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Apresentação pública de Clarissa Giacomo da Motta

por Nanci de Oliveira Lima[1]

 

Foi rodeada de amigos e com uma expectativa calma que Clarissa Giacomo da Motta fez sua primeira apresentação como membro deste Departamento em 29/08/2025.

Enquanto aspirante a membro, Clarissa participou ativamente do Departamento, como co-coordenadora do Grupo Faces do traumático e integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas e do Grupo A Cor do Mal-Estar.

Clarissa manifestou seu desejo de pertencimento ao Departamento falando de sua satisfação em realizar esse processo, solidificando um caminho como psicanalista, no qual o Departamento esteve sempre tão presente. Sua entrada representa, ainda, o reconhecimento e legitimação de um lugar ao qual ela sente que já pertence; deseja poder seguir contribuindo e aprendendo com o Departamento vida afora.

E, por falar em vida, vamos falar um pouquinho sobre os primórdios dela. Clarissa nos presenteou com um belo memorial, extenso, profundo e bem escrito, do qual trarei um pequeno recorte.

Paulistana, criada no interior do estado, cercada por uma família amorosa e continente, carrega em si marcas bastante vivas desses começos. Em suas palavras: “Fui ensinada a aprender de um jeito que eu visse sentido nos objetos de estudo. A lutar pelo que considerava justo, pelas causas que nos mobilizavam enquanto estudantes. A olhar para o mundo, suas desigualdades, sofrimentos, desejando ser parte da força de resistência e transformação. Foi nesse caldo cultural que me criei. Uma paulistana, crescida em diferentes cidades do interior de São Paulo, criada por redes comunitárias, instigada a ter um pensamento crítico e transformador.”

Ela se afasta deste ambiente íntimo e conhecido, e se lança para morar em São Paulo e cursar Psicologia ainda bastante nova. Formou-se na USP seguindo uma tradição familiar; tradição que a instigou a fazer escolhas criteriosas, porém, trouxe também altas idealizações, carregadas de sofrimento como costumam ser, que estão sendo desconstruídas em seu trajeto. Logo no início da graduação, em seu segundo ano, Clarissa foi apresentada à psicanálise e com ela seguiu engajada. Iniciou sua primeira análise também nessa mesma época, vivendo momentos importantes de individuação.

Envolvida desde o início em vários projetos interessantes, muitos deles com altíssima carga de desafio e de frustração, em certo momento, ao desligar-se de um projeto na Liga da dor e iniciar sua participação na Liga de promoção da saúde, recebeu de sua analista na época a bela constatação: “Parece que você saiu da doença em direção à saúde”. E, obviamente, não era apenas sobre suas participações nos projetos acadêmicos que se estava falando.

Com um leque aberto e atento aos autores estudados, Clarissa nos conta que carrega com ela, desde aquela época, a definição de saúde de Christophe Dejours. Em suas palavras: “Para ele, saúde não é apenas estado de normalidade relacionado a um bem-estar biopsicossocial, é também uma sucessão de compromissos com a realidade do ambiente material; com a realidade, afetiva, relacional, familiar e social.” E confessa que, mesmo já sendo estudiosa dos textos de Freud, foi inicialmente em Dejours que ela encontrou ancoragem para sua posição frente ao outro: “sempre de interrogação e real interesse, buscando mergulhar em uma aventura analítica nas profundezas de seus mundos, tendo sempre os sujeitos como guias”.

Sua primeira aproximação com o Departamento foi pelo curso de Psicopatologia Psicanalítica, que muito a estimulou. Interessada nas questões institucionais e não querendo ficar apenas na solidão do consultório, aproximou-se do SUS e por lá ficou um bom tempo, envolvida em trabalhos tão interessantes quanto estressantes. Clarissa, como suponho que já deu pra perceber, entregou-se a eles profundamente, fazendo e sofrendo transformações. E contou com amigos, cinema, música para alimentar a alma e não ser levada para um lugar (muito) obscuro. Nessa época, buscou supervisão com Márcia de Melo Franco, por conta de seu vínculo com o SUS, com a psicossomática e com o curso de Psicopatologia. Define essa escolha como fortuita e a qual será eternamente grata pelo cuidado. Com ela aprendeu a escutar em meio ao caos, à violência e à miséria, buscando sustentar uma clínica para além do “enxugar gelo” – apesar de que, na maioria das vezes, era isso o melhor que se poderia fazer.

Em 2012, sentindo a necessidade de um estudo mais sistemático da psicanálise, buscou novamente o Sedes, agora para o Curso de Psicanálise. Durante sua formação, desligou-se do SUS involuntariamente e precisou processar este grande luto, uma vez que para ela o SUS representava (e continua representando) uma das propostas mais subversivas e radicais de democracia que temos no país, e ali ela satisfazia profundas inquietações, inconformismos e vontade de transformação que a  acompanharam desde sempre.  Para Clarissa, trabalhar no SUS era também um posicionamento político e ético. Ela sente que perdeu não só um trabalho, mas um pedaço dela mesma.

Enfrentou esse luto com coragem e partiu para novos engajamentos. Entre eles, acompanhada de algumas amigas, a fundação do Núcleo Trajetos, no qual voltou-se para as questões das gestações, maternidades, paternidades e primeira infância e a participação no projeto Escuta Sedes.

Em fim de 2019 nasceu seu primeiro filho, fruto também de muito investimento amoroso e, quando ele tinha seis meses, mergulhamos todos na pandemia. Depois de uma licença maternidade tranquila, precisou lidar – como todos nós – com esse período de angústia e falta de perspectiva. A boa parceria amorosa (e suspeito que a gostosura de um bebê crescendo) a apoiaram nesse triste período do mundo.

A manutenção dos encontros do Grupo Faces do Traumático no formato online também foram essenciais. Grupo do qual participa desde sua fundação.

Das fortes transferências que o Curso de Psicanálise promoveu, destaca-se a relação com Myriam Uchitel, que posteriormente, a convidaria a compor o grupo Faces do Traumático, onde está já há 8 anos. Nele, Clarissa encontrou muito (mas muito!) mais que um espaço de trabalho e pesquisa. Lá ela encontrou grandes amigos, é onde foi provocada a se assumir como psicanalista, é também onde ela teve oportunidades (e aproveitou bem delas) de escrever, falar, assumir posições, coordenar projetos, organizar eventos e livros, tensionar, brigar, conviver e construir. Com quase uma década de pertencimento, entende que o grupo é parte estruturante de seu ser.

Clarissa nos confidencia que mora nela uma veia dramática, que se manifesta em sua intimidade e na escrita. Assim, a escrita de seu memorial é encarnada e atravessada por afetos e memórias. Entre essas memórias, ela nos compartilha algumas bastante doloridas, por meio das quais o sabido da ordem teórico-clínica sobre o traumático tomou outra dimensão, onde os restos não metabolizados invadiram o cenário e exigiram trabalho. Mas, nesse processo, ela pode também refletir sobre a diferença entre o estado traumático e o trauma instalado, entre a tragédia e o drama. Com maior clareza, deu-se conta de que viver não é sem perigos, mas o que faz com que a vida não seja trágica é a possibilidade de ter ferramentas para lidar com o que vem.

Ao fim do encontro, tivemos a oportunidade de acompanhá-la na apresentação de seu caso clínico, no qual seu manejo permitiu que a analisanda encontrasse instrumentos que lhe ajudassem a fazer a vida pulsar. E a vida pulsa.

Parabéns, Clarissa!

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Admissão e do GTEP.

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