FLIP 2026: possibilidades para a composição de uma biblioteca viva
por Adriana Elisabeth Dias[1]

Leio
minha mão:
livro
único.
Orides Fontela
Tsundoku é um termo japonês que ilustra o hábito de adquirir livros que não são lidos, configurando um empilhamento de leituras e o desejo de um dia desfrutar dessas obras. Kintsugi é um outro termo que se refere à prática de emendar com ouro cerâmicas que foram quebradas, destacando suas imperfeições com um material precioso que revela e valoriza a própria cicatriz.
A evidência da falta, tão apreciada e valorizada assim pela cultura japonesa, é o que constitui nossa humanidade, o que nos dá a oportunidade de buscar preencher um vazio impreenchível que será marca da individualidade de cada sujeito. O motor contínuo a percorrer os caminhos mais diversos de toda uma vida.
A literatura é um desses caminhos que nos possibilita encontrar respostas, elaborar novas perguntas, fazer descobertas. Pode ser vivenciada de inúmeras maneiras e através das mais diferentes experiências. Uma delas é a experiência coletiva, que tanto tem se propagado por meio dos clubes de leitura, dos encontros literários, das livrarias de rua, dos saraus, das feiras de livros.
Minha experiência na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty foi um desses momentos. Um plano de viagem que teve início nos encontros de um grupo de literatura composto por mulheres de diferentes áreas e interessadas em discutir temas variados. Uma experiência coletiva vivenciada individualmente de maneira bastante singular pelas mais de quarenta mil pessoas que lá estiveram presentes. Nosso grupo debutou junto nessa aventura, se juntou a outras mulheres nessa festa e cada uma de nós certamente teria um romance para contar.
Foram inúmeras atrações imperdíveis e simultâneas, poucos lugares para tantos corpos, estrutura quase íntima e caseira para demandas também populares, festinhas intimistas e badaladas, encontros casuais e muita, muita literatura torneando tudo isso. Evento que proporcionou um misto de sensações, com muitas aquisições e também a constatação de que a falta é perene. Descobertas literárias, transmissões afetivas, convites intelectuais, espaço para conhecer novos autores e editoras independentes, lançamentos e autógrafos de gente querida e também de pessoas desconhecidas, novas amizades, desencontros e desencantos. Marcas no corpo deixadas pelas ruas de paralelepípedos de um centro histórico brasileiro. Comungar por meio da literatura transmitiu a esperança de que podemos, sempre, inventar novos jeitos de estar no mundo.
A poeta homenageada, Orides Fontela, uma mulher brasileira do interior de São Paulo, deu o tom para a festa. As mulheres deram o tom para essa festa! Entregaram suas falas, escutas e olhares para a aventura da criação, do amor, da cidadania, da ética e também da sororidade. Tanto pela escrita quanto por outros meios de transmitir e sentir os afetos que circularam por ali. Foi uma grande alegria vivenciar este momento cercada por amigas que inspiraram trocas profundas de alcances infinitos. Minha biblioteca afetiva, além dos novos livros a serem lidos um dia, está agora ocupada também por essas amizades.
A próxima edição já está no meu radar!
Por ora, fiquemos com uma pequena amostra da poesia de Orides[2].
Vemos por espelho
e enigma
(mas haverá outra forma
de ver?)
O espelho dissolve
o tempo
o espelho aprofunda
o enigma
o espelho devora
a face.
__________
[1] Psicanalista, psicóloga e mestra em Psicologia Social pelo Núcleo Psicanálise e Sociedade – PUC-SP; membra do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é cointerlocutora do Grupo de Trabalho e Pesquisa Famílias no Século XXI, integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas e da equipe editorial deste Boletim online.
[2] Teia, Orides Fontela, São Paulo, SP: Hedra, 2026, p.87 e 88.
Para conhecer um pouco mais sobre essa poeta e também sobre essa última edição da Flip, acesse o episódio 201 do podcast da revista Quatro Cinco Um.