinas Vivas: saúde, cultura e educação para meninas e mulheres negras e/ou periféricas.

Se o impacto da primeira edição do seminário já havia sido enorme em função da intenção de trazer para a psicanálise a importância de escutar os territórios, descentralizando um saber ao nos deslocar da bolha da zona oeste para a zona leste da cidade, o impacto desta vez foi o de ampliar e trazer ainda mais diversidade para essa escuta, possibilitando importantes e profundas trocas também com pessoas indígenas e pessoas trans. Desta vez, o deslocamento espacial proposto foi em direção à zona sul da cidade, mas simbolicamente muito além desse espaço. A diversidade e multiplicidade de corpos presentes nesse evento revelava que são também, esses corpos, territórios. E cada um deles teve lugar e reconhecimento na escuta de sua singularidade por meio do trabalho realizado pelas coletivas e organizações contempladas pelo edital.

O público presente, a cada fala enunciada, aplaudia entusiasmado. Como bem lembrou Emiliano de Camargo David, esta é uma maneira de reverenciar a ancestralidade de quem ali estava apresentando e representando um coletivo, uma grupalidade e também as parcerias inerentes e necessárias até aquele momento e dali para frente. Distante, assim, do individualismo tão presente nos dias atuais. O que marcou esse evento, portanto, foi a potência do fazer junto, do estar junto, da troca de afetos, do encontro. Foi o sentir, convite irrecusável e emocionante feito por Taily Terena. Um encontro que trouxe para cada uma das pessoas ali presentes um lugar de pertencimento. A perua do louco estava passando, nos alertava Géssica de Paula[2], e não era mais possível deixar de ouvir. Um movimento antimanicolonial, nos lembrou Priscilla Santos de Souza se referindo ao conceito trabalhado por Emiliano David (2024), será o que possibilitará a ruptura de uma lógica manicomial arraigada numa estrutura racista e excludente.

Cuidar da saúde mental nas periferias é cuidar de toda a sociedade por meio da equidade. Escutar o território é o caminho necessário. Nesse sentido, a indagação de Zeca Carú de Paula foi precisa, ao questionar sobre qual território estávamos falando. Temos muito a aprender com os territórios; as falas de cada um dos palestrantes e das coletivas e organizações presentes nos banhava de aprendizados e questionamentos. Escutar essas ideias em agrupamentos menores, por meio de oficinas, intensificou ainda mais esse encontro de corpos e a força do coletivo. No entanto, o território que exclui e mata essas pessoas por meio de sua necropolítica também transmite algo que deve ser escutado para seguirmos em direção a transformações. E, para isso, como anunciado por Clarice Paulon, será preciso ir além de um movimento de resistência e avançar por meio de uma revolução. O tempo foi pouco para continuar debatendo essa ideia, mas seguiremos atentos para algo que não se faz solitariamente nem sem estratégias planejadas coletivamente.

O público recebeu ainda uma artista da palavra, Tawane Theodoro, a Pretata, que trouxe sua poesia em formato de slam para finalizar o encontro com a arte dos territórios periféricos, marcando mais uma vez que o corpo não passa despercebido.

Ainda no âmbito do Programa Territórios Clínicos, brilhantemente conduzido por Fernanda Almeida e Tide Setubal, que representam toda uma equipe engajada nas ações que culminaram nesse evento, há uma campanha de matchfunding para possibilitar a sustentabilidade das organizações contempladas nesse último edital após esses dois anos de fomento, formação e trocas; uma maneira de dar continuidade a esse trabalho. Também como fruto dessas ações teremos em breve um livro com a publicação de cada uma das falas apresentadas no seminário. A publicação decorrente da primeira edição, com o livro Territórios clínicos, editado pela Perspectiva e Fundação Tide Setubal, ficou entre os dez semifinalistas na categoria Psicologia e Psicanálise do prêmio Jabuti Acadêmico, marcando a importância da materialidade desse registro para além do projeto.

Foi um belo evento! Inspirador para nos fazer refletir sobre nossa prática clínica, sobre o que a psicanálise tem produzido e reproduzido, sobre a importância e potência também dos nossos próprios agrupamentos e coletivos. Uma forma de deslocar a psicanálise e quem a pratica de uma zona de saber conhecida para aprender com o saber dos territórios. Esperaremos com entusiasmo a terceira edição do Seminário Territórios Clínicos.

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[1] Psicanalista, psicóloga e mestra em Psicologia Social pelo Núcleo Psicanálise e Sociedade – PUC-SP; membra do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é co-interlocutora do Grupo de Trabalho e Pesquisa Famílias no Século XXI, integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas e da equipe editorial deste Boletim online.

[2] Géssica contou que, na pandemia, a estratégia da “perua do louco passando na sua rua” foi uma ação de cuidado na periferia com o propósito de fazer trabalho em grupo e acolher as pessoas em sofrimento nesses territórios tão desprovidos de cuidados subjetivos para a população. Foi um testemunho potente que fez o público se emocionar e aplaudir de pé. A gravação dessa e de cada uma das demais falas enunciadas no evento será disponibilizada no site e nas redes da Fundação Tide Setubal.

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